Saindo da Matrix


ACORDANDO PARA A REALIDADE


Alice e a Toca do Coelho
Poucos filmes se prestam a tantas analogias e metáforas para a vida moderna quanto a trilogia Matrix, dos irmãos Wachowisk, lançada nos já longínquo ano de 1999, o que nos parece uma eternidade, uma outra era. A razão disso é porque a história foi arquitetada para isso mesmo, usando uma gama imensa de projeções arquetípicas e metafóricas, mesclando filosofias a cosmovisões e conceitos sobre o sentido da vida e a realidade. Como tudo que é carregado com esses poderosíssimos  arquétipos do inconsciente coletivo da humanidade, o filme explodiu e virou um ícone pop de toda uma geração, como Star Wars antes. Gerou muita polêmica e muitas, mas muitas analogias e interpretações sobre o que os irmãos Wachowisk estavam realmente querendo dizer com sua saga da era eletrônica. Logicamente, os conservadores religiosos desceram o pau na obra, pois respiram para ver o rastro do demônio em cada lugar ao redor do terreno do vizinho, menos debaixo das suas varandas, é claro. 

Eu não me importo se há alguma mensagem subliminar no filme. Não me importo se os irmãos Wachowisk estão disseminando idéias budistas ou "nova-era". Não me importo nem mesmo se são "satanistas" e se o personagem "Neo" é uma preconização de Maytrea ou do Anticristo. Não tenho medo de nenhuma dessas coisas. Porque Minha mente e minha opinião estão completamente formadas e blindadas contra influencias culturais. Eu conheço aquilo em que acredito, e conheço a fundo, o bastante para ser livre o suficiente para investigar tudo, reter o que importa e assimila-lo a meu favor, isto é, coloca-lo numa perspectiva favorável, sabendo isso: QUE  NENHUMA MENTIRA PODE OBLITERAR A VERDADE! E a Verdade está lá e pode ser seguida em meio às pistas deixadas mesmo na cultura de um mundo que não a reconhece. Sem contar que Matrix é um puta filme para quem, como eu, admira ficção científica, ora bolas!! 

Dito isto, posso afirmar que a verdade mais pungente relatada no roteiro do filme é a de que a humanidade foi feita escrava de um poder maior. Um poder que nos cega para a realidade do que somos e do que é a vida. Um poder tão encantador e atraente que nos fez construir toda uma rede intrincada de relações sociais, um sistema quase perfeito, chamado civilização, que nos prende desde que nascemos a um único modo de ver a vida e o mundo. Uma prisão dos sentidos. Somo levados a crer naquilo que foi posto diante de nossos olhos como única descrição de realidade possível. Mais do que isso, somos induzidos a pensar que a presente civilização é a evolução natural da humanidade através dos tempos, erguendo-se das cavernas ao espaço sideral por  processo contínuo e espontâneo que continua até hoje e que certamente nos levará a um nível  de vida melhor através do progresso técnico-social.


Nossa sociedade é uma máscara que reflete o nosso ego exterior. Muitos de nós preferem viver sob essas máscaras a vida toda, mas aquilo que somos realmente, como nos conhecemos individualmente, está sob essa máscara social. A maioria de nós não acha conveniente tira-las e vivem toda sua vida atuando nesse palco, exatamente como faziam os antigos atores gregos de teatro, chamados "hypochrités". A Verdade sobre nós, a vida e o mundo que construimos se encontra sob as máscaras que construimos, retira-las, significa enfrentarmo-nos como somos. Acontece, que a maioria de nós não aguenta ficar a sós consigo mesmos. Alguns, aceitam o mundo e sua aparência, outros, repudiam o estado do mundo porque repudiam a si mesmos, mesmo sem saber.

Essa não é nada menos a busca por entender simplesmente como viemos a nos tornar tão dementes.

Nossa História é uma teia bem urdida onde impérios, governantes, povos e nações, ideologias e filosofias, sucedem-se em choques e embates sangrentos que nos dão a impressão de que somos levados adiante sempre, rumo a um eterno e inexorável ciclo evolutivo das técnicas e da sociedade humana. Mas, especificamente, para onde estamos sendo guiados nesse processo ou qual é a real diferença que pode ser notada no ser humano atual e aquele que emergiu das sombras das sociedades primitivas?

Gostaria que acompanhassem um vídeo antes que continuemos. Esse vídeo em duas partes chama-se em inglês "True News 13: Statism is Dead - Part 3 - The Matrix" e foi produzido pelo anarco-capitalista Stefan Molineaux. Os vídeos são legendados mas há uma reprodução do texto dele em português no blog  http://sociedadevoluntaria.blogspot.com/2009/06/o-estatismo-esta-morto.html se quiser salvar uma cópia. Não há como negar a contundencia de tais fatos:



Não concordo com toda a ideologia proposta por caras como Stefan, mas consigo filtrar do seu discurso, , bem como de gente como Daniel Quinn, algo de proveitoso e substancial justamente por ser uma parte da Verdade que não podemos negar e que está embutida no cerne da mensagem cristã, ainda que tais pensadores não tenham atinado para isso: de que este mundo, enquanto sistema, jaz no maligno e isso desde sua fundação. Como diz Daniel Quinn, "se o mundo tiver que ser salvo não o será por pessoas com cabeças velhas e programas novos, mas por pessoas com cabeças novas e ABSOLUTAMENTE NENHUM PROGRAMA" (Além da civilização - Editora Peirópolis).

Logicamente, o mundo não será salvo por nenhum de nós, mas Quinn é perspicaz o bastante para ver qual o mecanismo em ação aqui: a Visão.  Uma Visão é algo poderoso, muito mais que qualquer ideologia. Pode-se dizer que Ideologias vem e vão dentro de uma Visão. Por exemplo, o comunismo não passou de uma ideologia dentro da mesma visão de administração de gado que vemos no capitalismo. Não passa de um programa que visava "consertar" supostas deficiências do capitalismo de mercado. A Visão é algo tão poderoso que se torna onipresente, e, por isso mesmo, quase invisível. Ela funciona tão bem que não precisa de programas ou métodos para ser implantada ou incrementada. Ela se autopropaga, como um vírus, uma peste. É como se fosse uma lei da Física, como a Gravidade, ela atrai a todos para si inexoravelmente. É quase inevitável, como se fosse uma informação dentro de um software, o qual ele não pode ignorar, vai sempre reproduzir aquele padrão determinado pelo programador, o Arquiteto do Programa, só para usar uma imagem do filme Matrix.

Poderíamos destacar que um dos motores principais da visão que norteia o mundo é este: Domínio e Controle (Por "Domínio", entendo como os meios utilizados para se chegar à supremacia e "Controle", os métodos adequados para permanecer nesta posição indefinidamente). "Crescei, multiplicai e Dominai sobre todas as coisas e sujeitai-as" tem sido o mote desde o início. Uma ordem bíblica, certo? Vinda do próprio DEUS. Eu perguntaria então se fizemos as coisas como elas realmente deveriam sair ou algo interferiu em nossa jornada, alterando nosso rumo para bem longe daquilo que foi traçado originalmente? A idéia de "domínio" e "controle" que parece ser uma verdadeira vocação do ser humano sobre a natureza involuntária e a matéria, descobrindo meios para que elas e suas leis venham a beneficia-lo, não traz em si um grande perigo a não ser que venha aliada, como veio, com um outro motor da nossa humanidade: o MEDO. 



O medo, eu diria, é o nosso principal meme cultural, se posso citar a idéia de um dos mais odiados ateus da atualidade, o sr. Richard Dawkins. Só para constar, medo é o primeiro sentimento do qual o homem tem consciência após a Queda segundo a Bíblia, que descreve DEUS procurando Adão, que se escondia dele tomado de  terror e culpa.

O medo nos dividiu em etnias e, posteriormente, em nações rivais, não permitindo que nos reunissemos em torno da idéia de uma única raça sobre a Terra, com um único propósito. O medo nos fez cercar nossas plantações e trancar a comida. O medo nos fez escolher a força como forma de sobrepujar nossos inimigos e a guerra foi seu braço direito. O medo nos fez cultivar religiões e superstições que nos inflingiram mais culpa, ódio e medo manipulado de acordo com as conveniencias dos poderosos. Medo. Medo do amanhã. Medo dos deuses. Medo de morrer, por causa da culpa do ontem. Medo do vizinho. De sua fala. De sua cor. De sua cultura. Domine o desconhecido. Sujeite-o. Escravize-o para que ele tenha medo de você. O Medo é um estado da mente que tem sido constantemente usado para criar uma situação propícia para que o gado humano seja levado aonde quer que seus captores queiram leva-lo. É uma ferramenta de controle de massas de extrema eficácia. Não nos enganemos: é o Medo que nos faz querer sobrepujar uns aos outros através da força e é ele também que nos faz orgulhosos, não o contrário.

A soma desses fatores (domínio, controle, medo e culpa) tem sido nossos mestres ao longo dos séculos e impulsionou impérios e ideologias numa única direção chamada "Progresso". O "Progresso" das civilizações, ou melhor, dessa civilização, pois a idéia que a norteia é basicamente a mesma desde Ur ou Mohenjo Daro, é o acúmulo e o monopólio de novas técnicas, seja de natureza bélica, cultural, política ou na área agropecuária, que venham a dar uma espécie de vantagem estratégica sobre o potencial inimigo que espreita logo ali. 

O "rio da visão" desta civilização nos levará irremediavelmente à ruína e não há programa ou método que possa reverter o seu rumo. Pense apenas que, apesar de todo "esforço" e combate dos países "civilizados", o consumo mundial de drogas lícitas, como álcool, e ilícitas, sintéticas ou não, cresce exponencialmente. A indústria de armas bate recordes anuais de lucro e seus donos são os grandes grupos financeiros que controlam o capital mundial e dirigem o rumo das economias hoje globalizadas, determinando também o comportamento e as políticas adotadas pelos governos fantoches que eles mesmos ajudam a eleger com gigantescos fundos  de campanhas eleitorais nos países "democráticos", como o nosso. Não devemos mais ignorar que tudo isso não passa de uma grande farsa que visa a manutenção e centralização do poder nas mãos de uma elite, formada nos principais centros academicos do mundo, como Harvard, Oxford e Yale, cuja intenção é unicamente fazer do mundo uma grande fazenda da qual possam extrair a seiva da vida de todos que adotam sua visão como única possível para a humanidade.

Devemos olhar para esse "monstro caótico" que está diante de nós sem nos assustar com suas diversas cabeças e dissecar suas partes principais para que possamos distinguir a direção e intenção de seus atos. Cada parte, cada feceta, cada cabeça está ligada ao todo e, como compreenderemos, fazem parte de uma mesma besta. Também devemos entender que atacar uma ou outra de suas cabeças de nada adiantará porque as outras a socorrerão para que seu sistema não entre em colapso.

A "CABEÇA" POLÍTICA, A "CABEÇA" FINANCEIRA, A "CABEÇA" EDUCACIONAL E A "CABEÇA" RELIGIOSA - UMA BREVE HISTÓRIA PELA HISTÓRIA

A União das "AbomiNações"
"Na realidade, os poderosos tem a força e a exercitam só porque são fracos e sua fraqueza vem do MEDO que os domina." - Sócrates

A ferramenta denominada Política é descrita como a "arte de governar os povos" e é a responsável pela organização hierárquica que substituiu a simples idéia de pessoas reunidas em torno de clãs familiares, as tribos. Ora, as tribos, embora pudessem viver durante muito tempo aliançadas numa espécie de onfederação, nunca formaram por si sós uma nação. A idéia de nação, uma pátria, um país com fronteiras bem delimitadas só pôde emergir com o surgimento da idéia de um Estado centralizador do Poder. Evoluindo dos primórdios das primeiras cidades-estado da Antiguidade, a organização estatal pode ser descrita como conjunto das instituições que administram e controlam um povo coercitivamente através de uma hierarquia (do grego "ordem divina") ou estratificação da sociedade que prescreve leis e obrigações aos seus subordinados. Tais "bolsões" de civilização na aurora da História geralmente aparecem substituindo a ideia simples das tribos familiares que lutavam pela sobrevivência por uma organização social mais complexa e, diriam alguns filósofos, antinatural, pois rompe o curso da história humana até então. 


Não raro, tais cidades surgem envoltas nas brumas de algum decreto de "deuses" que instituem dinastias e leis "divinas", juntamente com um progresso nas técnicas de agricultura, que resultaram em excedentes na provisão de alimentos, os quais são tratados agora não como um benefício comum aos membros da tribo, mas como um tesouro que deve ser mantido e regulado sob a guarda do escolhido para governar, como um direito divino. Como os deuses, só seu representante pode dispor daquilo que dá vida e regula o viver das pessoas. A escrita contribuiu no processo para legitimar a capacidade de poucos em entender os oráculos e os ditames reais e traduzi-los adequadamente a massa ignara. 

O escambo, ou sistema de trocas, é paulatinamente substituído por um sistema monetário controlado pela organização estatal, no qual nada mais vale pelo que é, mas pelo valor que lhe é imputado  pelo mercado. Na vida tribal de antes, os humanos deveriam fazer tarefas essenciais coletivas se quisessem suprir suas necessidades. Na vida social organizada estatalmente, o que se faz em conjunto, se faz em prol do crescimento do Estado, o que deve retornar em créditos na forma de moedas cunhadas em metal, para o sustento individual ou da família. Cada tarefa  ou item tem seu preço ou valor e seu poder de aquisição deve variar conforme sua especialização. Provavelmente, os problemas das cidades com marginalidade começaram aí. As oportunidades nunca são iguais quando não basta aquilo que a natureza deu a cada umde modo quase equitativo. Cada um é responsável por si mesmo pois o Estado não reconhece ninguém individualmente. Abrir mão dessa invenção era simplesmente optar pelo retorno a um estilo de vida repleto de inseguranças e perigos. 

A idéia de que o Estado fornece mais segurança e estabilidade ao indivíduo foi vendida com incrível facilidade pelos seus proponentes pela simples antecipação de que o desconhecido espreitava do lado de fora dos muros protegidos das primeiras cidades. Para manter essa segurança, e principalmente a segurança daqueles que estão no topo da pirâmide hieráquica, e garantir a expansão desse sistema é que foi concebido o braço armado do Estado, o Exército


A militarização das potências divide o mundo em nações predadoras e nações de pasto, umas contituidas para a soberania e rapina e outras para a servidão e a carniça - Ruy Barbosa

Graças a casta guerreira, a classe política e, assim, o Estado, pôde empreender a força para garantir tudo que seus líderes intentavam: expandir territórios e aniquilar potenciais inimigos através de guerras, obrigando qualquer um a seguir suas ordens, massacrar ideologias contrárias, impor impostos ao povo e, principalmente, defender-se da idéia de que alguém poderia escapar da chamada "civilização". Obviamente, isso poderia acontecer a qualquer hora, alguém poderia simplesmente cansar-se e abandonar aquilo tudo, voltando a vidinha de nômade ou coisa que o valha, mas, obviamente, isso já não poderia ser feito em massa, pois as castas superiores não o permitiriam, acionando seu longo braço coercitivo.  De repente, em muitas sociedades já não era possível simplesmente abandonar a civilização ou deixar de fazer parte de uma nação com fronteiras bem guardadas.


Formar uma identidade nacional sempre foi útil para que um povo pudesse ficar mais acomodado dentro de suas fronteiras e, para isso, surgiram as escolas de instrução cultural para inculcar valores nacionalistas e religiosos. É assim que a espiritualidade genuína e suas questões relevantes se divorciaram da vida comum das pessoas, tornando-se uma questão de tradição e de opinião produzidas massivamente. 

Quem controla o mundo?
A partir do séc. XVII, introduziu-se, no Ocidente principalmente, de modo gradual, um conceito até então pouco difundido no mundo todo, mas cuja origem remonta a Grécia Antiga, o conceito de Democracia. Embora muitos questionem se já houve em algum lugar da História alguma Democracia pura e direta, basicamente, o sistema democrático prevê alguma liberdade em grau maior ou menor ao povo para eleger representantes políticos que vão gerenciar a máquina estatal. Movimentos como a Reforma, a Renascença e o Iluminismo influenciaram a rejeição crescente dos intelectuais ao Absolutismo monárquico e religioso no Ocidente, retomando valores políticos, éticos e morais das antigas pólis gregas, para sempre infundidos no ideário dos filósofos e libertários, e introduzindo-os naquilo que viria a se tornar a administração pública do Estado moderno. Um dos principais ártifices desse pensamento liberal que estabelece o Estado como um contrato social entre seus membros foi o inglês John Locke. 


Poder político e poder religioso: cabeças da mesma besta
Filósofo e cientista político, Locke foi um dos precursores do behaviorismo, através do seu conceito da "tábula rasa" (folha em branco em latim) com o qual pretendia explicar que os seres humanos nascem iguais, tornando-se um produto do meio em que crescem, não tendo nada inato em si no nascimento, tudo lhe é condicionado. Com Locke, o Estado se divorcia de vez da Monarquia e da Religião, tornando-se ele mesmo o único guardião das insituições e do bem-estar social, motivo principal de sua existência e o porquê das pessoas aderirem a ele. Locke introduziu na política conceitos como tolerancia e direito à propriedade mas, paradoxalmente, defendeu outros como o escravagismo e a conquista de povos selvagens (não associados, segundo ele, a humanidade verdadeira). Defendeu também medidas políticas radicais contra camadas que posssuíam poucos recursos economicos (como direcionar para o trabalho as crianças cujas famílias não podiam sustentar!).  O que nos é útil citar é que a teoria da tábula rasa continua sendo adotada pela maioria dos países ocidentais nas suas politicas educacionais. 

Jean-Jacques Rousseau expande ainda mais o fosso entre o absolutismo e o pensamento liberal, e concebe  o Estado como um contrato social ideal o qual a sociedade e o indivíduo contraem entre si. Para ele, fazer parte de um Estado ao nascer é como uma espécie de religião civil, ou profissão de fé cívica, a ser obedecida pelos cidadãos que depois de aceitarem-na, deveriam obrigatoriamente segui-la sob pena de morte. O interesse ou objetivo social deve sobrepor-se até mesmo a uma maioria se esta não se enquadrar nos princípios firmados a uma convenção anterior. Para Rousseau, todo homem nasce livre mas abre mão dessa liberdade intrínseca ao resolver viver em sociedade. Sua reflexão sobre esse processo e o Estado ideal que deveria emergir do consenso dos indivíduos que resolvem viver em sociedade, resultou em sua obra mais famosa, O Contrato Social.  “O que o homem perde pelo contrato social é a liberdade natural e um direito ilimitado a tudo quanto aventura e pode alcançar. O que com ele ganha é a liberdade civil e a propriedade de tudo o que possui.” - afirmava
A "Civilização" é uma prisão

Tal inferência a perda voluntaria da liberdade também se faz presente no pensamento de gente menos "liberal" que Rousseau como Thomas Hobbes e Maquiavel, para quem "os fins justificam os meios". Hobbes é enfático o suficiente na sua obra clássica, O Leviatã, de que o homem deve abrir mão de seu estado natural (segundo ele 'estado de guerra') para que obtenham "segurança e paz" transferindo seus direitos para outro, no caso o Estado, o monstro que vai cuidar de suas vidas do berço ao túmulo.

O pensamento  de Rousseau foi o catalisador de uma época, funcionando como combustível para as Revoluções Liberais da América e França que estabeleceram as primeiras Constituições estabelecidas num pacto social baseado em direitos entre os "comuns" e não uma imposição da nobreza ou do clero. Rousseau foi um pensador bastante instigante e suas idéias vão bastante além daquilo que os "revolucionários" se apropriaram por conveniência. Ao contrário do que se pode pensar, não via a sociedade como algo essencial ou natural ao homem :                                                                                                                                                                     "O verdadeiro fundador da sociedade civil foi o primeiro que, tendo cercado um terreno, lembrou-se de dizer 'isto é meu' e encontrou pessoas suficientemente simples para acreditá-lo. Quantos crimes, guerras, assassínios, misérias e horrores não pouparia ao gênero humano aquele que, arrancando as estacas ou enchendo o fosso, tivesse gritado a seus semelhantes: 'Defendei-vos de ouvir esse impostor; estareis perdidos se esquecerdes que os frutos são de todos e que a terra não pertence a ninguém' ;
  • "E quais poderiam ser as correntes da dependência entre homens que nada possuem? Se me expulsam de uma árvore, sou livre para ir a uma outra" ;


  • "A meditação em locais retirados, o estudo da natureza e a contemplação do universo forçam um solitário a procurar a finalidade de tudo o que vê e a causa de tudo o que sente"



  • O liberalismo teve seu caminho pavimentado gradualmente abrindo caminho em meio aos intelectuais e formadores de opinião do meio acadêmico e político até chegar como um burburinho com cheiro de rebelião à sombra do medo da repressão dos nobres e dos clérigos, pouco a pouco ganhando o tom de clamor de massas que ansiavam por mudanças, diga-se direitos civis e liberdades individuais.  As revoluções culturais se parecem com verdadeiros rompimentos entre gerações, parece que uma humanidade foi substituida por outra, melhor e mais preparada para o futuro ou para viver novo paradigma, uma nova visão, mas será que é assim mesmo? Uma versão de Estado Absolutista, baseado no direito inalienável de alguns poucos nascidos de sangue azul, deu lugar ao que veio a se tornar o Estado moderno, onde "todos" tem oportunidades "iguais" e "todos" são "iguais" perante a Lei, dando início a Economia de livre mercado, ou seja, ao capitalismo propriamente dito. Outra vez eu pergunto se isso é verdade.
    Pessoas "escolhidas" para representar a humanidade







    Tais idéias só conseguiram irromper quando o modelo anterior começou a atrapalhar o desenvolvimento de novas técnicas que visavam aprimorar o conhecimento humano e as técnicas de produção, enfim, a idéia geral de progresso e a resposta humana aos estímulos que eram dados. O absolutismo dos regimes arcaicos nunca havia trabalhado  com a ótica de que o gado precisa estar feliz e certo de que pode "subir na vida" para que seu trabalho seja mais produtivo. Mais liberdade e direitos são coisas extremamente desejáveis, principalmente quando aumentam o lucro dos industriais e banqueiros. O cenário estava todo preparado e propício para a irupção do próximo passo: a Revolução Industrial. 

    A verdade é que tal revolução, iniciada na Inglaterra, foi orquestrada e dirigida pelos poderosos burgueses  (gentry) donos do Parlamento inglês, que tomaram as terras dos camponeses para  se tornarem grandes exportadores de lã impelindo-os para os centros urbanos . Mais tarde, essas mesmas famílias donas do capital  e das terras se tornaram as principais finaciadoras das novas indústrias que absorvia a mão de obra desqualificada de pessoas saídas do campo. Como se vê, apesar do discurso de igualdade e liberdade, o cetro nunca saiu da mão dos poderosos e os pobres não tem escolha diante da atração que o sistema exerce sobre ele. não havia escolha antes para eles, sob os reis e o papado, e continuavam a não ter escolha sob os barões da indústria.

    Nós somos culpados, sim
    A luta de classes resultou no comunismo (que nada mais é que a 'ditadura do proletariado', se é que pode-se chamar de proletário quem exerce o poder) e em outros locais os trabalhadores se organizaram em associaçõe s de trabalhadores, os sindicatos, lutando, literalmente, por maiores direitos e garantias. Nem mesmo duas grandes guerras mundiais puderam reverter os rumos que foram traçados no Ocidente rumo a uma "democratização"cada vez maior da opinião que pode variar conforme o grau de desenvolvimento cultural de cada nação. De qualquer forma, uma forma de controle branda realizada de forma implícita, embora preferível às formas despóticas, não deixa de ser o que é: Controle de massa. Em todo caso, vemos o binômio Domínio/Controle atuando ao lado do Medo para manter todo sistema exatamente como sempre foi. 

    A idéia de manter o gado humano tão ocupado com a idéia de prosperar e se entreter de alguma forma deu tão certo que países de históricos regimes fechados e tradicionais abriram mão de culturas milenares, como no caso do Japão e, recentemente, da China, bem como países islãmicos,  para se tornarem países onde todos podem comer a mesma comida dos americanos e tentar obter o seu próprio Iphone, ou ter uma conta no Twitter. De novo, é mais do que certo dizer que isso não é amostra de que a visão mudou, mas a mesma política em ação, de deixar o gado mais satisfeito no pasto, sem que perceba que está confinado. Os estados arcaicos e absolutistas do Oriente querem o mesmo poder econômico e politico dos países ocidentais, apenas temem a crescente secularização do pensamento das massas. 

    Em todo caso, como vimos no Ocidente, através da História, nós fomos forçados continuamente a "escolher" a forma com a qual gostaríamos de ser dominados. 

    Como Rousseau pressentiu, não é mais preciso o uso de força na maioria dos casos para prender o homem ao sistema, pois ele já não deseja, nem mesmo concebe a vida fora da jaula, de modo que não haverá uma debandada em massa para fora do estilo de vida "civilizado", como ocorreu em certas culturas meso-americanas, como os maias e anasazis. Não, o homem foi definitivamente domesticado por uma visão da qual não consegue escapar para onde quer que olhe ou vá. Se quiser fugir, viverá sempre a margem, será um vagabundo, um andarilho, um fantasma, alguém que não pode possuir propriedade ou um registro que lhe garanta o passe livre para além de alguma fronteira. 

    O homem-social é aquele que está disposto a entregar sua liberdade voluntariamente a fim de aderir ao pacto, ao contrato. Alegremente, ele dará as chaves de tudo que lhe pedirem, se considerar que a barganha é lucrativa e trará mais comodidade e sossego a sua vidinha medíocre, ou seja, na média estabelecida como padrão. Se isso significar abrir mão de sua identidade, de seus sonhos, de sua privacidade, de qualquer coisa que lhe pareça intrinseca e inata, em nome da sua segurança e de seu país, ele estará pronto a faze-lo, conquanto não lhe cortem o acesso a Matrix, o País das Maravilhas. 

    A ganância cala e mata nosso futuro
    A Democracia do Estado Moderno é uma ilusão criada para intoxicar e entorpecer o gado humano. É como um interlúdio no meio de uma extensa história de controle despótico que sempre foi a regra geral. Não devemos mais ignorar isso. Aquilo que pensávamos que tinha sido entregue em nossas mãos, os tecnocratas do poder, basicamente as mesmas famílias burguesas de sempre, controlam com mão de ferro e estão dispostas a retornar pouco a pouco a um sistema mais fechado se não puderem sustentar o  atual estado de coisas. Através do medo e da propaganda, de bom grado entregaremos tudo que é mais precioso a eles para que possam nos salvar e salvar o mundo. Sempre foi assim. Lutamos suas guerras porque eles diziam que era necessário, perseguimos outros humanos considerados perigosos por que eles nos disseram, votamos naqueles que eles colocaram a nossa frente como única opção, tivemos nossas mentes condicionadas a pensar como eles queriam desde crianças através do método da tábula rasa do sistema educacional e engolimos o lixo cultural que nos empurraram goela abaixo com seus programas de televisão feito para fabricar zumbis.

    Recebemos educação ou lavagem cerebral?
    Considere o sistema educacional. Ele é o responsável pela manutenção constante da força principal de trabalho braçal, das formigas operárias que continuarão o serviço de seus pais. Durante anos a fio, nós e nossas crianças após, somos submetidos a um sistema desumano e contraprodutivo, onde a criança é levada para longe de casa e de seus pais, tendo que aprender à força a se impor diante de outros e receber ordens de terceiros e também a assimilar a descrição de mundo, a Visão de mundo, o Espírito da Época. Deveria parecer lógico a essas alturas, que as escolas não preparam o ser humano para lidar emocionalmente com a vida e com suas questões mais importantes. De fato, nenhum aluno sai do ensino médio sabendo o que é a vida ou  qual seu propósito, mas com muitas dúvidas sobre como ele vai se inserir no mercado, qual cargo ou posição ele ocupará na construção da pirâmide. O método empregado é o saturamento de informações na mente do aluno, que não visa o aprendizado, mas solapar sua capacidade de discernir a realidade e pensar sobre os porquês. Ninguém sai mais inteligente da escola do que quando entrou, pois essas informações não são destinadas a formar a cognição, mas para moldar o cérebro dos alunos para que façam tudo mecanicamente sem criar associações neurais. 

    Eis porque passamos tanto tempo, principalmente após a alfabetização, aprendendo datas e memorizando fórmulas e conceitos que não tem vínculo algum com aquilo que as pessoas vivem em seus cotidianos: o objetivo, ainda que muitos educadores não o admitam, é criar na maioria uma repulsa inconsciente pelo verdadeiro aprendizado. A maioria sai das escolas com trauma de aprendizado e já condicionados a pensar mecanicamente sobre os processos que o levarão a uma faculdade ou a uma profissão rentosa. A grande maioria nunca se recuperará do abuso mental e tendem a desprezar inconscientemente uma busca voluntária pelo prazer do saber e do entendimento sobre si mesmo e a vida. O resultado é este mesmo que vemos no mundo: os quadros neuróticos e depressivos são hoje comuns e mesmo esperados e desejados pela classe médica e seus programas de "conserto da mente humana", como a psicanálise, numa sociedade que aliena seus membros dos assuntos mais relevantes da Vida.

    Outro poderoso aliado do sistema é uma das maiores invenções de todos os tempos e chama-se Televisão. A invenção da televisão se deu graças aos avanços dos estudos da Física, no final do século XIX, notadamente o estudo de partículas como os elétrons e suas reações dentro de tubos catódicos, ou tubo de Crookes. Eu não sei como você pensa, mas para mim, o conceito de transmissão de aúdio e imagem em tempo real para dentro de minha casa, ainda é algo tão fabuloso e mesmo mágico que nos faz pensar "o que mais está acontecendo por aqui", só pra citar aquele conhecido comercial da Intel

    Como podemos suportar ser tratados como  retardados?
    O fato é que os governantes desse mundo rapidamente perceberam o potencial da descoberta e em qual terreno poderiam usar tal instrumento. Depois da Segunda Guerra Mundial, a popularização do aparelho não foi apenas fomentada mas orquestrada como uma política bem dirigida para fins específicos. Novamente, vemos impérios se erguerem da noite para o dia no ramo das telecomunicações e seus donos são os mesmos que já controlavam a indústria cinematográfica norte-americana, a eterna vendedora de sonhos sediada em Hollywood. O interesse deles também continua o mesmo e está alinhado com o pensamento dos dominadores do mundo: manter as pessoas imersas em ilusão. 

    A maioria não atina para o fato do poder que há num aparelho que transmite para dentro de seu lar programas idealizados por mentes dirigidas por corporações, que tem atrás de si interessados a um nível ainda mais superior. A indústria do entretenimento que surgiu do boom televisivo não tem precedentes em toda História. Não há como mensurar o impacto cultural causado dentro das famílias de todo mundo. Ela mudou conceitos e transmitiu ideologias e padronizou comportamentos para mais pessoas em menos tempo que qualquer revolução faria. 


    Mais do que tudo, a televisão nos convida a encarar a vida como uma realidade de tamanho reduzido, do tamanho de sua tela. A realidade está ali, pronta, não é preciso vive-la, basta observa-la. Não foi feito até hoje um estudo conclusivo sobre os males sobre a psiqué humana causados por toneladas de propaganda e mensagens subliminares a que somos expostos durante a programação televisiva usual. 

    QUEM PERTENCE A QUEM?
    Nela, somos estimulados até as últimas consequências a pensar em tudo ao nosso redor e nós mesmos como seres sem responsabilidade alguma sobre a vida. Somos infantilizados e tratados como tal, como crianças crescidas que desejam isso ou aquilo, guiadas pelos instintos mais básicos e nunca pela reflexão madura. A propaganda como se diz, é a "alma do negócio". Para o linguista e filósofo americano Noam Chomsky  "a propaganda representa para a democracia aquilo que o cacetete (isto é, a polícia política) significa para o estado totalitário."  Aliás, Chomsky escreveu juntamente com Edward S. Herman o excelente livro A Manipulação do Público, onde expõe o viés existente dentro dos grandes meios de comunicação funcionando contra a sociedade de modo geral, a fim de atender seus próprios interesses, mas com a aparência de um debate "democrático", onde somos influenciados a "escolher"  entre aquilo que é posto como opção diante de nós.


    O cerco se fecha com o abraço da religião organizada mundial que responde como a derradeira solução para aquele velho e incômodo sentimento natural de que o homem é algo a mais do que se apresenta aos olhos. Historicamente, todas as religiões que se organizaram normativamente se tornaram colaboradoras dos sistemas de governo e parte do esquema de controle, sem exceção, cooptando seus adeptos a se acomodarem dentro da ordem vigente e submeter-se ao jogo. O cristianismo foi uma exceção somente até o século II, pouco depois da era apostólica. Essa foi a época os mártires. Ainda hoje os "cristãos" não redescobriram o potencial que essa mensagem tem para subverter os padrões do mundo. 


    Aquilo que temos hoje é uma sopa insossa de doutrinas estilhaçadas aqui e ali. Alguns pregam caridade, outros virtudes "cristãs", uns, carismas e curas, alguns, teologia, outros, a prosperidade financeira, etc, etc. O cerne da mensagem, a subversão dos padrões de comportamento que nos levaram a construir essa civilização, baseada, como dissemos no Controle, Domínio e Medo, se perdeu. Se você nunca leu os Evangelhos por essa ótica, tenha certeza que perdeu 98% da Mensagem.


    Como vários dos "programas", ou métodos, que existem dentro da Matrix para adiar o seu colapso, a religião, assim como a educação, a democracia, o avanço tecnológico e das técnicas, inclusive na medicina, contribuiu de alguma forma para a "melhoria" do indivíduo. Dentro de uma religião, muitos  encontraram alívio e um novo estilo de vida. Logicamente, isso é válido, principalmente quando o indivíduo deixa de lado um estilo de vida autodestrutivo, como álcool ou drogas. O que é óbvio também é que isso não funciona para todos, levando muitos, como sabemos, a uma vida dupla. E dentro das religiões sempre houveram indivíduos que chegaram Àquele Lugar, Aquele Monte, e, pelo menos por alguns momentos, suas cabeças emergiram da água vislumbrando o "momento" em que a religião em si, bem como o mundo, não faz sentido algum.


    Do ponto onde estamos hoje, onde o mundo procura avidamente por formas de conter a sua derrocada anuciada, investindo cada vez mais em técnicas e programas para "consertar as pessoas", com meditação, psicanálise, exercícios, hipnose e autoajuda e  antidepressivos, tudo para que continuemos a ser produtivos e "saudáveis",  a própria religião cristã organizada procura muletas para se apoiar e já faz cinco séculos que procura "reformar-se", buscando meios e métodos que a façam funcionar adequadamente. Cada líder carismático tem a sua fórmula particular, a qual, invariavelmente, acaba mimetizando os mecanismos de Domínio/controle/medo que vemos nas estruturas da civilização. Essas estruturas básicas são nomeadas em algumas passagens do Novo Testamento como "rudimentos desse mundo" (Gálatas 4.9, Colossenses 2.8). Me parece incrível como é difícil para nós pensarmos em termos diversos desses "rudimentos", pois me parecemos predestinados a acata-los sem questionar e reproduzir tais modelos em qualquer grau que vivenciamos uma experiência coletiva.


    Um belo exemplo de quebra desse triste paradigma vem justamente de alguém pouco apreciado no meio cristão. Seu nome é Krishnamurti. Nascido em 1895, foi preparado pela famigerada Sociedade Teosófica para assumir o papel de "Novo Messias" e "Instrutor do Mundo" a frente da Ordem da Estrela do Oriente. Seus milhares de seguidores estavam prontos para seguir suas ordens no encontro de 1929, em Omnem, na Holanda, quando ele proferiu o chocante discurso de dissolução da Ordem. 


    ."Deveis, talvez, lembrar-vos da história em que se diz que o diabo e um amigo caminhavam por uma rua e, em dado momento, viram um homem a sua frente que apanhou algo do chão, contemplou-o e meteu-o no bolso. O amigo perguntou ao demônio: “O que é que esse homem apanhou?” “Um pedaço da Verdade”, disse o diabo; “Então, isto é uma mau negócio para você”, retrucou o amigo. “Oh, não, absolutamente”, retrucou o demônio, “eu vou ajudar a organizá-lo.”;


    ."Se uma organização for criada com esse propósito ela se tornará uma muleta, uma fraqueza, uma escravidão, mutilará o indivíduo e o impedirá de crescer, de estabelecer a sua unicidade, que se encontra no descobrimento, por ele mesmo, desta verdade absoluta e incondicional”;


    . "A instituição torna-se uma moldura na qual os membros podem adaptar-se convenientemente. Eles não mais se esforçam por alcançar a Verdade ou o cume da montanha, porém, pelo contrário, cavam para si um nicho conveniente, no qual se colocam ou deixam que a instituição os coloque, e consideram que, por esse modo, a instituição os levará à Verdade";


    Vós estais acostumados à autoridade, ou a atmosfera da autoridade que pensais vos há de conduzir à espiritualidade. Pensais e esperais que uma outra pessoa possa, por seus extraordinários poderes – um milagre – transportar-vos para esse reino da eterna liberdade que é Felicidade. Todo o vosso ponto de vista sobre a vida encontra-se baseado na autoridade...Quando buscais uma autoridade para vos conduzir à espiritualidade, manifesta-se em vós, automaticamente, a tendência a constituir uma organização ao redor dessa autoridade. Pelo fato da criação dessa instituição, que pensais, ajudará essa autoridade a vos levar à espiritualidade, sois colhidos em uma gaiola;


    Durante dezoito anos vos haveis organizado, tendes aguardado alguém que viesse dar um novo deleite aos vossos corações e mentes, que transformasse a vossa vida inteira, que vos proporcionasse um novo entendimento...Considerai, raciocinai por vós mesmos e julgai de que modo esta crença vos tornou diferentes – De que modo uma tal crença varreu em vós tudo na vida que não é essencial? Esta é a única maneira de julgar: de que modo sois mais livres, mais plenos, mais perigosos para todas as sociedades baseadas no falso e no não essencial? 


    Não desejo fazer um julgamento de valores aqui  sobre a doutrina seguida por Krishnamurti, não posso nem devo faze-lo, mas sua atitude deveria ensinar a muitos que se colocam como vigas-mestras da vida espiritual de pessoas menos intuitivas. Abdicar de uma posição de liderança dentro de uma organização não significa abrir mão daquilo que se É naturalmente. Guiar um povo cego pelo deserto com mão de ferro é relativamente fácil, nivelar-se a eles e abrir mão do controle é que é difícil. 







    Toda forma de "organizar" a Verdade Espiritual termina em  formas de controle
    As religiões organizadas nunca levam o homem a questionar as instituições vigentes, ou a  civilização, ao contrário, levam-no a conformar-se com elas. Assim como a formação educacional forma mentes para a força de trabalho, a religião leva as pessoas à ilusão de que o sistema do mundo pode trabalhar a nosso favor se mais forem convertidos a mesma fé, criando a chamada "maioria moral", nada mais nada menos que a santa inquisição travestida de polícia ideológica. É desse modo que os "espirituais" acabam lutando pelas mesmas coisas e usando as mesmas armas que os "secularistas". Como todo sistema hierarquizado e baseado em centralização de poder, a tendencia natural que ela apresenta é estreitar a visão de seus membros quase que num esforço instintivo de sobrevivência (outra vez vemos o Medo com um dos motores). Como no caso dos estados e das várias ideologias que surgem dentro dessa visão sobre o gerenciamento do gado humano fazendo com que os partidarismos levem à sedições e revoltas, no meio religioso o mesmo ocorre. Como todos estão preocupados em defender suas interpretações e instiuições, e não com a Verdade Universal, vemos diferentes ideologias competindo até o ponto da ruptura e da secção. Não raro isso tem levado a confrontos sangrentos e, por isso, a religião é vista por tantos hoje como obstáculo a Paz mundial. Isso seria um paradoxo se as religiões realmente estivessem imbuídas do Espírito da Paz, mas como sabemos, o espírito que opera onde quer que o homem tente "organizar" a Verdade é outro, o mesmo espirito faccioso que opera nas nações . 



    Desse modo, tornou-se comum para nós as tristes notícias dos conflitos entre católicos e protestantes na Irlanda e outros lugares, das matanças sem fim entre muçulmanos xiitas e sunitas, entre partidos e seitas hindus e a proliferação de ramificações do tipo seita-pentecostal, disputadas e divididas entre larápios como o foi o manto de Cristo.


    Sintomaticamente, as religiões organizadas, não só cristãs, mas islâmicas, hindus e mesmo budistas (em certos países onde o budismo é a religião estatal oficial) levam seus membros a cultivar o apego a essa descrição de mundo através de suas doutrinas que prometem que quanto mais ardoroso e fiel uma pessoa for, mais "abençoado" será, tanto nessa quanto noutra vida. A obediência servil em todo caso é estimulada. Nos países democráticos, o voto é incentivado entre os cristãos como se fosse uma virtude e naqueles onde ainda há alguma espécie de absolutismo, a obediência silenciosa ao governante deve ser mantida. Em qualquer caso, porém, há conformidade com os rumos do mundo. 


    Por essa altura ,alguém poderá dizer que defendo algum tipo de rebelião armada contra as instiuições, que proponho o anarquismo. Nada disso. O anarquismo é apenas outra ideologia dentro do programa, embora em sua essência o anarquismo rejeite a necessidade de organização estatal e desafie toda forma de hierarquia vigente. Os anarquistas históricos pegaram em armas na virada do século XVIII para derrubar regimes totalitários na Europa e ajudaram os bolcheviques na Revolução Russa. Eu não acredito em sublevações sociais armadas. Elas nunca funcionaram porque simplesmente nós nunca vamos conseguir eliminar de nosso meio quem se opõe em  algum grau às nossas idéias. Para prevalecer, tais pessoas forçosamente deveriam adotar medidas para proteger aquilo pelo que lutaram e os mesmos padrões baseados no Domínio/Controle/Medo ressurgiriam espontaneamente. 


    Para mim, a resposta passa por uma solução mais holística, humanamente falando, ou seja, que engloba o ser humano em sua totalidade. E é uma reposta individual, não uma solução social. Alguém poderá dizer que não há praticidade alguma nisso, talvez seja verdade. Não há o que "fazer", no sentido de levantar uma "bandeira". Não acho que devemos reformar nada, mas, sim, perder a ilusão sobre o que é o mundo que foi posto a nossa frente, fazer cair suas máscaras uma a uma diante de nós. Se olharmos para ele como realmente é, poderemos ter um vislumbre da nossa insanidade e a cura poderá começar a ter lugar. 


    "Existem rachaduras nas ruas da cidade. E o desespero açoita as extremidades de suas construções a cada manhã. As pessoas estão cansadas. Há milhares e milhares de anos que estão em busca de uma maneira  de alcançar a totalidade e estão cansadas. Esgotadas de tentar consertar e melhorar, talvez em breve elas desistam (nota T.E.: "duvido muito!") Então é possível que a Sanidade novamente tenha permissão para desabrochar. Será quando as autodefinições se houverem esgotado." - "Simplesmente São" de Gerald May - Editora Paulus






    A MATRIX DA REALIDADE DA MATÉRIA

    "O que é 'real'? Como você define o que é 'real'? Se você está falando do que você sente, o que você cheira, prova, vê, então 'real' são simplesmente sinais elétricos interpretados pelo seu cérebro" - Morpheus


    Antes de prosseguir, assista a esse vídeo, um documentário legendado sobre as descobertas no campo da física quântica, sobre a natureza da matéria e da consciência e suas implicações sérias sobre como o pensamento pode ser dirigido para criar uma sociedade como a nossa.  


    Vamos examinar a declaração do iminente físico Max Planck, um dos pais da Física Quântica:
    “Não há matéria...Toda a matéria se origina e existe apenas em virtude de uma força que faz a partícula de um átomo vibrar e que mantém este diminuto sistema solar do átomo em conjunto. Nós devemos assumir que esta força que está por trás da existência vem de uma mente consciente e inteligente. Essa mente é a matriz de toda a matéria."


    A Física Quântica trouxe consigo uma nova realidade aos olhos dos cientistas. Einstein não se conformava com ela. Ele frustou-se ao realizar que a explicação final para o funcionamento do Universo, sua Teoria do Tudo, estava bem longe de se tornar uma realidade. O mundo selvagem subatomico embaralhou as cartas novamente. É um novo terreno onde tudo é inexplorado e onde as leis vigentes da Física newtoniana, determinista e calculista, não podem ser aplicadas. Trata-se, portanto, de um novo começo, uma nova fronteira para explorar.


    Traduzindo em miúdos, os cientistas descobriram que tudo que existe materialmente falando,  só existe em virtude desse "Poder" que força as partículas a se comportarem de um determinado modo em "nosso mundo", uma estreita faixa de frequencia de onda num "dial" de inúmeras faixas de frequência. Imagine um "dial" de rádio onde você pode sintonizar  diferentes faixas de frequência. Para sintonizar uma rádio em FM você deve alterar a frequência que capta esse sinal, o mesmo em AM e assim por diante. Os cientistas , em especial Michio Kaku, da Faculdade da Cidade de Nova Iorque, descobriram que o mundo quântico, para ser compatível e se harmonizar com o nosso, deve possuir um total de 10 dimensões. Segundo ele e seus pares, a medida que acrescenta-se dimensões às equações deixadas por Einstein e outros, o funcionamento do Universo se simplifica e se harmoniza com a Física ortodoxa, explicando até mesmo o porquê da Lei da Gravidade existir,  o que ainda era uma incógnita meio mística. 


    Sendo nossos cérebros equipados para se adaptar à realidade em que vivemos, temos uma "descrição" de mundo bem convincente, mas não totalmente real. Nem mesmo conseguimos ver todas as cores irradiadas, mas só aquelas que se encontram em uma determinada faixa de frequencia, bem curta, dentro do chamado espectro eletromagnético que abrange uma grande gama de radiações.


    Trocando em miúdos, estamos limitados em nosso estado atual para perceber que a realidade é muito mais complexa que nossos olhos podem ver ou que nossos cérebros podem captar e decodificar. Tudo isso tem sido muito enfatizado pelos místicos e esotéricos e o pessoal da chamada Nova Era para ressaltar o seu ensino de um novo "aeon" surgindo no horizonte humano. Essa tipo de informação também é um prato cheio na mão dos conspiracionistas que adoram ver o dedo, ou o olho, dos tão decantados Iluminatti em todo e qualquer canto. Em contrapartida, os "cristãos", principalmente os fundamentalistas evangélicos, tendem a tomar uma posição reacionária, como sempre,  a qualquer investigação sobre tais assuntos rotulando-os como heresia ou paranóia. 


    Não precisamos dogmatizar ou ficar paranóicos acerca de qualquer assunto por mais sério que seja e penso que há espaço para que possamos ser equilibrados quanto a isso também. A realidade está aí fora e não se parece em nada com aquilo que nos descreveram como única realidade possível desde nossa infância, mas não é aquilo que os esoteristas pensam se tratar, algo que você possa moldar enquanto canta alegremente um mantra. É tão certo que existam conspirações quanto a noite segue o dia, mas não precisamos atribuir cada evento político ou nova tecnologia surgida ao "Governo Mundial" dos Iluminatti. Não precisamos ver o anticristo em tudo aquilo que o mundo parece disposto a acreditar piamente. Se somos realmente livres, assim podemos nos manter ao analisar cada questão com independência e sobriedade e é isso que pretendemos fazer. 


    Assumindo que nossa realidade pode ser comparada a um holograma bem real, do tipo que se vê no filme Matrix, vemos ser possível que a psiqué do ser humano pode ser controlada a partir de um nível mais sútil, como um sistema de informação que passa a funcionar a partir de um programa específico. Qual é, pois, esse programa e quem é o seu idealizador? Como bem apontou Jung, os mitos não nos mentem, pois são as verdades mais profundas que podemos encontrar a respeito de nós mesmos. A Verdade por detrás de Matrix e de dezenas de outras histórias modernas, como Harry Potter, O Senhor dos Anéis, Guerra nas Estrelas, Stargate, Jornada nas Estrelas, Nárnia, o Santo Graal, etc, etc, repassadas de geração em geração através de histórias, livros, desenhos e películas parece atingir o âmago de nosso ser e revolver nossas entranhas com uma informação que nos parece familiar, mas que se apresenta fugídia aos nossos sentidos comuns. Parecemos, como bem disse Chesterton, náufragos com amnésia tateando e recolhendo o que sobrou do desastre aqui e ali mas sem poder lembrar plenamente quem somos ou de onde viemos. 


    A Ciência tem mostrado que a matéria não passa de flutuação de energia em determinadas frequências e que tudo dentro desse "campo unificado" compartilha basicamente das mesmas partículas, ou do mesmo campo energético, se preferir. A Ciência também tem sugerido que há mais espaço vazio, ou vácuo, dentro da "matéria" do que se pensava. Alterar os padrões dentro desses vácuos de informação significa introduzir uma nova informação e, assim, alterar ma condição da realidade. Aqui se entrelaçam os mundos da Ciência e da Magia. 


    Lembro-me dos livros que li de Carlos Castaneda e como foi enfatizado por seu mestre e guia, o brujo Don Juan Matus a importancia dele perder a "descrição desse mundo" e adquirir a "descrição do mundo dos feiticeiros", uma linhagem de bruxos que remonta a américa pré-colombiana, responsáveis pelos grandes feitos desses povos e também pelo sumiço de alguns. Segundo a tradição desses feiticeiros, há mundos paralelos ao nosso, aos quais se pode alcançar aprendendo a usar a chamada segunda atenção, na qual  tais pessoas são capazes de feitos extraordinários por que aprenderam a deslocar o "ponto de aglutinação" de suas consciências. De início, foram usadas plantas alucinógenas para "despertar" a mente de Castaneda, mas com o passar dos anos, a medida que ele se tornava uma verdadeiro "guerreiro", ele pode adentrar naquele mundo usando unicamente sua "Vontade". Os livros de Castaneda despertaram a curiosidade mundial por causa da sua descrição de um mundo estranho, frio e, por vezes, cruel e insensível, mas extremamente verossímil porque escrito por um homem da ciência (Castaneda era  antropólogo e seu interesse inicial era pesquisar a cultura dos indios que usavam a planta alucinógena mescal ). Exercitar a vontade na segunda atenção fazia ruir a base social da percepção que, segundo ele, é a certeza física de que o mundo é feito de objetos concretos. 


    Tudo que percebemos é energia, mas como não podemos perceber a energia diretamente, processamos a nossa percepção pra que ela se adapte a um molde.Esse molde é base social da percepção que precisamos separar.


    Talvez seja exatamente isso que acontece com todos nós no mundo da vida cotidiana. Estamos aqui e a fixação do ponto de aglutinação é tão poderosa que nos faz esquecer de onde viemos e qual o objetivo de estarmos aqui.  - do livro de Carlos Castaneda, A Arte do Sonhar


    Reequilibrar as energias da consciência humana e redirecionar a nossa atenção, salvando-a para que possamos perceber o mundo com outros olhos, ou antes treinar nossas mentes para ver uma realidade mais sutil, parece ser a tônica da mística de todas as formas de religião mais antigas, inclusive do tronco monoteísta judaico-cristão. Os profetas da Antiguidade viviam em isolamento no deserto, por vezes fundavam comunidades (I Samuel 10.5) onde aprendiam práticas para acessar a dimensão profética. Os monges cristãos do deserto, místicos do porte de Santo Antão, são legítimos representantes dessa linhagem, homens de uma espiritualidade ímpar, que praticavam o desprendimento do mundo e da realidade concreta com maestria. Cotemplação, quietude e uma profunda imersão no Espírito de DEUS através de práticas como oração meditativa e jejuns é o legado deixado por esses homens.




    Tais disciplinas foram praticamente esquecidas pelos cristãos de hoje. A ênfase não está em encontrar DEUS a sós no quarto escuro como descreveu JESUS, mas no meio da massa barulhenta, por meio de uma parafernália eletrônica e de uma verborragia que apela a emoções e decisões forçadas e manipuladas. Acima de tudo, vemos uma banalização da dimensão espiritual através da pregação de um Deus ligado a matéria e interessado em agradar seus seguidores com realizações pessoais através da obediência a normas e da prática de rituais e oferendas. Tal deus se parece muito com Mamon, o deus das riquezas desse mundo, descrito por JESUS. 


    É surpreendente ver que há correlações entre o ensino da feitiçaria xamanica descrita por Castaneda com o ensino de Jesus, muito embora, trate-se de visões de mundo e vida e métodos completamente opostos, diga-se. Entretanto, ambos salientam a seus discípulos a necessidade do desprendimento desse mundo e suas necessidades e até mesmo um distanciamento das relações do núcleo familiar e um estreitamento de laços com um grupo mais restrito e fechado. O caminho para a "liberdade" total passa por reordenar a vida num processo interior cujo objetivo é limpar todo capricho, toda carga emotiva negativa, toda mediocridade e mesquinharia de uma vida desvinculada de um propósito maior. A realidade para o guerreiro é a energia do infinito, a qual ele usa para libertar-se desse mundo. 


    De modo parecido, JESUS salienta a necessidade daquele que o segue de se libertar das paixões da carne e daquilo que nos parece importante para viver, mas que na verdade não passam de convenções humanas que nos tornam melindrosos e inúteis para discernir o que realmente é importante. Em ambos os casos, trata-se de limar da vida o verniz social exigido pela civilização para sermos aceitos em sociedade, reduzindo ao máximo nosso dispêndio de energia para manter as "aparências" e aplicando essa energia para conhecer o desconhecido, o lado da vida humana relegado ao esquecimento. Em ambos os casos, ter menos é possuir mais, somente que os objetivos de cada um levam a metas completamente opostas, como deve ser evidente.


    Na cosmovisão dos feiticeiros exibida por Castaneda, o universo é frio, cruel e impessoal e em sua busca por acumular poder, ou energia, o guerreiro vai se tornar igual àquilo em que acredita e, por isso mesmo, algo diferente de um ser humano, pois o seu objetivo final é a única coisa que importa. As disciplinas de JESUS, entretanto, visam tornar o homem mais humano do que nunca foi. 


    Neo, O "Escolhido"


    O tema mais central da trilogia Matrix gira em torno do "despertar" do personagem Neo para seu destino e missão como o "Escolhido" para libertar os humanos e guia-los para fora da escravidão da Matrix. Da fase de  inicial relutância, vemos o personagem de Keanu Reeves crescer em convicção de que realmente sua vida tem um propósito com o qual ele sequer sonhava anteriormente. O mito do "escolhido", do herói com um destino traçado pelos deuses para redimir um povo de alguma condição de inferioridade através de sua vida está presente em todas as grandes culturas e pavimentou o caminho para que o cristianismo fosse tão bem aceito como foi pelas mentes greco-romanas, apesar da estranheza inicial causada pela crença em um enviado de DEUS aceitar morrer pelas mãos de homens.


    Os sumérios tinham Gilgamesh, os egípcios Osiris e Horus, os nórdicos, Thor, os gregos, Hércules, Teseu, e etc,etc...Pelo lado semítico, temos os personagens bíblicos como Moisés, Sansão e Davi. Em comum, todos esses personagens eram seres humanos, ou melhor, semi-humanos, ou semi-deuses, frutos de um semente divinal misturada ao barro humano, o que os capacitava a realizar tarefas às quais os meros mortais não estavam aptos. No ramo semítico, tais "escolhidos" eram simples mortais mas com a imensa diferença de terem sido comissionados e capacitados para suas tarefas pelo DEUS YAHWH hebraico. Sua aparição estava sempre condicionada a tempos difíceis e turbulentos onde suas habilidades e mesmo suas vidas seriam exigidas para que um bem maior sobreviesse à raça humana. 


    O roteiro dos irmãos  Wachowski explora muito bem esse mito tão entranhado na psique humana, o qual se repete sistematicamente na grande maioria dos filmes de grande sucesso de todos os tempos como a trilogia Senhor dos Anéis, Guerra nas Estrelas, entre outros. O velho e bom maniqueísmo, uma boa batalha entre o Bem e o Mal, parece ser esse o grande tema ao qual inconscientemente nos sentimos mais atraídos, mais até do que o amor romantico. Aliás, a série de Tv de maior sucesso de todos os tempos, LOST, também provou ser uma história digna desse filão, pois a ultima temporada deixou claro que ninguém naquela ilha poderia ficar sem escolher de qual lado estava. 


    Por que será? Será que isso é uma projeção da real batalha que se desenrola dentro de nós no espaço de uma vida? Será esse o anseio por descobrir quem realmente somos e ascender para um degrau mais elevado de existencia deixando para trás todas as mesquinharias mundanas em troca de uma existencia de real significado e valor? Serão esses os dois polos para os quais nos sentimos atraidos que determinarão quem realmente somos?


    Matrix está cheio de referencias ao conceito do "Escolhido", do Messias esperado. Neo não é um "tipo" perfeito de Cristo, mas muitas passagens de Matrix nos remetem a história dos Evangelhos e nos fazem pensar se os irmãos Wachowski o fizeram intencionalmente, e certamente o fizeram. O próprio nome do personagem está repleto de significados escondidos.  O nome do personagem de Keanu Reeves é Thomas Anderson e podemos observar que Neo, palavra latina que designa "Novo", é um anagrama formado por tres letras presentes no sobrenome do sr. ANdErsOn. Em inglês, podemos formar com essas tres letras a palavra ONE, ou seja, Escolhido. ThOmas ANdErson vivia uma vida dissoluta antes de encontrar o propósito para o qual nascera, descobrir a realidade sobre o mundo e si mesmo e assumir sua verdadeira natureza como O Escolhido. Só então ele se tornou Neo, ou seja, O Novo, o Renascido. Ele se tornou aquilo que ele já era dentro de si mesmo. Eu não acredito nas fábulas dos evangelhos apócrifos que descrevem Jesus como uma super criança fazendo milagres aqui e acolá, mas acredito que Jesus foi se tornando autoconsciente de sua natureza a medida que crescia, lembrando-se, por assim dizer, de sua natureza e missão. 


    Vejam essa imagem tirada do primeiro filme: 





    Na parte superior da imagem ,acima do nome da "Nave" Nabucodonozor, lemos Mark III, nº 11, ou, Evangelho de Marcos, capítulo 3, verso 11, onde lemos: 


    "Até mesmo os espíritos imundos se prostravam diante dele e clamavam dizendo: Tu és o Filho de Deus!" Curioso, não?


    Quando Neo morre alvejado pelo agente Smith, outro personagem extremamente importante tem uma atuação capital: Trinity, em portugues Trindade, ou Tríade. Ora, em tratando-se de teologia é dito que o Espírito Santo é a terceira pessoa da Trindade, logo, Trinity representa o papel do Espírito Santo, o qual, quando JESUS estava morto, o ressuscitou numa nova nova natureza além da carne mortal. Há uma ligação amorosa entre Neo e Trinity, no filme uma relação amorosa normal entre homem e mulher,  o que não afeta em nada a analogia que estamos tecendo. Já foi amplamente escrito por muitos teólogos que a Trindade representa uma relação de Amor Ágape entre as tres pessoas de DEUS, Amor incondicional do qual só podemos fazer uma vaga idéia usando a imagem da paixão sacrificial a que os amantes podem se expor. Trinity diz a Neo que ele não pode morrer por que ele é amado  porque ele é o Escolhido de fato. É nos dito nos Evangelhos e nas cartas paulinas que JESUS entregou-se à morte por amor de nós, mas não poderia permanecer morto pois era Amado por Deus. O Poder do Amor é maior que o Poder da Morte, ou como diz em Cantares "O amor é forte como a morte". Trinity o beija, o milagre, o  impossível, acontece. Neo ressurge com poderes além da imaginação e agora pode alterar a realidade das coisas. "É me dado todo Poder sobre o céu e a Terra", exclama Jesus após a Ressurreição. 


    Podemos tecer outro simbolismo com o personagem Cypher que faz o papel do traidor, o Judas da trama. Cypher é cifra em inglês, que nos faz lembrar das trinta moedas da traição, mas também corresponde a zero, ou seja, Neo é o número 1 e Cypher o numero 0, os dois dígitos usados no sistema binário de computadores, postos juntos, mas opostos um ao outro. Os dois se atraem e se repelem mutuamente. Cypher sente atração por Trinity mas eles estão em polos diferentes, o que significa que o principio que atuava em Judas desejava o Espirito que habitava em Cristo, mas não podia compreeende-lo e aceita-lo, o que o levou à morte e à ruína.


    Algo muito importante ocorre no final do primeiro filme: Neo "mergulha" para dentro do agente Smith, que representa o controle total do sistema Matrix, e o despedaça. Em Isaías 53,12 lemos: "...Porquanto derramou sua alma na morte..." Qual seria o resultado do derramamento do princípio que doa vida a tudo dentro do princípio que encerra toda atividade? A morte do Messias, do Escolhido, do Herói que carrega dentro de si a semente de vida dentro do ventre do dragão ou da terra, tem sempre o sentido de inverter o fluxo. Em todos os mitos anteriores ao cristianismo, a morte do heróis comunicava um dom, uma dádiva de vida aos homens e o ressurgimento do Herói sob outra natureza. 
    Neo Transfigurado em Matrix Revolutions


    No caso do roteiro do filme, o ato de Neo gera um evento de magnitude apocalíptica: de forma inesperada, o Agente Smith retorna no segundo filme como uma anomalia incontrolável que em breve irá solapar toda ordem da Matrix e obliterar todas as coisas. Neo pôe em marcha com seu ressurgimento, acontecimentos que não podem ser revertidos e que mudarão para sempre todas as coisas, talvez devolvendo ao Universo a ordem que possuia antes. Mas antes, a anomalia chamada Smith terá que ser neutralizada. Smith representa o Caos, o Nada, a Entropia que ameaça obliterar o Universo e todas as dimensões conhecidas reduzindo tudo a uma indiferença, um nada abissal. Smith é o Apocalipse em andamento, uma sequencia de eventos inevitáveis mas que tem como unico propósito trazer as coisas de volta ao seu eixo original, um remédio amargo cuja dose deve ser estritamente controlada para evitar maiores danos.


    Dentro dessa complicada equação, não podemos nos esquecer do personagem chamado Arquiteto. É sabido que os maçons designam Deus como o Grande Arquiteto, mas aqui O Arquiteto é o poder que organizou e gerencia a Matrix para escravizar os humanos. Na Bíblia, JESUS aparece em oposição a um poder semelhante, chamado por ele de Príncipe deste Mundo, o qual parece ter poder sobre aquilo que acostumamos chamar de "realidade" (ver Mateus cap. 4; Marcos cap. 1 e Lucas cap. 4). Paulo refere-se a este "poder" como sendo o "deus deste século" o qual tem cegado os homens para a realidade espiritual. Ora, qual seria o poder de um deus senão o de construir uma realidade, ainda que falsa, um "mundo" com suas próprias leis?


    Segundo o Arquiteto,  o Escolhido não passa de uma anomalia inevitável, o qual já era esperado pelo sistema, que há muito trabalha para absorver a Verdade de sua vinda e assimilar tanto quanto possivel o impacto de sua passagem. Essa também é uma realidade observável em nosso mundo. A religião organizada trabalhando juntamente com outras instituições, absorveu e assimilou a vinda do Escolhido, diluindo sua Verdade e imiscuindo idéias falsas no meio, que anularam o poder original da mensagem, extremamente subversiva para o sistema vigente. Tudo se passa como se nada tivesse realmente acontecido e o "mito" do Escolhido, contado tantas e tantas vezes durante a história humana, não passasse de uma fábula gerada por nossos subconscientes. Mas uma cadeia de eventos em cascata foram desencadeados. 


    A perfeita ordem da equação matemática da Matrix será posta em cheque pelo Caos que ameaça a própria existência de tudo que existe e que só poderá ser contida por Aquele que tem a chave correta para para-la, Aquele que está além da Matrix.

    O final da trilogia deixa em aberto a questão se houve realmente uma vitória do Escolhido. O triunfo de Neo não significou o fim da Matrix e a maioria dos humanos continuam escravizados e tudo parece estar como sempre esteve e isso nos remete de novo à nossa realidade. A questão é: Qual o valor dessa vitória? Se JESUS é o Filho de DEUS que venceu a morte para por um fim ao reinado ilusório do falso deus, por que tudo permanece como antes? Por que Neo não destruiu a Matrix? Por que não vivemos já num mundo redimido do sofrimento e da morte? Eu posso te responder citando Eclesiastes: "...Há tempo para todo propósito e para toda obra" , mas logicamente, isso não nos satisfará. Queremos um Apocalipse bélico onde nossos inimigos sejam destruídos e punidos para sempre, a vitória épica definitiva sobre as hostes inimigas e a decretação da Eternidade beatífica. 


    Talvez, o final idílico de Apocalipse e seu tom triunfal sejam emanações e projeções do nosso desejo de vivermos completamente seguros, longe de todo tipo de mal, mas nem por isso é fácil de imaginar, pois somos condicionados sempre a pensar em termos dualistas. Nossa mente limitada não consegue conceber a luz sem qualquer presença de sombra, nem o Bem sem a oposição, a resistencia de um Mal qualquer. Não conhecemos a Bondade Verdadeira assim como não conhecemos a verdadeira Maldade e muito menos o verdadeiro Amor. A Verdade continua para além do véu da Matrix, é lá que nos veremos como realmente somos. Quando deixarmos de ser duais e nos tornarmos como Ele, novos e unos com a Fonte, a Origem de tudo. 


    Afinal, será isso possível ou só mais um sonho programado dentro de nós por aquilo que nos mantém presos a essa realidade? O que você acha de tudo isso? Ao menos agora, você está apto a enxergar a teia que te enreda passo a passo e pode começar a tomar decisões que o levarão a desencadear certos eventos em sua vida. Comece a pensar diferente a respeito daquilo que te ensinaram até hoje!!Mude sua mente já!!!







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