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DEUS E O DIABO NA ILHA DE LOST

Cartaz de Lost na 6ª temporada - Última Ceia (qual o seu papel nela?)
Há muito tempo vinha pensando em escrever algo sobre a série Lost, desde o seu épico final em 2010, mas, cheio de dúvidas após tanta coisa que escreveram sobre a série e sua mitologia, achei que seria chover no molhado sem acrescentar nada relevante  da perspectiva de onde observo todas as coisas, ou seja, da minha trincheira espiritual. Após três anos de seu final, a série criada por J.J. Abrans e Damon Lindelof continua repercutindo e deixando as pessoas pensando sobre o significado e os propósitos dos fatos narrados em seus 120 capítulos, muitos deles memoráveis, com passagens de inegável inspiração para um seriado de TV e personagens tão profundos psicologicamente que nos deixavam vislumbrar as matizes de suas almas. Nada como bom entretenimento, que cumpre a tarefa de entreter mas ainda traz dados para refletir.

Depois de seis temporadas como não se emocionar e se identificar com o desfecho das turbulentas vidas de caras com o carisma do Hurley (quem não deseja um amigo como ele?), Sawyer (cara de mau-mau e coração de Cinderela), Kate (eta mulherzinha indecisa), Locke (que sina, cara!) ou o Jack (o protótipo do herói), só citando os mais proeminentes, mas sem esquecer dos outros, igualmente importantes na trama. Meu personagem preferido era o Desmond, interpretado por Henry Ian Cusick (I- "broder") (II - ele inclusive já interpretou JESUS no filme "The Gospel of John"!!!Eu sabia que já tinha visto aquele rosto antes e realmente achava que ele daria um bom Nazareno, não sei porquê!!) (III - mas como nem tudo são são flores, Henry enfrentou uma acusação de assédio sexual durante as gravações da série!!!), com toda sua capacidade de redemir a todos de uma situação perdida mesmo sem saber o porquê. Infelizmente, no Brasil a Globilônia conseguiu estragar tudo novamente e o grande público ficou sem poder assistir esse marco da televisão mundial num horário decente, confinando sua exibição ás madrugadas de domingo (horário ridículo pra uma série com tamanhas implicações).
O ator Henry Ian Cusick como JESUS

Mais do que bom entretenimento, os criadores da série colocaram em pauta questões profundas e talvez a maior delas seja: Qual é sua visão da vida? O que te motiva? O que você faz quando as forças da vida te impelem para esse ou aquele lado? Que partido você toma? 

Logicamente, aqueles que só conseguem pensar dentro da caixa evangélica em que encaixotaram seus cérebros vai repelir esse post, pois considera que DEUS abandonou o mundo à própria sorte e que Ele não pode usar nada que existe na "Matrix" para acordar alguns do sono da morte. Por meu lado, aqui na trincheira, enquanto defendo minhas linhas e disparo um ou outro tiro, aprendi a observar as coisas de outra perspectiva, como está escrito "Examinai Tudo, retem o que é bom"! Fico com a visão de C.S. Lewis que disse "Posso crer no cristianismo como creio no Sol, pois através dele posso enxergar todas as outras coisas". Através da Luz posso discernir todas as outra coisas sem ser absorvido pelas trevas. Não entendo porque os cristãos se protegem e se defendem tanto quando deveriam colocar as coisas em perspectiva e fazer a síntese de tudo através do conhecimento de Cristo e construir as pontes necessaria para que não fiquemos isolados em nossa própria ilhota, como se fossemos os Outros, odiados, temidos e evitados (não sem razão, eu diria). Mas, esse é outro assunto...Voltemos àquela estranha ilha, maldita para muitos, sagrada para outros.

Desde seu início, a série deixou claro isso e ninguém poderia ficar alheio sem escolher seu lado. Somente em meio às  crises conseguimos realmente saber do que somos feitos. Crise é o lugar onde as máscaras caem e somos quem somos realmente. Assim, a ilha é uma metáfora, sobre a vida e o mundo e sobe nossos jogos sociais de aparência. A sociedade e o mundo ao redor nos pressiona para encenarmos os personagens a que parecemos destinados, mas quando algo parece dar errado, em meio ao improviso, aparece o verdadeiro eu.

Jacob e "Esaú" jogo eterno 
Como no jogo de gamão encontrado por Locke logo após o desastre, que ele ensina ao Walt, jogo análogo ao que o irmão de Jacob encontra muito tempo antes na praia, e no qual encontramos a definição perfeita do significado do "jogo" ali disputado: dois lados de cores diferentes, em lados opostos, suas decisões, suas jogadas, dependem não unicamente da sorte, mas da estratégia adotada e elas definirão quem vocé é de verdade.

 A oposição das forças como disposto no tabuleiro em pedras pretas e brancas, nos remete ao dualismo, visão metafísica adotada em alguns círculos místicos, como o zoroatrismo e o gnosticismo, o que nos mostra o objetivo dos autores com a trama. Assim expressou-se C.S. Lewis (outra vez!)sobre o dualismo:
"Existem só dois pontos de vista que conseguem contemplar todos esses fatos. Um deles é o cristianismo, segundo o qual estamos num mundo bom que se perdeu, mas que ainda assim conserva a memória de como deveria ser. O outro ponto de vista chama-se dualismo. Dualismo é a crença de que, na raiz de todas as coisas, há duas forças iguais e independentes, uma delas boa, a outra má. O universo é o campo de batalha no qual travam uma guerra sem fim. Creio que, ao lado do cristianismo, o dualismo é a crença mais viril e sensata existente no mercado. Porém, traz em si uma armadilha." - C. S. Lewis em Cristianismo Puro e Simples

Ainda segundo o entendimento de Lewis, um dos maiores apologetas cristãos do último século, que defendia o cristianismo nos círculos intelectuais de uma Europa assolada pela Segunda Guerra e que, no auge da popularidade, teve suas palestras transmitidas  pela estacão britãnica BBC de rádio( Mensagens que se transformaram, mais tarde, no livro citado acima) a fim de estimular as tropas e a população inglesa a encarar o mal pelo qual passavam de uma maneira diferente e engrandecedora, "o cristianismo é bem mais próximo do dualismo do que as pessoas imaginam...O cristianismo concorda com o dualismo em que o universo está em guerra, mas discorda que seja uma guerra entre forças independentes. Considera-as, antes, uma guerra civil, uma rebelião e afirma que estamos vivendo na parte do universo ocupada pelos rebeldes".

Isto posto, uma das coisas que mais sobressaem quando ficamos mais a par da história de cada um dos "losties", é a necessidade desesperadora que cada um deles tem de redenção. Escolhidos a dedo por Jacob (falaremos sobre ele e seu irmão mau depois), cada um deles deixa para trás uma vida que não se pode chamar exatamente de uma vida bem sucedida. Todos, sem exceção, precisavam e clamavam internamente pela oportunidade de uma segunda chance, de fazer a coisa certa dessa vez e não chutar o balde como sempre. Essa é, invariavelmente, a condição humana na idade adulta. Um a um, os segredos de cada um vão sendo revelados numa espiral de mentiras veladas, traições, falhas de caráter, traumas, violência, rejeição, etc.

Decisões foram tomadas em certos pontos cruciais da jornada que não podem ser revistas e agora temos de conviver com os seus resultados, nem sempre desejados, e muitas vezes, desastrosos. O caráter irrevogável das escolhas feitas no decorrer da trama e seus desdobramentos para mal ou para o bem torna patente a lição de que não estamos prontos para entender todas as forças que estão envolvidas no processo chamado vida, mas devemos estar cientes de que não são forças cegas, mas que nos guiam a um objetivo. Cada um esteja seguro daquilo que está sendo ensinado. A vida é uma teia e quanto mais nos debatemos, mais ficamos imobilizados. Alguém disse "Não andeis ansiosos por nada nesse mundo", lembram?

Enfim, depois de tanta especulação sobre o que era a ilha e todos os seus mistérios, monstros e números e etc, acho que podemos afirmar, já que os autores também não mostraram interesse em desmistificar ou esclarecer nada, no que eu concordo, que tudo gira em torno da eterna luta entre o Bem e o Mal. Se a visão do autor não é exatamente cristã, mas espiritualista, em seu desfecho final, no mínimo, usou muitos elementos fundamentalmente cristãos que dão no que pensar.

Por exemplo, o sobrenome de Jack é Shephard, ou seja, pastor em inglês. Um pastor é aquele que guia as ovelhas, que as protege e cuida dos seus ferimentos, e esse papel coube a Jack desde o início. Sem falar no nome do seu papel, Christian Shephard, "Pastor Cristão", tão flagrante em inglês que valeu uma piadinha da Kate na sexta temporada, em meio àquela salada das realidades paralelas: "O nome dele é esse mesmo?", perguntou a sardenta. Como se não bastasse, a bela cena final da sexta temporada mostra o tal pastor cristão dentro de uma igreja, na qual todos se reencontram, abrindo as portas do paraíso (??) aos "losties", finalmente redimidos de suas vidas sofridas.

Outro personagem bastante interessante e que faz farto uso de referências cristãs era o Mr. Ecko, com seu cajado de pastor cheio de inscrições biblicas inclusive a memorável passagem de João 3.5, sobre o novo nascimento, o qual ele experimenta depois de se arrepender pelo mal causado ao irmão abraçando a sua fé e seu ofício.

Bom, como todo mundo deu seu palpite sobre o que eram aqueles malditos numeros do Hurley (4, 8, 15,16, 23, 42), os quais também aparecem em todo lugar durante o seriado, também vou dar o meu. Para mim, o autor simplesmente usou o números dos salmos correlatos na Bíblia!!Por que não? Todos eles são salmos bastante notórios pela força das súplicas de Davi a DEUS para que o livrasse das mãos dos seus inimigos e da expectativa de redenção que eles guardam. Quem não se lembra do Salmo 23, o salmo do pastor, hein? 

TIPOS DE LIDERANÇA

Os polos opostos são manifestados nas pessoas de Jack e Locke, no caráter e no tipo de liderança que ambos tentam exercer. Jack representa a imagem do lider ideal, altruísta, destemido e justo, alguém que gostaríamos de seguir, tentando ser prático e organizando os sobreviventes na expectativa de sairem da ilha, já Locke, sempre obscuro e enigmático, de intenções ambíguas, sente na carne (um verdadeiro milagre!) que não está num lugar comum e desde o início não pensa em sair da ilha mas descobrir o propósito que o trouxe ali. É um homem de fé, mas desesperado por aceitação e que não vai medir esforços para chegar onde deseja, assim sendo, seus critérios de julgamento ficam prejudicados pelo afã em descobrir algo que falta em sua vida, se abrindo à manipulação de qualquer força que se apresente como guia para esse propósito.

Como está escrito em Provérbios 21.2 “Todos os caminhos do homem lhe parecem justos, mas o Senhor pesa o coração”

Na verdade, a mesma força que se manifestou a Locke, tentou exercer uma influência semelhante em Jack, assobrando-o com o desaparecimento do corpo de seu pai, o qual ele realmente viu andando em direção a mata logo depois do acidente. Mais tarde, revelou-se que se tratava do irmão de Jacob, assumindo formas e operando prodígios a fim de influenciar as pessoas para seu propósito. É interessante notar como o modo de ver as coisas vai levar esses dois personagens a desfechos diferentes e como as circunstancias mudam substancialmente a maneira de Jack enxergar seu papel no drama, tornando-o de cético num homem de fé, tentando convencer outros de que deveriam voltar à ilha para cumprir seu propósito até o fim. O sacrifício de John Locke, que acreditou até a morte em seu propósito, abriu os olhos de Jack para a inutilidade de se opor a essas forças e que parar de resistir às correntezas faria tudo fluir de verdade. Aqui cabe um parenteses: Terá sido por acaso que o autor não deixou Locke se matar, mas fez com que um espavorido Ben aparecesse para fazer o trabalho sujo? Lembremos que na tradição cristã, o suicida, o extremo homicida, segundo Chesterton, não tem esperança de redenção.

Por falar nele, não podemos deixar de lado a figura de Benjamim Linus, o lider dos famigerados  "Os outros". O personagem interpretado magistralmente por Michael Emerson, se tornou um dos ícones da série, e como todo vilão das histórias de luta entre o Bem e o Mal, amado (porque a história não seria o que é sem ele) e odiado na mesma proporção ("Putz...não acredito que ele fez isso!!" é a expressão mais comum quando se fala de Ben Linus). Só que, como em Lost as coisas não são tão simplistas, Ben não tem somente um lado mau, as forças quase se equilibram nele e podemos ver muitas vezes nele boas qualidades. Mas uma infância traumática (criado por um pai que o culpava pela morte da mãe no nascimento) produziram cicatrizes profundas em sua personalidade que definiram seus métodos de ação manipuladora e julgamento distorcido. Mais do que isso, a necessidade de ser aceito por um grupo trouxeram a ambição de se tornar um lider, o que se tornou o fiel da balança para ele, fazendo as coisas penderem para o seu lado sombra.

Podemos traçar uma analogia entre a liderança de Ben entre os Outros e as lideranças humanas que encontramos em ambientes "religiosos". Não se sabe como, isso não ficou bem explicado, mas Ben ascendeu à uma posição de liderança quando presumiram que, em virtude dele ter sido curado dentro das ruínas do templo após ter sido baleado por Sayd numa daquelas curvas temporais da quinta temporada, a ilha tinha um propósito especial para ele. Além do mais, ficamos sabendo que ele nunca esteve em contato com Jacob, mas que aquele que conversava com ele na cabana era o homem de preto. Não sei como ele conseguiu convencer Richard Alpert, o verdadeiro homem em contato com Jacob na ilha, mas creio que isso foi mais uma daquelas situações permissivas bem ao gosto do Jacob (pode crer, ele agia como se não se importasse com muita coisa que tava rolando e isso me irritava tanto!!), mas a verdade é que Linus, como novo lider, acreditava estar no rumo certo, protegendo a ilha e seu povo ao mesmo tempo e trazendo algumas inovações progressistas, se apoderando da parafernália científica da Iniciativa Dharma e seus recursos enquanto recebia instruções, na verdade, do poder que queria destruir a Ilha!!!

O fato é que Linus nunca foi realmente escolhido para a função, sendo apenas um peão no jogo até que chegasse um homem como Locke, que possuia algo que Linus não tinha, algo que o homem de preto (porque raios não lhe deram nome???? Alguns passaram a chama-lo de Nemesis mas eu prefiro Esaú, o irmão de Jacó na Bíblia!!) queria corromper. Essa é outra premissa da série. Os "losties" foram escolhidos desde a infância por Jacob e trazidos à ilha como muitos antes deles. Como é dito em "Ab Aeterno", episódio crucial da sexta temporada, por Jacob, ele sempre acredita que essas pessoas possam escolher o certo, o bom e o justo (como na ocasião de seu assassinato por Ben, revelado por Miles em "Dr. Linus", sétimo episódio da sexta temporada, de que até o último momento ele tinha esperança de estar errado sobre Ben). Assim, Esaú jogava do lado contrário, acreditando que todos são corrompíveis e que não há virtude alguma, nem propósito maior algum envolvido em proteger a ilha e a força que ela guarda.

"O que aquele homem que mandou você me matar acredita que todos são corruptíveis  porque é da sua natureza pecar e eu trago pessoas aqui para provar que está errado, seu passado não importa" - Jacob em "Ab Aeterno";

Chegamos, portanto, ao centro da trama e seus personagens mais simbólicos e enigmáticos, aqueles que movimentam as peças no tabuleiro. Mas antes, uma pergunta: Que tipo de liderança temos visto atualmente e quais vozes tem nos guiado?

ESAÚ E JACÓ



Quem são? Qual a origem de seu poder? São deuses? Imortais? O que representam na verdade? Como muitas coisas na série, muitas dessas perguntas ficaram sem respostas, pelo menos daquelas respostas bem explicadinhas ao gosto do grande público. Embora presentes desde o início da trama, principalmente o "opositor" na figura do "Monstro de fumaça", ambos os personagens vão se materializando aos poucos nas últimas temporadas, saindo do terreno nebuloso do mito para tomarem o papel central da trama, tendo suas história e trajetórias trágicas reveladas somente na última temporada no episódio ??
Em primeiro lugar, há que ser dito que toda e qualquer analogia é imperfeita, guardando semelhanças e diferenças dos modelos originais a partir dos quais se traça um paralelo. Lost, seus personagens e seu roteiro presta-se a vários tipos de analogia com o terreno da fé, mas não é um tratado teológico da fé cristã propriamente dita. Os autores não tentam explicar a origem do Bem e do Mal, mas fazem o enredo recuar o bastante na história para que possamos refletir que essa luta já se desenrolava na ilha muito antes da chegada dos dois irmãos, por ocasião de um naufrágio, provavelmente de um navio romano, visto ser essa a explicação para os Outros falarem latim.


A presença da arquitetura egípcia na ilha através da colossal estatua de Taweret (deusa crocodilo dos egípcios e relacionada ao ciclo de fertilidade do Nilo e protetora da fertilidade nas pessoas) e do templo onde repousa Nemesis, o montro de fumaça, ou Lostzilla, como a comunidade 'lostie' acosotumou-se a chama-lo, denota que tal drama já se desenrolara ali há  muito com outros personagens. Aliás, não foram muitos que atinaram para  o fato de que os hieróglifos mostrados dentro do templo dão conta de que tanto a entidade egípcia Anubis, guardião do reino dos mortos, quanto  o "Fumacinha" mantinham um tipo de parceria não detalhada na trama. O que nos leva a concluir que  o tal monstro não era simplesmente o irmão de Jacob redivivo mas ALGO MAIS usando sua forma e seu desejo de escapar da ilha. Isso é bastante interessante pois abre um leque muito grande de opções para os roteiristas trabalharem numa história pretérita da ilha, quem sabe na Antiguidade!! Que tal seria, hein?
Anubis, guardião do reino dos mortos e 'Lostzilla" = parceiros no Caos

Qual a relação entre Anubis, o guardião do mundo dos mortos no panteão egípcio e o monstro de fumaça e Taweret? Mais uma vez, vemos que os autores recorreram a mitologia para representar essa oposição entre trevas e luz. Taweret simboliza as forças naturais da vida, que regulam os ciclos de fertilidade, tanto das pessoas quanto das águas e tudo o mais, por isso Jacob, como guardião da ilha, morava sob os pés da sua estátua, em seu templo. As forças negras do homem de preto representam Anubis, em estreita relação com o poder da morte em oposição ao ciclo da vida, trazendo infertilidade às pessoas e desejando apagar  a luz não só no centro da ilha, mas no coração de todos os homens. Com efeito, vemos que o avançar do poder das trevas entre os homens, pelo aumento da influência do homem de preto sobre a ilha e seus habitantes, principalmente após o início da liderança de Ben, trouxe como  consequência inicial um período inexplicado de infertilidade entre as mulheres residentes.

Não é explicado a origem do poder dos irmãos (e muito do que realmente aconteceu ali quando ele jogou seu irmão dentro do poço de luz no centro da ilha), particularmente de Jacob, para influenciar, atrair e mudar o rumo da vida de tantas pessoas, mas seu método, mesmo parecendo tortuoso, possui critérios bastante interessantes e elevados moralmente falando:
“Não roubei ninguém de uma existência feliz. Estavam todos afundando em problemas...” - em “For what they died for”. 

Ele diz ainda que Kate foi riscada da lista de candidatos a substitui-lo porque havia se tornado uma mãe para o filho de Claire, Aaron. Embora ciente de tudo que estava em jogo, sua permissividade em situações críticas quando tudo parecia a beira do colpaso era realmente irritante.

“Quero que ajudem a si mesmos, que distingam o certo do errado sem que eu os ensine. Perde o sentido se devo força-los a algo...Por que devo me intrometer?”, pergunta a um atônito Richard Alpert, que responde, de modo bastante sincero: “Porque se você não faze-lo, ele (Esaú) vai!”.

Não é verdade que pensamos assim também com relação a DEUS e seu modo de agir com relação ao Mal? Não achamos que Ele faz pouco para impedir o avanço dos desígnios malignos no mundo? Quantas vezes me pego pensando que isso já durou muito? Basta dar uma olhada nos noticiarios para que sejamos assaltados pela maldade humana e indagarmos como o salmista: “Até quando, SENHOR?”.

Então, vemos que Jacob escolheu os ´losties´e os recolheu do mundo (hummm, sugestivo) colocando-os juntos num único lugar, como numa arca (???!!), a fim de faze-los aprender as lições que realmente importam na vida e cuidar uns dos outros, aliviando a bagagem um do outro. Não sei se isso faz algum sentido para você, mas para mim faz. Somos todos diferentes, mas somos também muito parecidos, muito cabeçudos, obstinados, egoístas. Temos que ser tirados do nosso centro, do nosso mundinho todo particular, para que possamos atentar para uma realidade maior além de nós, da pequeneza das nossas vidas mediocres. Aparentemente, o inimigo está lá fora, rondando e espreitando pela melhor hora de atacar, mas, na verdade, quem disse que podemos contar com quem está do nosso lado, ou mesmo nós mesmos? Na maioria das vezes, só conseguimos piorar as situações com nossas opiniões e modo de agir condicionado por nossas visões estreitas. No fim, o que vai valer não é se chegamos ou não no ultimo capítulo, mas como conseguimos chegar lá, desempenhando qual papel. Afinal, somos maiores ou menores do que as circunstancias que tentam nos moldar?

Na minha opinião , Esaú se tornou aquilo que se tornou por não entender e não aceitar o propósito para o qual sua vida foi direcionada. Como Judas, o qual parecia predestinado a cumprir seu papel, não pode  evitar que sua natureza o levasse a escolher algo que culminou em desastre, abrindo as portas para que “aquilo” se tornasse parte do seu ser. Essa é a natureza da pecaminosidade humana. Dizemos a nós mesmos “Farei o que quero do modo como eu quiser e na hora em que achar melhor, sem me importar com as consequências, afinal, não pedi para passar por isso e tenho o direito de decidir”. Assim, fazemos dos erros alheios, como no caso dos irmãos e sua mãe louca, nossos próprios erros, perpetuando o ciclo.
"Um dias desses, mais cedo ou mais tarde...Eu vou
encontrar uma brecha, meu amigo"

Esaú é o industrioso, aquele que ajuda as pessoas a desenvolver técnicas e estimula o progresso do conhecimento nelas. "Eles tem idéias interessantes sobre como usar a energia desse lugar", afirma. Nos meios esotéricos, o lado negro conhecido desde a Antiguidade como Lucifer é o iniciador do ser humano nas artes que o levam a se tornar o senhor da matéria. De fato, nos meios do ocultismo, Lucifer é o verdadeiro iniciador da humanidade, um poder que leva o ser humano a progredir, não um ser em rebelião como nos diz a Bíblia. Mais uma vez, os criadores de Lost acertam a mão em demonstrar que o poder que nos leva ao progresso técnico nem sempre está em harmonia com a ordem natural/divina das coisas. Enquanto Esaú tenta auxiliar  todos os que sonham em se apoderar do poder que há no centro da ilha, Jacob permanece em sua cabana, num estilo de vida aparentemente retrógrado e estagnado, mas, na verdade, plácido e contemplativo.

Em que implicava o aparente inocente desejo de Esaú em sair da ilha? Não parece justo tal desejo? Mas visto que todos aqueles que são atraídos para a tal ilha não conseguem simplemente desistir dela sem tratar todos os assuntos para o qual foram comissionados ( tal como a vida demonstra ser - lembre-se “Dali não saireis até que pagues até o último centavo”) isso parecia virtualmente impossivel. Esaú com o passar do tempo mostrava estar disposto a tudo para cumprir seu intento e pode ter descoberto que não conseguiria a menos que apagasse a luz no centro da ilha, não se importando com as consequências nefastas que isso traria a todos. A vida parece uma grande ratoeira da qual não podemos simplesmente escapar ou ignorar. Fomos colocados numa situação na qual ou aprendemos as lições necessarias e nos movemos em frente ou somos obrigados  a andar em círculos. A tendencia do obstinado quando se vê em tal situação é arrumar qualquer  outra saída, mesmo que seja cavar para baixo, o que geralmente acontece, e a situação se agrava e prolonga-se indefinidamente.

Na vida, só existe um único processo e reconhece-lo nos poupa de muitas dores.

Aqueles que estão no Caminho sabem disso e mesmo aqueles que acham que não estão (mas estão, sim!, porque a própria vida é o processo pelo qual Ele nos ensina), deveriam reconhecer isso. Trata-se unicamente de conhecer a "boa, perfeita e agradável vontade de DEUS", Aquele que deseja que todos nós, justos e injustos, cheguemos a uma vida plena de beleza e integridade. Suas "ratoeiras" (é só uma analogia, visto que desejamos escapar do seu controle e da Sua vista a todo momento) visam unicamente nosso Bem maior. Reconhecer que o processo é o mesmo na vida de todos que nasceram debaixo do Sol, nos coloca numa posição bastante humilde em relação às outras pessoas. Deixamos de ser os juízes das outras pessoas e nos colocamos diante delas como irmãos na jornada, por que o que eu tenho que não tenha sido recebido? Como posso me orgulhar e me sentir superior por algo que não possuo por meus méritos, por minha força ou capacidade? 

Infelizmente, com nossa teimosia, fazemos o processo muito mais duro. Como Bob Munford disse em "Reinando em Vida", o tratamento de DEUS é proporcional à dureza dos nossos corações. A todo momento estamos nos abrindo a algo e sendo conduzidos. Que vozes são essas? Na canção "When Angels and serpents dance" da banda P.O.D., Sony Sandoval canta "Um deve conduzir a dança..Quem está te conduzindo?" Muitos adotam uma mentalidade tipo Ben em sua liderança e acham suas atitudes justificáveis porque estão numa posição em que tem que saber o que fazer a cada passo do caminho e demonstrar fraqueza e dúvida fará com que sua liderança seja enfraquecida. "Eu fiz o que deveria fazer", justificam-se. Outros como Locke, ouvem qualquer voz que lhe digam aquilo que querem ouvir a fim de se  sentirem importantes, não importando se isso os levar a paradoxos morais e éticos.

É muito instrutivo o modo como Jack  teve sua visão transformada de uma visão pragmática e autosuficiente para uma visão metafísica de propósito, se entregando ao processo o qual antes renegava. Como quando acendeu o pavio da dinamite no Rocha Negra juntamente com Richard Alpert e deixou-o queimar até o fim afirmando que nada iria acontecer porque ainda não tinha cumprido sua missão. Isso é o que está escrito no Salmo 118, de Davi: "Não morrerei mas ficarei vivo para anunciar os feitos do SENHOR".

Como os 'losties' fomos cooptados para estarmos aqui e a única opção é fazer as escolhas certas. A ilha é o aqui e o agora, onde nossas vidas se entrelaçam de modo a conduzir-nos ao desfecho. Como na ilha, há Alguém que tem nos  sondado desde nosso nascimento esperando que façamos as escolhas que nos farão aptos a exercer um papel maior e mais significativo do que aquele que a sociedade tentou nos impor e, certamente, há um outro alguém que tentará nos desviar e nos propor seu próprio plano, de que não existe nada de importante nisso tudo, que devemos abandonar essas idéias.



 O que era a ilha 

No início houve muita especulação sobre  oque era realmente a ilha. Uns diziam que era uma espécie de  purgatório e que todos estavam mortos ou mesmo que a ilha era o próprio inferno. Mas Jacob esclarece o que é a ilha em Ab Aeterno, um dos episódios mais esclarecedores de toda série. Usando uma garrafa de vinho, ele traça uma analogia para Richard Alpert: "Pense no vinho como o que você chama de inferno. Ele tem muitos nomes: malevolência, mal, trevas, girando dentro da garrafa, incapaz de sair, porque se saísse, iria se espalhar. A rolha é a ilha, a única coisa que mantém as travas onde elas devem ficar". 

Interessante noção de que o mal, embora possa influenciar os seres humanos, não está presente em sua totalidade porque isso significaria caos, subversão total, aniquilação da existência. A ação de satanás não é desconhecida por DEUS, o qual a mantém em níveis toleráveis, embora a maldade puramente humana frequentemente  manifeste conluio com um mal maior.

Outra fala muito interessante, para mim a melhor, foi colocada na boca do personagem Daniel Faraday quando ele cita que Widmore e os caras da Dharma achavam que  um grande mal só pode ser contido através de um grande poder, mas ele estava discernindo que o que realmente afasta o mal são os pequenos gestos do dia a dia das pessoas, a generosidade, a alegria de viver, etc, se importar com o outro, enfim, a benevolência. Frequentemente, constatamos isso, que o verdadeiro contentamento não está nas grandes realizações, mas nas pequenas, e que elas nos guardam das ambições realmente perigosas e dos sonhos de grandeza que nos afasta da simplicidade e da verdadeira humanidade. Quanto menos desejamos, menos angustiados e impelidos por nossos medos somos.

Podemos comparar a ilha ao Jardim do Éden bíblico, o jardim das possibilidades, onde tudo está em aberto, por resolver, pode-se seguir tanto para a direita ou para a esquerda, embora só haja uma escolha correta. Também é o lugar onde mostramos realmente aquilo que somos e qual nossa real motivação. Estamos despidos diante das forças que nos impelem para esse ou aquele lado. É o lugar onde podemos ouvir a voz da serpente e libertar um grande mal e muitas dores para nós e para os nossos ou escolher ouvir  aquela voz que nos guia a confiar num Poder Maior, que só precisamos aceitar quem somos e tomar nosso fardo com humildade e coragem pois a VIDA é um mistério e um presente muito grande para que a tomemos em nossas próprias mãos. Devemos entregar o controle. Como eu sempre digo, somos sempre levados de volta para aquele jardim, onde a possibilidade tanto de ascensão quanto de queda são reais. Auto-exaltação e auto-controle não são opções reais. São ilusões.

No fundo, na vida, só existe entrega. Somos entregues à vida e devemos nos entregar Àquele que nos entregou a ela, para que sejamos guiados nesse processo. Com que fim? "Lembrar... e esquecer", como diz Christian Shephard na cena final. Lembrar que os momentos de maior crise são aqueles que nos fizeram nos agigantar diante das dificuldades e buscar forças onde não havia. Esquecer é parte do processo de transformação e significa que fomos curados das velhas feridas que nos faziam tão amargos. Lembrar sem esquecer significa que não há lugar para perdão, e sem perdão, não há como seguir adiante.

Essas forças contrárias a nossa noção de conforto e bem-estar são precisamente aquelas que nos levaram a ser mais humanos, mais inteiros, ou não, dependendo do modo como respondemos a elas. No fim do jogo, pertencemos a elas por força da atração. Podemos seguir em frente, o que parece ser o objetivo, juntos, como os 'losties', que como uma verdadeira fraternidade, se encontraram no interior daquela igreja após terem cumprido suas missões. Na verdade, eles foram uma verdadeira igreja para eles mesmos, tomando as cargas uns dos outros, sacrificando-se uns pelos outros muitas vezes e descobrindo que não há maior amor do que dar a vida pelo seu irmão. Não vou me ater a comentários sobre se a visão de pós-vida do autor é espirita ou não. Como disse, como tudo em Lost é metafórico, e focar nisso é perder o poder de sintetizar aquilo que a série trouxe de bom.  Para mim, o que importa é que eles se importavam uns com os outros e o poder do amor demonstrado entre eles os ajuntou para a próxima parte da jornada. 

Não é isso que acreditamos? Não é isso que importa realmente? Ou cremos mais em confissões de fé e declarações demagógicas? Gostaria que nós, como cristãos, vivessemos esse nível de entrega mútua dentro daquilo que dizemos amar, o Corpo de Cristo, porque sem paixão e devoção verdadeira uns pelos outros, ficamos desprovidos do verdadeiro sentido dessa grande aventura e impedidos de seguir em frente. 


Christian Shephard (Pastor Cristão) abre as portas para o Paraiso

Enfim, Lost se tornou o que se tornou porque utilizou-se dos principais arquétipos construtores da mitologia humana que nos guia a um sentido mais profundo de existência: a luta entre O Bem e O mal, a jornada do herói, o autosacrifício, perda e redenção, amor ágape e amor eros, tudo junto e misturado no mesmo caldeirão..ops, na mesma ilha. Essa receita sempre resulta numa boa história, pelo menos aquelas que valem a pena ser vistas, pois fazem parte daquilo que nos impulsiona para além de nós mesmos. Para além de toda dor e lutas aparentemente inglórias, existe sempre a ESPERANÇA de REDENÇÃO COMPLETA, onde todas nossas lágrimas e fome e sede de justiça serão justificadas.

Para terminar uma última pergunta: VOCÊ CONTINUA PERDIDO, "DUDE"?


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