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Eu, um desviado

Frequentemente, quando encontro antigos conhecidos da época de "igreja", ouço a fatídica pergunta: "Você está  em qual igreja?" Quando digo que não estou em nenhuma já há algum tempo já espero pelo comentário "exortativo" típico, do tipo "Ah, mas você não pode ficar assim" seguido por um certo ar de reprovação e indignação indicativos de que o fiel está na reprovável presença de um DESVIADO. Depois de um exame minucioso das razões pelas quais eu deveria me esquivar desse rótulo, argumentando isso ou aquilo, conclui que não passa de um esforço inútil de autopreservação da minha imagem religiosa politicamente correta. Resolvi assumir que ESTOU DESVIADO, SIM, e GRAÇAS A DEUS!!!

Estou desviado dessa religião pseudocristã que inventaram ao longo de dois mil anos à revelia dos ensinamentos contidos nos Evangelho. Me desviei dos rótulos, das divisões, das doutrinas exdrúxulas, dos desmandos dos homens e da hipocrisia reinante num meio carente de mentes verdadeiramente livres. Me desculpe se pareço julgar e condenar as pessoas, mas tenho estômago fraco para dissimulação, ou seja, hipocrisia.  Entenda, não suporto nem mesmo a minha, quanto mais a dos outros.Estou, francamente, desviado da "igrejice", como diria um amigo meu.

Não suporto ouvir palestras onde ouço alguém verbalizar o óbvio, ensinando pela milésima vez um ponto obscuro da Bíblia como regra para um público que já devia, pelo tempo que ouve tais coisas, ser mestre e ensinar outros a VIVER O EVANGELHO, não suporto a fanfarronice e o barulho em torno de tão pouco conteúdo. . Chego até a admirar quem consegue persistir nesse papel, sério. Acho que faltou alguma substância essencial em meu organismo para suportar a tortura de fica anos a fio olhando a nuca do meu "irmãozinho" da frente ou então a eloquência carismática que anseia por segurar um microfone e ocupar o lugar mais proeminente da fé cristã atual.

Não estou aqui para malhar ninguém, escrevo como um exercício vicário, expiando minhas culpas, afinal, não é para isso que existem os blogs? Pessoas comuns, escrevendo suas experiencias comuns, desabafando sobre os mais variados assuntos, enfim, um exercicio psicológico sadio. A internet e, principalmente, a área "bloguística", está cheia de planfletagem hoje em dia, propagandistas. Já tive meus dias de propagandista da fé. Hoje, prefiro escrever sobre aquilo que se passa dentro de mim. Cheguei a cogitar mudar o nome do blog e aquele painel do guerreiro espartano do filme 300, porque ele passa a idéia de que eu, de alguma forma, sou algum campeão da fé e que estou resistindo bravamente às tentações dom mundo. Que nada!!!Se o mantenho é porque nada se assemelha mais a minha vida espiritual do que uma guerra, pois estou constantemente sendo bombardeado e, se não me entrego totalmente, é porque tenho medo de sair da trincheira com tanta bomba caindo lá fora. Ademais, a trincheira ainda é o melhor lugar porque é o lugar que eu cavei para mim mesmo. Só cabe eu mesmo e mais ninguém, na medida que eu não quero convencer ninguém de algo, apenas compartilhar as cartas que um soldado envia do front de batalha onde está ilhado por todos os lados.

A idéia de do subtítulo "Resistindo à correnteza do mundo" também quase rodou pelo tom triunfalista mas resistir não deve necessariamente passar a idéia de triunfo mas somente de que você não foi absorvido emprega algum tipo de força no sentido contrário àquele que querem leva-lo. Um caniço resiste bem a uma ventania ou a uma enchente, embora sofra severos agravos. Estou resistindo da minha maneira, penso eu, embora em muitos momentos tenha a impressão de que estou sendo levado a contragosto. Uma resistência débil, é verdade, em virtude da minha pouca força, não como foi a Resistência Francesa, por exemplo, na Segunda Guerra, mais algo como uma teimosa indignação que se ergue das minhas reflexões.

Não quero que ninguém me siga, pois não estou desejando espalhar alguma doutrina nem fundar um novo grupo de dissidentes desse ou daquele ramo. Depois de sete anos dentro do chamado "cristianismo" tentando criar vínculos reais de amizade, mantendo contatos aqui e ali, não consegui um único companheiro de jornada que não cobrasse nada além de verdadeira empatia, então, cansei e desisti. Alguns animais andam em bandos, porque são mais fortes assim, outros nasceram para andar sós. Por causa da "igrejice" que quase me assimilou nesses anos, perdi o contato com amigos antigos e não granjeei nenhum novo. 

Sigo como um peregrino tentando não perder a trilha em meio ao deserto. Ele, o peregrino, pára aqui e acolá, observa o tempo, a localidade em que se encontra, cruza com pessoas ao longo do caminho, troca algumas informações e, então. segue em frente, só, pois seu Caminho é a única coisa que realmente lhe pertence, nada mais. Não foi lhe dada autorização para se juntar a ninguém e, quer saber, ele está feliz assim, pois está acostumado à solidão desde muito cedo. Foi criado praticamente sozinho, com brincadeiras solitárias e aprendeu desde muito cedo a prescrutar o que havia dentro de si mesmo, de modo que valoriza muito o silêncio, ao contrário da tagarelice da maioria, e e encontra quietude, paz e sentido em suas reflexões, também ao contrário de uma grande parte dos homens, que não se sentem a vontade a sós consigo mesmos.

Tal peregrino considera que está velho demais para fugir de si mesmo, de certas verdades inerentes à sua natureza humana. Ele não quer fingir ser algo que não é ou ter algo que não tem, de modo que o Caminho que ele trilha não é uma fuga da realidade mas a própria essência de sua busca por significado e equilíbrio. Para isso, ele não precisa negar sua natureza, mas, ao contrário, assumir-se como aquilo que nunca deixará de ser: humano. Humano até a raiz e, portanto, fraco até a medula. Aquilo que negamos ser hoje é justamente aquilo que nos fez reconhecer um dia dependentes de uma Graça inefável e que tal sentimento fez- nos render em meio a dor e às lágrimas. Sem dúvida, fomos lavados nesse dia e preenchidos com um novo sentido, um novo espírito, mas para quê? Para nos tornarmos a partir dali fortes e autosuficientes? Para nos tornarmos "príncipes de Israel" como Nicodemos? 

Hoje, já não tenho tantas certezas quanto tinha há alguns anos sobre certas coisas. Para muitos, podem ser questões que valham a pena gastar um milhão de palavras. Para mim, tais guerras verbais são becos sem saída nos quais muitos empenham suas vidas. Eu não.Muitas certezas enrijecem nossos sentidos e invalidam dados que poderiam nos dar novas perspectivas das coisas ao nosso redor. Alguém disse certa vez que nossas mentes são como paraquedas, só funcionam quando abertas. Todo mal que vemos hoje no mundo é causado por uma atitude que se caracteriza por mentes obscurecidas por modos pré-programados de pensar. Tenho mais perguntas do que respostas, não estou contente com as respostas que ouvi e minhas questões invalidam minha presença no meio dos chamados "fiéis". 

Alguns me acusam de ter "dado pra trás" e de hoje refutar coisas em que cri anteriormente, mas a Verdade é que, lá pelas tantas, recebi um choque de realidade que me deu uma estranha sensação de lucidez que não tinha há muito tempo. Talvez eu tivesse esquecido o quanto eu queria que fosse real e do poder do meu cérebro para me fazer acreditar. Acredite, seu cérebro é tão poderoso que pode fazer você esquecer que você mesmo o programou!!

Excesso de lucidez pode ser uma morbidez, segundo os especialistas, e, não raro, leva ao desvario do suicídio. Talvez, por isso, muitos evitam os questionamentos porque eles podem leva-los a um surto de lucidez que vai apagar a programação normal e leva-los a uma onda de desespero suicida. Isso ocorre muito, infelizmente, nos países mais ricos. Já passei por essa fase por volta dos quatorze ou quinze anos quando o peso de existir quase me esmagou. A resposta para mim está em que um grande desespero só pode ser devidamente dosado e contido se equilibrado, temperado, por uma grandiosa ESPERANÇA.

Sofro com meu excesso de lucidez, mas entre as poucas certezas que tenho nessa vida estão o fato de que sei onde devo estar por amor àqueles que Deus me deu para guardar nesse mundo como seu bem precioso o qual ele me emprestou como penhor. Um homem não sabe o que é ser um homem de verdade enquanto está apenas por si mesmo no mundo e não precisa prover ninguém. A outra certeza pertence ao terreno da fé propriamente dita. 

Uma das únicas ortodoxias que mantenho no terreno da fé diz respeito a concepção, vida, morte e ressurreição de Jesus de Nazaré. Para mim, os Evangelhos, todos os quatro, estão corretissimos em sua historicidade e são decorrentes das narrações em primeira mão das testemunhas oculares da Paixão, os apóstolos que conviveram com Jesus durante seu ministério terreno. Estou convencido, de várias maneiras (sendo duro como sou, eu procurei me certificar tanto quanto pudesse dessa afirmação) de que Jesus é de fato quem disse que era. Essa é a Grande Esperança a que me referi antes. Fui criado dentro dela mas ela só me atingiu com a força de uma bomba quando me tornei adulto. Tal advento mudou muito minha forma de ver e pensar sobre as coisas, sarou muitas feridas antigas e me ajudou a completar mais o mosaico do meu verdadeiro eu. Jesus é real para mim como meu Deus pessoal. Ele é meu amigo pessoal, sinto essa afinidade. Ele me completa e eu me sinto aliviado quando olho para ele. Ele é o irmão mais velho que eu quero ser quando crescer. Mais do que tudo, é a figura de homem e herói que sempre desejei para mim. 

Paradoxalmente,  porém, tenho muitas dúvidas hoje a respeito da chamada "eclesia" que ele veio estabelecer, pois não consigo vê-lO ali. Às vezes, fico pensando que a explicação para isso é tão óbvia que nos escapa a compreensão. É lógico que a "eclesia" de Cristo tem que ser o pior lugar para ver gente do porte de Jesus, pois ela é constituída somente dos piores, ou estou errado? Que tipo de gente precisa se converter? Somente as Madalenas, os Paulos, os cobradores de imposto, etc, etc...A maioria acha que a conversão faz a pessoa ficar boazinha, boazinha como um chá de camomila faria com um leão. Dentro das igrejas, me acredite, está a maior concentração de gente problemática do mundo. Como um lugar desses seria são?

Também paradoxalmente, não creio que essa minha fé em Cristo me faça um cristão.

O que me faz de você um "cristão" (não gosto dessa palavra pois também pois não passa de um rótulo, duma descrição de um tipo de comportamento padrão e também porque tenho certeza se ela não foi empregada num sentido meio que jocoso pelos habitantes de Antioquia ( Atos 11,26) para descrever os "fiéis" dali, mas vou usa-la aqui para estabelecer um parametro )? Seria professar que crê no Credo Niceno? Frequentar um templo "cristão"? Ou existe um código de conduta para transformar uma pessoa nisso? E se eu tentar severamente seguir a Cristo, praticando o Sermão do Monte e as prescrições de Paulo, mas falhar miseravelmente (e eu sei que vou) em dado momento, continuarei ostentando um apelido que designa um representante de Cristo na Terra? O leopardo pode trocar sua vestimenta por algo, digamos, mais 'clean'? O escorpião pode escolher não matar sua vítima usando seu veneno mortal quando usar de novo seu aguilhão? Somos o que somos e não devemos nos considerar de outra forma. Invariavelmente, nossas ações, mesmo as bem intencionadas caem no terreno do reprovável cedo ou tarde. Não posso, de mim mesmo, pensar algo tão alto acerca de mim e, dessa forma, rejeito o nome recebido pelos discípulos em Antioquia. Minha consciência me reprova tão constantemente que sinto vergonha por Cristo em ter um seguidor como eu.

Portanto, não é o credo que verbalizo nem o código moral que creio ser capaz de cumprir e pelo qual julgo o resto do mundo que me farão seguir mais de perto o Nazareno. A experiência a qual me referi a qual mudou meus passos não faz de mim um homem bom, talvez melhor de alguma forma, mas muito longe da beatitude. Tal experiência deve, sim, retirar de dentro de nós o dolo, a intenção de errar propositadamente. Seremos fatalmente culpados por nossas consciências em virtude de decisões e escolhas que devemos tomar baseados em nossas percepções de certo ou errado, mas o dolo nos faz errar obstinadamente de modo premeditado. 

Eu me assumo como pecador miserável que sou por minha natureza errática e fraca e isso me envergonha porque gostaria de ser forte para honrar o exemplo Dele. Não posso negar o que sou, mas fui tocado em meu ser de forma que não posso negar A Sua Graça. Creio que o "cristianismo" se desviou desde muito cedo do padrão definido por Jesus como essencial para possuir e herdar o Reino, que é ser "pobre de espírito", aqueles que são loucos e fracos segundo o mundo, os humilhados e desprezados, aqueles que não são. Hoje, os cristãos têm títulos, muitos templos, muito dinheiro para comprar muitas coisas e, segundo afirmam, muito poder espiritual à disposição. Sinto muito não poder dizer o mesmo. Sou muito fraco para estar entre fortes. Talvez sejam meus olhos, mas eu só consegui ver muros derrubados e portas queimadas a fogo, mas não sou eu Neemias, não fui chamado para tal obra.

Eu me assumo como a 100ª ovelha, obstinada o bastante para se arriscar fora do aprisco, em meio a muitos perigos, a viver quieta e sossegadamente entre as demais ovelhas. Se ela preferiu tal sorte talvez seja porque a convivência no aprisco não fosse tão saudável para ela quanto esperava o afetuoso e ocupado pastor. Poderia haver entre as ovelhas certa intolerância e beligerância contra certos tipos de ovelhas que não se encaixam no molde padrão. Nesse caso, quem pode recriminar essa ovelha? As outras ovelhas, com certeza, o farão, mas não  o pastor delas.

"NÃO TENHO A VISÃO MALÉFICA NEM A BEATÍFICA, MAS OUÇO O SOM DE ASAS BATENDO NO PALCO" - Frederick Buechner, citado de "Alma Sobrevivente" de Philip Yancey

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