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Ahhhhh...A Cristandade

Costuma-se chamar de "cristandade" o conjunto de povos, nações e países, que aderiram ao "cristianismo" eclesiastico como cultura, sendo que, em sua maioria, esses povos se encontram no Ocidente. Como cultura de massa, o "cristianismo", ou mais propriamente a Cristandade, foi e continua sendo o maior desastre ocorrido como consequência da disseminação do Evangelho, cometendo em nome dessa "Fé" as maiores incoerências e contradições que, invariavelmente, culminanaram em atrocidades cruéis e derramamento de sangue. 

É interessante, para quem se interessa, como eu, em História e sociologia, observar como o "cristianismo", , pregado originalmente por um bando de renegados galileus e surgido clandestinamente nas entranhas do Império de ferro de Roma, constituído basicamente das classes mais desfavorecidas do status quo dessa sociedade, ao arrebanhar cada vez mais "fiéis", de início entre os escravos e depois entre os cidadãos propriamente ditos, vai paulatinamente, mudando seu discurso e seu modo de agir.

Após tanto tempo de perseguição, tortura e horror, o sufrágio oferecido por Constantino marca o revés definitivo da maré. Os anteriormente párias, renegados por todos como leprosos sociais, já não são simplesmente aceitos, mas passam a ser a regra geral. Do porão à cobertura num piscar de olhos. Da fé dos excluídos, dos vencidos e derrotados pelo sistema do mundo à fé dos conquistadores de Roma, do Deus Invicto que destrona Júpiter e seu séquito. Não mais coroa de espinhos, mas a tiara de folhas de louro dada aos vencedores das guerras e dos Jogos Olimpicos. O efeito psicológico dessa "vitória" do "cristianismo" foi devastador e os "cristãos" nunca mais se recuperaram dela.

Vemos nessa ocasião o fenômeno sociológico que acontece quando uma minoria passa ao status de maioria e de pária passa a administrador das regras pelas quais os outros indivíduos pertencentes à mesma sociedade terão de viver. Há muitos exemplos históricos de que os "cristãos", quando chegaram no topo da escada social, não estavam dispostos a cumprir à risca o Sermão do Monte. Um em particular, merece atenção e virou filme recentemente, Ágora, em inglês, sendo lançado no Brasil sob o nome Alexandria, com a deslumbrante Rachel Weisz no papel principal. 

Trata-se do episódio envolvendo uma certa cidadã alexandrina chamada Hipatia, uma mulher iniciada na Filosofia neoplatonica e nos segredos ptolomaicos da Matemática muito provavelmente por seu pai, o renomado Têon de Alexandria. O nome de Hipatia e sua paixão pelas Ciências foi preservado na História graças a alguns poucos testemunhos históricos como os de Sócrates, o Escolástico, e Hisíquio, o hebreu, este também aluno de Hipatia a Academia de Alexandria, onde ela ocupou a cadeira que antes fora de Plotino.Outro de seus discípulos foi o notório Sinésio de Cirene, que assumiu o posto de bispo da igreja cristã em Ptolomaida entre 409/410 D.C. Sinésio escrevia a Hipatia constantemente pedindo-lhe conselhos. Tais cartas foram preservadas até hoje.

Hipatia era mais do que talentosa, ela possuia um dom e como toda pessoa que tem um dom real, ela sabia que o seu era uma dádiva sagrada que ela oferecia livremente àqueles que a procuravam procurando respostas, negando a si mesma obter com isso qualquer tipo de regalo ou honraria, tanto que entregou sua vida sexual aos deuses, obrigando-se ao celibato como prova de sua entrega total. Os filósofos da época acreditavam que o desejo carnal era uma fraqueza que os distraia das verdadeiras questões essenciais e tornavam-se assim verdadeiros sacerdotes do sagrado diante do povo. O conhecimento era então tido como um ofício sagrado a ser exercido por homens e mulheres com o dom para tal.

O talento, ou dom, de Hipatia alçaram seu nome para muito além da cosmopolita Alexandria, um dos centros nervosos do Império Romano, rivalizando com a capital imperial do Oriente, Constantinopla. Alexandria sempre foi um caldeirão de idéias em ebulição. Em Alexandria, nos anos anteriores à Cristo, foi cunhada a versão ocidental da Bíblia, a Septuaginta, e também lá, já na nossa era, a cidade foi palco da maior contenda interna da história eclesial, aquela que envolveu a disputa entre o Trinitarismo tradicional e os adeptos de Ário, ou arianismo, outra boa história que nos revela muita coisa sobre o cristianismo...

Na época de Hipátia, o "cristianismo" já possuia status de religião da maioria e já começava a botar as manguinhas de fora...o filme retrata bem esse período. Os "cristãos" mais fervorosos, alforriados do temor da perseguição e com liberdade plena para declarar sua fé, ridicularizam os deuses e os cultos pagãos e partem para o enfrentamento público. Porque pregar o amor quando se pode ter tudo usando da força bruta da ignorancia do povo. Trata-se apenas de manipular os fios corretos. Teófilo, o intolerante e beligerante patriarca de Alexandria, foi um desses oportunistas com dom de manipular massas. 

Sob sua inspiração, o imperador romano do Oriente Teodósio, baniu todo culto considerado pagão e permitiu a destruição do templo de Serapis, em Alexandria, o qual acomodava a famosa Biblioteca de Alexandria e a escola de filósofos na qual Hipatia lecionava pelos sequazes de Teófilo. Seu sucessor, seu sobrinho (ora vejam se naquela época já não existiam dinastias dentro das "igrejas"?) Cirilo, tido como um dos mais influentes "pais da igreja" e considerado santo pelas igrejas ortodoxas e romana, esteve no centro de muitas das maiores controvérsias cristológicas de seu tempo. Alguns o consideram um campeão da fé ortodoxa, entretanto, outros o chamaram de "monstro, nascido e criado para destruição da igreja". 

Quem poderá julgar a natureza do homem? Creio que Jesus nos dá uma boa pista para não sermos injustos ao dizer que se conhece uma árvore pelos frutos. A pregação de Cirilo, baseada no ódio àquilo que se desconhece, resultou na transformação dos parabolanos, um grupo de cristãos originalmente criado para ajudar pobres e enfermos, numa milícia armada pronta para "combater pela fé", manipulando o povo a crer que unicamente ele era o "pontíficie", a ponte entre os homens de Deus, um vigário (substituto) de Cristo na Terra, coisas a que estamos acostumados a ouvir ainda hoje. No auge dos acontecimentos, a turba inflamada por pregações que acusam Hipatia, a essa altura com cerca de 60 anos, da pratica de bruxaria, atacam-na  em plena rua, e a arrastam para dentro de uma "igreja" (vejam só!!!!) e a torturam cruelmente lacerando terrivelmente seu corpo com cacos de ostra, ou ceramica segundo outra versão. Seu corpo agnizante ainda teve que suportar uma fogueira, simbolo da morte dos hereges. O filme ameniza esse acontecimento numa licença poético-dramatica, mas nada muda a realidade cruel do acontecimento, muito mais chocante que o mostrado nas telas. Sócrates Escolastico, afirma em seus escritos que a morte de Hipatia lançou opóbrio sobre a igreja de Alexandria e nos faz pensar se a Cristandade, responsável por esse e tantos outros assassinatos, mudou de alguma forma ao longo dos séculos. 

Quando ouço um renomado "cristão" como Magno Malta, representante da politica evangélica (o que quer que isso signifique) dizer em frente ao Esplanada dos Ministérios, por ocasião do encontro que ocorreu em protesto a PL 122 dizer que o STF, num país cristão como o nosso, deveria primeiramente consultar a Lei de Deus antes de decidir votar a favor da união civil entre gays, eu fico assustado porque eu vejo que o desejo por controlar o poder do mundo não diminuiu nem um pouco na Cristandade. Sim, os "igrejeiros" nunca desejam outra coisa senão uma ditadurazinha moral, algum poder extra para fazer com que se possa esfregar a Bíblia na cara do próximo. Silas Malafaia usa do seguinte argumento para justificar seu temor contra a PL 122: Se eu tiver uma empregada doméstica que se assume como homossexual e não quiser que meus fillhos fiquem expostos a esse tipo de influencia, se eu a demitir, sou homofóbico e posso ser preso. Ora, esse argumento é um verdadeiro tiro no pé para quem não quer admitir que é homofóbico, como ele sempre diz. Vejamos o por quê da demissão. a suposta empregada alardeia seu estilo de vida e influencia de alguma forma a educação das crianças fazendo apelos de natureza ambígua dentro da casa e durante o expediente? Não? Não parece ser essa a afirmação. A afirmação do afamado pregador diz respeito ao fato do empregador descobrir ser seu empregado um homossexual, justificando a demissão pelo simples fato de sabe-lo e afim de proteger sua familia de suposta má influencia. O exemplo portanto, serviria para justificar até mesmo um empregador nazista que despede o mordomo pelo fato dele ser judeu, ou um racista que não quer admitir um funcionário qualificado para o emprego por causa da cor da pele. É de manifesta burrice tal argumento.

É justo que todos tenham direito de se expressar quando sentem que estão sendo cerceados em seus direitos garantidos na Carta Magna. Os evangélicos sentem que essa PL representa um perigo a sua liberdade de expressão e é justo que batalhem contra os pontos que julguem obscuros e danosos à sua pratica mesmo não concordando com o sistema politico e muito menos com essa insossa mistura de clericalismo e politica. Não deveriamos depender de instrumentos como esses. Creio que os homossexuais devem garantir por lei direitos como união civil estável, eles são cidadãos e pagam impostos como todos, mas não acho que, por terem se organizado mais que alguma outras minorias, mereçam mais direitos que outros. Não precisamos brandir a Bíblia para condenar as práticas desse ou daquele grupo, pois no momento em que fazemos isso, estereotipamos e segmentamos a sociedade da qual fazemos parte e cessamos a oportunidade de fazer emergir o bom censo. 

O bom censo não tem bandeira, nem cor ou religião. Não precisa ser religioso para dizer que a prática da homossexualidade deve ser tolerada para aqueles que a desejam e a homofobia e o preconceito verdadeiro, aquele que segrega e discrimina, como todo tipo de crime de ódio, combatidos ferozmente, mas que não deve ultrapassar a linha do bom senso, ou seja, não se deve fazer apologia a ela nem apoiar politicas publicas que a incentivem, pelo simples fato que a sociedade humana só se mantém em pé em virtude da união heterossexual entre  homem e mulher. No inicio da década de 60, houve um movimento ferrenho no mundo pela liberdade sexual da mulher. Cinquenta anos depois vemos os resultados pelo numero expressivo de filhos nascidos fora do contexto de familia, sem a figura de um pai. Os reflexos disso podem ser sentidos no aumento da população carceraria, e isso a nivel mundial, onde quase 70% da população carceraria provém de "lares" desagregados, frutos gerados pela "emancipação" sexual e cultural feminina dos 60's. Hoje, os homossexuais pedem emancipação e com direito a muitas coisas, mas sem bom senso por parte daqueles que estão no Poder, moldando as opiniões do povo, amanhã lutaremos contra o fantasma da baixa taxa de natalidade, em virtude da propagação de um estilo de vida que não gera novas vidas. É preciso bom-senso para não discriminar, mas ainda mais bom senso para dizer até onde vai os direitos desse ou daquele e onde devemos preservar o bem-comum de tantos direitos concedidos a tantos grupos diferentes. Alguns chegam mesmo a desejar a volta dos tempos de ditadura, onde tudo era bem definido, preto no branco, policia e bandido, ame ou deixe, etc, etc...A liberdade é selvagem e nunca vamos nos acostumar a ela.

Ahhhh...a Cristandade!! Fico imaginando como ela seria se ela fosse verdadeiramente parecida com aquele a quem ela diz seguir. Fico imaginado se perderia tanto tempo e energia com suas guerras e maquinas de tortura, tanto tempo caçando inimigos ocultos e debatendo sobre facetas da Verdade entrevistas num espelho. Fico imaginando ainda se perderia tanto tempo tentando mudar os rumos de um mundo ao qual o apóstolo amado sentenciou que "jaz no maligno", ou seja, se compraz no mal, buscando formas de controle e dominio, barganhando favores e benesses entre seus senhores...Se fossemos um minimo parecidos com Ele, não nos preocupariamos com nada daquilo no qual a Cristandade anda preocupada. Andariamos entre os leões como quem nada teme. Fariamos amigos entre inimigos e os ganhariamos para Ele, como a Terra ganhou a Lua para si e a Terra se sente esposada pelo Sol: seriam atraídos pelo bom perfume de nardo exalado e gravitariam ao nosso redor voluntariamente e forçosamente. Hipatia não seria morta pelo medo e pelo ódio, mas atraída por aqueles parabolanos, sonsos mas verdadeiramente alegres com suas tarefas filantrópicas os quais não se sentiriam intimidados pela presença de uma mulher  sábia e honesta, embora pagã, ma que possuia dentro de si um senso de sagrado e boa-vontade. A igreja não precisaria perseguir Galileu ou quem quer que fosse por se sentir ameaçada por Verdades tão óbvias.Seríamos como Aquele que nada possuia mas tinha Tudo em Suas mãos. Hoje a Cristandade não possui nada mas crê que pode pôr suas mãos em tudo.

Eu o convido a assistir esse filme praticando um exercício. Tente ver você mesmo nele. Qual seria o seu personagem? O filme traz em si esse apelo. Qual dos personagens descreve verdadeiramente aquilo que você tem construído como sua personalidade? Talvez você não se veja entre os personagens principais, talvez você apenas mais um na multidão, não importa. Considere somente que não vale a pena viver com medo. Hipatia foi condenada pelo medo porque basicamente tememos o desconhecido e como crianças nos deixamos ser guiados por vozes que incrementam medos em nossas mentes. Se fossemos como Ele, a Cristandade não temeria a Ciência. Hipatia procurava a Verdade a seu modo e encontrava muito dela na Ciência, que explica muitas coisas a respeito do funcionamento das coisas, da ordem estabelecida. Alguns cientistas afirmam que a Ciência lhes proporciona um tipo de relação com o sagrado, com o divino. Eu também amo a Ciência. Ela é espantosa quando analisamos suas descobertas. Fico olhando uma Tv e me ponho a pensar como o homem veio a descobrir como fazer viajar a imagem e o som através do ar em tempo real por milhões de quilômetros entre tantas outras descobertas espantosas. De súbito, percebo o milagre envolvido nisso, o nível de abstração a que chegamos unicamente pondo a prova e experimentando as teorias surgidas da mente de homens geniais como Einstein. 

Nesses momentos, vejo que a Ciência se mantém íntegra dentro de sua proposta de buscar suas verdades, sem falsas indulgencias consigo mesma. O pedantismo intelectual não pode emprestar a Ciência aquilo para o qual não foi criada que é descobrir a Verdade sobre os Por quês, mas suas armas valem muito nas perguntas Como foi? Mantendo-se assim ela pode continuar livre do misticismo e do infantilismo intelectual que graça dentro das religiões organizadas, a ferramenta quebrada, enferrujada e inútil da Cristandade.

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