0

Ahhhhh...A Cristandade

Costuma-se chamar de "cristandade" o conjunto de povos, nações e países, que aderiram ao "cristianismo" eclesiastico como cultura, sendo que, em sua maioria, esses povos se encontram no Ocidente. Como cultura de massa, o "cristianismo", ou mais propriamente a Cristandade, foi e continua sendo o maior desastre ocorrido como consequência da disseminação do Evangelho, cometendo em nome dessa "Fé" as maiores incoerências e contradições que, invariavelmente, culminanaram em atrocidades cruéis e derramamento de sangue. 

É interessante, para quem se interessa, como eu, em História e sociologia, observar como o "cristianismo", , pregado originalmente por um bando de renegados galileus e surgido clandestinamente nas entranhas do Império de ferro de Roma, constituído basicamente das classes mais desfavorecidas do status quo dessa sociedade, ao arrebanhar cada vez mais "fiéis", de início entre os escravos e depois entre os cidadãos propriamente ditos, vai paulatinamente, mudando seu discurso e seu modo de agir.

Após tanto tempo de perseguição, tortura e horror, o sufrágio oferecido por Constantino marca o revés definitivo da maré. Os anteriormente párias, renegados por todos como leprosos sociais, já não são simplesmente aceitos, mas passam a ser a regra geral. Do porão à cobertura num piscar de olhos. Da fé dos excluídos, dos vencidos e derrotados pelo sistema do mundo à fé dos conquistadores de Roma, do Deus Invicto que destrona Júpiter e seu séquito. Não mais coroa de espinhos, mas a tiara de folhas de louro dada aos vencedores das guerras e dos Jogos Olimpicos. O efeito psicológico dessa "vitória" do "cristianismo" foi devastador e os "cristãos" nunca mais se recuperaram dela.

Vemos nessa ocasião o fenômeno sociológico que acontece quando uma minoria passa ao status de maioria e de pária passa a administrador das regras pelas quais os outros indivíduos pertencentes à mesma sociedade terão de viver. Há muitos exemplos históricos de que os "cristãos", quando chegaram no topo da escada social, não estavam dispostos a cumprir à risca o Sermão do Monte. Um em particular, merece atenção e virou filme recentemente, Ágora, em inglês, sendo lançado no Brasil sob o nome Alexandria, com a deslumbrante Rachel Weisz no papel principal. 

Trata-se do episódio envolvendo uma certa cidadã alexandrina chamada Hipatia, uma mulher iniciada na Filosofia neoplatonica e nos segredos ptolomaicos da Matemática muito provavelmente por seu pai, o renomado Têon de Alexandria. O nome de Hipatia e sua paixão pelas Ciências foi preservado na História graças a alguns poucos testemunhos históricos como os de Sócrates, o Escolástico, e Hisíquio, o hebreu, este também aluno de Hipatia a Academia de Alexandria, onde ela ocupou a cadeira que antes fora de Plotino.Outro de seus discípulos foi o notório Sinésio de Cirene, que assumiu o posto de bispo da igreja cristã em Ptolomaida entre 409/410 D.C. Sinésio escrevia a Hipatia constantemente pedindo-lhe conselhos. Tais cartas foram preservadas até hoje.

Hipatia era mais do que talentosa, ela possuia um dom e como toda pessoa que tem um dom real, ela sabia que o seu era uma dádiva sagrada que ela oferecia livremente àqueles que a procuravam procurando respostas, negando a si mesma obter com isso qualquer tipo de regalo ou honraria, tanto que entregou sua vida sexual aos deuses, obrigando-se ao celibato como prova de sua entrega total. Os filósofos da época acreditavam que o desejo carnal era uma fraqueza que os distraia das verdadeiras questões essenciais e tornavam-se assim verdadeiros sacerdotes do sagrado diante do povo. O conhecimento era então tido como um ofício sagrado a ser exercido por homens e mulheres com o dom para tal.

O talento, ou dom, de Hipatia alçaram seu nome para muito além da cosmopolita Alexandria, um dos centros nervosos do Império Romano, rivalizando com a capital imperial do Oriente, Constantinopla. Alexandria sempre foi um caldeirão de idéias em ebulição. Em Alexandria, nos anos anteriores à Cristo, foi cunhada a versão ocidental da Bíblia, a Septuaginta, e também lá, já na nossa era, a cidade foi palco da maior contenda interna da história eclesial, aquela que envolveu a disputa entre o Trinitarismo tradicional e os adeptos de Ário, ou arianismo, outra boa história que nos revela muita coisa sobre o cristianismo...

Na época de Hipátia, o "cristianismo" já possuia status de religião da maioria e já começava a botar as manguinhas de fora...o filme retrata bem esse período. Os "cristãos" mais fervorosos, alforriados do temor da perseguição e com liberdade plena para declarar sua fé, ridicularizam os deuses e os cultos pagãos e partem para o enfrentamento público. Porque pregar o amor quando se pode ter tudo usando da força bruta da ignorancia do povo. Trata-se apenas de manipular os fios corretos. Teófilo, o intolerante e beligerante patriarca de Alexandria, foi um desses oportunistas com dom de manipular massas. 

Sob sua inspiração, o imperador romano do Oriente Teodósio, baniu todo culto considerado pagão e permitiu a destruição do templo de Serapis, em Alexandria, o qual acomodava a famosa Biblioteca de Alexandria e a escola de filósofos na qual Hipatia lecionava pelos sequazes de Teófilo. Seu sucessor, seu sobrinho (ora vejam se naquela época já não existiam dinastias dentro das "igrejas"?) Cirilo, tido como um dos mais influentes "pais da igreja" e considerado santo pelas igrejas ortodoxas e romana, esteve no centro de muitas das maiores controvérsias cristológicas de seu tempo. Alguns o consideram um campeão da fé ortodoxa, entretanto, outros o chamaram de "monstro, nascido e criado para destruição da igreja". 

Quem poderá julgar a natureza do homem? Creio que Jesus nos dá uma boa pista para não sermos injustos ao dizer que se conhece uma árvore pelos frutos. A pregação de Cirilo, baseada no ódio àquilo que se desconhece, resultou na transformação dos parabolanos, um grupo de cristãos originalmente criado para ajudar pobres e enfermos, numa milícia armada pronta para "combater pela fé", manipulando o povo a crer que unicamente ele era o "pontíficie", a ponte entre os homens de Deus, um vigário (substituto) de Cristo na Terra, coisas a que estamos acostumados a ouvir ainda hoje. No auge dos acontecimentos, a turba inflamada por pregações que acusam Hipatia, a essa altura com cerca de 60 anos, da pratica de bruxaria, atacam-na  em plena rua, e a arrastam para dentro de uma "igreja" (vejam só!!!!) e a torturam cruelmente lacerando terrivelmente seu corpo com cacos de ostra, ou ceramica segundo outra versão. Seu corpo agnizante ainda teve que suportar uma fogueira, simbolo da morte dos hereges. O filme ameniza esse acontecimento numa licença poético-dramatica, mas nada muda a realidade cruel do acontecimento, muito mais chocante que o mostrado nas telas. Sócrates Escolastico, afirma em seus escritos que a morte de Hipatia lançou opóbrio sobre a igreja de Alexandria e nos faz pensar se a Cristandade, responsável por esse e tantos outros assassinatos, mudou de alguma forma ao longo dos séculos. 

Quando ouço um renomado "cristão" como Magno Malta, representante da politica evangélica (o que quer que isso signifique) dizer em frente ao Esplanada dos Ministérios, por ocasião do encontro que ocorreu em protesto a PL 122 dizer que o STF, num país cristão como o nosso, deveria primeiramente consultar a Lei de Deus antes de decidir votar a favor da união civil entre gays, eu fico assustado porque eu vejo que o desejo por controlar o poder do mundo não diminuiu nem um pouco na Cristandade. Sim, os "igrejeiros" nunca desejam outra coisa senão uma ditadurazinha moral, algum poder extra para fazer com que se possa esfregar a Bíblia na cara do próximo. Silas Malafaia usa do seguinte argumento para justificar seu temor contra a PL 122: Se eu tiver uma empregada doméstica que se assume como homossexual e não quiser que meus fillhos fiquem expostos a esse tipo de influencia, se eu a demitir, sou homofóbico e posso ser preso. Ora, esse argumento é um verdadeiro tiro no pé para quem não quer admitir que é homofóbico, como ele sempre diz. Vejamos o por quê da demissão. a suposta empregada alardeia seu estilo de vida e influencia de alguma forma a educação das crianças fazendo apelos de natureza ambígua dentro da casa e durante o expediente? Não? Não parece ser essa a afirmação. A afirmação do afamado pregador diz respeito ao fato do empregador descobrir ser seu empregado um homossexual, justificando a demissão pelo simples fato de sabe-lo e afim de proteger sua familia de suposta má influencia. O exemplo portanto, serviria para justificar até mesmo um empregador nazista que despede o mordomo pelo fato dele ser judeu, ou um racista que não quer admitir um funcionário qualificado para o emprego por causa da cor da pele. É de manifesta burrice tal argumento.

É justo que todos tenham direito de se expressar quando sentem que estão sendo cerceados em seus direitos garantidos na Carta Magna. Os evangélicos sentem que essa PL representa um perigo a sua liberdade de expressão e é justo que batalhem contra os pontos que julguem obscuros e danosos à sua pratica mesmo não concordando com o sistema politico e muito menos com essa insossa mistura de clericalismo e politica. Não deveriamos depender de instrumentos como esses. Creio que os homossexuais devem garantir por lei direitos como união civil estável, eles são cidadãos e pagam impostos como todos, mas não acho que, por terem se organizado mais que alguma outras minorias, mereçam mais direitos que outros. Não precisamos brandir a Bíblia para condenar as práticas desse ou daquele grupo, pois no momento em que fazemos isso, estereotipamos e segmentamos a sociedade da qual fazemos parte e cessamos a oportunidade de fazer emergir o bom censo. 

O bom censo não tem bandeira, nem cor ou religião. Não precisa ser religioso para dizer que a prática da homossexualidade deve ser tolerada para aqueles que a desejam e a homofobia e o preconceito verdadeiro, aquele que segrega e discrimina, como todo tipo de crime de ódio, combatidos ferozmente, mas que não deve ultrapassar a linha do bom senso, ou seja, não se deve fazer apologia a ela nem apoiar politicas publicas que a incentivem, pelo simples fato que a sociedade humana só se mantém em pé em virtude da união heterossexual entre  homem e mulher. No inicio da década de 60, houve um movimento ferrenho no mundo pela liberdade sexual da mulher. Cinquenta anos depois vemos os resultados pelo numero expressivo de filhos nascidos fora do contexto de familia, sem a figura de um pai. Os reflexos disso podem ser sentidos no aumento da população carceraria, e isso a nivel mundial, onde quase 70% da população carceraria provém de "lares" desagregados, frutos gerados pela "emancipação" sexual e cultural feminina dos 60's. Hoje, os homossexuais pedem emancipação e com direito a muitas coisas, mas sem bom senso por parte daqueles que estão no Poder, moldando as opiniões do povo, amanhã lutaremos contra o fantasma da baixa taxa de natalidade, em virtude da propagação de um estilo de vida que não gera novas vidas. É preciso bom-senso para não discriminar, mas ainda mais bom senso para dizer até onde vai os direitos desse ou daquele e onde devemos preservar o bem-comum de tantos direitos concedidos a tantos grupos diferentes. Alguns chegam mesmo a desejar a volta dos tempos de ditadura, onde tudo era bem definido, preto no branco, policia e bandido, ame ou deixe, etc, etc...A liberdade é selvagem e nunca vamos nos acostumar a ela.

Ahhhh...a Cristandade!! Fico imaginando como ela seria se ela fosse verdadeiramente parecida com aquele a quem ela diz seguir. Fico imaginado se perderia tanto tempo e energia com suas guerras e maquinas de tortura, tanto tempo caçando inimigos ocultos e debatendo sobre facetas da Verdade entrevistas num espelho. Fico imaginando ainda se perderia tanto tempo tentando mudar os rumos de um mundo ao qual o apóstolo amado sentenciou que "jaz no maligno", ou seja, se compraz no mal, buscando formas de controle e dominio, barganhando favores e benesses entre seus senhores...Se fossemos um minimo parecidos com Ele, não nos preocupariamos com nada daquilo no qual a Cristandade anda preocupada. Andariamos entre os leões como quem nada teme. Fariamos amigos entre inimigos e os ganhariamos para Ele, como a Terra ganhou a Lua para si e a Terra se sente esposada pelo Sol: seriam atraídos pelo bom perfume de nardo exalado e gravitariam ao nosso redor voluntariamente e forçosamente. Hipatia não seria morta pelo medo e pelo ódio, mas atraída por aqueles parabolanos, sonsos mas verdadeiramente alegres com suas tarefas filantrópicas os quais não se sentiriam intimidados pela presença de uma mulher  sábia e honesta, embora pagã, ma que possuia dentro de si um senso de sagrado e boa-vontade. A igreja não precisaria perseguir Galileu ou quem quer que fosse por se sentir ameaçada por Verdades tão óbvias.Seríamos como Aquele que nada possuia mas tinha Tudo em Suas mãos. Hoje a Cristandade não possui nada mas crê que pode pôr suas mãos em tudo.

Eu o convido a assistir esse filme praticando um exercício. Tente ver você mesmo nele. Qual seria o seu personagem? O filme traz em si esse apelo. Qual dos personagens descreve verdadeiramente aquilo que você tem construído como sua personalidade? Talvez você não se veja entre os personagens principais, talvez você apenas mais um na multidão, não importa. Considere somente que não vale a pena viver com medo. Hipatia foi condenada pelo medo porque basicamente tememos o desconhecido e como crianças nos deixamos ser guiados por vozes que incrementam medos em nossas mentes. Se fossemos como Ele, a Cristandade não temeria a Ciência. Hipatia procurava a Verdade a seu modo e encontrava muito dela na Ciência, que explica muitas coisas a respeito do funcionamento das coisas, da ordem estabelecida. Alguns cientistas afirmam que a Ciência lhes proporciona um tipo de relação com o sagrado, com o divino. Eu também amo a Ciência. Ela é espantosa quando analisamos suas descobertas. Fico olhando uma Tv e me ponho a pensar como o homem veio a descobrir como fazer viajar a imagem e o som através do ar em tempo real por milhões de quilômetros entre tantas outras descobertas espantosas. De súbito, percebo o milagre envolvido nisso, o nível de abstração a que chegamos unicamente pondo a prova e experimentando as teorias surgidas da mente de homens geniais como Einstein. 

Nesses momentos, vejo que a Ciência se mantém íntegra dentro de sua proposta de buscar suas verdades, sem falsas indulgencias consigo mesma. O pedantismo intelectual não pode emprestar a Ciência aquilo para o qual não foi criada que é descobrir a Verdade sobre os Por quês, mas suas armas valem muito nas perguntas Como foi? Mantendo-se assim ela pode continuar livre do misticismo e do infantilismo intelectual que graça dentro das religiões organizadas, a ferramenta quebrada, enferrujada e inútil da Cristandade.
0

Eu, um desviado

Frequentemente, quando encontro antigos conhecidos da época de "igreja", ouço a fatídica pergunta: "Você está  em qual igreja?" Quando digo que não estou em nenhuma já há algum tempo já espero pelo comentário "exortativo" típico, do tipo "Ah, mas você não pode ficar assim" seguido por um certo ar de reprovação e indignação indicativos de que o fiel está na reprovável presença de um DESVIADO. Depois de um exame minucioso das razões pelas quais eu deveria me esquivar desse rótulo, argumentando isso ou aquilo, conclui que não passa de um esforço inútil de autopreservação da minha imagem religiosa politicamente correta. Resolvi assumir que ESTOU DESVIADO, SIM, e GRAÇAS A DEUS!!!

Estou desviado dessa religião pseudocristã que inventaram ao longo de dois mil anos à revelia dos ensinamentos contidos nos Evangelho. Me desviei dos rótulos, das divisões, das doutrinas exdrúxulas, dos desmandos dos homens e da hipocrisia reinante num meio carente de mentes verdadeiramente livres. Me desculpe se pareço julgar e condenar as pessoas, mas tenho estômago fraco para dissimulação, ou seja, hipocrisia.  Entenda, não suporto nem mesmo a minha, quanto mais a dos outros.Estou, francamente, desviado da "igrejice", como diria um amigo meu.

Não suporto ouvir palestras onde ouço alguém verbalizar o óbvio, ensinando pela milésima vez um ponto obscuro da Bíblia como regra para um público que já devia, pelo tempo que ouve tais coisas, ser mestre e ensinar outros a VIVER O EVANGELHO, não suporto a fanfarronice e o barulho em torno de tão pouco conteúdo. . Chego até a admirar quem consegue persistir nesse papel, sério. Acho que faltou alguma substância essencial em meu organismo para suportar a tortura de fica anos a fio olhando a nuca do meu "irmãozinho" da frente ou então a eloquência carismática que anseia por segurar um microfone e ocupar o lugar mais proeminente da fé cristã atual.

Não estou aqui para malhar ninguém, escrevo como um exercício vicário, expiando minhas culpas, afinal, não é para isso que existem os blogs? Pessoas comuns, escrevendo suas experiencias comuns, desabafando sobre os mais variados assuntos, enfim, um exercicio psicológico sadio. A internet e, principalmente, a área "bloguística", está cheia de planfletagem hoje em dia, propagandistas. Já tive meus dias de propagandista da fé. Hoje, prefiro escrever sobre aquilo que se passa dentro de mim. Cheguei a cogitar mudar o nome do blog e aquele painel do guerreiro espartano do filme 300, porque ele passa a idéia de que eu, de alguma forma, sou algum campeão da fé e que estou resistindo bravamente às tentações dom mundo. Que nada!!!Se o mantenho é porque nada se assemelha mais a minha vida espiritual do que uma guerra, pois estou constantemente sendo bombardeado e, se não me entrego totalmente, é porque tenho medo de sair da trincheira com tanta bomba caindo lá fora. Ademais, a trincheira ainda é o melhor lugar porque é o lugar que eu cavei para mim mesmo. Só cabe eu mesmo e mais ninguém, na medida que eu não quero convencer ninguém de algo, apenas compartilhar as cartas que um soldado envia do front de batalha onde está ilhado por todos os lados.

A idéia de do subtítulo "Resistindo à correnteza do mundo" também quase rodou pelo tom triunfalista mas resistir não deve necessariamente passar a idéia de triunfo mas somente de que você não foi absorvido emprega algum tipo de força no sentido contrário àquele que querem leva-lo. Um caniço resiste bem a uma ventania ou a uma enchente, embora sofra severos agravos. Estou resistindo da minha maneira, penso eu, embora em muitos momentos tenha a impressão de que estou sendo levado a contragosto. Uma resistência débil, é verdade, em virtude da minha pouca força, não como foi a Resistência Francesa, por exemplo, na Segunda Guerra, mais algo como uma teimosa indignação que se ergue das minhas reflexões.

Não quero que ninguém me siga, pois não estou desejando espalhar alguma doutrina nem fundar um novo grupo de dissidentes desse ou daquele ramo. Depois de sete anos dentro do chamado "cristianismo" tentando criar vínculos reais de amizade, mantendo contatos aqui e ali, não consegui um único companheiro de jornada que não cobrasse nada além de verdadeira empatia, então, cansei e desisti. Alguns animais andam em bandos, porque são mais fortes assim, outros nasceram para andar sós. Por causa da "igrejice" que quase me assimilou nesses anos, perdi o contato com amigos antigos e não granjeei nenhum novo. 

Sigo como um peregrino tentando não perder a trilha em meio ao deserto. Ele, o peregrino, pára aqui e acolá, observa o tempo, a localidade em que se encontra, cruza com pessoas ao longo do caminho, troca algumas informações e, então. segue em frente, só, pois seu Caminho é a única coisa que realmente lhe pertence, nada mais. Não foi lhe dada autorização para se juntar a ninguém e, quer saber, ele está feliz assim, pois está acostumado à solidão desde muito cedo. Foi criado praticamente sozinho, com brincadeiras solitárias e aprendeu desde muito cedo a prescrutar o que havia dentro de si mesmo, de modo que valoriza muito o silêncio, ao contrário da tagarelice da maioria, e e encontra quietude, paz e sentido em suas reflexões, também ao contrário de uma grande parte dos homens, que não se sentem a vontade a sós consigo mesmos.

Tal peregrino considera que está velho demais para fugir de si mesmo, de certas verdades inerentes à sua natureza humana. Ele não quer fingir ser algo que não é ou ter algo que não tem, de modo que o Caminho que ele trilha não é uma fuga da realidade mas a própria essência de sua busca por significado e equilíbrio. Para isso, ele não precisa negar sua natureza, mas, ao contrário, assumir-se como aquilo que nunca deixará de ser: humano. Humano até a raiz e, portanto, fraco até a medula. Aquilo que negamos ser hoje é justamente aquilo que nos fez reconhecer um dia dependentes de uma Graça inefável e que tal sentimento fez- nos render em meio a dor e às lágrimas. Sem dúvida, fomos lavados nesse dia e preenchidos com um novo sentido, um novo espírito, mas para quê? Para nos tornarmos a partir dali fortes e autosuficientes? Para nos tornarmos "príncipes de Israel" como Nicodemos? 

Hoje, já não tenho tantas certezas quanto tinha há alguns anos sobre certas coisas. Para muitos, podem ser questões que valham a pena gastar um milhão de palavras. Para mim, tais guerras verbais são becos sem saída nos quais muitos empenham suas vidas. Eu não.Muitas certezas enrijecem nossos sentidos e invalidam dados que poderiam nos dar novas perspectivas das coisas ao nosso redor. Alguém disse certa vez que nossas mentes são como paraquedas, só funcionam quando abertas. Todo mal que vemos hoje no mundo é causado por uma atitude que se caracteriza por mentes obscurecidas por modos pré-programados de pensar. Tenho mais perguntas do que respostas, não estou contente com as respostas que ouvi e minhas questões invalidam minha presença no meio dos chamados "fiéis". 

Alguns me acusam de ter "dado pra trás" e de hoje refutar coisas em que cri anteriormente, mas a Verdade é que, lá pelas tantas, recebi um choque de realidade que me deu uma estranha sensação de lucidez que não tinha há muito tempo. Talvez eu tivesse esquecido o quanto eu queria que fosse real e do poder do meu cérebro para me fazer acreditar. Acredite, seu cérebro é tão poderoso que pode fazer você esquecer que você mesmo o programou!!

Excesso de lucidez pode ser uma morbidez, segundo os especialistas, e, não raro, leva ao desvario do suicídio. Talvez, por isso, muitos evitam os questionamentos porque eles podem leva-los a um surto de lucidez que vai apagar a programação normal e leva-los a uma onda de desespero suicida. Isso ocorre muito, infelizmente, nos países mais ricos. Já passei por essa fase por volta dos quatorze ou quinze anos quando o peso de existir quase me esmagou. A resposta para mim está em que um grande desespero só pode ser devidamente dosado e contido se equilibrado, temperado, por uma grandiosa ESPERANÇA.

Sofro com meu excesso de lucidez, mas entre as poucas certezas que tenho nessa vida estão o fato de que sei onde devo estar por amor àqueles que Deus me deu para guardar nesse mundo como seu bem precioso o qual ele me emprestou como penhor. Um homem não sabe o que é ser um homem de verdade enquanto está apenas por si mesmo no mundo e não precisa prover ninguém. A outra certeza pertence ao terreno da fé propriamente dita. 

Uma das únicas ortodoxias que mantenho no terreno da fé diz respeito a concepção, vida, morte e ressurreição de Jesus de Nazaré. Para mim, os Evangelhos, todos os quatro, estão corretissimos em sua historicidade e são decorrentes das narrações em primeira mão das testemunhas oculares da Paixão, os apóstolos que conviveram com Jesus durante seu ministério terreno. Estou convencido, de várias maneiras (sendo duro como sou, eu procurei me certificar tanto quanto pudesse dessa afirmação) de que Jesus é de fato quem disse que era. Essa é a Grande Esperança a que me referi antes. Fui criado dentro dela mas ela só me atingiu com a força de uma bomba quando me tornei adulto. Tal advento mudou muito minha forma de ver e pensar sobre as coisas, sarou muitas feridas antigas e me ajudou a completar mais o mosaico do meu verdadeiro eu. Jesus é real para mim como meu Deus pessoal. Ele é meu amigo pessoal, sinto essa afinidade. Ele me completa e eu me sinto aliviado quando olho para ele. Ele é o irmão mais velho que eu quero ser quando crescer. Mais do que tudo, é a figura de homem e herói que sempre desejei para mim. 

Paradoxalmente,  porém, tenho muitas dúvidas hoje a respeito da chamada "eclesia" que ele veio estabelecer, pois não consigo vê-lO ali. Às vezes, fico pensando que a explicação para isso é tão óbvia que nos escapa a compreensão. É lógico que a "eclesia" de Cristo tem que ser o pior lugar para ver gente do porte de Jesus, pois ela é constituída somente dos piores, ou estou errado? Que tipo de gente precisa se converter? Somente as Madalenas, os Paulos, os cobradores de imposto, etc, etc...A maioria acha que a conversão faz a pessoa ficar boazinha, boazinha como um chá de camomila faria com um leão. Dentro das igrejas, me acredite, está a maior concentração de gente problemática do mundo. Como um lugar desses seria são?

Também paradoxalmente, não creio que essa minha fé em Cristo me faça um cristão.

O que me faz de você um "cristão" (não gosto dessa palavra pois também pois não passa de um rótulo, duma descrição de um tipo de comportamento padrão e também porque tenho certeza se ela não foi empregada num sentido meio que jocoso pelos habitantes de Antioquia ( Atos 11,26) para descrever os "fiéis" dali, mas vou usa-la aqui para estabelecer um parametro )? Seria professar que crê no Credo Niceno? Frequentar um templo "cristão"? Ou existe um código de conduta para transformar uma pessoa nisso? E se eu tentar severamente seguir a Cristo, praticando o Sermão do Monte e as prescrições de Paulo, mas falhar miseravelmente (e eu sei que vou) em dado momento, continuarei ostentando um apelido que designa um representante de Cristo na Terra? O leopardo pode trocar sua vestimenta por algo, digamos, mais 'clean'? O escorpião pode escolher não matar sua vítima usando seu veneno mortal quando usar de novo seu aguilhão? Somos o que somos e não devemos nos considerar de outra forma. Invariavelmente, nossas ações, mesmo as bem intencionadas caem no terreno do reprovável cedo ou tarde. Não posso, de mim mesmo, pensar algo tão alto acerca de mim e, dessa forma, rejeito o nome recebido pelos discípulos em Antioquia. Minha consciência me reprova tão constantemente que sinto vergonha por Cristo em ter um seguidor como eu.

Portanto, não é o credo que verbalizo nem o código moral que creio ser capaz de cumprir e pelo qual julgo o resto do mundo que me farão seguir mais de perto o Nazareno. A experiência a qual me referi a qual mudou meus passos não faz de mim um homem bom, talvez melhor de alguma forma, mas muito longe da beatitude. Tal experiência deve, sim, retirar de dentro de nós o dolo, a intenção de errar propositadamente. Seremos fatalmente culpados por nossas consciências em virtude de decisões e escolhas que devemos tomar baseados em nossas percepções de certo ou errado, mas o dolo nos faz errar obstinadamente de modo premeditado. 

Eu me assumo como pecador miserável que sou por minha natureza errática e fraca e isso me envergonha porque gostaria de ser forte para honrar o exemplo Dele. Não posso negar o que sou, mas fui tocado em meu ser de forma que não posso negar A Sua Graça. Creio que o "cristianismo" se desviou desde muito cedo do padrão definido por Jesus como essencial para possuir e herdar o Reino, que é ser "pobre de espírito", aqueles que são loucos e fracos segundo o mundo, os humilhados e desprezados, aqueles que não são. Hoje, os cristãos têm títulos, muitos templos, muito dinheiro para comprar muitas coisas e, segundo afirmam, muito poder espiritual à disposição. Sinto muito não poder dizer o mesmo. Sou muito fraco para estar entre fortes. Talvez sejam meus olhos, mas eu só consegui ver muros derrubados e portas queimadas a fogo, mas não sou eu Neemias, não fui chamado para tal obra.

Eu me assumo como a 100ª ovelha, obstinada o bastante para se arriscar fora do aprisco, em meio a muitos perigos, a viver quieta e sossegadamente entre as demais ovelhas. Se ela preferiu tal sorte talvez seja porque a convivência no aprisco não fosse tão saudável para ela quanto esperava o afetuoso e ocupado pastor. Poderia haver entre as ovelhas certa intolerância e beligerância contra certos tipos de ovelhas que não se encaixam no molde padrão. Nesse caso, quem pode recriminar essa ovelha? As outras ovelhas, com certeza, o farão, mas não  o pastor delas.

"NÃO TENHO A VISÃO MALÉFICA NEM A BEATÍFICA, MAS OUÇO O SOM DE ASAS BATENDO NO PALCO" - Frederick Buechner, citado de "Alma Sobrevivente" de Philip Yancey
0

Vitor Belfort e A Jornada de um Homem

Pouco antes da tão anunciada luta que mobilizou o mundo contra Anderson Silva, Vitor Belfort recebeu em sua casa nos EUA a equipe do  programa Sensei da Sportv e não perdeu a oportunidade de deixar uma declaração que mostra que a maior conquista de um atleta de alto nível das artes marciais não é ganhar sempre mas que o "bushido" (caminho do guerreiro) visa torna-lo um ser humano menos fragmentado e, por isso mesmo, mais íntegro e autêntico. O bushido pessoal de Vitor, todos sabem, é sua fé pessoal no Evangelho, fé da qual ele tem prazer em sempre anunciar como maior motivação para sua vida e carreira de tantos reveses e superações. 


Em meio a um esporte tão competitivo no qual se vive a pressão contínua por bons resultados, qualquer semelhança com a vida cotidiana em sociedade não é mera coincidência, podemos ser atropelados e deixados pelo caminho por nossa própria ansiedade e competitividade excessivas. O nosso estado atual, nosso momento, pode ser bom ou ruim mas ele não traduz fielmente quem somos e para onde estamos indo realmente. Tudo que um homem, um guerreiro tem, na verdade, é sua jornada. Se manter o foco e não perder de vista os motivos que o levaram até ali, sempre recobrará forças para seguir adiante, apesar de ter sofrido sérias derrotas e ter se ferido gravemente no percurso. Perder a visão completamente significa abandonar o trilho e abdicar de chegar ao fim da jornada e conhecer seu real prêmio. E qual o prêmio por chegar ate o fim dessa estrada tortuosa? Creio que o prêmio maior será descobrir que você não abriu mão de ser você mesmo, de suas convicções mais profundas, e que assim conquistou a inteireza de seu ser e uma profunda paz de espírito que advém do fato de você não culpar ninguém, nem mesmo seus inimigos, pelos percalços e eventuais derrotas sofridas pelo caminho, pois elas também foram necessárias de alguma forma, e que você realizou o seu melhor sem frustrações ou ressentimentos. As glórias os louros das vitórias, bem como a vergonha pelas derrotas, ficaram para trás, e o que resta é a essência, o significado que você quis emprestar à sua vida. Esse é o verdadeiro bushido do guerreiro, sua jornada como homem e ser humano.

Creio que todos que colocamos os pés no Caminho um dia, e todos os fazemos porque o Caminho está diante de todos, queiramos ou não, porque se funde na própria vida de cada um, temos uma imagem da perfeição que queremos chegar nessa vida. Queremos ser melhores homens, mulheres, pais e mães e profissionais de elite. Acima de tudo, queremos nos tornar verdadeiramente adultos, homens de verdade, homens que mudam situações e adversidades, menos suscetíveis a nossa natureza falha e mais inclinados ao altruismo dos atos desprendidos de um herói. Por mais que a vida tente me amassar e que eu mesmo não consiga me ajudar em nada, abdicar do direito de correr contra os cavalos poderia ser um ato razoável, mas para certos tipos de seres equivale a um ato vil de covardia. Seria abdicar de sua própria natureza. Seria como se alguém resolvesse deixar pra trás tudo que nos faz humanos, a linguagem, a capacidade de discernir a passagem do tempo, o pensar, a música e a poesia para se tornar um verdadeiro animal sem linguagem ou qualquer coisa que o vincule ao genero humano. O sentido de jornada, o sentido de um alvo, de um propósito maior, é metafísico, não pode ser provado pela Ciência, mas é o que nos faz mais humanos verdadeiramente.

Fico feliz em ver esse tipo de Sabedoria em Vitor Belfort. Isto significa que ele está se tornando um "homem sensato", o que, na Antiguidade, era considerado como um título e uma posição de destaque na sociedade. Naquele tempo, eles sabiam que a humanidade precisa de mais exemplares desse tipo. Parece que a humanidade tem perdido a corrida para uma descrição menor do sentido da vida que nos faz correr atrás de coisas bem mais sólidas porque pertencem a esse mundo material. Será triste quando descobrirmos, como civilização, que escolhemos o alvo errado e que acabamos não achando o pote de ouro no fim do arco-íris.

"O IMPORTANTE EU ACHO QUE É A JORNADA...A JORNADA DO ATLETA, A JORNADA DO HOMEM...NÃO NECESSARIAMENTE O MOMENTO. EU NÃO ACREDITO QUE O HOMEM SE REALIZA MEDIANTE AS CONQUISTAS MOMENTÂNEAS. EU ACHO QUE É UMA JORNADA QUE ELE VIVE E AO LONGO DA JORNADA ELE VAI CONQUISTANDO AS COISAS E SUPERANDO OS OBSTÁCULOS..."

"Bem-aventurado o homem que acha sabedoria, e o homem que adquire conhecimento.
Porque melhor é a sua mercadoria do que a mercadoria de prata, e a sua renda do que o ouro mais fino.
Mais preciosa é do que os rubins; e tudo o que podes desejar não se pode comparar a ela."  - Provérbios 3, 13 ao 15

Leia também