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Série Vacas Sagradas Evangélicas: O Sermão

(Este post foi produzido de partes do capítulo 2 do livro "Cristianismo Pagão?" de Frank Viola e George Barna, editado no Brasil pela Abba Press)


"O sermão é a base da liturgia protestante. Por 500 anos, vem funcionando como um relógio.Cada domingo pela manhã (nota T.E.: os cultos dominicais são realizados pela manhã nos EUA) , o pastor sobe ao púlpito e profere uma inspiradora pregação a uma audiência passiva que esquenta os bancos. A razão pela qual a maioria dos cristãos vai à igreja é pela importância do sermão. De fato, o culto como um todo é tipicamente julgado pela importância do sermão. Pergunte a alguém como foi o culto do domingo e quase sempre receberá uma descrição do sermão. Soa algo como o seguinte: Pergunta: “Como foi o culto do domingo passado?”

Resposta: “Foi maravilhoso. O Pastor Peckman falou-nos da importância de plantarmos ‘sementes da fé’ para aumentar nossa renda; foi tremendo. Me motivou a dar todo meu salário no domingo próximo”. Em suma, o conceito do cristianismo moderno relaciona o sermão ao culto dominical matutino. Mas isso não pára por aí. 

A maioria dos cristãos é adicta do sermão. Eles vão à igreja como baldes vazios esperando que os pregadores os encham com mensagens de ânimo. Para o cristão típico, o sermão é a principal provisão de sustento espiritual. É mais importante que a oração, a leitura bíblica e a confraternização entre os irmãos. E, sejamos honestos, é ainda mais importante que a comunhão com Jesus Cristo (pelo menos na prática!). 

Elimine o sermão e você eliminará a fonte mais importante de nutrição espiritual para a maioria dos crentes. Todavia, a surpreendente realidade é que o sermão não tem raiz nas Escrituras! Melhor dizendo, oriundo da cultura pagã, ele foi adotado e nutrido pela fé cristã. Esta é uma declaração alarmante. É verdade? Mas há mais.

O sermão, que tem pouco a ver com o genuíno crescimento espiritual, na realidade não elimina
o propósito que Deus desenhou com relação à reunião da Igreja.

De onde vieram os Sermões Cristãos?
O mais antigo registro cristão relacionado à pregação de sermões refere-se ao final do século II.Clemente de Alexandria lamentava o fato dos sermões exercerem pouca influência nos cristãos.Todavia, apesar de seu reconhecido fracasso, o sermão chegou a ser uma prática normal entre os crentes no princípio do século IV. Isto sugere uma questão interessante. Se os cristãos do século I não se destacavam por seus sermões, de onde os cristãos pós-apostólicos adquiriram o costume de proferir sermões? A resposta é contundente: O sermão cristão foi adotado diretamente da fonte pagã da cultura grega!

Para compreender o nascedouro do sermão, temos que voltar ao século V a.C. e analisar um grupo de mestres peregrinos chamados sofistas. Atribui-se aos sofistas a invenção da retórica (a arte de falar persuasivamente). Eles recrutavam discípulos e exigiam pagamento dos interessados em ouvir seus discursos.

Os sofistas eram polemistas experientes (a arte de debater). Eles eram mestres no uso de apelos emocionais, aparência física e linguagem, para “vender” seus argumentos. Com o tempo, o estilo, a forma e a destreza da oratória dos sofistas chegou a ser mais estimada que sua exatidão. Engendrou uma classe de homens que chegaram a ser mestres na arte de falar, “cultivando o estilo pelo estilo”.24[24] As verdades que eles pregavam eram verdades abstratas e não verdades que eram postas em prática em suas próprias vidas. Eles eram peritos em imitar a forma no lugar da substância.

Os sofistas se tornaram conhecidos pelas roupas especiais que usavam. Alguns tinham uma residência fixa onde proferiam seus sermões regularmente à mesma audiência. Outros viajavam para proferir seus polidos discursos.Eles ganhavam bastante dinheiro nesta atividade). Às vezes, o orador grego entrava em seu foro de discurso “já vestido em sua batina de púlpito”. Depois subia os degraus para ir ao seu assento profissional onde sentava antes de proferir seu sermão.Para chamar a atenção sobre um ponto, o sofista citava versos de Homero. (Alguns oradores estudaram Homero tão bem que memorizaram muitos de seus textos).O sofista era tão arrebatador que incitava muitas vezes sua audiência a aplaudi-lo durante o discurso. Se sua mensagem era bem recebida, alguns diziam que seu sermão fora “inspirado”.

Os sofistas foram os homens mais distintos de seu tempo. Tanto que eles viviam por conta própria. Outros tiveram estátuas públicas erigidas em sua homenagem. (Isto não lembra muitos de nossos modernos pregadores?). Quase um século mais tarde, o filósofo grego Aristóteles (384-322 a.C.) fez uma modificação na retórica ao agregar três pontos à mensagem. “O todo”, disse Aristóteles, “necessita um princípio, um meio e um fim”. Com o tempo, os oradores gregos implementaram o princípio dos três pontos de Aristóteles em seus discursos. Os gregos se intoxicaram da retórica.Assim, pois, os sofistas se deram muito bem. Quando Roma conquistou a Grécia, os romanos ficaram encantados com respeito à retórica. Por conseguinte, a cultura greco-romana desenvolveu uma cobiça insaciável por escutar alguém proferir um discurso eloqüente. Isso ficou tão em moda que depois de cada cena nos teatros se entretinha as pessoas com um filósofo profissional que proferia um pequeno sermão.

Os gregos e romanos antigos viram a retórica como uma das mais elevadas formas de arte. Conseqüentemente, os oradores do Império Romano foram honrados com o mesmo grau de encanto com que os estadunidenses homenageiam astros de cinema e atletas profissionais. Eles foram os astros mais brilhantes de seu tempo.

Os oradores conseguiam deixar uma multidão frenética simplesmente por sua poderosa destreza retórica. Os mestres da retórica, a fachada científica daquele tempo, eram o orgulho de cada cidade importante. Não demorou muito para que os romanos aprendessem dos gregos e se tornassem adictos do sermão pagão — como ocorre com muitos cristãos modernos adictos do sermão “cristão”.

A Chegada de uma Corrente Contaminada

Como é que o sermão grego foi parar dentro da igreja cristã? Por volta do século III, foi criado um vácuo quando o ministério mútuo do Corpo de Cristo se desvaneceu. Durante este tempo, o trabalhador itinerante que falava de uma forma espontânea deixou as páginas da história da igreja. Para substituí-lo, começou a surgir uma casta clerical. As reuniões abertas começaram a desaparecer, e as reuniões da igreja passaram a ser mais e mais litúrgicas.

Durante o século III, a distinção entre o clero e o leigo se disseminou rapidamente. Uma estrutura hierárquica começou a arraigar-se, e surgiu a idéia do “especialista em religião”.  Em virtude destas mudanças, o cristão funcional teve problemas para ajustar-se a esta estrutura eclesiástica tão diferente do que era antes. Não havia nenhum lugar para exercer seus dons. Pelo século IV, a igreja tornou-se completamente institucionalizada e o funcionamento do povo de Deus congelou.

Nesse meio tempo muitos oradores pagãos se tornaram cristãos. Como resultado, idéias filosóficas pagãs foram inadvertidamente sendo introduzidas na comunidade cristã. Isso resultou em que alguns dos novos crentes durante este tempo eram, antes da conversão, oradores e filósofos pagãos. Lamentavelmente, muitos destes homens foram os primeiros teólogos da igreja Cristã. São conhecidos como “pais da igreja”, contudo algumas de suas obras estão conosco.

Assim, a idéia pagã de um orador profissional treinado para proferir discursos ou sermões mediante pagamento passou diretamente ao sangue do cristianismo. Note que o conceito de “mestre especialista assalariado” não veio do Judaísmo. Veio da Grécia. Era costume dos rabinos judaicos dedicar-se a um trabalho ou profissão para não ter que cobrar pelos seus ensinamentos. Estes ex-oradores pagãos (agora cristãos) começaram a utilizar integralmente suas destrezas oratórias para fins cristãos. Eles se sentiam em seu cargo oficial50[50] e expondo o sagrado texto bíblico, como um sofista ao proferir uma exegese do texto quase sagrado de Homero...” 

Se você comparar um sermão pagão do século III com um proferido pelos pais da igreja, você encontrará a estrutura e a fraseologia de ambos bem similares.

Então, um novo estilo de comunicação passou a tomar forma na igreja cristã, um estilo marcado por uma polida retórica, uma gramática sofisticada, uma eloqüência descritiva, e um monólogo. Era um estilo desenhado para entreter e chamar a atenção sobre a destreza oratória do orador. Era a retórica greco-romana.Apenas aqueles que eram treinados podiam dirigir-se à assembléia! (Isso lembra algo?).

Um erudito descreve isso da seguinte maneira: A proclamação original da mensagem cristã era uma conversação de duplo sentido, mas quando as escolas oratórias do mundo ocidental aderiram à mensagem cristã, a pregação cristã transformou-se em algo bem diferente. A oratória tendia a substituir a conversação. A se sobrepor à conversação. A grandeza do orador tomou o lugar do assombroso evento de Jesus Cristo. O diálogo entre o orador e o ouvinte se desvaneceu em um monólogo.

Em suma, o sermão greco-romano substituiu a profecia, a mútua partilha e o ensino inspirado pelo Espírito. O sermão chegou a ser privilégio elitista de líderes da igreja, particularmente os Bispos.Tais cargos requeriam treinamento em escolas da retórica para aprender como falar. Sem tal educação, um cristão era impedido de falar ao povo de Deus.

Já no século III, os cristãos passaram a descrever seus sermões como homilias, o mesmo termo usado pelos oradores gregos ao fazerem seus discursos. Hoje, os seminaristas fazem um curso chamado homilética para aprender a pregar. A homilética é considerada uma “ciência que aplica as regras da retórica, tal qual na Grécia e Roma, onde teve origem”. Em outras palavras, nem a homilia (sermões) nem a homilética (a arte de pregar o sermão) tem origem cristã. Foram roubadas dos pagãos. Uma corrente contaminada se misturou com a fé cristã e envenenou suas águas. Essa corrente flui tão fortemente hoje como no século IV.


Como a Prédica do Sermão degrada a Igreja.

Embora venerado por cinco séculos, o sermão convencional tem contribuído das mais variadas formas para a degradação da igreja. Primeiramente, o sermão faz com que o pregador seja uma virtuose artística do culto eclesiástico. Como resultado, a participação da congregação fica obstaculizada (na melhor hipótese) e excluída (na pior hipótese). O sermão transforma a igreja em um auditório. A congregação degenera em um grupo de espectadores apagados presenciando um evento. Não há espaço para interromper ou questionar o pregador enquanto ele profere seu discurso. O sermão congela e trava o funcionamento do Corpo de Cristo. O sermão promove um sacerdócio dócil por permitir que os homens do púlpito com suas mãos agitadas dominem a reunião da igreja semana após semana.

Em segundo lugar, o sermão estanca o crescimento espiritual. Pelo fato de ser uma estrada de uma só mão, o sermão embota a curiosidade e produz passividade. O sermão debilita a igreja no que toca ao seu funcionamento. O sermão sufoca o mútuo ministério. Abafa a participação aberta. Estanca o crescimento espiritual do povo de Deus.

Como cristãos, necessitamos funcionar, exercitar, caminhar para poder crescer.Podemos crescer sentados como uma estátua de sal ouvindo um homem pregar de lá de cima do púlpito semana após semana? De fato, uma das metas do estilo da pregação e ensino do NT é incentivar você a funcionar. Isto encoraja você a falar na reunião da igreja.O sermão convencional obstaculiza este processo.

Em terceiro lugar, o sermão conserva a mentalidade do clero antibíblico. Cria uma excessiva e patológica dependência do clero. O sermão faz do pregador um especialista em religião, o único que tem algo de valor a compartilhar. Trata todos os demais como cristãos de segunda categoria, como esquentadores de banco (Embora isso não expresse o geral, é a realidade). Como pode o pastor aprender dos demais membros do Corpo de Cristo quando eles estão mudos? Como pode a igreja aprender do pastor quando seus membros não podem fazer perguntas durante sua prédica? Como podem os irmãos e irmãs aprenderem uns dos outros se eles estão amordaçados e não podem falar nas reuniões?

O sermão torna a “igreja” distante e impessoal. O sermão priva o pastor de receber o sustento espiritual da igreja. O sermão priva a igreja de receber nutriente espiritual mútuo. Por estas razões, o sermão é uma das maiores barricadas que impedem o sacerdócio funcional!

Em quarto lugar, em vez de equipar os santos, o sermão remove suas habilidades. Não importa quão forte e extensamente o ministro fale acerca de “equipar os santos para a obra do ministério”, a verdade é que a pregação de sermões não equipa ninguém para o serviço espiritual. Na realidade, o povo de Deus acostumou-se tanto a ouvir sermões que os pastores acostumaram-se a pregá-los. (Sei que alguns cristãos não gostam de pregações a cada semana, mas parece que a maioria as desfruta).Em contraste com a pregação, o ensinamento do estilo neotestamentário equipa a igreja para que funcione sem a presença do clero.

Em quinto lugar, o moderno sermão é totalmente contraproducente. A maioria dos pregadores é especialista em coisas que nunca experimentou. Por ser abstrato e teórico, piedoso e inspirador, demandante e obrigatório, entretido e ruidoso, o sermão não coloca os ouvintes em uma experiência direta e prática daquilo que é pregado. Assim, pois, o sermão típico é uma lição de natação em terra seca! Falta todo valor prático. Prega-se muito no ar, mas ninguém aterriza. A maioria das pregações é dirigida ao lóbulo frontal. A moderna pregação do púlpito falha em ir além da mera disseminação de informações sobre equipar crentes a experimentar e utilizar aquilo que escutam.

O sermão reflete seu verdadeiro pai — a retórica greco-romana. A retórica greco-romana estava mergulhada em abstrações.Esta “envolvia formulas desenhadas para entreter e revelar o artista orador em vez de instruir ou desenvolver talentos em outras pessoas”.O moderno sermão polido pode acalentar o coração, inspirar a vontade e estimular a mente. Mas raramente, ou nunca, indica como se retirar da conferencia!

De qualquer forma, o sermão não promove crescimento espiritual. Mais que isso, ele agrava o empobrecimento da igreja.Os sermões atuam como um mero e momentâneo estimulante.
Seus efeitos são extremamente efêmeros.

Sejamos honestos. Há multidões de cristãos sendo “sermonizados” há décadas, todavia, continuam na condição de bebês em Cristo.Nós cristãos não somos transformados por escutar sermões. Somos transformados por um encontro regular com o Senhor Jesus Cristo.Os que ministram, portanto, são chamados a assegurar que seu ministério seja intensamente prático. São chamados não apenas para revelar a Cristo, mas para mostrar a seus ouvintes como experimentá-lo, conhecê-lo, segui-lo e servi-lo.
Se um pregador não consegue levar seus ouvintes àquela experiência viva e espiritual que ministra, os resultados da mensagem serão efêmeros. Portanto, a igreja necessita menos gente no púlpito e mais facilitador espiritual. Há uma necessidade urgente de pessoas proclamando Cristo e sabendo como levar o povo de Deus a experimentar esse mesmo Cristo proclamado.

Necessitamos restaurar a prática do século I da exortação mútua e do ministério mútuo. No NT, a transformação espiritual depende destas duas coisas.Naturalmente, o dom do ensino está presente na igreja. Mas o ensino deve fluir de todos os crentes107[107] tanto quanto flui dos que possuem dons especiais para ensinar. Nós deixamos a Bíblia de lado quando permitimos que o ensino tome a forma de um sermão convencional e o relegamos a uma classe de oradores profissionais.

Concluindo

O sermão do púlpito não é o equivalente à pregação encontrada nas Escrituras.A prática do sermão não é encontrada no Judaísmo do AT. Não é encontrada no ministério de Jesus, nem na vida da Igreja Primitiva. Além disso, Paulo disse aos gregos convertidos que ele próprio recusou ser influenciado pelas formas de comunicação utilizadas pelos pagãos de seu tempo.

O sermão é uma “vaca sagrada” concebida no ventre da retórica grega. Nasceu na comunidade cristã quando os ex-pagãos (agora cristãos) começaram a levar seus estilos de oratória para a igreja.

No século III era comum o líder cristão proferir sermões. No século IV virou norma. O cristianismo absorveu sua cultura circundante.Quando o pastor sobe ao púlpito exibindo sua veste clerical e proferindo seu sermão sagrado, ele exerce o papel do antigo orador grego.

Todavia, apesar do fato do sermão não possuir nenhum mérito de fragmento bíblico que justifique sua existência, este continua sendo admirado e isento de crítica nos olhos da maioria dos cristãos modernos. O sermão entrincheirou-se de tal forma na mente cristã que a maioria dos pastores e “leigos” que crêem na Bíblia falham em ver que por pura tradição afirmam e perpetuam uma prática antibíblica. O sermão chegou a ser permanentemente embutido em uma estrutura organizacional complicada, bem longe da vida eclesiástica do século I.

Diante de tudo que descobrimos sobre o sermão moderno, considere estas questões penetrantes: 

Como pode um homem pregar um sermão sobre “ser fiel à Palavra de Deus” se a prática do sermão não é bíblica? Como pode um cristão sentar-se passivamente em um banco de igreja e passivamente afirmar o sacerdócio de todos os crentes desse mesmo banco? 

Para personalizar um pouco mais:Como é que você, querido cristão, pode pretender defender a doutrina protestante de base puramente bíblica ao mesmo tempo em que apóia o sermão do púlpito?

Como disse eloqüentemente certo autor, “o sermão é inquestionável em termos práticos. Passou a ser um fim em si mesmo, sagrado, subproduto de uma reverência distorcida pela tradição dos anciãos...”. Parece estranhamente inconsistente que aqueles que estão mais dispostos a defender a Bíblia como a Palavra de Deus, “supremo guia em todos assuntos de fé e prática” se encontrem entre os primeiros a rechaçar os métodos bíblicos em favor das “cisternas quebradas” de seus pais (Jeremias 2:13). Em outras palavras, não há espaço no curral da igreja para vacas sagradas como o sermão!"

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