0

AS I LAY DYNG - Vídeos Comentados

Bem...que o AILD é uma banda incrível eu já escrevi por aqui, mas outra coisa notável a seu respeito são seus clips, especificamente, dois feitos para o álbum "An Ocean Between Us", incluindo o video nomeado para o Grammy de 2007, "Nothing Left", e sua sequência, algo meio que inédito em clips, "The Sound of Truth". Além deles, temos o último trabalho de divulgação da banda para o último album, "The Powerless Rise", com a música "Parallels". Vamos disponibilizar também as letras para uma melhor compreensão do contexto daquilo que a banda quer passar como mensagem. Há muitas coisas interessantes para analisar nesses vídeos.

NOTHING LEFT - NADA MAIS


Este mundo nunca foi digno
Mas como posso chamá-lo de infiel
Todas as promessas foram cumpridas
Como decadência que se arrasta de sua garganta
Como o morto saindo da sepultura aberta
Lábios de esplendor e língua de engano
Tudo morre agora assim como nosso frágil pulso só contém resíduos

Como aqueles que ofegam por um último suspiro
Não podemos esconder que não há mais nada

Se toda minha aflição me guiou até aqui
Então posso chorar todas as minhas lágrimas
Para ter essa chance outra vez
E saber que há mais do que isto
E saber que há mais do que você

Como aqueles que ofegam por um último suspiro
Não podemos esconder que não há mais nada

Num mundo futurístico como nos é apresentado na primeira cena, vemos uma realidade de tirania e opressão através da discriminação e intolerância a pessoas que desenvolvem um tipo de doença que pode ser contagiosa. A personagem principal da história se vê acuada pelos outros que a vêem como um ser inferior, menos que humano ao descobrirem que ela é portadora do "mal". A cena seguinte nos mostra uma estrutura muito parecida com o Coliseu, lugar onde os cristãos foram massacrados por muitos anos, como um câncer a ser estirpado na sociedade romana. Não há sinal algum de misericórdia ou compaixão nas faces das pessoas pela mulher exposta a vergonha pública enquanto a figura que parece ser o "César" do local incita a massa até que ele dê o sinal indicando a condenação: o polegar para baixo tão característico da ordem que os Césares davam para que alguém fosse executado. O clip termina com a mulher sendo levada para fora da cidade rumo a um tipo de prancha sobre um precipício e sua execução parece algo inevitável.

O final melancólico e aparentemente injusto da trama ressalta a injutiça do mundo relatada na letra de Tim Lambesis. a execução, perseguição e a intolerância com pessoas "diferentes" e consideradas "aberrações pelos mais variados motivos tem sido a tônica o mundo desde há muito tempo. Nós sempre rotulamos, discriminamos e perseguimos aqueles que são "diferentes". 

A intolerância exposta no video pode ter muitas fontes e acontecer de muitas maneiras. Não somente os cristãos foram perseguidos e mortos por suas convicções na história. Os leprosos foram banidos da sociedade durante séculos por ignorancia e medo. Os nomeados "cristãos", por sua vez, perseguiram os judeus por toda Europa. "Cristãos" perseguiram e mataram "cristãos" durante a época da Reforma. Liberais ateus perseguiram e mataram "crentes", expuseram padres e freiras a execração pública pelas ruas de Paris durante a Revolução Francesa. A intolerância anda juntamente com o medo e o ódio daquilo que não podemos entender nem aceitar totalmente. 

 A idéia do clip também pode girar em torno da projeção de uma sociedade futuristica onde a fé em DEUS poderá ser encarada como uma doença e exposta a um julgamento público. 

Mas que tal pensamos se estamos nós mesmos hoje em dia encarnando esse espírito tão horrível promovendo o medo e a desconfiança a certos tipos de pessoas só porque não aceitamos o seu modo de ser e viver? De que lado queremos estar realmente? Apontando, acusando e condenando? Nas palavras de Lambesis, o mundo cumpriu todas as suas promessas e é isso aí mesmo, não devemos esperar dele outra coisa, mas e quanto a nós, não deveríamos ficar do lado daqueles que "ofegam por um último suspiro", uma última chance de encontrar na vida algo "além do que isto" aqui oferece?

The Sound of Truth - O som da Verdade

Temos ouvido tudo que queriamos ouvir
A "Verdade" que soa bem aos nossos ouvidos

Mas que sabedoria há em nós
Para vivermos baseados nos sentimentos de nossos corações?
Quantas vezes os instintos nos desapontaram
Nunca parar para pensar
Nunca ser questionado
Diga o que realmente significa
Quando sua ambição te chama
Para que serve orar
Se você só ouvirá o que quer ouvir?

Falamos de lutar para resistir a este mundo
Mas, e quanto à batalha que existe dentro de nós?
Se temos escolhido viver contra a maré
Então como estamos diante do mesmo caminho?
Não há diferença entre nós e eles
Se buscamos tão cegamente a verdade de sentimentos.

Temos ouvido tudo que queriamos ouvir Verdade que soa bem aos ouvidos

O clip começa onde "Nothing Left" termina, ou seja, na prancha de execução. Mas algo está acontecendo na tal cidade futurística, um tipo de rebelião ou revolução que leva muitas pessoas às ruas. Elas não estão satisfeitas com o governo daquele "caroinha" de preto e então saem às ruas depois de libertarem a garota da morte certa. A rebelião chega até a sede do governo onde os rebeldes capturam o ditador e o levam a julgamento público naquele "Coliseu" onde antes a garota foi julgada. Repare que o povo que antes apoiava o tirano agora quer sua cabeça e a única que não parece realmente a vontade ali é a garota que seria executada. Quando o ditador é atirado ao solo e depois levantado repare que suas luvas ficam no chão e, então, algo ocorre. O déspota olha de modo estranho para suas mãos sujas de lama, sujas de uma terra manchada com o sangue de tantos condenados por ideologias opostas. 

Só para lembrar, alguns minutos antes, a mão é mostrada por um dos "rebeldes" como uma senha para adentrar a uma reunião fechada dos revolucionários. Talvez para salientar a diferença entre os oprimidos e o opressor, que sempre aparecia gesticulando com as mãos cobertas pela luva preta.
O significado real daquilo que a banda queria passar somente eles mesmos poderiam responder, mas creio que o sentido simbólico disso é que nesse instante a "ficha" cai para muitos ali e ocorre uma identificação psicológica do povo com o ditador. Eles são iguais em essência. Ele era seu governante porque eles o permitiram e cederam todo poder a alguém que era a extensão deles mesmos. Isso é comum na História. Os nazistas só chegaram ao poder com o apoio popular, o mesmo com os comunistas na Rússia e na China. Cada revolução vitoriosa na História está alicerçada ou no apoio popular ou na omissão do povo em tomar posição frente a um levante.
Todos conhecemos o ditado que diz: "Todo povo tem o governo que merece", o que é verdade, até certo ponto. 

Vejamos o Brasil. Todos reclamamos dos nossos políticos, mas não são eles brasileiros como nós? O que nos faz pensar que seríamos diferentes deles se estivéssemos lá? Seria razoável se admitessemos que nossa classe política é o espelho do que é o brasileiro moralmente, ou não? Nossa apatia em exigir mudança nos diz mais sobre nós do que pensamos. 

Em consonância com a letra, a banda expõe a verdade de que o pensamento cristão que inspirou as bases dos ideais de direitos humanos dos estados modernos e tomou o poder despótico de governos derivados do Império Romano, não mudou em essência o ser humano.

Continuamos sendo cristãos nominais mas usando as mesmas armas de sempre para prevalecer nossos pontos de vista, ouvindo as "verdades" que escolhemos e agindo de acordo com nossas escolhas baseadas em não mais do que gosto pessoal. A Verdade cristã, que a banda quer salientar, sempre conduz a um confronto com nossos modos de enxergar as coisas e as medidas que usamos para "manter" a aparência do mundo ao nosso redor. 
Resta saber se a banda vai produzir algum tipo de sequência para a história, que a meu ver, não está finalizada.

Há espaço para mais um episódio para fechar a reflexão iniciada por esses dois excelentes vídeos que mostram que uma banda metal não precisa ser acéfala para ser boa e que o bandas cristãs podem trazer um conteúdo muito importante para a mente dos jovens que gostam do estilo.


Parallels - Paralelos



Estamos todos em coma; Somos superalimentados...mas subnutridos, ansiosos para algo mais.
Nunca famintos e ainda assim nunca satisfeitos. Lascivos, porém, sem nenhuma carne ou mente útil.

Eu sou uma contradição ambulante que encontrou estabilidade
consumindo tudo, sem produzir nada substancial.

Nos paralelos nós batalhamos...batalhamos para conservação, há um jeito melhor para sermos libertados.
De tudo o que almejamos, tem que haver algo melhor na vida do que simplesmente estar vivo...do que simplesmente estar vivo.

Não somos mais iguais como eu espero  mostrar. Há um caminho melhor se nós apenas deixarmos rolar.
Nós não somos...nós não somos iguais...nós não somos....nós não somos os mesmos...deixa isso rolar (abandone).

Na tensão entre o desejo ávido ou simples necessidade
Fica claro que os poucos limites entre os únicos nós preservamos.

Não somos mais iguais como eu espero mostrar. Há um caminho melhor se nós apenas deixarmos isso
Nós não somos...nós não somos os mesmos...nós não somos....nós não somos os mesmos.
Deixa rolar... Não somos mais os mesmos.

Nos paralelos nós lutamos para conservação,
há um jeito melhor para sermos libertados...para sermos libertados.
E nos paralelos (paralelos) nós batalhamos para conservação (batalhamos para conservação),
há um jeito melhor para sermos...para sermos libertados.


Em “Paralels” vemos uma crítica contundente ao sistema  que faz do ser humano um produto montado em linha. Inertes, como num estado de coma, simplesmente somos condescendentes num processo que tenta uniformizar cada ser para que seja útil às engrenagens da grande máquina. Vemos a tal “máquina” arrancar a cabeça de um cidadão para “plantar” ali uma cabeça de pássaro igual a de todos os outros. O vídeo mostra que somos colhidos para participar desse processo desde bebês e parece não haver um meio de nos livrar dessa escravidão, mas como a letra diz “Há um meio melhor para sermos libertados”. A expressão “let it GO” usada para definir de que modo se dará essa “libertação” é de difícil tradução pois se trata de uma expressão idiomática que depende muito de contextualização e interpretação. Literalmente, quer dizer “deixe ir” ou “deixe rolar”, mas pode significar de um modo mais profundo, uma espécie de deserção, de abandono de uma causa ou motivo.

De acordo com o contexto da letra, a banda faz referencia ao estado letárgico em que cada um está imerso nesse processo, mesmo sentindo-se vazio e ansioso por uma Vida realmente significativa. Nesse sentido, somos nós mesmos os responsáveis por mudar a direção e buscar um sentido e horizontes que ampliem nossa percepção de vida. Como disse Lambesis em entrevista recente publicada por aqui, o objetivo em geral das letras do novo cd é mostrar que é possível ter “Uma vida mais simples em comunidade que permita que todos tenham uma vida muito mais livre da corrupção e da ganância”.

Parece que já é realmente tempo dos jovens cristãos acordarem da alienação religiosa e serem os portadores de uma mensagem mais poderosa para essa geração Y. Essa mensagem, firmemente alicerçada em valores espirituais, antes de fazer qualquer apologia doutrinaria ou dogmática, ganha ares de contracultura ao questionar os sistemas de controle e massificação do pensamento, ferramentas presentes também dentro da religião institucional. Ao fazer isso, gente como o AILD, P.O.D., Brian Head entre outros estão levantando suas vozes para acordar muitos jovens não só para a realidade de que podem escolher outro caminho, mas apontando que a única real saída é a transformação interior proposta nos Evangelhos. E isso é muito diferente de propor religião.


Bom, é isso aí. Se alguém quiser adicionar algum comentário ou fazer alguma ressalva, fiquem à vontade. 









Leia também