0

Livres do quê e para quê? - Uma reflexão sobre a Liberdade em Cristo de Gálatas



"Estai, pois, firmes na liberdade com que Cristo nos libertou e não torneis a meter-vos debaixo do jugo da servidão" - Gálatas 5.1


Ah, Liberdade...Poucas palavras soam tão bem aos ouvidos. O conceito por trás dessa palavra elevou-se a categoria de um ideal universal para todos os homens. A Declaração dos Direitos Universais do Homem garante, pelo menos no papel, que todos devem nascer livres e permanecer nesse estado sem ser mantido em escravidão. Logicamente, não passa de uma boa retórica que nunca nos livrou realmente da tirania dos governos mundiais, mesmo os "democráticos", através da política e do sistema econômico...Mas isso é uma outra história.

Todos estamos mais do que familiarizados com João 8.36 ("Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente, sereis livres),  e gostamos de ouvir isso. Geralmente, se perguntarmos a que Cristo se referia, diremos que Ele veio nos libertar do poder do pecado e das garras da morte. É uma resposta correta. Sem dúvida, ele veio para isso. 

Milhares de pessoas experimentam diariamente ainda hoje algum tipo de libertação de algum padrão destrutivo de vida através do conhecimento das palavras do Evangelho. Porém, fica um pouco mais difícil alguém explicar como ou o quê se faz exatamente para manter-se livre. Pode-se dizer que a libertação efetivamente ocorre num momento, no momento em que os olhos do cego são abertos e ele se vê na beira do precipicio que se tornou sua vida e clama para que O SENHOR o tire dali. Agora, com sua alma lavada, com vestes novas, sandália zero bala, anéis nos dedos e etc, ele está debruçado aos pés do Mestre e só pensa em como fará para agradá-lo mais. 

Toda criança precisa de um tutor, alguém que lhe guie os primeiros passos e o ensine os rudimentos do mundo, do falar  do agir corretamente. Desse modo, pode-se dizer que somos entregues, como lactentes, aos cuidados de tutores que nos ensinarão os primeiros rudimentos. Começamos a ser ensinados de várias maneiras pelos responsáveis pelo doutrinamento. 

De certa forma, começamos a ser condicionados a ver algumas coisas além daquilo que vimos Nele na primeira vez. 

Me ocorrem várias  que poderia usar para ilustrar a situação. Em uma delas, depois de liberto de um mal que me impedia de andar livremente, eu sou uma criança dada a correr. Gosto realmente de correr. Vou a qualquer lugar correndo. Sinto-me realmente livre correndo. Mas um dos meus tutores me diz que eu correria melhor se usasse uma muleta. Inicialmente eu discordo, pois eu sei, apesar de criança, naturalmente, que isso iria afetar meu desempenho na corrida, mas acabo cedendo porque obediência é um sinal de respeito e de que estou crescendo. Naturalmente, quero agradar meus tutores para também agradar a Ele, que me libertou e me fez andar, e mostrar que não sou um ingrato ou rebelde.

Obviamente, meu desempenho cai, muito, mas... coisa engraçada... meus tutores me dizem que estou muito melhor assim e fazem comentários do tipo: "Veja só, hein...Está crescendo rapidamente" e "É isso mesmo, meu rapaz!Você é um jovem de fé!". Eu acabo acostumando em usar uma muleta para correr, embora sinta que não funciona e que ela diminui a sensação de liberdade original do correr. Não obstante, meus tutores ainda acham que eu só mostraria realmente que sou O bom se aprendesse a correr com DUAS muletas ao invés de uma, e lá vou eu de novo...Até que me viro bem, afinal, sou um cara persistente, acostumado a desafios, mas aquela antiga sensação de Liberdade...Ah, essa ficou pra trás de vez. Embora descontente, ainda recebo muitos tapinhas nas costas de meus mestres que insistem em dizer que estou cada vez melhor do que antes.

Essa é a moral da história dos gálatas, a quem Paulo escreve essa carta, que se fosse colocada no Novo Testamento na ordem cronológica em que foi escrita, ocuparia a primeira posição, tendo sido escrita por volta de 49/50 d.C., portanto, antes mesmo de alguns Evangelhos, como o de João. 

Os gálatas foram alcançados pelo Evangelho de Paulo e sentiram o frescor das asas do Espírito bater em suas faces. Estavam livre e viviam assim. Por assim dizer, corriam como cavalos selvagens. Quando digo cavalos selvagens as pessoas podem ter uma imagem errada a respeito. Quero dizer, os cavalos só são selvagens para quem quer montar neles. Geralmente, eles vivem bem numa vida em comunidade onde fazem parte de uma família coletiva, onde todos ajudam-se mutuamente a sobreviver e escapar das adversidades que teriam se andassem por aí sozinhos. 

Voltando aos gálatas, vemos que Paulo está quase irado com um certo tipo de gente que se introduziu no meio deles e os inquietou tanto que fez com que eles aceitassem algumas muletas, ou, para usar outra imagem, colocar voluntariamente sobre si alguns cabrestos, como  se faz com os cavalos. Sabe como é, nada de mais, só pra facilitar a direção. Esse pessoal, segundo Paulo, uma galera da pesada, do mal mesmo, ficou conhecido na historia da igreja como "os judaizantes"

O que essa gente barra pesada queria com o povo de DEUS, hein? Paulo tinha um palpite: "Eles são zelosos de vós, mas não sinceramente, mas querem afastar-vos (ou excluir-vos), para que o vosso zelo seja em favor deles" - Gálatas 4.17  -  Ou seja, eles queriam ocupar um lugar que não mereciam e que nem mesmo Paulo ocupou, pois plantou a igreja na Galácia e, tempos depois, foi embora, deixando-os não sozinhos, mas ao cuidado do Espírito enviado para edificar os santos.

A carta aos gálatas é tida como a Carta Magna cristã de emancipação de lei judaica e muitos julgam que ela veio antes do concílio de Jerusalém onde se definiu que os gentios não seriam sujeitos às práticas da Lei judaica. Paulo defendia esse princípio, a superioridade da Nova Aliança frente à Lei, com argumentos de deixar a barba bipartida de qualquer judeu em pé. 

Por exemplo, Paulo usa a imagem do herdeiro que tem tutores que cuidam do seu crescimento e que "durante o tempo em que o herdeiro é menor, em nada difere de escravo (do tutor), posto que é ele senhor de tudo; Mas está sob tutores e curadores até ao tempo predeterminado pelo pai; Assim, também nós, quando éramos menores, estávamos servilmente sujeitos aos rudimentos do mundo; vindo, porém, a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, para resgatar os que estavam sob a lei, a fim de que recebêssemos a adoção de filhos; E, porque vós sois filhos, enviou Deus ao nosso coração o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, {Aba; no original, Pai} Pai!; De sorte que já não és escravo, porém filho; e, sendo filho, também herdeiro por Deus." - Gálatas 4, 1 a 7

As implicações da argumentação de Paulo são realmente destruidoras para a doutrina da Lei. Ele está na verdade declarando que Cristo nos livra de sermos escravos indefinidamente, condição pela qual a Lei nos foi enviada. Ora, se JESUS deixou o Seu Espírito para que recebessemos a adoção de filhos e pudéssemos clamar 'ABA', já não somos escravos, logo a Lei para nós foi destruída, aniquilada. Só nos resta aprender a nos comportar com a Liberdade que um filho deve ter na casa do Pai. 

Infelizmente, essa não é uma lição fácil de aprender. A Liberdade esconde perigos inerentes às suas prerrogativas e o caso é que não são muitos os interessados hoje, como Paulo foi, em ensinar a caminhar por esse caminho. Há muitos tutores e curadores, mas são como aqueles que Paulo antagonizava. Querem que sejamos zelosos deles, querem que nos ocupemos exclusivamente deles e seus ensinos, são possessivos, ciumentos, facciosos, partidaristas, invejam-se mutuamente e são muito, mas muito mesmo, carismáticos, eloquentes e persuasivos. 

Diluem a Graça que nos põe em Liberdade, introduzindo aquilo que estava morto para nós. Paulo alerta: 

"Esta persuação NÃO VEM DAQUELE QUE VOS CHAMOU; UM POUCO DE FERMENTO LEVEDA TODA MASSA" - Galatas 5. 8 e 9

Um mandamento aqui, outro ali, um princípio da Lei revivido aqui, outro acolá e Pronto!!!Estamos excluídos, apartados! Do quê? Da Liberdade da Graça. Excluidos de quem? Da pessoa que nos libertou!! Nos fazemos novamente escravos ao nos submeter a uma hierarquia divinamente humana, que reconstrói a ordem do templo, instituindo levitas, porteiros, cobranças de impostos e a posição mais alta e desejada de sumo-sacerdote que comanda as ações. O povo só é de DEUS se trouxer a sua contribuição muda e sua obediência cega. Mas DEUS, como antes, levanta no meio do povo, profetas para alertar e despertar seu povo.

Como somos cegos reconstruindo um sistema que matou o Messias? Como não podemos enxergar que não vem de DEUS a vontade de dominar sobre o rebanho, mas é fruto do nosso medo da LIBERDADE com a qual Ele nos presenteou? Domínio, controle e medo. São esses os motores do mundo. Por que o utilizamos em nosso meio? Por que não deixa-los? Por que é mais fácil optar por nossas soluções, que só trouxeram até  hoje ódio, inveja, divisão do que o conselho de Paulo em Gálatas 5.13: "Porque vós, irmãos, fostes chamados à liberdade; porém não useis da liberdade para dar ocasião à carne; sede, antes, servos uns dos outros, pelo amor"? 

"LIBERDADE"
Pastores, padres, evangelistas, mestres, líderes, EM NOME DE JESUS, abram mão do controle e do dominio sobre o rebanho de Cristo. Essas não podem ser as ferramentas que lapidam os filhos do Pai. Não ponha fardos sobre eles, os quais o SENHOR mesmo os tirou. Criem vínculos de Amor para guiar as pessoas à maturidade, se é que vocês mesmos são maduros e possuem algo a ensinar verdadeiramente. Se não possuem nada, apenas deixem as pessoas seguirem adiante e DEUS se encarregará delas. São servos Dele, não seus. Não façam deles crianças eternamente dependentes do leitinho de vocês e suas "bocas de ouro". Lembrem-se de que aqueles que ensinam receberão maior julgamento. Olhem ao redor e para dentro de si mesmos e vejam se, mesmo inconscientemente, ao imitar certos modelos, vocês não introduziram fermento farisaico que dilui a Graça Libertadora e introduz a mão pesada do homem sobre os ombros fracos de pessoas que somente estão dando o primeiro suspiro de liberdade. Se isso implicar em abdicar das estruturas montadas para tal, não temam pois DEUS nos chamou para andarmos VERDADEIRAMENTE LIVRES!!

Leia também