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A Batalha de um Só - Um conto

Certa vez um exército reuniu-se no alto de uma colina, preparando-se durante um dia todo para a batalha que se desenrolaria no vale abaixo no dia seguinte. O temível exército do inimigo já se fazia presente lá embaixo, com suas armaduras negras ao sol, estandartes ao vento e músicas de guerra par encorajar seus soldados que eram muitos e conhecidos por sua determinação, violência e crueldade.

No alto do monte, a disposição do outro exército não era diferente. Todos estavam obviamente excitados e ansiosos pelo início do combate, afinal eram guerreiros que haviam treinado muito para aquele momento. Sua vida era uma constante batalha, mas agora seu maior desafio estava a sua frente, vencer seu maior inimigo no seu campo. A guerra não pode  retroceder daqui. Este bastião tem que ser defendido até a morte.

Enquanto a hora para o começo do combate não chegava, os soldados no alto da colina ocupam seu tempo preparando seus espíritos para descer ao verdadeiro inferno que se instalará naquele vale em algumas horas. Mais do que bem treinados, guerreiros tem que ter um espírito inquebrantável e saber que tem que dispor de suas vidas para serem bem sucedidos. Tudo, absolutamente tudo, tem que estar resolvido dentro de suas mentes e corações antes de se atirarem à batalha. Não há nada mais pelo qual ele deseja voltar. Nem família, ou posses ou amores. Ele está desprendido de tudo. Assim, toda noite anterior ao combate, eles passam entoando hinos que exaltam a honra, a força de vontade e a vitória do espírito sobre o desejo da carne que os trouxeram até aqui, às portas do inimigo, rumo a uma grande vitória. Estão convictos de que suas vidas se resumem a esse momento. Lindas vestais, virgens e puras em intenção, derramam óleo perfumado sobre as cabeças dos guerreiros em sinal de sua total consagração.

Pela manhã, ao nascer do sol, o capitão do exército, um grande nobre daquelas terras, reune seus homens no alto da colina para as ultimas palavras antes do embate:

"Homens, chegamos aqui pela Graça do Doador da Vida, não por nossos próprios méritos. Se Ele nos permitir avançaremos sobre o território inimigo, mas eu lhes digo que eles nunca passarão daqui. Nunca mais nossa terra será ocupada pela cobiça, pela vaidade, pela luxúria, pela traição, pela mentira, pela corrupção dos sentidos. Agora temos Rei sobre nós e Seu Nome é Justiça. Avante, homens, pois hoje teremos a Glória de qualquer maneira na ceia...Ou sobre os corpos de nossos inimigos ou na Eternidade!" - e põe-se a descer a colina resolutamente ao acampamento inimigo logo abaixo, certo de que os valorosos homens que o acompanharam até aqui o seguirão até o inferno, mas logo algo o faz estancar surpreso, pois se vê marchando só. Voltando-se, vê suas tropas perfiladas exatamente onde estavam, como que paralisados, imobilizados como um exército de terracota. "Mas Quê..."; exclama.

Neste instante, intervém a figura do sábio do reino, um homem instruído na Sabedoria e na experiência da Vida, mestre no ensino do Caminho da Virtude:

"Filho, isto não é um tipo de sortilégio lançado pelas hostes do inimigo, e sinto muito não poder ter lhe falado antes aquilo que viria a seguir no desenrolar desta guerra. Este exército, preparado e treinado pelo Rei de Justiça, lutou bravamente contigo em muitas batalhas mas, a partir daqui, não mais poderá  acompanha-lo..."

"Mas...Por que?"

"O exército preparado pelo Rei de Justiça fortaleceu seu desejo para expulsar os inimigos de suas terras ancestrais, eles foram necessários como companheiros aliados nessa empresa para fortalecer sua vontade e forjar em seu espírito um guerreiro inabalável, mas eles não poderão ajuda-lo além daqui, pois o Rei de Justiça determinou que se usasse todo seu poder para exterminar de vez seus inimigos isso não ajudaria você a evoluir por completo como guerreiro perfeito. Ainda há pontos fracos em sua armadura e você deve fortalece-los até poder penetrar nas fortalezas inimigas para além daquele vale tenebroso..."

"Então, o que será? Desistimos da vitória aqui, tão perto de chegar? Não entendo o propósito de nosso Rei pela primeira vez. Pensei que Ele queria derrota-los de uma vez por todas assim como eu. Por que Ele procrastina contra o mal agora?"

"Não é procrastinação, meu capitão, mas deves entender que os meios utilizados por nosso Rei não são os mesmos dos outros reis. Ele poderia realmente esmagar os inimigos sem esforço algum se assim o quisesse, mas ele não está interessado no inimigo, seus olhos estão sobre nós. Não haveria proveito algum para nós nisso, pois ele deseja que nós vençamos usando as armas e habilidades que ele nos deu, para sermos perfeitos como ele é, não usando seu poder como mágica barata. E é ali, embora não entenda, naquele vale repleto de inimigos, onde o derradeiro teste será realizado e você sairá aperfeiçoado. Aquilo que ele lhe deu é seu e não importa se irá sozinho, pois deve  ser o suficiente para que você enfrente qualquer gigante pelo caminho. Embora seus guerreiros e irmãos não possam ir com você, tenha certeza de que nos momentos em que desfalecerem suas forças, eles serão enviados para fortalece-lo e nunca o inimigo avançará um passo sequer sobre o território que já foi tomado e dominado pelo Rei, a menos que você desista da luta e renda suas armas. Estaja certo de que não serão poucas as vezes em que fraquejará e pensará em desistir e depor as armas, mas tenha bom ânimo, pois Ele é Fiel para cumprir o que prometeu e enviará ajuda na hora certa, renovando suas forças e sua fé nos momentos mais duros, mantendo seu espírito e sua visão em meio a tribulação. Para este momento você foi chamado e treinado. Só você pode resistir e lutar aqui, caso contrário, tudo que foi feito terá sido em vão. Está pronto para essa batalha sem trégua, meu senhor?"

"Como posso negar aquilo que sou e voltar para trás? Para a Glória ou a morte por ela estou aqui e não retrocederei. Se tenho que lutar tal batalha sozinho não me importo. Vou crer nas palavras do Rei por que melhor são suas promessas do que as vantagens dos déspotas que oferecem tesouros de tolos, onde só há vaidades e vanglórias. Tudo passa nessa vida, mas somente eu tenho que conviver com minhas escolhas, pois sei quem sou e no que me tornei. Mais vale morrer acreditando do que passar o resto da vida lamentando por não ter percorrido esse caminho até o fim".

Dito isto, o guerreiro pôs-e a descer a colina que o separava do inimigo que o esperava de braços abertos e dentes cerrados. Atirou-se ao seu destino abraçando-o com avidez. Aquele foi o dia mais longo de sua vida. As vagas inimigas não davam descanso. Como demônios que conheciam os pontos fracos de  sua  armadura, o cercavam e o atacavam sem piedade, procurando minar suas defesas. Mas uma força e uma destreza inigualáveis faziam com que o justo guerreiro nunca esmorecesse e a cada golpe desferido dezenas de inimigos caiam estraçalhados, fazendo-os recuar assustados. Logo, porém, se reagrupavam e atacavam ainda mais furiosos. O cansaço e a fadiga sobrevieram e o guerreiro sentiu-se derrotado, e isso muitas vezes. Porém, em todas as vezes que ele parecia que realmente seria derrotado, o socorro vinha como prometido, e o exército do Rei intervinha afastando os abutres, colocando-o de pé e restaurando suas forças para continuar a seguir. Inúmeras vezes ele caiu, Inúmeras vezes foi levantado, inúmeras vezes ele se atirou sobre os inimigos desejando morrer e acabar com tudo aquilo de uma vez, mas nunca desistiu nem depôs suas armas, até que acabasse aquele dia e o próprio Rei lhe dissesse que basta, declarando-o vitorioso naquela guerra, e o acolhesse entre o hall de seus heróis.

Assim somos nós, chamados para uma batalha que só acabará no dia em que formos recolhidos do campo de batalha, aquele vale, que somos nós mesmos. Até chegar ali, podemos ser ajudados por muitos que nos dão forças para seguir em frente, mas ao chegar ali, ficamos sabendo que a maior batalha só pode ser lutada por nós: a batalha contra nossos demônios, a batalha contra os exércitos do ego dentro de mim que me dizem que não sou bom o bastante, e que eu sempre ou fracassar. Não importa quantas vezes vou cair naquele campo perante o inimigo, pois o Rei não me mandou vencer uma guerra que Ele já venceu, importa apenas que eu lute sem cessar, sem depor as armas que Ele me deu e crendo que socorro me será enviado para não desfalecer e voltar a ser escravo. Essa luta pela liberdade dura até o fim do dia de nossas vidas quando o crepúsculo chega sobre nossos olhos e, enfim, ele me dirá se perseverei e lutei o bom combate.

Por enquanto, tudo que tenho é minha própria luta e as armas que me foram entregues e com elas espero resistir.

                          Trilha sonora deste post


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