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O Cristo Transcendente e o Cristo Íntimo II

O Cristo Transcendente com toda Sua Glória de Kirios Despotes arrebata os sentidos dos homens de todas as épocas desde a ascenção testemunhada pelos apóstolos. Sua plenitude e onipotencia cegam pelo esplendor de Sua Glória. Inspirados (de modo errado) nele, o homem manifesta todo o seu desequilíbrio ao formular teologias e doutrinas que nos levaram nesses dois mil anos a criar uma quimera chamada ironicamente de "cristianismo", cujo pretexto para existir é espalhar o Evangelho deixado por Ele.

Por causa dessa visão gloriosa de quem é nosso DEUS e como deve ser a Sua Igreja na Terra, os bispos dos primeiros séculos se aliaram ao poder imperial romano, cunhando o bordão que varreu as terras de então: "Um só Império, um só Imperador, um só Deus". O mundo doravante deveria proclamar o Credo Niceno sob o fio da espada e para defender o direito da primazia dos representantes da Divindade Onipotente na Terra sobre os príncipes e reinos deste mundo, mais de dez séculos de guerras, pompa, intrigas, ganancia, coação e tortura.

Nem a turbulenta época da Reforma foi suficiente para dirimir do coração dos homens sua fixação na ênfase em um DEUS que deve controlar  a vida humana nos mínimos detalhes. Sair do cativeiro babilônico não seria tão difícil quanto sair dos lúgubres labirintos aos quais a doutrina da Predestinação, que moldou o pensamento e as sociedades criadas pelos Reformadores, parecia empurrar a iniciativa humana. Tudo está decidido de antemão. DEUS já escolheu os seus, o resto é uma massa condenada. Como saber se sou um escolhido? Obediência total aos preceitos da religião oficial do Estado. A fraqueza e a natureza errática do ser humano não podem ser computados como dados relevantes. Quem erra e comete pecado, é porque nunca pertenceu realmente a DEUS. Uma religião fria e desprovida de compaixão como convinha a um Deus calvinista. Repetindo como seria de se esperar o padrão adotado anteriormente por judeus e católicos, o que parece ser uma tendencia humana irrevogável, os países protestantes que emergiram da Reforma, assimilaram a idéia de que uma marca incontestável do homem realmente abençoado e escolhido por DEUS é ser bem sucedido nos negócios. Varios sociólogos, como Ernest Gellner, apontam que o puritanismo incrementou e fomentou o capitalismo onde foi adotado sendo um dos motores da Expansão Comercial da época. Ao homem bom, escolhido por DEUS resta o trabalho árduo e honesto. A doutrina da mordomia cristã servia somente como um lembrete apagado para que o homem não se deixasse embriagar pela avareza, inutilmente, porém. Tal relação com as riquezas foi repassada para os lugares onde os puritanos chegaram, como os EUA, que foi moldado pelo pensamento "cristão" de que Deus entregou tudo, poder economico e político, nas mãos daqueles temem a sua aliança. O resto é história. Os EUA ocupam o cenário central das decisões mundiais e perpetram sua política economica e militar munidos da idéia de "Nação escolhida pelo Deus Soberano". 

Tal idéia de um Deus tão autosuficiente, não pode aceitar,  segundo os seus defensores, dividir o palco com quem quer que seja, principalmente se for uma deusa recém chegada a tal posição, como é o caso da chamada deusa Ciência. Os "advogados" do Cristo Transcendente na Terra estão sempre dispostos a compra uma boa briga e estabelecer cruzadas contra os infiéis, defendendo a honra de Deus contra os avanços da pós-modernismo e do liberalismo moral. Engajam-se em causas "justas" como "caça às bruxas" comunistas (nos EUA) e se aliam a ditaduras de direita (na América do sul), fazem passeatas anti-aborto (até queimam algumas clínicas e alguns médicos também) e laçam anátemas contra homossexuais declarando o ódio de Deus contra eles.

Reproduzindo a idéia de um Deus que governa unilateralmente, estabelecem para si tronos do alto de suas nanicas piramides construídas sobre seus egos inflados pelo desejo de "fazer a obra". Ali, dentro de seus feudos, governam despoticamente conforme a idéia que mimetizaram. Levando ao extremo sua teologia do desvario, acham-se no direito de retalhar o Corpo de Cristo sobre o mundo, como atesta as centenas de milhares de seitas pseudo-cristãs organizadas conforme suas concupiscencias. Como se pode ver, tal enfase tem provocado uma irrefreável intolerancia a divergencias, tornando opiniões conflitantes em divisões irreconciliáveis entre iguais.

Sintomaticamente, tal teologia provoca, como seria de se esperar, um sentimento de superioridade tal que muitas fraquezas humanas como dúvidas e doenças não são mais permitidas, são traços de maldição. Não é somente lícito buscar a riqueza e a saúde mas é um direito de filho exigi-las do Pai. Numa transmutação fenomenal, o Reino vem agora com sinais exteriores de sua presença para que todos os homens possam deseja-lo como algo que realmente valha a pena.

Como prova inconteste do poder acessível aos profetas do Cristo Transcendente que está assentado à direita do Pai e há de vir para julgar os vivos e os mortos, eles demarcam seu território reconstruindo as antigas catedrais monumentais de outrora, lugares suntuosos onde os imperadores iam adorar o outrora Deus-carpinteiro dos miseráveis. Por sua lógica atroz, pareceria justificável reconstruir o Templo símbolo daquilo que JESUS veio destruir há dois mil anos.

Num outra projeção  fantástica dos seu subconsciente, planejam se tornar também onipresentes no ramo das telecomunicações a fim de que o Reino esteja  mais visível aos homens. Mihões e milhões são gastos para tornar a "cultura gospel" viável ao gosto das multidões.

Para consubstanciar sua heresia, dizem os tais novos "apóstolos" portar a Revelação de que o Reino de DEUS se cumprirá entre nós cabalmente quando a Igreja estiver na posição em que deveria estar perante os olhos de todos, com os "ungidos" colocados nos postos chaves dos governos mundiais, como José no Egito e Daniel na Babilônia, figuras bastante usadas para ilustrar que um "cristão" deve aspirar servir nos mais altos escalões. É a teologia do domínio de sempre com sua ênfase nas realizações do homem. Resta saber em que poderia diferir uma plataforma política evangélica, que defendesse os direitos  e interesses dessa classe contra tudo que soasse ofensivo ao Evangelho, da política unilateral dos regimes totalitários que temos visto durante a História. Trata-se sempre de defender um ponto de vista particular, o que sempre ocasiona partidarismos e desperdício de energia em atividades e militancias que nunca trouxeram o Reino de DEUS à Terra.

Não me parece que esta seja a Sabedoria que vem do Alto, pura, tratável, cheia de misericórdia e bons frutos, sem hipocrisia ou partidarismos. Se não é esta Sabedoria, só podemos estar durante todo esse tempo à mercê da sabedoria animal e diabólica de homens guiados por satanás, o opositor da cruz, da morte do ego, da morte do querer, mas mestre do desejo de ser suprido, do desejo por poder e do desejo de se tornar reconhecido pelos outros. Concupiscencia em grego é na verdade, luxúria, luxúria pelas coisas da vida. O apóstolo João diz há luxúria em nossos olhos, em nossa carne e nos nossos desejos por manipular as coisas da vida conforme nossas certezas e presunções. Tiago nos chama "adúlteros e adúlteras" por mantermos laços e alianças com um sistema oposto ao Reino de DEUS.

 "De onde procedem guerras e contendas que há entre vós? De onde, senão dos prazeres que militam na vossa carne?  Cobiçais e nada tendes; matais, e invejais, e nada podeis obter; viveis a lutar e a fazer guerras. Nada tendes, porque não pedis; pedis e não recebeis, porque pedis mal, para esbanjardes em vossos prazeres"


Ah, quando vamos aprender definitivamente que aquilo que é elevado diante dos homens é abominação diante de DEUS?


Sim. O Cristo Transcendente nos impacta e nos magnifica tanto que ficamos sem fôlego diante de Sua Glória. Queremos fazer como Pedro no Monte: "Porque sair daqui, mestre? Está tão bom! Façamos umas tendas para nós e passemos muito tempo em adoração vertical, entoando hinos ungidos para que o Reino venha o mais depressa possível!" (Não é essa a ênfase do movimento que pretende restaurar a "tenda de Davi"?) Lá embaixo, porém, uma multidão de necessitados esperava a Luz que Pedro queria só para si.

De novo eu pergunto: Como temos lido as Escrituras? Qual a ênfase que temos dado às verdades deixadas para nós? São elas um retrato da realidade que JESUS veio nos legar ou um reflexo de nossos próprios egos monstruosos?

O EVANGELHO DA "KENOSIS" DE NÓS MESMOS

Realizações mais "modestas" podem ser atribuídas aos que dão ênfase ao Cristo ìntimo, pois quase sempre seus feitos não são propagados ao grande público. Geralmente eles estão ocupados demais servindo a DEUS com oração e lagrimas e ao próximo com sua própria vida. Esses são daqueles que são enviados como ovelhas em meio a lobos, são fermento que se mistura a massa e sal que se dilui para dar sabor. Geralmente, não se atribui a eles o adjetivo "ungido do SENHOR" porque não aparentam grande erudição ou eloquencia no falar e não ocupam muito lugares como púlpitos ou telas de televisão. Não estão envolvidos em grandes projetos arquitetonicos mas na restauração de pessoas falidas. Não estão interessados em encher lugares mas esvaziar a si mesmos de toda pretensão humana. Não estão interessados em carregar pedras para construir pirâmides, nem para os outros nem para si mesmos. Estão mais interessados em descobrir o significado real daquelas inigmáticas palavras "É preciso que eu diminua para que Ele cresça". Não estão procurando algum tipo de serviço religioso para se sentirem acolhidos ou de bem com sua consciencia. Muitos deles preferem o deserto onde não podem contar com ninguém a não ser aquilo que carregam consigo para a jornada.

Recentemente, o mundo teve notícias de tal tipo de gente quando alguns missionários cristãos da agência humanitária IAM foram mortos numa ação talebã no Afeganistão. Alguns já estavam naquele país há décadas  prestando assistência médica e educacional àquele povo tão sofrido. Não há notícias de que algum deles fosse da classe especial dos "ungidos do SENHOR", não tinham titulos ou pompa a distingui-los, mas certamente uma coroa de glória os espera nas bodas do Noivo por terem dado suas vidas a outras vidas naquele lugar ermo, frio, rochoso e desolado para a glória do verdadeiro Evangelho e seu SENHOR. Fica aqui uma singela homenagem a esses mártires cuja morte invejo do fundo da minha alma, pois são dignos de serem chamados heróis.

Uma das passagens que mais me agrada em todo Novo Testamento está em Filipenses  2, que trata do assunto chamado comumente "Kenosis" de Cristo, ou "esvaziamento", o processo pelo qual Ele despojou-se de Sua Glória para tornar-se homem. G.K. Chesterton intuiu que "O cristianismo é a única religião do mundo a sentir que a onipotência tornava Deus incompleto" (Ortodoxia; pág.227). Ou seja, tanta Onipotencia deixava DEUS fraco e ainda o deixa hoje. Fraco perante homens que pretendem que Ele conserte todas as coisas com um lance mágico. Fraco perante outros que gritam como gritaram para Ele debaixo da Cruz, numa última tentação: "Se és DEUS, aja como DEUS, salva a ti mesmo e a todos". A Cruz é a resposta de DEUS para todos estes. Viver é perder e perder para ganhar. Perder o quê? A forma humana de pensar e realizar. Na minha humilde opinião DEUS completou na Cruz a sua própria Kenosis que começou na Criação de todas as coisas, pois um DEUS onipotente e eterno que não precisa de nada nem ninguém, está se esvaziando e atribuindo a si mesmo uma necessidade, uma dependencia, por assim dizer, da coisa criada, imperfeita e falha como nos tornamos, por sua própria escolha em amar-nos como a Si mesmo e dedicar-nos a Sua atenção e afeição. Ao fazer tudo isso, DEUS já estava se esvaziando desde o primeiro momento e completou sua obra cravado por Amor numa cruz feita para gente desgraçada na sociedade de perfeitos dos homens. Não importa o que digam, DEUS só vai se tornar pleno novamente quando nos reunirmos em Seu seio definitivamente, pois ainda tem dores pelo nosso estado. Paulo dizia que importava que ele cumprisse o que restava das dores de Cristo enquanto vivesse.

Essa autolimitação imposta por DEUS no que concerne à liberdade de escolha e decisões que devem ser tomadas pelos humanos, não implica na perda de suas capacidades, mas na firme decisão de não intervir como DEUS em assuntos que de outra forma definem nossos passos. DEUS não vai agir como DEUS nem mesmo para intervir nas escolhas que afetam os rumos da natureza, dos rumos políticos do mundo ou do estado da Igreja. Ele completou o seu trabalho de intervenção na História e só voltará a agir assim nos eventos finais que antecedem o fim do governo humano sobre o mundo. Por enquanto, cabe a nós decidir que tipo de leitura faremos do Seu Evangelho e como podemos imitar melhor o Seu exemplo. Me parece que se nos esforçássemos realmente para segui-lo, um outro tipo de "cristão" estaria emergindo das igrejas.

JESUS não era um "cristão", já o disseram, e isso é correto. Um cristão é alguém que foi perdoado por seus pecados, já Cristo ele mesmo carregou os meus, já que não possuia os seus próprios, por definição de origem. Mas o que é ser cristão, na acepção da palavra? Não é me tornar semelhante a Ele? E o que aquilo que se pratica dentro do cristianismo ocidental me ajuda nisso? Qual das práticas comuns dentro das instituições evangélicas seriam comuns ao viver e ao andar de JESUS Cristo na Terra, visto que é o único Cristo que podemos realmente conhecer visto que os Evangelhos tratam de Sua encarnação?

O cristianismo é um produto da mente ocidental, da encruzilhada do pensamento hebraico já helenizado com o pensamento romano também fortemente influenciado pelos gregos. Dessa forma, temos uma mescla do pensamento filosófico grego com um sentido muito forte de organização dos romanos dentro de nós. O pensamento de JESUS me parece se inclinar para outro polo, ou hemisfério. O pensamento dele parece mais orientalizado, mais interiorizado. Nós, homens do Ocidente, olhamos para fora, para o oeste, rumo a conquistas e realizações. JESUS parece olhar para o sentido oposto, para o Oriente, para leste, para o interior. O poente indica a noite que sucede um dia todo de trabalho árduo. O nascente sempre fala da longa vigília que antecede o dia e a esperança da Luz, quando as trevas são dissipadas. Talvez por isso, o pensamento de JESUS ache mais consonancia com alguns mestres orientais, os quais sempre preferiram a introspecçao, a meditação e a contemplação, o esvaziamento do ser.

Essa poderia se tornar a direção para  qual deveríamos finalmente olhar após duzentos séculos de tentativas frustradas que nos levem a uma espiritualidade verdadeira e plena. Nos despir de nossos pressupostos ocidentais e desaprender o modo como aprendemos o Evangelho. em psicologia isso chama-se "interioração", o processo pelo qual passamos a nos conhecer melhor, e enfrentar nosso inconsciente que pode estar "zangado" conosco depois de toda uma vida tentando construir baseado no ego, no eu. Esse é  trabalho da segunda metade da vida, da chamada meia-idade. Creio que, inconscientemente, isso está se manifestando no meio cristão com pessoas buscando uma ênfase diferente, retornado aos pequenos grupos de comunhão e oração, buscando uma forma diferente para adorar e servir uns aos outros.

 É o momento da Kenosis da Igreja, o momento em que devemos diminuir e sair de cena e nos voltar para dentro de nós mesmos e desaprender o que tem sido ensinado em dois mil anos de desvio, redescobrindo o valor da pérola escondida no meio do campo no qual construimos tantos edifícios e estruturas inúteis. Simples e radical assim, como o Mestre o foi entre nós. Menos é mais para DEUS.

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