0

O Cristo Transcendente e o Cristo Íntimo


JESUS, O Cristo, é buscado todos os dias nos quatro cantos do mundo por cerca de 1,7 bilhões de pessoas que se declaram cristãs. As formas de culto podem variar, o formato das orações também, a cultura em questão pode influir no ritual e nas roupas dos sacerdotes, mas todos partem do mesmo princípio, o do Evangelho, nos quais JESUS é apresentado como Filho de DEUS Pai, como Verbo Encarnado para se tornar o Cordeiro que tira o pecado do mundo.
Não obstante as infinitas possibilidades de leituras e concepções, JESUS é DEUS para boa parte da humanidade vivente atualmente no mundo e assim ele é apresentado todos os dias nos templos cristãos espalhados pelos continentes. Não importa o formato da liturgia, seja ortodoxa grega ou russa, católica romana ou anglicana ou luterana, ou baseada no protestantismo do "american way", JESUS é o DEUS que é buscado nas orações e proclamado nos sermões a fim de que se possa alcançar algo em qualquer nível. Multidões correm aos templos buscando desde realizações pessoais a um chamamento divino que empreste algum valor às suas vidas ou mesmo, no caso das teologias mais antigas, uma plácida aceitação da vida que as pessoas sorvem como sopa de xuxu feita em hospital. 

Em todos esses casos, o objeto da busca, Aquele que é desejado, está do lado de fora, é o Cristo Transcendente, Aquele que ascendeu aos céus diante dos apóstolos no primeiro capítulo do livro de Atos. Como está assentado à direita de DEUS Pai, como reza o Credo, espera-se tudo desse Cristo, pois Ele pode tudo. Ele é onipotente, onisciente e onipresente. Não possui fraquezas como aquele de Nazaré que chorou e sangrou de angústia e tristeza, pedindo para que o Pai mitigasse seu martírio, se exasperou e se irou contra os vendilhões do templo caindo sobre eles de porrada e repreeendeu duramente, pra não dizer que xingou, seus discípulos ("Ó geração incrédula e perversa! Até quando estarei entre vós e até quando vos sofrerei?"). O Cristo Transcendente é buscado acima de tudo por sua virtude de levar para o céu os cristãos obedientes e também pelo seu poder para reverter as situações adversas na vida do crente. 

Sua capacidade (comprovada!) de realizar milagres e intervenções nas vidas é testada e levada aos limites da tolerância de Sua vontade todos os dias, aliás, como foi naquela ocasião em que, após uma multiplicação de pães para alimentar uma multidão, muitos queriam aclama-lo como rei de Israel. Muito conveniente lógico, ter um messias que realizasse todos os dias o mesmo milagre, fornecendo pão e peixe a todos sem custo nenhum. Tal disparate foi prontamente rechaçado pelo Nazareno como mais um sinal de que não estavam interessados na mensagem que Ele trazia, mas nos milagres que realizava. Queriam um Messias senil que lhes satisfizesse as necessidades como um gênio da lampada. Como disse JESUS, o verdadeiro Pão, Aquele descido do céu, o verdadeiro alimento, o maná escondido, eles não desejavam. E os escandalizou realmente ao dizer que aquele que não O comesse e O bebesse não poderia entrar no Reino. Comer sua carne e beber seu sangue, uma imagem antropofágica horrível para a época e para a mente judaica, para faze-los desistir de persegui-lo como se Ele fosse um Moloc encarnado. 

A massa idólatra se escandaliza do Evangelho verdadeiro, porque lhes parece que DEUS lhes pede algo pesado demais, lhes pede para desistir e abrir mão do que almejam fazer de suas vidas. Matutos que são, dizem, votando-lhe as costas: "Mas que lhe custa isso?". A mensagem lhes soa mais dura porque DEUS lhes fala mais asperamente por que áspero é o seu ouvido e duro o solo de seu coração e o tratamento de DEUS é conforme a nossa dureza e aspereza. Mesmo os discípulos, que o seguiam mesmo sem compreender perfeitamente e estavam acostumados a ouvi-Lo ensinar por parábolas, sentiram tinir os ouvidos e soltaram: "Duro é este discurso! Quem poderá suporta-lo?" Muitos dos discípulos o deixaram naquele dia. O Evangelho, as Boas Novas do Reino, já não era tão encantador.

O Evangelho verdadeiro exposto por JESUS envolve uma tensão e um contraste constante entre carne e espírito, vontade própria e vontade de DEUS, renúncia e aceitação, morte constante e vida abundante, luto e pesar diante da vida e ao mesmo uma alegria de viver acima da média normal. É dicotômico, paradoxal e por isso exige o máximo empenho mas o mínimo de esforço. Quem consegue viver em contínua angústia criativa como a parturiente que tem uma vida que deseja emergir de dentro de si a cada momento até o fim da vida? Assim é o Evangelho, a Árvore da Vida que germina dentro de nós a partir de uma pequena semente e que, crescendo, se espalha e se ramifica por todos os lados, entrincheirando suas ramagens por todos os poros do ser, a fim de sufocar nossa vocação para o mundo e seus apetites, sendo, nesse sentido, a morte não desejada pelo eu. Como disse JESUS "Quem amar a sua vida, perde-la-a e quem neste mundo odiar a sua vida, guarda-la-á pra a vida eterna". JESUS nunca "doura a pílula" e se expressa sempre em termos absolutos, mesmo correndo o risco de ser mal interpretado.

Bem menos conhecido, porque menos divulgado e menos popular é o Cristo íntimo, Aquele que só se pode encontrar quando estamos a sós no quarto escuro ou assumimos o lugar, nosso por direito, como sacerdotes e adentramos naquele recôndito tenebroso onde só podemos ir desprovidos de nossas máscaras, sendo o que somos. Nesse lugar interior, que corresponde ao Santíssimo Lugar, ou Santo dos Santos, do Tabernáculo de Moisés, não há luz exterior. A Palavra nos diz que sua luz deveria vir diretamente da Glória de DEUS (Shekinah) que emanava da Arca da Aliança depositada ali, dentro da qual repousaria as tábuas da Lei. Posteriormente, também foram depositadas ali dentro a vara de Aarão que floresceu e um pote de ouro contendo um ômer (cerca de 3/5 litros de maná). Como posso expressar o que tudo isso representa como símbolo de uma realidade espiritual para todos nós? Os símbolos, sombras e tipos da Antiga Aliança apontam para a realidade e a Verdade em JESUS e, absorvendo-os estamos absorvendo o mistério da encarnação do Verbo divino, que transforma essa informação dentro de nós em vida. Tudo ali é um símbolo do cumprimento da vinda em carne Dele, mas também um símbolo muito forte da realidade do que deve se desenrolar em nosso interior, desde a aceitação do sacrifício expiatório lá fora no altar, passando pela comunhão com os irmãos e o brilho da Presença no Santo Lugar tudo aponta para o cumprimento profético da Palavra em nosso interior mais adiante.

Assim, o Santo dos Santos está no nosso mais íntimo, onde só nós mesmos podemos ministrar a DEUS e sermos transformados pela Sua Glória. Dentro da Arca da Aliança está a Lei, símbolo da lei moral que governa a consciência de todos os homens e que os condena diante de si mesmos. O propiciatório com os dois querubins era o lugar sobre o qual o sumo-sacerdote espargia o sangue da sacrifício expiatório uma vez por ano. O sangue de JESUS foi oferecido sobre o propiciatório das nossas consciências para que ela não os condenasse mais libertando-os da culpa de Adão. A Lei Moral já não nos condena diante de DEUS.A vara de Aarão fala da Árvore da Vida que floresce por ocasião da nossa escolha por DEUS para que tomemos nosso lugar como sacerdotes e a autoridade que advém disso para propagar o Evangelho. O maná escondido fala do Pão Espiritual dado àqueles que vivem de toda palavra que sai da boca de DEUS. Toda essa provisão espiritual só está acessível àqueles que tiverem ousadia para entrar no Santo dos Santos "pelo novo e vivo Caminho que ele nos consagrou pelo véu, isto é, por sua carne".

Se encontrar com esse JESUS demanda hoje uma trabalheira danada, porque implica em abrir mão da nossa agenda, abrir espaço para DEUS onde não há espaço nem para nós mesmos, exige de nós um NÃO-FAZER quando somos ensinados sempre a fazer algo de nossas vidas. Dessa forma, levamos nosso ativismo para dentro da Igreja, somos afoitos e angustiados por receitas que dêem certo, por resultados imediatos.

Um certo amigo meu está descontente com sua congregação. Sendo um preletor eloqüente e bastante experiente e com inclinações para liderança, algumas pessoas de sua congregação o procuraram para dizer-lhe que o apoiariam se começasse ele mesmo um trabalho novo. Embora diga que não, a soma de vários fatores me fazem acreditar que ele está inclinado a aceitar tal oferta e dar início a uma nova comunidade. Seu discurso envolve certa dose de frustração com o desejo de usar melhor seus talentos para DEUS e isso não é um mal em si mesmo. O perigo se esconde nas entrelinhas do que ele fala mesmo sem perceber usando termos como "quero ver resultados" e "sei que eu posso fazer mais". Aliando isso ao fato de que as pessoas que o procuraram, que já deveriam estar amadurecidas na fé e buscando alimento sólido na fonte, certamente procuram um líder carismático para lhes servir de inspiração e sacerdote-mor, temos a mesma receita venenosa que temos visto seguidamente e que nos deixou no estágio em que estamos hoje. Sua ansiedade em dar fruto e ser "melhor aproveitado" está ligada a urgência com que vê a vida passando. Projetando essa pressa em DEUS, ele se vê cobrado, mas a ansiedade nunca foi uma boa receita para realizar algo no Reino dos Céus. Eu não vejo um DEUS apressado e nem vejo como pressionar DEUS com nossos planos por melhor ou mais bem intencionados que eles sejam. O trabalho de DEUS hoje é o mesmo que sempre foi: o de transformar as pessoas de dentro pra fora num processo que leva o tempo de uma vida humana. Alguém já disse que os moinhos de DEUS moem vagarosamente e assim é.

JESUS disse: "Quem crer em mim, como diz a Escritura, rios de água viva correrão do seu ventre". Isso indica ênfase numa ação que vem do interior, não o contrário. JESUS prometeu estar conosco todos os dias mas de que forma?

Lucas 17:20-" Interrogado pelos fariseus sobre quando viria o reino de Deus, Jesus lhes respondeu: Não vem o reino de Deus com visível aparência.21- Nem dirão: Ei-lo aqui! Ou: Lá está! Porque o reino de Deus está dentro de vós."


Com que aspecto da Verdade nós temos lidado? Qual a ênfase que os líderes dão ao fato de que temos que conhecer a esse Cristo íntimo, ao Mestre de nossa nova natureza principalmente do lado de dentro? Quanta atenção temos dado ao espetaculoso e ao exterior sem olhar para dentro do odre? Não podemos servir ao DEUS verdadeiro usando máscaras como se usava nos cultos de mistério pagãos da Antiguidade. DEUS e Seu Evangelho exige que as removamos porque ele é DEUS de Verdade e está interessado primeiramente em quem somos não no que fazemos. Quando essas máscaras forem removidas uma a uma, revelando os diversos niveis de nossa hipocrisisa, então poderemos dizer que estamos ouvindo e passaremos também a enxergar O CAMINHO a nossa frente. Até lá, muitos ainda andarão em círculos. Talvez já tenha passado da hora de deixar as coisas de menino de lado.

"Varões galileus, por que estais olhando para as alturas?" - Atos 1.11


Leia também