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Amigos de Jó

Minha esposa tem fibromialgia. Pra quem não sabe a fibromialgia é  uma síndrome que promove dores musculares intensas pelo corpo todo da pessoa durante todo o dia todo, e, por isso, também e conhecida como síndrome da dor crônica. A causa é um distúrbio desencadeado por causas quase obscuras no neurotransmissor conhecido como serotonina, responsável por regular entre outras coisas, o sono, o humor, alguns hormônios e até o batimento cardíaco e sua falta está intimamente ligada aos sintomas da depressão. Esta é mais uma daquelas doenças ditas "modernas", de fundo psicosssomático, que geralmente as pessoas acham que é firula do paciente, que na verdade a pessoa está querendo chamar a atenção de outra, etc.Nada mais longe da verdade. A fibromialgia tem uma causa real que está ligada a um contexto muito maior. 

Em primeiro lugar, depois de estudar um pouco o assunto e sofrer junto com minha esposa da impotência causada pela incapacidade de derrotar plenamente o inimigo, procurei conhecer mais do assunto. Não pude deixar de notar alguns "paralelos" que considero interessantes. Não posso falar por ninguém, só posso falar do ponto de vista de onde estou, do modo como enxergo toda a situação. Assim, não vou generalizar a  situação.

A tal "fibro" apareceu mais ou menos há três anos como evolução, a meu ver, de um quadro clínico já não muito favorável. Ou seja, desde que a conheço minha esposa não goza de uma saúde perfeita. ela, na verdade, parece ter sido "premiada" com uma variedade bem grande de males que, apesar disso, não diminuem o seu senso de humor, pois ela geralmente está rindo de tudo. Ela pode ser descrita como uma pessoa bem simples e prática, que gosta das coisas do lar, de deixar a casa arrumada e ver as coisas em ordem. Não tem grandes aspirações em qualquer área ou sonhos pessoais de realização a não ser criar nossos dois filhos.Tudo que ela gostaria é de uma vidinha boa no aconchego do lar, sem grandes novidades. Diferente de mim, ela não é dada a questionar muito as coisas e prefere não pensar em coisas muito difíceis como teologia ou filosofia ou sobre o porquê da igreja estar assim ou assado. Ela não se interessa pela maior parte dessas questões e procura manter sua fé num nível bem básico, até porque ela sabe que não é pelo esforço próprio que DEUS a amará mais, embora muitos tentem nos convencer do contrário. Ou a Graça é graça mesmo ou se torna facilmente em Lei e esforço próprio. Para resumir esse ponto, ela não sofre pelos mesmos motivos que eu sofro.

Não tenho qualquer dor no corpo, mas uma contínua dor na alma que me assombra e me inquieta continuamente. Um desejo ardente por algo que não encontro em qualquer lugar para onde olho, uma volúpia  incessante por uma visão não cumprida da qual só tive um vago vislumbre. O mundo e seu dia-a-dia se tornaram um fardo pesado, uma sucessão de eventos nos quais não tenho prazer. O Reino dos céus parecia logo ali e eis que já não está. Me tornei como o pregador de Eclesiastes, o primeiro livro que li inteiro na Bíblia aos 14 anos, enfadado e cético quanto às coisas que ocorrem debaixo do sol. Não que não haja alegria ou bons momentos, ao contrário, mas tais momentos são insuficientes quando você tomou ciência do que é Coisa Real, aquela "coisa" a qual Davi se refere no Salmo 27, verso 4, também mencionada por JESUS a Marta em relação a Maria, em Lucas 10.41. Quem prova disso tem uma grande probabilidade de se sentir que o resto de sua vida é como manteiga que foi espalhada sobre uma fatia muito grande de pão. È um sentido de "inadequação" diante da vida como ela se apresenta em face daquilo que sabemos e esperamos que virá.

De fato, sempre me senti deslocado em qualquer ambiente que fosse, como se eu não pertencesse a esse mundo e seus valores. Quando a Graça me alcançou pela primeira vez senti que tudo que era inadequado em mim era suprido em Cristo e assim é realmente, mas ter que conviver comigo mesmo até o fim de meus dias é uma hipótese que eu não tinha levado a sério. Entenda, meu enfado é comigo mesmo, com minhas fraquezas e limitações, as quais DEUS, por Sua Graça, embora eu não entenda, resolveu não tirar. Sem dúvida é mais simples para os anjos, que vivem e se movem na Sua presença manifesta (ou pelo menos achamos que é assim). Eles não tem que se ocupar com o cotidiano. Parece que há tanta coisa para fazer em prol do Reino, mas DEUS ou não tem pressa ou tem seus próprios meios, o que acho mais viável, e não precisa de gente miserável como eu (ou você, se está se achando tão bom). Não estou falando de ativismo religioso, que acho que é aquilo em que a maioria está metida. Atividade de DEUS é bem diferente, basta ler o livro de Atos de novo e vai ver. Essa é minha condição atual que se parece com aquela velha canção do U2, "but I still haven't found what I'm looking for..."


Seja como for, a tal fibro parece ter um potencial incapacitante de acordo com o grau ou estágio do seu desenvolvimento. Minha esposa, ao que parece, está no grau um ou inicial e nem de longe quero ver como é o grau mais avançado. Num desses dias em que ela estava com uma crise, acordei no meio da noite e pude perceber que, embora "dormindo", seu corpo apresentava um horroroso espasmo muscular intermitente, como se ela estivesse recebendo choques elétricos. Tive a terrível sensação de que minha esposa estava sendo torturada enquanto dormia.

Como pessoas de fé, oramos juntos vezes sem conta sobre isso, e conversamos outras tantas vezes sobre como isso poderia ou não afetar nossa confiança em DEUS e também sobre os possíveis porquês de  tal situação. Seria alguma maldição? ação do maligno? Permissão de DEUS? Também oramos juntos com vários irmãos e ministros impuseram suas mãos sobre minha mulher "determinando" a cura. Não gostaria de dizer isso aqui mas há um ano e meio atrás tentamos  receber algo de DEUS na Igreja Mundial do Poder de Deus em São Paulo. Eu sei que DEUS é o mesmo em qualquer lugar mas quando se ora tanto por algo e não somos atendidos, e se você ainda acredita que há milagres hoje, e nós cremos nisso, a tendência lógica é achar que você não está captando 100% da vontade de DEUS e que seja lícito acreditar que, se somos parte de um Corpo maior, Ele deu dons específicos a alguns como a Palavra mesmo garante. Fomos lá com humildade, depois de muita relutância de minha parte, mas decidido a não deixar que certas pessuposições pudessem afastar um possibilidade e também porque não desejo ser o dono da Verdade e nem me sentir mal por não ter tentado de tudo que é lícito para alcançar a cura desse mal.

Minha esposa tenta conservar aquela fé simples mas creio que ela já não acrêdita que DEUS ouça suas orações ou que elas fazem alguma diferença, afinal de contas. Sabemos que a oração é muito mais que petição de milagres, a oração é a própria respiração do espírito daquele que crê. Sem oração, o espírito morre sufocado, a confiança e a fé em DEUS minguam e morrem de inanição. Mas não posso, aliás ninguém pode, dizer o que ela sente em seu interior e como ela deve se comportar com isso em seu corpo. O julgamento é um dos maiores males no meio "cristão". Eu mesmo já a julguei muito na época em que era mais  ativista dizendo que ela sofria por não entender a vontade de DEUS e preferir sua própria "vidinha" à vida da cruz. Lamentávelmente, agi como os amigos de Jó agiram com ele, procurando uma culpa nele que justificasse tanto sofrimento.

Um amigo de longa data, a quem considero muito, me disse, usando seu próprio exemplo, que tal situação deveria ser com certeza a ação de um demônio.Bastaria que ela se submetesse a sessão de desencapetamento, pela qual o próprio passou, na sua denominação, a qual não citarei, e, logicamente, se tornasse uma crente mais fervorosa para que o inimigo não tivesse mais vez. Como exemplo, ele citou seu próprio caso, no qual ele foi curado de um desvio de coluna (mostrou-me o antes e depois por foto) causado pelo suposto demônio que se manifestou no "exorcismo" com toda teatralidade que lhe é peculiar. Detalhe: o meu amigo já era nessa época "ministro de louvor" e "crente fervoroso" como poucos que conheci. Isso me revoltou e o desafiei a ir a minha casa com seu pastor e tentar expulsar qualquer capeta que esteja em minha casa! Porque, se as coisas são realmente assim, qual a defesa que nós temos contra o mal, efetivamente? Veja bem, eu acredito em tudo que está escrito e sei muito bem que pessoas podem ficar sujeitas à ação demoníaca só não acredito na banalização que vemos hoje sobre o assunto.

Há até mesmo passagens em que JESUS expulsa espíritos de enfermidade, como a mulher encurvada, atribuindo tal mal à ação demoniaca ("Por que motivo não se devia livrar deste cativeiro, em dia de sábado, esta filha de Abraão, a quem Satanás trazia presa há dezoito anos?" - lucas 13.16) mas se estamos falando de pessoas que estão salvas, para as quais o véu já foi rasgado, como tal mal pode ser maior e sobrepujar as respostas de DEUS e obliterar seu poder através da oração?

Expus ao meu amigo que os "amigos' de Jó também pensavam que sua situação era um efeito de seus atos e para minha surpresa, ele retrucou dizendo: "Mas não fica claro que Jó era realmente um pecador por que murmurou contra DEUS  dizendo que Ele era injusto por faze-lo sofrer?" Respondi que queria ver o que ele diria naquela situação e que, ademais, DEUS não pode se contradizer, pois afirma que Jó é "justo" como nenhum outro sobre a Terra. Logo, se ele murmurou foi algo intrinseco à ocasião de sofrimento, a qual ele não podia entender como "castigo" e para "provocar" a resposta divina. Meu amigo insistiu: "Mas não foi realmente a ação satãnica que o fazia sofrer?" Respondi que, nesse caso, gostaria de ver um exorcista desses expulsar  o "demônio de Jó"!!! Seria engraçado não? Jó foi justificado depois por DEUS e seus amigos tiveram que contar com a sua intercessão. O mal que assombrava Jó não poderia ser expulso por qualquer sortilégio do mundo,como é óbvio.

Se Jó sofria era porque havia um propósito oculto a ser revelado para ele e para as pessoas na época e, ao que parece, permanece oculto à maioria dos crentes ignorantes de hoje que são como aqueles amigos de Jó: cheios de pressupostos de causas e efeitos, de idéias de um DEUS que pune por pequenas ações com um karma instantâneo, um deus que não é o DEUS de JESUS mas o deus dos muçulmanos e hindus . A revelação do sofrimento do justo Jó está inserida na declaração de Eclesiastes 9,2: "Tudo sucede igualmente a todos: o mesmo sucede ao justo e ao perverso; ao bom, ao puro e ao impuro; tanto ao que sacrifica como ao que não sacrifica; ao bom como ao pecador; ao que jura como ao que teme o juramento; 3 - Este é o mal que há em tudo quanto se faz debaixo do sol: a todos sucede o mesmo..." Debaixo do sol, tudo ocorre de acordo com as probabilidades e oportunidades, embora gostemos de crer num Deus que governa os mínimos detalhes de nossas vidas. Esse é o deus destino. De modo egoísta e tendencioso, atribuímos ao DEUS onipotente todos os êxitos e colocamos na conta do diabo todos os males e presepadas pelas quais passamos. Somos uns perfeitos igorantes das realidade das coisas pelas quais passamos.

Como Paulo fala, vemos em parte e conjecturamos muitas coisas por conta de nossos medos e superstições. Tentamos nos assegurar de todas as formas para que sejamos aceitos por DEUS. O caso de minha esposa pode ser espiritual, e creio que de certa forma é, mas não desse tipo de sobrenatural.

Hoje, fiquei pensando em pessoas como a sogra de Pedro. Com quase toda certeza, ela nunca leu uma única passagem da Escritura nem entendeu o "plano de DEUS" para a vida dela, e JESUS nem lhe passou um sermão por ser muito simplória, mas curou-a sem regatear sua atenção. Deve haver um lugar em DEUS para aqueles que só desejam viver uma vida simples de família, sem grandes realizações ou revelações, afinal, Ele é o DEUS dos pobres de espírito, dos ignorantes e iletrados que não se sentam nas cadeiras dos doutores da Lei.

No apêndice de seu livro "O Problema do Sofrimento", C.S. Lewis coloca uma nota subscrita por um certo Dr. R. Harvard, que diz: "Algumas vítimas de dores crônicas deterioram-se. Elas se tornam lamurientas e exploram a sua posição privilegiada de inválidas para praticar a tirania no lar. Mas o que admira é o fato de os fracassos serem tão poucos e tantos os heróis; existe um desafio na dor física que a maioria pode reconhecer e reagir proporcionalmente a ele." E conclui: "O sofrimento oferece uma oportunidade para o heroísmo; e essa oportunidade é aceita com surpreendente freqüência."


Talvez, essa seja uma oportunidade que DEUS está dando, não só para minha esposa, mas para todos que sofrem "injustamente", como geralmente pensamos, para que seus olhos estejam continuamente voltados para o lado que Ele deseja nos chamar a atenção. Se tudo vai bem demais nessa vida, tendemos, por nossa natureza indolente, a nos acomodar. Por outro lado, um certo nível de desconforto sempre nos leva a pensar que algo está errado, se não no mundo ao redor, em nós mesmos e que algo deve acontecer e isso pode nos impulsionar adiante. Como o próprio C.S. Lewis diz "O sofrimento é o megafone de DEUS" em nossos ouvidos e seu som estridente é bem desagradável realmente e o lembrete de que nem tudo se resolverá por aqui, pelo menos até a Segunda Vinda.

Não deixa de ser irônico, porém, que eu chegue a desejar o martírio pelo Evangellho, a morte honrosa de tantos heróis da fé de hoje na China e de países muçulmanos e sofra com o cristianismo água com áçucar do Ocidente e que minha mulher deva ter que manter sua fé batalhando contra suas próprias dores e carregando seu próprio fardo. Não se trata somente disso? Ou carregamos os fardos Dele ou os nossos próprios? E, por trás disso tudo, não podemos vislumbrar o potencial de Glória em Seu plano para cada um de nós?


trilha sonora deste post: U2 - I still haven't found what I'm lookin for - legendado


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