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NÃO SOU QUEM DEVERIA SER


 "Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem nenhum, pois o querer o bem está em mim; não, porém, o efetuá-lo. Porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço. Mas, se eu faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, e sim o pecado que habita em mim. Então, ao querer fazer o bem, encontro a lei de que o mal reside em mim. Porque, no tocante ao homem interior, tenho prazer na lei de Deus; mas vejo, nos meus membros, outra lei que, guerreando contra a lei da minha mente, me faz prisioneiro da lei do pecado que está nos meus membros. Desventurado homem que sou!" - ROMANOS 7. 18 a 24

Pode parecer estranho e triste ao mesmo tempo ao mundo pós-moderno, mas se deve haver um único sentimento autêntico que deva se perpetuar por toda a vida de um ser humano que vê perplexo diante das vagas monumentais da existência e que sente aflorar o desejo por um sentido pleno de espiritualidade em sua jornada, é o sentimento de inadequação da carne a essa vontade mais elevada. Mais até do que isso, a carne não só não se conforma a esse chamado, mas se opõe a ele fortemente, como está escrito em outra memorável passagem escrita pelo apóstolo Paulo em Gálatas 5.17 : "Porque a carne milita contra o Espírito, e o Espírito, contra a carne, porque são opostos entre si; para que não façais o que, porventura, seja do vosso querer".

De modo geral, essa é a condição do seguidor de Cristo, a qual não é em nada diferente da maioria das noções religiosas nascidas em qualquer época ou cultura, exceto naquelas em que se deseja explorar as possibilidades negras da espiritualidade humana e aí então, onde os baixos instintos e vícios são as "virtudes" cultivadas, o potencial demoníaco pode ascender do inferno. Em suma, porém, os santos, profetas, poetas, sábios e ascetas de todos os tempos preferiram enaltecer as virtudes do Alto e cultivar ideais que parecem querer nos distanciar de nossa natureza e nos promover a um outro nível.

Penso que temos visto o bastante do homem entregue à sua inclinação em desenvolver o potencial do lado negro, o bastante para desesperar e desacreditar de todo Bem e nos perguntar se estamos realmente perdidos, mas penso também que as pistas deixadas por exemplos de ser humano que aspiram acima de tudo transcender essa humanidade caída propondo valores que não se parecem em nada com aquilo que vemos usualmente, não são apenas uma contradição, mas um dado concreto de que o ser humano não apenas deseja ser diferente de sua natureza atual, biologicamente animal, mas que luta contra algo que NÃO É SEU NATURAL, que o aprisiona em algo para o qual não foi criado. A suma de todas as religiões e filosofias que buscam a ascese do ser humano a algo mais valoroso é que NÃO NOS CONFORMAMOS COM O QUE VIEMOS A SER. E lutamos contra isso avidamente com as melhores armas de que dispomos procurando recuperar uma condição perdida, mas não irremediavelmente. Caso contrário, seria a ausência da noção de que existe outra possibilidade além da Depravação Total, o que não é lógico, pois ainda possuímos algum freio moral. Nossas armas, como a educação, o desenvolvimento tecnológico, a razão e a vontade meramente ética e moral, não tem produzido resultados expressivos no ser humano a julgar pelo estado das coisas no mundo. A religião tampouco tem produzido frutos expressivos apesar de ser o "bolsão" que apregoa a Verdade de nosso estado e a possibilidade que jaz além.

O resumo de tudo isso é que, embora possamos detectar a legitimidade do clamor do ser humano em relação a sua condição e sua necessidade em escapar dela, vemos que, em geral, constatar tal fato não produz mudança alguma. Talvez algum empenho em práticas restritivas tenha algum êxito por algum tempo, quem sabe um programa do tipo AAA ou algum ativismo religioso surta algum efeito, mas logo se vê que a humanidade se compraz na mediocridade. Ser medíocre é ser médio, andar na média. Somos ambíguos e contraditórios porque, embora conheçamos nossa doença, acalentamos o sentimento de que ela não nos mata nem nos fere realmente.

A constatação de Paulo em todo o livro de Romanos, mas em especial no capítulo 7, pode deixar transparecer aos olhos do cético que a condição geral do que crê é muito triste, pois antevê um Bem que não pode alcançar em detrimento de um agente do Mal do qual não pode escapar: ele mesmo. Isso pode parecer um triunfo sobre a religião cristã em si e pode até ser mesmo, visto que em si, ela não é nada mais nada menos que uma reedição da Lei, com ordenanças e restrições para o neófito. Como Paulo diz, a Lei só  produz uma coisa: o conhecimento do pecado (Romanos 3.20).

É por isso que Nietzche acusava o cristianismo de ser a coisa mais antinatural e abominável que poderiam ter inventado, por negar de tal forma tudo que parecia natural e bom no ser humano antigo em detrimento de uma prisão do corpo e um flagelo da consciência. Em termos gerais, o cristianismo, como religião de preceitos e conceitos tão abstratos e místicos como pecado e redenção, pode ser realmente tão insosso, fraco e indigesto como sopa de xuxu. Os detratores do cristianismo, como Nietzche, o acusam de hipocrisia por não viverem as alturas do que se prega nos púlpitos, mas o próprio Nietzche foi um hipócrita e um fraco porque nunca chegou perto do impiedoso super-homem que descrevia como ideal, sendo o covarde que era. A hipocrisia é um mal congênito da raça humana em seu atual estado, não uma atribuição de certos grupos.

Eu mesmo me descrevo como um hipócrita, pois vivo me vendo fazendo algo e falando outro. Por exemplo, falo sempre sobre a Igreja ideal, embora não consiga encontra-la em lugar algum da terra, nem mesmo em minha casa. Na descrição do blog está escrito "Resistindo à correnteza do mundo", deixando transparecer que consigo resistir em todo tempo às marés de instabilidade espiritual que me afligem.

Reconhecer isso não me faz mais pecador do que ninguém, mas desconhecer isso seria uma hipocrisia a mais. Embora seja hipócrita, não o sou do tipo perfeito. O tipo perfeito é aquele que se apraz em seu disfarce ou aparência a fim de ganhar algo vantajoso. Por incrível que possa parecer, esse processo pode ser até mesmo inconsciente. Na verdade, a religião, seja cristã ou não, serve tão bem aos hipócritas quanto qualquer outro disfarce, seja a política, o poder ou a carreira, etc. São todos jogos de interesse, com a diferença de que a religião é a mais burra dentre todas.

(Isto é somente um adendo: Pense nisso: na religião todo o "cenário" é montado para que as pessoas venham e se impressionem de alguma forma positiva com o serviço religioso ali prestado. As pessoas se esforçam para serem agradáveis e polidas e espirituais, ou seja, profissionais da área. Alguns se especializam em certos setores como animação de auditório e conduzem bem uma multidão, seja cantando ou falando. Outros se comprazem em simplesmente aparecer e ouvir as palavras que descem suvemente dia após dia, criando a sensação de que, afinal, você está fazendo algo útil para si mesmo e para DEUS. No final, estão todos ali pelos seus próprios motivos e gostos pessoais, fazendo aquilo que sua inclinação natural lhe diz, seja calado, cantando ou em pé diante a platéia. Fora dali, porém, no tratar diário, persiste o incômodo registrado por Paulo. Sem um palco para atuar, nós continuamos sendo o que sempre fomos. As palavras mágicas não fazem sentido no mundo real. Você se tornou refém de um mundo de faz de conta. Há fé em Cristo ali e até empenho e boa vontade para "fazer a coisa funcionar", mas algo continua fora de lugar, a engrenagem não funciona como deveria. Se formos sinceros e honestos o suficiente conosco mesmos e com o Deus que julgamos conhecer esses joguinhos enfadam bem rapido, pois fomos programados culturalmente para optar sempre pelo modo mais fácil e burro para resolver um dilema e as "igrejas cristãs" são a prova disso.)

A simples constatação disso não gera conforto, ao contrário. Se livrar disso, também não produzirá uma espiritualidade genuína imediatamente(embora garanta um pouco de autenticidade). Somos obstinados, duros de aprender, somos homens ocidentais, afinal. Somos uma mistura desafortunada de gregos, romanos e judeus (no caso brasileiro, a coisa ainda piora com a inclusão dos portugueses no "blend"). Sejamos práticos e verdadeiros: o cristianismo é impraticável. Ele é impossível de ser vivido da maneira como tem sido pregado. Ele deve ser, em essência, algo diverso daquilo que nos ensinaram.

DISCIPLINAS ESPIRITUAIS ESQUECIDAS

Já disse um inglês balofo chamado G.K. Chesterton: "O cristianismo não foi testado e reprovado; na verdade, foi considerado difícil e abandonado, sem ao menos ser experimentado"

Como "cristianismo" ele está querendo dizer a doutrina original de Cristo e não o simulacro que lhe usurpou o lugar.

A verdade que sobressai para mim é que nossos "jogos" e interesses favorecem a mania irritante que temos para dissimular, competir com o próximo e atuar em frente aos outros. É por isso que o "cristianismo" atual tem tão poucas pessoas se dedicando em diminuir a si mesmos através do trabalho voluntário e da oração, pois o estímulo está no polo oposto. Queremos ser altamente espiritualizados tendo tudo em comum com todos os "brinquedinhos", artifícios e maneirismos da nossa civilização. A ausência de qualquer muleta que favoreça esse desvio da personalidade humana por satisfação e aprovação é desejável por isso, mas não alivia em nada a bagagem, muito pelo contrário. É muito mais difícil, como tenho provado por mim mesmo. Minha mania em bancar o "coitadinho de mim" quando me sinto frustrado comigo e com DEUS, principalmente, é de dar nojo.

Por vezes, sinto que toda dificuldade que tenho em desenvolver minha salvação (Filipenses 2.12-13) está ligada ao ritmo de vida que tenho e minhas obrigações rotineiras como provedor de um lar. Sinto que se me afastasse de tudo que me causa estresse diário e ansiedade, eu obteria mais precisão e poder para ouvir de DEUS. Pode ser difícil permanecer "espiritual" se ocupando de coisas triviais ou mesmo em funções que pouco contribuam para manter-se "em alta".

De fato, se a agenda do homem sempre esteve em oposição à de DEUS, hoje muito mais. É preciso tempo para desmascarar o Eu, e tempo, aparentemente, é tudo que não temos hoje, embora a vida não seja nada além de tempo na forma de horas, dias, meses, anos e décadas. Hoje em dia, parece mais rápido formar um "obreiro" do que moldar uma empada numa forma.

Aquilo que nos é oferecido pelo mundo e pelas religiões não passam de distrações às disciplinas que poderiam nos levar a um sério comprometimento com DEUS e a sua agenda, que inclui necessariamente a mortificação do meu ego. Esse é um ponto em que pecamos seriamente hoje. Encontramos grande dificuldade em conciliar as atribuições cotidianas de um mundo como o nosso com um tempo exclusivamente dedicado às disciplinas que historicamente moldaram a espiritualidade de tantas figuras proeminentes da história cristã.

O cristianismo autêntico não pode ser confundido com o rigor ascético dos místicos antigos e nem com o monasticismo medieval, mas tem mais a ver com eles e suas disciplinas milenares do que com a falsa espiritualidade atual baseada na imposição de mãos de "pessoas ungidas" e na "transferência de dons" (?!!?).

Uma espiritualidade sadia e intensa não pode prescindir de certos elementos comuns à certas religiões em todos os tempos, principalmente as orientais, como a meditação, introspecção e contemplação que visam prioritariamente trazer equilíbrio ao viver do indivíduo. Sem o incentivo a isso, fica difícil de entender a exortação de Pedro em sua segunda carta, ao dizer: "...associai com a vossa fé a virtude; com a virtude, o conhecimento; com o conhecimento, o domínio próprio; com o domínio próprio, a perseverança; com a perseverança, a piedade; com a piedade, a fraternidade; com a fraternidade, o amor" - II Pedro 1.5 a 7. 

Como fazer isso sem mudar substancialmente seus hábitos e seu modo de vida? Como cumprir aquilo que Paulo nos fala em Romanos 12. 1 e 2, "que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional; E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente" sem sacrificar pelo menos uma boa fatia do tempo que gasto com meus deleites? Queremos Poder sobre nós mesmos sem custo algum? Segundo Dallas Willard, "A Igreja falhou em não levar a sério a transformação humana, como uma questão prática e real, que deve ser abordada em termos realistas". 

Dessa forma, sendo realistas, o "cristianismo" não pode ser assim tão diferente que não utilize certa ferramentas comuns a todos os que busquem atingir um grau de maturidade humana elevado. Podemos ver isso no exemplo nas próprias disciplinas usadas pelo SENHOR JESUS em sua vida encarnada. 

JESUS não era um estóico, mas sua moral e ética eram postas em prática constantemente; JESUS não era budista, mas se retirava constantemente para lugares desertos para ficar só e orar (meditar, contemplar); JESUS não era um sadhu indiano mas certamente fazia uso do jejum como forma de "quebrar" a resistência da carne (não que precisasse, claro, como nós precisamos). Os "doutores da lei" de hoje nos dizem que devemos "ser como JESUS", mas não explicam como já que não ensinam tais práticas aos neófitos.

Com efeito, o cristianismo autêntico deve apresentar uma moral e uma ética que se parecem com estoicismo mas que não leva à frieza de uma norma regimental, mas ao amor sacrificial. Não busca ser reconhecido nem compete com ninguém como o Tao, mas não deseja o imobilismo e estende as mãos para ajudar. Deseja a paz interior e a solitude, mas não o isolamento e por ser a Voz de um DEUS Vivo e indignado com nossa condição denuncia a falsidade e proclama a Verdade em alto e bom som! 

É assim que deveria ser mas, de qualquer modo, isso nos leva à única verdade constatável de que todos estamos no mesmo patamar, dando voltas e mais voltas em torno daqueles montes terríveis que são Romanos 6 e 7, sem qualquer perspectiva de encontrar o caminho que nos leve ao monte de Romanos 8. Vivemos a expectativa gerada na recepção da promessa e a dor de ver que nossa carne não se submete nem debaixo de porrada, que somos incapazes de um único pensamento autenticamente santo diante de certas tentações e tribulações.

De todas as dúvidas que tenho, o maior mistério para mim ainda se chama ESPÍRITO SANTO. Este é o principal elemento que falta a todas as outras filosofias ou religiões. O fim não é a moral ou a virtude em si, mas  tornar-se apto a ser um veículo ideal Dele. Desconheço-o quase por completo e, por isso, O temo. Quem puder dizer algo diferente que se pronuncie. Tenho fé em JESUS o suficiente para dizer que já tive minhas experiências espirituais que conto como válidas, mas a pessoa e a ação do Paráclito ainda me são por demais envoltas em brumas. Falta-me "intimidade" para interpretar o que Paulo quer dizer com "Andar no Espírito" sem esbarrar na teologia e no verbalismo vazio das letras. Quem sabe, quando eu e outros tantos nos dedicarmos mais às disciplinas esquecidas do "cristianismo" e voltarmos a ficar "equilibrados", em harmonia interior e inabaláveis às distrações do mundo, possamos ter algo real para falar sobre ele.

Até lá, até que cheguemos ao monte de Romanos 8, resta-nos aplicar-mo-nos à salvação como o soldado em treinamento para a guerra. Era essa linguagem usada por Paulo e penso não se tratar de mera figura de linguagem. Pôr o pé no Caminho significa pisar em terreno minado e ser treinado em pleno campo de batalha.  "Vigiai e orai" disse Ele e nem por uma hora achou quem tivesse disposição para acompanha-Lo.  


  "Meus irmãos, tende por motivo de toda alegria o passardes por várias provações,  sabendo que a provação da vossa fé, uma vez confirmada, produz perseverança. Ora, a perseverança deve ter ação completa, para que sejais perfeitos e íntegros, em nada deficientes." - Tiago 1.2 a 4

Quem pode se regozijar com isso se não tiver a certeza de que é perfeitamente possível, em virtude de seu treinamento, vencer seu adversário?

trilha sonora deste post: OFICINA G3 - MEUS PASSOS (letra baseada em Romanos 7)

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