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DEUS, ENTROPIA E PECADO - E SUA RELAÇÃO COM AS TRAGÉDIAS HUMANAS ATUAIS -

PARTE III DE "QUAL A LIÇÃO DE ANANIAS E SAFIRA?"

"O homem está aí, responde e é desafiado por um poder que se revela na essência da tecnologia e que o próprio homem não domina..." - HEIDEGGER

Recapitulando, nos outros posts relacionados ao assunto, falamos sobre conceitos que estão no cerne da pregação de Cristo que estão em perigo de cair em desuso pelo mal uso que alguns tem feito em face da pós-modernidade e do policiamento ideológico de uma sociedade globalizada, mesmo dentro das "igrejas", avessa à idéia de um DEUS disposto a fulminar o Pecado, a doença fatal que contamina  a humanidade. Falamos sobre a má consciência de Adão no homem atual e sobre como a Boa Nova de Cristo deve atuar sobre ela, sobre a doutrina que Cristo pregou sobre o Inferno e sobre o direito de retribuição por parte de DEUS ao Pecado e também sobre o Governo de DEUS no meio da Sua Eclesia, como tema central e unificador.

Se pudéssemos resumir o que foi dito até agora em poucas palavra, eu diria: "A História tem um dono que se manifestou nela e disse que Tudo vai voltar às suas mãos no momento certo e determinado. Gostando ou não, aqueles que não se adequarem a essa Verdade, estarão fora dessa Realidade Vindoura."

No presente post vamos comentar sobre a relação que vejo entre DEUS e o fenômeno conhecido na ciência como Entropia, e qual sua relação com o estado atual das coisas no mundo, nossa civilização e sua trajetória pecaminosa.

UM MUNDO QUE SOFRE

A Entropia é descrita como uma "medida da quantidade de desordem em um sistema". Não tenho a pretensão de ensinar Ciência mas ao compreendermos mesmo rudimentalmente como se dá esse processo no mundo natural, poderemos entender melhor algumas realidades que assombram o mundo atual. 

O termo foi cunhado por volta de 1850 pelo físico alemão Rudolph Julius Clausius, significando "troca interior", sendo uma grandeza criada para medir os processos naturais que envolvem o uso e a transformação da energia/calor em física/mecãnica, ciencia chamada de Termodinãmica. 

A Termodinãmica dispõe inicialmente, em sua primeira lei, que "em todo processo natural, a energia do universo (como sistema) se conserva", ou seja, não pode ser aumentada, nem diminuída e se mantém, basicamente, a mesma desde o princípio, mas está sujeita a transformação. Sendo transformada, ela não desaparece, mas muda de estado. Em outras palavras, sempre que desaparece uma quantidade de uma classe de energia, uma quantidade exatamente igual de outra classe de energia é produzida. Dentro desse postulado, está inserida a idéia de que toda oferta de matéria existente no Universo e disponível para criação de energia é a mesma desde o início, sendo constantemente transformada para manter a ordem visível dentro de um sistema (universo). Dentro dessa "troca" alguns processos se tornam naturalmente irreversíveis, indo de um estado inicial a um intermediário até atingir um estado de declínio, tornando-se por fim, inerte. Essa é a segunda lei da Termodinãmica e o que explica a Entropia e  todo funcionamento do Universo como conhecemos hoje. Segundo essa lei, não há processo "espontãneo" inverso, mas todo "sistema natural, quando deixado livre, evolui para um estado de máxima desordem, correspondente a uma entropia máxima". Trocando em miúdos, a segunda lei da Termodinãmica diz que dispomos cada vez menos dos recursos energéticos e que a Entropia só aumenta com o passar do tempo. Isto está alinhado com a noção da ciência de que, após o Big Bang, o Universo está "desacelerando" até estagnar.

A Entropia pode ser observada em praticamente qualquer coisa que exista sob o sol, ou mesmo nele, visto que é ponto pacífico que nossa estrela caminha para a "morte natural", ou, para ser mais "entrópico", vai parar de converter bilhões de toneladas de hélio em energia na forma de luz e calor e se transformar numa massa inerte. O móto pára sem alimentação para a troca. A Entropia está ao nosso redor na fumaça dos escapamentos, na criança que brinca no playground, na dor nas costas de um velho, nos insetos e vermes que se refestelam num cadáver animal, etc, et... Sobre as leis da Termodinâmica e suas implicações e universalidade, Albert Einstein disse:  "Uma teoria é tanto mais emocionante quanto mais simples são suas premissas, mais diversas as categorias de fenômenos a que se refere, mais vasto seu campo de aplicabilidade. Esta é a razão pela qual a Termodinâmca clássica sempre me causou profunda impressão: é a única teoria física de conteúdo universal da qual estou convencido que, no campo de aplicação de seus conteúdos basilares, nunca será superada". 

Uma questão inquietante hoje em dia para muitos, diz respeito a conjectura de alguns sobre se os princípios elementares da Entropia poderiam ser aplicados também a sistemas econômicos, sociais e ambientais. Isto não deveria ser um problema muito grande se o aplicássemos somente a escalas macro, como sol, estrelas e universo, mas quando o levamos ao centro do nosso viver cotidiano, veremos que tipo de "desordem" ele causa. 

A essa altura da História deveria parecer óbvio ao homem contemporãneo que nosso estilo de vida,   o paradigma da nossa civilização, é insustentável. A mente do homem atual está assentada sobre bases "progressistas", ou seja, de que o progresso tecnológico traz consigo mais ordem e prosperidade e que quanto mais tecnologia e desenvolvimento, mais progresso faremos. Esquecemos que para manter nosso estilo de vida enebriante estamos transformando uma quantidade fabulosa de energia em material que não poderá ser reaproveitado, pelo menos imediatamente, e produzindo mais lixo nos dois ultimos séculos do que toda história humana foi capaz. Sem que nos demos conta, não só contribuímos mas somos agentes ativos do processo entrópico que vai dinamitar uma civilização baseada no desperdício, num estilo de vida fútil e no entretenimento e numa relação doentia com o meio ambiente. Como disse Daniel Quinn, autor de "Ismael", "o mundo suporta um grande número de pessoas vivendo de modo destrutivo, mas não todas as pessoas vivendo desse modo"

Numa interessante entrevista, o professor da USP, Dr. Mario Bruno Sproviero, assevera que "a idéia de progresso é tão conatural que nem pensamos em discuti-la. Ora, nosso tema incide precisamente neste ponto: "a lei da entropia mina a idéia da história como progresso. A lei da entropia destrói a idéia de que a ciência e a tecnologia criam um mundo mais ordenado"Numa visão mecanicista, a ênfase está unicamente no que se ordena e se desconsidera a desordem causada pela ordenação. É como se ignorássemos, por exemplo, o problema do lixo ao arrumarmos nossa casa. Quando a casa é o próprio planeta pensar que "o resto" não interessa é a síndrome do avestruz..."


Ele completa: "O problema da entropia não seria destruidor se tívessemos outra Weltanschauung: como nossa visão de mundo, o consumismo é algo de conatural e o progresso é seu imperativo ético, então realmente estamos num beco sem saída. Um São Francisco de Assis, por exemplo, não estaria na crise que estamos. Em nosso sistema, que não concebe nenhum significado espiritual de pobreza e, portanto, da própria existência, e faz do supérfluo mais essencial que o essencial, a não-disponibilidade de energia esvazia completamente a existência. Daí o caráter auto-destruidor do progresso...Para Francisco, como se sabe, a pobreza não leva à tristeza de perder coisas, mas à alegria de livrar-se de coisas..."


Será que podemos falar de um processo entrópico rolando nas questões sociais, na educação e na filosofia? Por que não? A máquina global produz cada vez mais fracassados que não conseguem colocação na pirâmide e partem para uma vida de crimes e vício em drogas cada vez mais letais. Não há programa capaz e conter o avanço do crack e da prostituição em nossas ruas.  Será que há uma relação entre o aumento exponencial da pedofilia no mundo e a disseminação da informática? Eu apostaria que sim, assim como não se pode negar que a liberação sexual feminina a partir dos anos 60 é um dos principais responsáveis pelo número sempre crescente de mães precoces e filhos que crescem sem a presença de um pai. O que isso tem a ver com o número cada vez maior da população carcerária? Entre num presídio e faça uma enquete perguntando quantos ali cresceram dentro de uma família estruturada "normalmente" e terá a resposta. A torrente de informações que se tornou o ensino visa unicamente a criação de novos "carregadores de pedra" que garantam a contínua edificação piramidal da sociedade moderna e não preparam quem quer que seja para as realidades cognitivas da vida humana. Quem não se adapta está na lixeira, está fora do jogo, é um ninguém. A filosofia se esforçou muito nos últimos tempos para abolir ideais antes considerados como absolutas e transcendentais para o ser humano e se tornou o que é hoje, inerte, sem poder para mudar nada, só pode especular sem afirmar nada, pois não existem "verdades" fixas.  É a entropia agindo em todas as áreas, afetando o ser humano naquilo que é e pensa ser. 


Mesmo a cultura, sofre seus efeitos. Embora as técnicas se aprimorem, a arte no sentido geral fica diminuída. Os filmes são cada vez mais violentos e com mais cenas de ação e sexo para prender a atenção dos entediados e a música é minimal e recheada de palavrões e insinuações. Está causando uma certa discussão (algo esperado pelos produtores como markting gratuito) nos EUA, o filme "Quebrando Tudo" (Kick Ass), onde uma adolescente de treze anos, na pele de uma improvável heroina vingadora, é exposta à cenas de violencia extrema, onde artérias jorram e membros são decepados e muitas obscenidades são colocadas na boca da "heroína". Parece que observar uma garota de treze anos falando e agindo como um presidiario causa algum frisson na platéia que só enxergará aquilo que procura num filme como esse: entretenimento. Como definiu o The New York Times, porém, "Esse é o senso comum,  o que silencia objeções éticas, por exemplo, a ideia de que mostrar o rosto contundido de uma criança seja de alguma forma audacioso. Cada um de nós, acredito, vai encontrar e traçar seus próprios limites, mas talvez seja hora de articulá-los e dizer quando já basta".


Quando ouço certo tipo de música, fico pensando que levou cerca de dez mil anos de "civilização" para chegarmos até aqui e não posso deixar de ver que algo deu muito errado. Não conseguimos estabelecer nem mesmo as prioridades.


Se a Entropia é uma medida da desordem de um sistema, os estudiosos dizem que todo sistema pode chegar ao que chamam de "grau máximo de Entropia", onde qualquer tentativa de reagrupamento dos elementos componentes desse sistema se torna nulo, ineficaz. O sistema desmorona porque a "troca interior" que o mantém, não pode mais ser sustentada. Significa seu colapso fatal. Será que de alguma forma estamos nos aproximando de algo parecido?


A visão de progresso da nossa civilização tem como pilar a produção energética baseada no petróleo, usado sistematicamente desde fins do século XIX, como o substituto ideal do carvão. De fato, a Revolução Industrial só venceu realmente com a invenção das poderosas maquinas movidas a diesel. Hoje, especula-se que as reservas, no crescente ritmo da economia emergente, não suportarão a demanda para além de 2060. O Dr. Mario Bruno Sproviero assevera que "Os ciclos históricos nos mostram esse fato claramente. As crises de energia não são apanágio de nossos dias. Na Europa, na busca de energia (pensemos em necessidades domésticas, de calefação etc.) o "ciclo da madeira" começou a entrar em crise no século X e agravou-se de modo total no século XV (após mais de um milênio de exploração...), principalmente na Inglaterra, compelindo ao ciclo do carvão (o ciclo mais sujo da História), que durou quase quatro séculos... Sempre em períodos cada vez menores, temos o nosso ciclo, que dura cerca de cem anos, centrado no petróleo: seu esgotamento prevísivel é para algo em torno do primeiro quartel deste século". 


A TEIA
A crescente industrialiação do mundo, ou sua globalização, ou uniformização dos ideais, centrados na colocação profissional e social e no entretenimento das massas, aliado aos avanços na medicina e a um estilo de vida sedentário e em sua maior parte pacato e sem grandes desafios físicos, levou o mundo a uma explosão populacional sem precedentes. Hoje, além da crise energética iminente, já convivemos com uma crise de alimentos com graves implicações. A economia globalizada é uma teia muito tênue sustentando toda uma visão de mundo sobre um precipício. 


Logicamente, o aumento populacional demanda uma produção cada vez maior de alimentos e o progresso industrial globalizado tem inserido cada vez mais países na classe dos emergentes, que almejam o padrão de vida europeu ou norte-americano. Segundo o site da revista Veja, num especial sobre essa crise mundial, só na China o consumo de carne bovina aumentou de 20 quilos per capita na década de 80 para 50 quilos atualmente. Isso parece bom, não? Mais pessoas estão tendo acesso a comida, então a fome diminuiu, certo? Errado. Outros estudos tem demonstrado que o patamar de famélicos no mundo não se alterou desde a década de 80. Acontece que o custo dos alimentos também aumentou exponencialmente e isso mantém aqueles que nunca tiveram acesso ao alimento ainda muito longe dele. Enquanto que num país rico gasta-se cerca de 15% do salário com comida, num país pobre esse comprometimento pode chegar a quase 80% numa dieta a base de pães. 
O aumento do numero de cabeças de gado para suprir a demanda em países como China, Índia, Rússia e Brasil (o chamado BRIC) leva a um aumento da área dedicada a pecuária, atividade responsável por boa parte do desmatamento e degradação do clima na Terra, por causa dos gases produzidos pelo gado vivo e de seus excrementos. Para alimentar aquilo que nos alimenta, o aumento correlativo na produção de grãos como milho e soja, usados como base da ração animal, deve ser considerado. A agricultura, para manter os níveis adequados para abastecer o sistema, emprega muita energia usada na produção de fertilizante, na operação de tratores e no transporte dos produtos agrícolas aos consumidores, o que demanda cada vez mais combustível fóssil e, assim, voltamos ao petróleo, cuja oferta em relação a demanda está sempre suscetivel a instabilidades político/economicas, o que tem elevado seu custo constantemente. Num efeito cascata, isto é repassado para os alimentos que formam a base nutricional do ser humano, por isso os alimentos estão mais caros, apesar dessa bolha ilusória mostrar que estão mais acessíveis a todos. Não devemos esquecer que também tratamos muito mal nossos recursos hídricos, largamente usados no agro-negócio, e que o acesso a água potável será o próximo desafio da humanidade.


Dentro desse quebra-cabeça, a China é hoje a grande hidra de mil cabeças que move o "progresso" do mundo. Com um quinto da população mundial em seu território é um forno devorador de matérias-primas para manter aquecida uma economia que vem crescendo em média 11% ao ano desde 78, sua indústria é a maior exportadora de produtos, entre eles carros, do mundo, deixando para trás Alemanha e EUA, é a maior compradora de títulos da dívida americana, será o maior polo tecnológico em poucos anos e tem a maior reserva de dólares do planeta para financiar projetos magalomaníacos e se tornar o principal banqueiro do mundo, o que lhe garante a supremacia economica/política nas próximas décadas. A China não é para amanhã, já é hoje. 


Suas contradições também estão na razão/proporção de sua pujança economica: a renda média chinesa é de 6.500 dólares anuais, compáravel a Ucrania e Namíbia, e sua industrialização selvagem pulverizou uma sociedade basicamente agrícola até meados de 70, o que produz caos social, visto que o trabalhador urbano ganha em média 3 vezes mais do que os do campo, quando na década de 80 essa diferença era de 1,8 vezes apenas. Não existe opção além de se encaixar nos projetos faraônicos de desenvolvimento que expropiam regiões inteiras em nome do "progresso". Vastas regiões já apresentam um largo processo de desertificação, como o mundo pode constatar nos jogos de Pequim em 2008, ameaçado pelas constantes tempestades de areia e os níveis insuportáveis de poluição no ar da capital chinesa.


Outro fator que tem pesado na balança é o clima selvagem na Terra nos últimos anos. Secas, incendios devastadores, tempestades e inundações tem arrasado milhares de áreas cultiváveis todos os anos e contribuído com a sensação de insegurança.


A pergunta é: Por quanto tempo mais podemos sustentar esse modelo predatório, visto que, matematicamente, não se sustenta, pois os recursos naturais são limitados? A busca por novas fontes de energia limpas tem absorvido o sono dos pesquisadores e se tornou uma corrida contra o tempo, mas nada pode mudar o fato de que o problema em si reside na questão de que a visão de mundo adotada dispõe que o progresso está relacionado com poder econômico e tecnológico e que quem o detém, também possui as chaves do celeiro onde estão os alimentos. Quem não participa do sistema, está fora do jogo, pois não há um plano de distribuição de riquezas e nem divisão do conhecimento. Isso seria como implodir todo o sistema, um tiro no pé. Se um nova fonte de energia limpa se tornar viável, ela será usada dentro do jogo da mesma forma que o petróleo e seus antecessores o foram para garantir a manutenção do domínio nas mãos dos mais interessados em se manter no topo da pirãmide. 


Alguns pensadores, como Daniel Quinn e Jeremy Rifkin, tem se levantado para bradar contra esta civilização industrial pós-moderna, denunciando a sua Entropia como o Apocalipse esperado. Rifkin é o mais radical ao dizer que a única forma de escapar do colapso é a supressão imediata de cerca de quatro bilhões dos habitantes da Terra. Ele não diz como isso seria feito mas defende o controle total por parte de um governo mundial para chegarmos àquilo que ele chama de "baixa Entropia", ou  nível sustentável de civilização. Alguns já o apontam como o profeta do governo do anticristo, mas é certo que suas idéias beiram o extremo nazista. Já Quinn, autor de livros como Ismael e A História de B, questiona nossa civilização e propõe a volta gradativa dos indivíduos ao estilo de vida tribal, o que também corresponde a um estilo de vida de "baixa Entropia" Qinn também apresenta um ideal animista em suas idéias, ao afirmar que as religiões salvíficas e monoteístas são um dos ingredientes que promovem essa visão alienada do mundo atualmente.


Pessoas como Quinn e Rifkin são visionários porque propõe uma outra visão de mundo. Eles sabem que nenhum programa ou atitude isoladas poderão fazer o que é necessário. Para que haja uma mudança efetiva é preciso uma mudança na visão geral do que é o homem em si e como ele se relaciona com o mundo. Na verdade, uma mudança de paradigma tão grande equivaleria a uma revelação ou iluminação mística, então, atrelam suas constatações a uma pregação mais ou menos espiritualizada, enfatizando que o homem deve ou criar "uma nova consciencia" ou "voltar ao que era antes" essencialmente em sua relação com o mundo.


Apesar de, como cristão, não comungar das soluções propostas por estes autores, penso que a constatação do problema em si é acertada. O mundo sofre com a falta de uma visão mais holística do que é o ser humano. Falar assim, faz o pelo dos evangélicos eriçar, mas como poderia ser diferente, se essa dança frenética pelo status quo está tão presente dentro das instituições eclesiasticas quanto está numa empresa que compete por mercado? O que importa é a salvação individual. Uma vez salvo, voce pode continuar atuando como um predador social, um carregador  de pedras do faraó sem dores na conciencia, quem sabe até, construir sua própria piramidezinha sem notar que está inserido até a medula num sistema abominável a DEUS. O cristianismo não transforma a cosmovisão das pessoas como deveria e algumas das suas versões trabalham exatamente do contrário, estimulando idéias como sucesso e "domínio". "Espiritualizam" tudo (seria melhor dizer, torcem tudo "segundo suas próprias concupiscências") mas não contextualizam nada.


Isso me incomoda, pois como disse C.S. Lewis, o cristianismo em si é, ou pelo menos deveria ser, uma educação completa, ou uma reeducação. Devemos poder contextualizar o mundo e tudo ao nosso redor em relação ao ensino de Cristo, sem dogmas de fé para impor a outras pessoas, mas para que possamos estar aptos a prevalecer sobre circunstancias que deixarão as pessoas perplexas, angustiadas e demaiando de terror quando acontecerem, segundo Lucas 21.25 e26


Me admira que não possa encontrar esse tipo de abordagem entre escritores cristãos, uma leitura crítica da nossa civilização como a escolha de uma via errada, uma conspiração que insulta a verdadeira humanidade e que está em oposição ao Reino preconizado por JESUS. O caráter de contracultura do Caminho, como subversão da civilização, permanece oculto para a maioria das pessoas. Parece que os cristãos primitivos intuiram isso muito melhor do que nós. Não é maravilhoso, pois, que os "rudimentos desse mundo" como descritos por Paulo em Romanos 12.2 e Colossenses 2.8 e Gálatas 4.3 tenham ocupado tanto espaço dentro das estruturas "cristãs", pois foram calcadas nos mesmos princípios do sistema "civilizado" atual. Penso que é preciso e possível produzir uma síntese disso.  A velha "profecia" de que "o mundo entrará na igreja" se cumpriu cabalmente em nossos dias mas precisamos entender que esse processo é já muito antigo. Precisamos entender a palavra "mundo" como um sistema, uma visão em particular, que está em oposição a simplicidade do Evangelho de Cristo e que  tem como deus o progresso material, as riquezas desse mundo, sistema chamado pelo SENHOR com o nome Mamon, palavra hebraica que designa "riquezas materiais". Esse sistema é o mesmo usado nas grandes corporações para fazer prevalecer seus ideais de domínio de mercado, basicamente fazendo das pessoas seus empregados, com a diferença de que numa empresa você é remunerado e numa instituição eclesiastica voce é cooptado para agir por voluntariedade para beneficiar uma visão particular do que é Reino de DEUS. Quase que invariavelmente, isso resulta em competição, frustração, exibicionismo e manipulação hierárquica. A retórica é o Amor de DEUS, mas a prática é a uma interpretação distorcida da Lei de Moisés, ou seja faça isso ou aquilo para ser aceito.


Unir as peças desse quebra-cabeças não é fácil, mas é com certeza, libertador, pois nos proporciona uma perspectiva totalmente nova e cativante de toda jornada humana e do agir do DEUS EU SOU na História e para além dela.


A GRANDE SÍNTESE- AS RAÍZES ENCOBERTAS DA NOSSA CIVILIZAÇÃO ou AQUILO QUE ODIAMOS EM NÓS MESMOS


É preciso um verdadeiro mergulho nas raízes da nossa História Primitiva para entendermos o presente e projetarmos o futuro. Embora os homens da Ciencia tentem ignorar tal fato, as evidencias tomadas das tradições dos mais diversos povos da Terra e dos vestígios arqueológicos apontam para a veracidade de um cataclismo que dizimou uma civilização global e técnica anterior a nossa. Isso explicaria muita coisa misteriosa a respeito do desenvolvimento repentino de povos como os egípcios e sumérios, suas artes, técnicas, matemática e mitologias, como também sua psiqué. Ignorar os mitos antigos como coisa de ignorantes nos faz  como uma criança que cresceu revoltada e cega quanto aos traumas que a fizeram um adulto desajustado ao passo que estuda-los como o que são, lições verdadeiras de nossas raízes, tem o efeito catártico de uma libertação no moldes da psicoterapia mais profunda. Uma visão naturalista não explica totalmente o mundo como o conhecemos. Se faz necessário adquirir uma visão mais fantástica do mundo e do homem que nos mostrará que aquilo que odiamos em nós mesmos é fruto do abuso recebido em nossa infancia. O fato é que as civilizações mais antigas, com suas técnicas e conhecimento científico e matemático, com as quais os estudiosos tem se deparado em todo mundo, corroboram os mitos e lendas dos povos que sempre apontam uma "intervenção" de seres fantásticos, não o desenvolvimento natural. Em particular, corroboram o relato bíblico. 


As civilizações mais antigas surgidas após o Grande Dilúvio descrito na Bíblia e nas tradições sumérias (encontradas nas ruínas babilonicas, o que por si só causou furor na época da decoberta, pois é  a prova de que um Diúvio Universal realmente aconteceu, obliterando uma alta civilização técnica) há cerca de seis mil anos, legaram às suas sucessoras como Grécia e Roma, grande parte da cultura que ainda está presente  entre nós. Basicamente, elas nos legaram uma visão de mundo baseada numa sociedade fortemente hierarquizada e na necessidade de dominar a natureza e seus processos para garantir não só a sobrevivencia, mas para expandir o poder do grupo ao qual se pertence. Essa é a idéia de progresso. Nenhuma das altas civilizações que influenciaram a humanidade em geral poderia ser colocada à margem desse ideal. É interessante notar como esse paradigma surgiu e se espalhou como algo inevitável, como uma conseqüência irreversível que se confunde com uma evolução natural, quando não tem nada de natural.


Altas civilizações como Egito e Suméria, surgidas do nada com todo seu esplendor de conhecimento astronomico, matemático e arquitetonico para substituir um estilo de vida calcado na agricultura de subsistencia e na pesca e caça, e legaram praticamente tudo às suas sucessoras até mesmo em termos técnicos, só foram viabilizadas por causa de uma idéia inovadora até então: a idéia de uma hierarquia divina. Seus governantes ascenderam sobre o povo pregando que eram detentores do direito de serem chamados "divinos" por sua ligação com um passado não muito distante, quando os deuses estavam entre os homens. Com o diluvio, essa era acabou mas alguns homens eleitos poderiam levar o ser humano de volta àquele patamar que era seu por direito. 


Em Genesis 10 vemos a história da empreitada de Ninrod como fundador da primeira civilização humana após o dilúvio. Será por acaso que esse homem, descrito como Poderoso Caçador, certamente um grande líder, tenha vindo parar, depois de muito peregrinar, justamente na terra de Sinar, "País de dois rios"? Será por acaso que os estudiosos descrevem que os sumérios se instalaram na região depois de uma imigração vindos do Norte? Será por acaso que o nome Ninrod tenha sido encontrado em poemas sumerio-acadianos que descrevem seus feitos heróicos? Será por acaso que a arqueologia confirma que o início da alta civilização suméria se deu com as cidades de Ur, Ereque e Acade? Será por acaso que em hebraico essa palavra quer dizer "O Rebelde"? Por que Ninrod foi parar justamente ali? 


Segundo a mitologia sumeria, a região entre os rios Tigre e Eufrates já era um centro da civilização antes mesmo do dilúvio. As cidades sumérias faziam parte daquela civilização anterior descrita em Genesis 6 como varões de grande fama, varões de renome, descendentes de gigantes. Esses gigantes, ou Nephilim, "Aqueles que caíram", são descritos em todas as mitologias antigas ,sem exceção, como os grandes iniciadores da humanidade na arte da "civilização". Na Mesopotamia eles são os Annunaki das lendas, "Aqueles que vieram do céu à terra".Em todas as culturas mães de nossa civilização, acha-se em sua raiz o conceito de que houve uma época em que os deuses estavam entre os homens, habitavam entre os homens, reinavam sobre os homens, escraviza-os para que os servissem e até mesmo desposavam as mulheres dos homens, formando um classe chamada semi-deuses, bastardos intempestivos cujo passatempo principal era brigar entre si. Isto está em conformidade com o relato de Genesis 6 e também com o "mito" ouvido por Platão do sacerdote egípcio Sólon, que lhe descreveu Atlantida e como ela tinha relação com o Egito e seus reis, como descrito no Crítias. Homens mitológicos como Ninrod e Osiris, o benfeitor egípcio que virou deus, simplesmente retomaram o projeto de algo que já existia, algo que levou a humanidade ao colapso anteriormente e a quase completa extinção. 


Tais homens, cheios de si e imbuídos dum verdadeiro espírito de revelação, proclamaram-se, não se sabe em que bases, detentores de um conhecimento e de um direito que faria o homem se levantar sobre a Terra como  senhor de si mesmo. É revelador que a bíblia ponha na boca de Ninrod essas palavras: "Sucedeu que, partindo eles do Oriente, deram com uma planície na terra de Sinar; e habitaram ali. E disseram uns aos outros: Vinde, façamos tijolos e queimemo-los bem. Os tijolos serviram-lhes de pedra, e o betume, de argamassa. Disseram: Vinde, edifiquemos para nós uma cidade e uma torre cujo tope chegue até aos céus e tornemos célebre o nosso nome, para que não sejamos espalhados por toda a terra". Um nome que permaneça, um nome para a posteridade, um nome que demonstre nossa força para conquistar. Nunca retrocederemos, seremos para sempre o que somos, homens superiores, que confiam que podem chegar aos céus com a força da união de seus esforços. Esse é o nosso paradigma ainda hoje. A visão de Ninrod é a mesma do homem moderno. 


A arquitetura das pirâmides e templos ciclópicos colossais traz em si a marca dessa psicologia de autoafirmação do homem frente aos poderes celestes, a qual traz implicações profundas no modo como interagimos ainda hoje, com o mundo, DEUS e o meio ambiente, uma resposta ao medo de serem novamente punidos pelos Elohim e espalhados como gado. Ninrod e seus seguidores basicamente concluíram que não queriam simplesmente sobreviver de um modo simples como caçadores e pastores de ovelhas. Ninrod possuía uma Visão, era um visionário, portanto, e essas pessoas tem o poder de agregar outras para trazer a realidade seu sonho. Uma das características desse tipo de líder é inculcar em seus seguidores um temor que os fará trabalhar mais eficazmente pela Visão. Assim, os construtores da Babel, ou Babili, o Portal dos Deuses na Mesopotamia, se empenharam por medo de serem punidos e "espalhados por toda terra novamente". Ninrod conseguiu inverter a equação a seu favor, pois seria natural pensar o contrário, já que estavam reconstruindo aquilo que ELOHIM havia destruído, mas, Ninrod e seus cumplices, certamente usaram o argumento de que aquela geração foi destruída por desobedecer aos deuses e que, para serem novamente favorecidos, as antigas cidades deveriam ser reconstruídas e dedicadas aos deuses de outrora para que eles voltassem a habitar entre eles e o homem voltasse a ser "Senhor" e eleito pelos deuses para governar a Terra e submeter todas as espécies. Para que isso fosse viável, Ninrod deve ter se autoproclamado "enviado" dos "deuses" e portador de algum tipo de "revelação".


Não importa onde, sabe-se que em qualquer lugar onde tenha florescido uma alta cultura civilizatória, seja na Índia, na China ou nas Américas, ela surge com as mesmas molduras sócio-hierárquicas para eclipsar a cultura precedente, predominantemente tribal, agrícola ou nômade. Os "Senhores"' eram detentores de um conhecimento que legava a eles o direito de governar os homens assim como os deuses o faziam antes deles e proclamaram-se, para isso, seus herdeiros. Hierarquia vem do grego hiéros (sagrado) e arche (poder, autoridade), ou seja, toda idéia de civilização foi construída sobre essa base piramidal onde uma casta dominante arroga para si a centralidade do poder, apoiada por uma classe intermediária, geralmente o clero sacerdotal que inculca no povo o medo da desobediencia, apoiada pela próxima, a militar, classe responsável por manter a ordem e disciplina e, finalmente, a grande base da piramide, a força de trabalho que sustenta todo o sistema com sua mão de obra silenciosa, pobre, burra e farta. 


A "civilização" como a conhecemos é a imposição de uma hierarquia sagrada e militar por um pequeno grupo a um grupo muito maior de pessoas escravizadas e amedrontadas. Ninguém pode achar que alguém poderia simplesmente escolher que era melhor construir dia após dia aqueles palácios, templos, piramides e zigurates que vemos hoje quando simplesmente poderia ir pescar ou colher frutas. Esse modelo predatório foi herdado simplesmente por que era melhor fazer outros trabalharem por você e ninguém pode esperar que esse modo de vida altamente contrário ao estilo de vida comunitário das tribos pudesse se estabelecer sem uso de força ou cooptação.  


Se Jung aplicasse seus métodos a nossa civilização encontraria as respostas para nossas ambiguidades no cerne das nossas mitologias mais antigas que descrevem como fomos usados e abusados por "deuses" e semideuses", os Nephilim do relato bíblico, que nos manipularam e escravizaram para manter uma "ordem social divina" e seu alto estilo de vida, bélicoso e consumista de material energético e frívolo em seu voraz desejo de entretenimento.  Como não poderia deixar de ser, aprendemos a "fazer a civilização" nos moldes daquilo que absorvemos dos "deuses", nossos "pais" e nossos iniciadores no conhecimento do bem e do mal. A ciencia, a matemática, a metalurgia  e a arquitetura dos antigos foram "dons" recebidos dos "Nephilim" que os serviam bem para que  também eles fossem "senhores" entre os homens, dominando os mais fracos como eram dominados e usando-os como massa de manobra como eles mesmo eram usados. Inconscientemente, nossa sociedade reproduz esses padrões em todos os níveis do relacionamento humano. Só podemos dar aquilo que recebemos. Imiscuído em nosso inconsciente está esse meme, como diria Richard Dawkins. 


A psicologia ensina que a maior parte dos nossos processos mentais é gerada nos subconsciente por lições que aprendemos subliminarmente e determinam nosso modo de agir frente às situações cotidianas, padrões reprimidos aos quais não podemos fugir, mas que odiamos, pois, geralmente, são fruto de ação invasora alheia, que nos rouba a capacidade de sermos nós mesmos e nos tornam cópias daquilo que abominamos. Nos tornamos perigosamente ambíguos e recalcados e projetamos em nossos planos e motivações nossas frustrações e traumas. Isso pode determinar o quanto uma pessoa pode ser auto-destrutiva, ou ter uma ilusão de que se realiza na profissão ou em um relacionamento amoroso, sem nunca tocar a profunda realidade que jaz em seu interior. Um pai maltrata seus filhos porque foi educado dessa maneira, uma mulher não consegue se realizar numa relação a dois porque foi abusada por um homem adulto na infância, a discrepância social produz no desfavorecido um sóciopata com ódio da burguesia, e assim sucessivamente...Tudo está relacionado com padrões de causa-efeito.  


Será que esses princípios analíticos podem ser transferidos em alguma escala à sociedade  moderna como  um todo? Penso que sim, como foi feito no caso da Entropia. Temos uma ilusão de progresso técnico/cientifico enquanto trilhamos um caminho que achamos que nos é próprio mas que foi cunhado para nos escravizar. Sofremos e fazemos sofrer sem poder nos livrar dos "rudimentos desse mundo", como diz Paulo.


Temos várias passagens do Novo Testamento onde a palavra "mundo" aparece para designar um sistema de coisas que está em oposição àquilo que JESUS chamou de Reino de DEUS. Em João 12,31 lemos: "Agora, é o juízo deste mundo; agora, será expulso o príncipe deste mundo" e em João 17. 16, ao orar por seus discípulos diz: "Dei-lhes a tua palavra, e o mundo os odiou, porque não são do mundo, assim como eu não sou do mundo". A palavra grega usada aqui é kosmos, e seu sentido original traz a idéia de um ornamento, um adorno, como algo harmonioso, simétrico, belo, bem arranjado, em ordem. Os filósofos gregos a aplicaram ao universo em si, ao observarem a harmonia e simetria das coisas criadas, dando um sentido poético à ordenação dada na natureza, como se ela fosse um adorno perfeitamente calculado para impressionar por sua beleza. Bela observação. Esse sentido também se faz presente em I Pedro 3.3 e I timoteo 2.9 e também deu origem ao termo 'cosmético' que tanto vemos hoje. Certamente, os antigos gregos queriam afirmar o princípio de que tudo que vemos hoje perfeitamente ordenado (kosmos) veio a se elevar da desordem primordial (chaos). 


É interessante notar, porém, a conotação que JESUS dá ao termo, transliterado depois por seus discípulos para o grego. Ele não está se referindo ao Universo em si, pois assim estaria dizendo que seus discípulos e Ele mesmo não tinham nascido neste mundo, algo ridículo para um homem comprovadamente sábio. Assim ,a palavra "mundo", dentro do Novo Testamento, ficou conhecida dos discípulos pela associação que o Mestre fazia dela com aquele que Ele chamou de "príncipe deste mundo" e pela oposição que aqueles que pertencem a esse "mundo"e, portanto, dentro da área de influencia desse "principe", fazem a pregação do Evangelho. Ou seja, um sistema, uma cosmovisão, uma explicação do mundo em oposição à Verdade de JESUS. Disse JESUS a Pilatos: "Meu reino não é deste mundo. Se fosse, meus servos, batalhariam por mim para que não fosse entregue aos judeus, mas, agora, meu reino não é daqui". 


Dando sequencia ao raciocínio de JESUS, seus discípulos sistematizaram o ensino e sacramentaram a visão de que O CAMINHO vai numa direção totalmente oposta àquilo que é valorizado e mesmo glorificado no "mundo".  No Caminho, quem não sabe dividir não multiplica nada, quem não gosta de perder, não ganha nunca, quem não quer se diminuir, nunca crescerá. Por vezes, a palavra "Aeon" também é traduzida por "mundo", mas ela traz mais um sentido de período de tempo determinado, geração, século, podendo também designar o "espírito de uma época", sentido empregado na passagem em que ela aparece numa mesma frase ligada a Kosmos, em Efésios 2.2: "em que, noutro tempo, andastes, segundo o curso (aeon) deste mundo (kosmos), segundo o príncipe das potestades do ar, do espírito que, agora, opera nos filhos da desobediência". 


Quando Paulo cita o "curso deste mundo", o "espírito dessa época" e seus "rudimentos", ou seja, princípios, pilares fundamentais, ele está chamando a atenção para um padrão de comportamento humano que parece a essas pessoas perfeitamente normal e natural. C.S. Lewis chamou atenção para o fato de que a História não é, em sua maior parte, uma história na qual a humanidade só deseja praticar o mal, mas, do contrário, ou seja, aquilo que era para resultar em algo bom, se tornando em algo intrinsecamente danoso. Dizem que Jung afirmou: "É impossível entender a Europa sem a dimensão do demoníaco". Eu diria que o mundo em que vivemos hoje não o é, sem essa dimensão. 


Podemos pensar nesse sistema em termos de física, como a lei da gravidade. Sabemos que essa força fundamental é que mantém nosso universo unido, mantendo os planetas em suas órbitas, propiciando que haja uma atmosfera propiciadora de vida na Terra, etc...Em resumo, ela mantém a ordenação das coisas como as conhecemos, dando ao mundo o sentido de kosmos (ordem, arranjo)que os gregos viam na natureza. A força da gravidade produzida pelos corpos celestes atua sobre os corpos menores atraindo-os para si como um imã, um campo magnético invisível do qual ninguém pode escapar à influencia. Pense, então, em "mundo", como descrito por JESUS e Paulo, como algo semelhante. É uma visão, ou cosmovisão, que atua sobre as mentes de bilhares de pessoas no planeta, dando-lhes um mesmo sentido, um mesmo propósito, mantendo-os conectados com a idéia de manter o arranjo, a atua ordenação de coisas e que isso se chama civilização, progresso e que isso é necessário, imperativo mesmo, para que sejamos humanos de verdade. Fora desse paradigma, só encontraremos pessoas marginalizadas como os sem-teto, os índigenas e os ciganos que, praticamente, não contribuem em nada com essa piramide social.


Daniel Quinn está fadado a se tornar um ícone cultural como visionário precursor de um novo estilo de vida por seus romances que põe em xeque a civilização atual. Talvez venha a se tornar um dos papas da tão proclamada Nova Era. Entretanto, falta-lhe, como seria de se esperar de um naturalista, a noção exata do que significa "mundo" na ótica de JESUS e de seus discípulos quando coloca na boca de seu personagem no fim de "A História de B", o discurso que o identifica como o anticristo. Em seu pensamento, todas as religiões salvíficas glorificam o homem em detrimento das outras espécies e do mundo como um todo, como habitação, como lar, fazendo-o um deus que domina e dispõe de tudo  seu bel prazer. O homem civilizado não vive em harmonia com a natureza como as culturas animistas sempre o fizeram, mas é um tipo de homem diferente, surgido há pouco tempo e com uma mensagem perigosa de domínio sobre os elementos para usa-los a seu bel prazer. Ele identifica esse processo de distanciamento do homem de seu meio original com o surgimento do tipo de pensamento religioso que prega a Queda e a necessidade de salvação. Tal pensamento seria uma ilusão produzida pelo sentimento de culpa do homem estar deixando o caminho que lhe é natural, optando por uma via anti-natural. Seria uma compensação da sua mente reprimida. Citando João em sua primeira carta, ele diz que o evangelhista recomenda para não amarmos o mundo justamente porque se o fizéssemos estaríamos dando um passo para fora da civilização e toda idéia de salvação ficaria inútil. Obviamente, a tese de Quinn parecerá fascinante aos que buscam qualquer pau para bater no cristianismo como um dos itens que moldaram o mundo atual, mas ela não subsiste quando nos deparamos com o conceito que o apóstolo João tinha do que é "mundo", como sabemos:



"Não ameis o mundo, nem o que no mundo há. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele; porque tudo que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não procede do Pai, mas procede do mundo" - I João 2.15 e 16

Note que João relaciona três elemento fundamentais como formadores dessa "visão": concupiscencia , que é uma palavra pouco usada no português, é desejo irrefreado, de natureza sexual ou por bens materiais. A palavra em grego é
epithumia e tem relação com desejar intensamente o que é proibido, ou seja, luxúria. Não podemos constatar que nossa civilização está assentada sobre essas bases realmente? O desejo irrefreado de possuir cada vez mais, de conquistar, de dominar, está na raiz de nossa civilização. A outra palavra é soberba (alazoneia), descrita como uma certeza insolente e vazia, uma arrogancia ímpia de que não depende de ninguém a não ser de si mesmo. Esses são os tijolos fundamentais do tipo de pensamento que o homem herdou dos "deuses" de outrora: pegue, domine e usufrua sem limites para seu prazer, a inteira ciência do bem e do mal.



O que há de errado com a ciência em si mesma? Nada. Mas há algo de muito errado com o uso que fazemos dela, o que equivale dizer que há algo de muito errado conosco. Os progressos que o homem fez em cada área do saber não afetaram o modo como ele vê seu semelhante e sua missão, seu propósito de vida sobre a terra. Santos Dumont morreu desgostoso ao ver que a utilidade que a sua maior invenção teria nas guerras modernas. Os cientistas envolvidos no Projeto Manhattan certamente sabiam dos riscos em desenvolver uma arma  atômica e que isso significava abrir caminho ao homem à posse de um instrumento de destruição em massa. Em nome da ciência e do progresso, porém, eles assumiram os riscos e abriram caminho para que o homem se tornasse também senhor das energias escondidas na matéria, porque isso faz parte do processo irreversível chamado civilização.


Nossa civilização, como herdeira dos "deuses" que nos ensinaram sua ciência do Bem e do Mal, é uma conspiração, uma conspiração cujo objetivo principal é toldar nossa visão do sentido real do que é nossa jornada como espécie aqui. Cada vez mais a sensação do sagrado se  torna algo avesso às vidas "normais", a imensidão do mundo é encurtada pelos satélites, a vida diminui na tela do computador, o numinoso, o fantástico, dá lugar a qualquer explicação simples, mas perfeitamente lógica e racional. Recorrer ao fantástico, ao sobrenatural, é uma fraqueza. A Ciência iluminou tudo e a religião só traz condenação. Essa observação não deixa de ter algum mérito. Analisados os fatos, as religiões são as que mais contribuiram para uma concepção errado de DEUS, especialmente as cristãs. 


Analisando, as palavras de Cristo e os primeiros anos do que veio a ser chamado cristianismo, vemos uma dissonancia tão grande com aquilo que veio a seguir que fica difícil encontrar o fio da meada ou se ele irremediavelmente se perdeu lá pelos fins do primeiro século. Como alguém já disse antes "Se JESUS é o Caminho, o cristianismo é o desvio". Sem dúvida, JESUS é muito maior do que tudo aquilo que foi produzido  às custas de Seu Nome nesses dois mil anos. Penso mesmo que as toneladas de material teológico tentando explicar sua missão com termos como expiação e sacrifício vicário e toda soteriologia relacionada a isso não é mais valioso que uma montanha de papel higiênico usado. Me atrevo a dizer que se houve alguém que não entendeu nada sobre Cristo, esse alguém é um "cristão". Alguns esotéricos o entenderam melhor. Os "magos" que vieram do Oriente, na verdade eram caldeus de origem, ou seja, estavam envolvidos em astronomia, estavam mais para esotéricos pagãos que monoteístas, no entanto, entenderam muito melhor o significado do que contemplavam naquela estrela solitária e da missão daquele que ela apontava do que todos os seus discípulos até o Pentecostes. Isso reafirma para mim a universalidade de Cristo e sua mensagem e que todo ser humano anseia por ela, independente de cultura ou religião.


Os "cristãos" são como os discípulos de JESUS antes de Pentecostes: tapados, egoístas, brigando entre si para ver quem se sairia melhor e sem entender lhufas do que o Mestre ensinava. Só podiam entender suas palavras de acordo com a cultura na qual viviam. Sua esperanças giravam em torno de um Messias militar como Davi. Nada mudou neste tempo decorrido. Temos interpretações das mais variadas sobre o que Ele realmente queria dizer e a cristandade, termo criado para designar o mundo ocidental "cristianizado", ou seja, nascido sob influencia cristã, não mudou a cosmovisão que norteia nossa civilização mas prosseguiu com o intento de dominar e espalhar a cultura do "prejuízo máximo", sendo completamente amalgamada ao "mundo" que condenou o Mestre. 


Como a simplicidade da Boa Nova veio a ser confundida com a ocupação do trono romano por um "substituto" de Cristo e de Pedro? Como a horizontalidade singela entre  irmãos veio a ser substituida pela ditadura hierarquizada das organizações evangélicas? Como a mensagem daquele que não tinha onde recostar a cabeça para dormir veio a se tornar sinônimo de lucro empresarial? Eu só posso explicar isso através desse sistema diabólico chamado "mundo" que engolfa todas as coisas, que atrai para si todas as iniciativas e, como um buraco negro, deseja nos aprisionar na escuridão, no vácuo. Segundo as palavras de JESUS e depois Paulo, esse sistema tem um gerenciador e arquiteto, chamado "Principe deste mundo" e "deus deste século"


A simples menção da existência desse ser já causa aviltamento em muitos. Assim como a idéia de pecado, inferno e salvação, a imagem de um ser espiritual inteiramente dedicado ao mal nessa era de "luzes" está caindo em desuso e descrença. Lidar com um ser como tal, é penoso porque nos faz interagir com a idéia de que DEUS permite tal existencia vil. E ressurge a velha questão: "Se DEUS existe e é bom e onipotente, porque não elimina logo o velho Capetão? Se não faz isso, de duas uma: Ou não é Onipotente coisa nenhuma ou é maldoso por permitir tudo isso." Essa questão até parece bastante razoável e até parece lógica, mas não é nem uma coisa nem outra. Ela leva ao imobilismo diante das forças que vemos em ação em tudo. Para dizer isso eu teria que entender em que sentido DEUS existe e também como se aplica a Ele os adjetivos Bom e Onipotente. Em suma, eu teria que saber tudo sobre DEUS e definir como Ele deve agir em cada situação especifica, o que obviamente está além de nossa capacidade. 


Tudo  o que vemos é o mal praticado pelo homem e já é muito, então porque insistir em demonizar algo que está em nossa natureza? Eu sinceramente gostaria muito de não ter que lidar com esses termos, mas, insisto de novo, uma vez que não podemos tomar as palavras de JESUS como meras figuras de linguagem quando fala de inferno e separação eterna de DEUS, não podemos também descartar a sua concepção de um "usurpador" que ganhou a primazia entre os homens. O poder de um "deus" está em criar um "mundo", uma ordem de coisas e gerencia-lo para si próprio. Mas o que é o mal? Certamente sabemos do que ele é capaz, mas talvez ainda não tenhamos entendido esse conceito corretamente ao aplica-lo ao "querubim" caído e suas hostes. 


Segundo C.S. Lewis, em "O Problema do Sofrimento" o mal não tem existência ou significado próprios, mas deriva diretamente de uma deturpação do Bem. Não pode haver o mal sem que haja uma medida daquilo que se possa chamar Bem. Nesse sentido, não há ser que seja completamente mal em essencia, mas seres capazes de gerar o mal para atingir algo que para si mesmos representa o Bem. Tomemos novamente os nazistas como exemplo. Hitler amava a pintura e a música, coisas boas em si mesmas e pode-se dizer  que era uma amante do belo, das artes. Há vários filmes em que se pode ve-lo em momentos frugais passeando ou interagindo com seus sequazes nos alpes alemães, rindo e aparentemente se divertindo. Tudo isso às custas do sofrimento de muitos. O ideal nazista era escravizar o mundo todo para que uma cepa ariana vivesse num Éden terrestre. Esse era seu ideal de Bem, o Bem da sua raça, para ele a única digna de ser chamada humana, em detrimento de todas as outras raças, sub-humanas.


Se Satanás e suas hostes realmente existem, como creio, em qualquer plano, ele não está interessado em destruir o ser humano, mas em escraviza-lo para seus interesses. Porque o faria? Através do sistema chamado "mundo" que ele influenciou tanto, ele recebe a adoração do ser humano na ganancia e luxúria do dinheiro e do sexo e mantém seu reino algures e seu "estilo de vida" como gerenciador de um sistema independente daquele proposto por JESUS, mantendo seu "direito" de governar, quem sabe, todo um sistema solar ou galáxias inteiras. O que ele ganha com isso? Aquilo que todo ganancioso procura: continuidade no poder, status quo. Imagino que tal ser não quisesse abrir mão de suas prerrogativas facilmente. "Servir o ser humano, ajuda-lo a ser como eu? Por que, se posso domina-lo, escraviza-lo, ser seu mestre e seu Deus?" 


Em minhas elocubrações fico imaginando que tal ser, muito provavelmente, embora poderosíssimo, não tenha ainda a exata noção do mal que causou, mas que está imbuído de um espírito que lhe diz estar certo. Não faria sentido tal rebelião se tal ser acreditasse que poderia fracassar ou que já está condenado. Não. A "rebelião" dele e seus anjos propõe que eles estavam corretos de alguma maneira e que havia chances de serem bem sucedidos na empreitada. O mundo atual do homem, a vinda de JESUS, sua morte e Ressurreição, e a entropia desse sistema provam que foram bem sucedidos de alguma forma. Satanás pressupõe a vitória e não acredita nas profecias. Mais especificamente, ele não acredita que JESUS é quem disse ser. Crê que o DEUS ETERNO lhe deu essa condição e deseja mante-la a todo custo, ainda que sofra a oposição de outras hostes celestiais, que se fazem leais àquele que assumiu entre nós o nome de JESUS. Acima de tudo, Satanás não deseja o fim desse sistema, mas trabalha para sua continuidade. Quem anseia e trabalha para que tudo isso se encaminhe para o fim planejado pelo Pai é JESUS. Esse enredo lhe parece demais com um dos filmes hollywoodianos? E de onde você acha que tiraram todos aqueles arquétipos aos quais nos acostumamos a vida toda da luta do Bem contra o Mal, Darth Vader contra Luke, O Escolhido contra a Matrix, Frodo e o Anel e etc, etc...? São projeções arquetípicas da verdadeira luta épica que nos mantém em quarentena espiritual até que possamos suportar a Verdade. 


Tenho acompanhado alguns debates entre teólogos e ateus e visto que os debatedores cristãos estão se tornando cada vez mais técnicos e utilizando-se de "provas" cada vez mais científicas em suas argumentações o que geralmente não consegue convencer o oponente de que está errado ao dizer que DEUS não existe e que não houve criação alguma mas só que a ciencia ainda não o provou em seu atual estágio. Dificilmente, usando essa argumentação poderá convencer alguém de coisas como pecado, inferno e ressurreição dos mortos. É como fogo e água. Seria preciso, antes de tentar usar qualquer método pseudocientífico, dizer claramente que a visão de mundo em que se apóia a fé em DEUS é uma visão mágica do mundo, como dizia alegremente G.K. Chesterton ao debater com as mentes existencialistas mais brilhantes de sua época. Não podemos ter vergonha de assumir isso. Somos os mágicos do mundo, os shamans, os curandeiros que desejam o Espírito.


Estamos querendo ser racionais, razoáveis e nos distanciar de qualquer idéia que nos ligue à imagem de pessoas bitoladas e idiotizadas pela religião, e isso é perfeitamente compreensível, mas não há como conciliar certas noções pós-modernas sem abrir concessões perigosas ao Evangelho. Há meios de advogar uma visão espiritual, transcendente e mística do Universo sem cair no discurso supersticioso e imbecil das religiões. Em certo sentido, temos que ser os verdadeiros esotéricos e profetas que mantém a visão de um mundo sustentado por poderes invisiveis enquanto a humanidade caminha cada vez mais para fora de qualquer referencia do sagrado. Por outro lado, ao fazermos isso, não comungamos necessariamente de leituras pueris que diminuem a grandeza do que é realmente a dimensão do Espírito e que faz uso de rezas, amuletos, invocações, rituais, parafernálias, catarses, induções emocionais e técnicas várias para "produzir o sagrado". Como Paulo, na carta aos Colossenses, diz: 


" Se, pois, estais mortos com Cristo quanto aos rudimentos do mundo, por que vos carregam ainda de ordenanças, como se vivêsseis no mundo; não manuseies isto, não proves aquilo, não toques aquiloutro, segundo os preceitos e doutrinas dos homens? Pois que todas estas coisas, com o uso, se destroem; tais coisas, com efeito, têm aparência de sabedoria, como culto de si mesmo, e de falsa humildade, e de rigor ascético; todavia, não têm valor algum contra a sensualidade" - Colossenses 2.20 ao 23


Ainda em Colossenses, Paulo declara que em Cristo JESUS "habita, corporalmente, toda a plenitude da Divindade" e  que "nele, estais aperfeiçoados; Ele é o cabeça de todo principado e potestade". 


Paulo estava dizendo aos colossenses que tudo que os gnósticos e místicos esotéricos sempre procuravam com suas práticas esquisitas para tentar entrar em contato com a dimensão do sagrado era inútil e descartavel, pois tudo está disponível através de UM Só: Aquele que é o Verdadeiro Caminho, Aquele de Quem deriva as "Dez Mil Coisas Criadas" e O NOBRE CAMINHO apenas intuido anteriormente que liberta do Sansara, ou ciclo de Sofrimento,  Ele é Aquele que é O Princípio e O Fim, mas que existe por si mesmo antes do início de tudo como conhecemos, Aquele que veio A SER , É e SERÁ, "em quem todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento estão ocultos" (Colos. 2.3).


O Tao produziu o Um
O Um produziu  o dois
E o dois produziu o três
E o três produziu as dez mil coisas...


Ele é o Sol que ilumina todas as coisas, diferente da lua cheia com seu contorno nítido e bruxuleante que nos faz perder a razão nas sombras de seus relevos antevendo formas mirabolantes de cavaleiros e dragões. Não podemos olhar diretamente para a luz do Sol mas através dela ver todas as coisas claramente como num dia de verão. Não necessitamos de sortilégios e encantamentos e fórmulas lunáticas mas entender que todas as coisas convergem para Ele (Efésios 1.10) de modo que não há vileza que não seja feita contra ele, nem caridade que possa ser feita senão em Seu Nome. Por isso, a Cruz, não como amuleto, mas como símbolo de movimento, atividade divina. A cruz , não creio que por acaso na forma da letra TAU hebraica, irradia-se para todos os lados, alcançando todos os quadrantes, mas, também convergendo para seu centro as distancias mais remotas, ligando, conectando. JESUS é o Único e Perfeito Esotérico. Chesterton dizia que não cria num Universo mecânico e frio porque ele exibia as marcas deixadas por um artista, ou seja, existe um princípio ontológico que move as forças e grandezas universais. 


A metafísica oriental geralmente admite a idéia de que tudo retornará ao Tao ( Eterno, Infinito) inicial, como num círculo que se completa, retornando ao ponto de início e gerando um novo começo. O início é o Um, o Alfa, o Álef, a primeira letra hebraica e número multiplicador do infinito na matemática transfinita, mas o fim do ciclo do tempo-espaço, porém, não chegará ao mesmo ponto de início mas chegará ao seu termo culminando na letra Tau hebraica, o Ponto Ômega de Teillhard de Chardin, a porta de entrada do Tau, Infinito, do Eterno em nós e nós Nele. 



Lemos em 1 Coríntios 15:28 : " Quando, porém, todas as coisas lhe estiverem sujeitas, então, o próprio Filho também se sujeitará àquele que todas as coisas lhe sujeitou, para que Deus seja tudo em todos."


Teillard de Chardin cria num Universo que evolui com um objetivo e propósitos bem definidos: "Eu creio que o Universo é uma Evolução. Eu creio que a Evolução vai para o Espírito. Eu creio que o Espírito, no Homem, se conclui no Pessoal. Eu creio que o Pessoal supremo é o Cristo Universal". 


Em certo sentido, os que aguardam a vinda de uma Nova Era estão corretos, pois ela virá como preconizado por eras e virá como um dilúvio do Espírito sobre a Terra, exatamente como sugere a imagem arquetípica do homem derramando as águas de seu vaso na representação zodiacal. O erro desses, porém, está em imaginar que essa revolução, ou evolução, virá de uma nova consciencia humana ou de medidas sócio-políticas que visem melhorar o ser humano através de um governo de mentes brilhantes mundiais. Como Hitler e seus sequazes, tais pessoas aguardam o surgimento do super-homem que salvará o Kosmos, quando na verdade, no organograma do "Projeto ÔMEGA" de DEUS, o que se seguirá é a verdadeira supressão de todo status quo, de todos os sistemas de castas no qual é baseada nossa civilização.


Esse é o verdadeiro sentido da mensagem de Cristo: a subversão daquilo que vemos como ideal civilizatório. É por isso que o cristianismo que vemos no Evangelho e em Atos é tão diferente, revolucionário, subversivo e perigoso para o "mundo" judeu ou romano da época ou de qualquer época, pois mudou o modo como as pessoas viviam.É por isso que o "cristianismo" institucional não conseguiu afetar as visões das pessoas e transformar o modo como interagimos em sociedade, nem moldar outra visão de mundo, mas foi assimilado e transformado num sistema particular de crença que se identifica em particular com a visão ocidental. Ser cristão em várias partes do mundo é se identificar com valores ocidentais. É ser pró USA e pró Israel e anti-árabe ou qualquer outra coisa.O cristianismo é ocidental, mas JESUS viveu em uma sociedade de valores orientais e é natural que tenhamos perdido as referencias, o contexto do que foi dito depois de tanto tempo e tantas interpretações. 


Toda a mensagem da Bíblia, de Noé a Abraão, passando por Moisés e os profetas, até JESUS e os apóstolos diz respeito a uma só coisa: SAIAM DESSA CIVILIZAÇÃO. Ou seja, não comungue de seus valores, não busque seus padrões, não se deixem moldar, não vos conformeis a esta geração. E se é verdade que DEUS não faz acepção de pessoas, mas age sobre todos os que desejam encontra-lo verdadeiramente, todos os verdadeiros místicos e ascetas das mais diversas culturas que deixaram a civilização para se tornarem "loucos para esse mundo" estavam buscando se desconectar da Matrix e se conectar com o Um, o Ponto Ômega da Evolução Humana. Estranho cada vez mais um pretenso cristianismo tacanho, mesquinho e medíocre que pressupõe que ninguém pode ser salvo por DEUS sem frequentar uma "igreja cristã" e que se utiliza dos mesmos meios, das mesmas armas, dos mesmos conceitos utilizados no sistema mundano para fazer-se conhecido, engrandecido e estabelecido como algo de valor. São as mesmas receitas usadas nas grandes corporações que promovem o capitalismo selvagem e a globalização no mundo. 


"Nossas" igrejas continuam cheias de "cruzados", aqueles cruéis guerreiros medievais que espalharam o terror no Oriente Médio, matando e pilhando os "infiéis" em nome de DEUS e da Igreja de Cristo. A mensagem da Cruz já não é uma afronta ao ego, ao meu querer, mas foi substituída por um discurso de auto-afirmação, do tipo "você pode, você consegue", um triunfalismo fanático, que nada tem a ver com o Evangelho Original. 


Apocalipse 18
2 - E clamou fortemente com grande voz, dizendo: Caiu! Caiu a grande Babilônia e se tornou morada de demônios, e abrigo de todo espírito imundo, e refúgio de toda ave imunda e aborrecível!

3 - pois todas as nações têm bebido do vinho do furor da sua prostituição. Com ela se prostituíram os reis da terra. Também os mercadores da terra se enriqueceram à custa da sua luxúria.
4 - E ouvi outra voz do céu, que dizia: Sai dela, povo meu, para que não sejas participante dos seus pecados e para que não incorras nas suas pragas.


O "Renuncia a si mesmo e tome a sua cruz cada dia" já não é a jornada interior de um peregrino mas a porta de entrada para um mundo de faz-de-conta onde você tem direitos que DEUS tem que cumprir porque "prometeu"  na Palavra". Os pastores, alguns cônscios disso, outros não, deram a mão a Mamon e hoje ele habita sobre o púlpito e no ideário de todo "cristão" que acima de tudo acha que deve prosperar materialmente como prova de que DEUS está governando sua vida. Muitos, talvez a maioria, nem percebem que seu cristianismo os deixa desequilibrados, pois revela um relacionamento doentio com o Pai e os poderes espirituais.


Retomando nossa linha de pensamento, temos então satanás, o opositor de DEUS, como "deus deste século", e gerenciador desse sistema chamado na Bíblia de "mundo". Ele conseguiu, como descrito em Genesis, corromper a matriz humana e foi o iniciador da humanidade na ciência na qual ele é mestre, do conhecimento do Bem e do Mal. Quem conhece um pouco de ocultismo sabe do que se trata. Não se trata de ser inerentemente mau todo tempo, mas de usar o mal sempre que lhe for conveniente, para fins próprios. É a velha máxima do fim que se justifica pelos meios. Todas as tradições apontam esse ser como sendo um "celestial" de alta patente ou com grandes responsabilidades cósmicas, um "querubim ungido" com grande poder. Essas tradições, maçônicas e teosóficas, afirmam, com base em antigas cosmogonias, que Lúcifer, ou Portador da Luz, é o grande condutor criativo da raça humana em sua evolução tecnico-espiritual, identificando-o com o mito grego de Prometeu, punido por Zeus, por dar ao ser humano o fogo, ou Luz.


Com a Queda do Primeiro Homem, e consequentemente toda espécie, passamos a ser regidos por princípios biológios, quando DEUS lacrou dentro de nossa própria psiqué o caminho da Etenidade, ou da Árvore da Vida. Como Chesterton dizia, somos como náufragos com um certo tipo de amnésia agora, tentando lembrar da utilidade e da procedencia de certos itens que o mar traz à praia onde estamos. A maioria de nós vive tateando por aí, mas há aqueles que alardeam ter visto a Luz ("Vê, pois, se a luz que há e ti não são trevas" - Lucas 11.35).Vivendo pelo nosso intelecto marcado pela má consciencia de Adão e pelo trauma que o "numinoso" nos remete, nos tornamos suscetíveis às influencias e sugestões daquele que se apoderou da evolução de nossas almas. Destinados a sermos feitos "à imagem e semelhança" do Único, fomos roubados em nossa herança e privados do contato com Aquele que conduz todo o Universo ao Pai, ao Eterno.


Cansamos de ouvir dizer que satanás quer usurpar o lugar de DEUS e ser adorado como o próprio DEUS, mas em que sentido? Você já se perguntou por quê DEUS deve ser adorado? Quando ouvimos que DEUS nos criou para que Ele fosse adorado, em que você pensa? Que DEUS necessita ouvir que o amamos quer ouvir-nos cantado louvores pela Eternidade? Que seu ego gigantesco deve ser acariciado pela Eternidade por um coro incessante de beatos? 


A palavra "adoração" traz em si mais do que a idéia direta de "se curvar em reverencia" e "prestar homenagem'  a uma dignidade, um deus ou um soberano, mas carrega também o sentido de serviço, entrega, dedicação total. A Adoração ao DEUS EU SOU que se revelou a Moisés na sarça ardente envolve muito mais do que um simples ritual ou sacrifício, pois engloba um conjunto de valores morais, éticos e espirituais que atingem o cerne da alma humana, seus critérios de julgamento e seu caráter em relação ao tratamento dispensado ao próximo. Não nos é lícito afirmar que, se DEUS é o artífice de uma raça que deve evoluir com o Universo, partindo do que é inanimado e regido por leis fixas, passando pela vida biológica contingente, para chegar por fim a uma forma definitiva, acima do animal e vegetal, a vida em permanente estado dinâmico do Espírito, como descrito por Paulo em I Cor. 15, então, somos obrigados a admitir que a Queda nos tornou escravos em um sistema que nos mantém em quarentena evolutiva até que sejamos religados à verdadeira fonte? 


Não reafirmou JESUS em João 10.34 aquilo que está escrito no Salmo 82.6, que nós somos "Elohym", ou seja, "seres divinos", mesma palavra usada para os deuses pagãos e o DEUS de Israel? O mesmo João não nos diz que "quando Ele se manifestar, seremos semelhantes a Ele" (I Jo 3.2)? Há uma chispa divina em nós que não se apagou, que não se extinguiu, podemos acessa-la nos diminuindo para o mundo, extinguindo nosso ego, ouvindo o silêncio e nos enchendo do "vazio", do pneuma, do Vento que assopra nos quatro cantos. Se nosso desejo for puro e isento de falsas intenções podemos encontrar um tesouro de real valor ali, algo sagrado e intocado, o santo dos santos da nossa alma que passará a ser preenchido com o Amor que move o Universo. Isso equivale a um verdadeiro arrependimento e a uma experiência de novo nascimento, sem fórmulas ou ritualística.


O inimigo de nossas almas conhece nosso potencial latente, sabendo que anulou a verdadeira raça dos "deuses". Pense na tarefa exclusiva dada por DEUS a Adão no "jardim": lavrar a terra. Adão não prestaria cultos a DEUS nem entoaria louvores como os que ouvimos nas "igrejas" cristãs, mas trabalharia com afinco para desenvolver todas as possibilidades da Criação de DEUS, ou seja, Adão e o gênero humano foram criados para serem o fio condutor da Evolução da Vida em direção ao projeto original do Pai Celeste. Ligados, conectados com DEUS, em inteiro serviço de adoração a Ele, a Vida do Universo poderia tomar seu rumo "natural" para a Evolução. Cortada, vedada essa conexão natural original, que agora exige um esforço titânico de ambas as partes para ser readquirida, fomos expostos ao processo chamado Entropia, uma possibilidade aterradora de inércia e morte perpétuas. 


O objetivo de JESUS/DEUS é de receber nossa "Adoração", nosso serviço, nossa dedicação total de modo ativo para que possa levar a termo esse processo pelo qual o Universo foi projetado para passar. Nosso crescimento em caráter e justiça deve levar a humanidade redimida a uma massa crítica de energia vibrando positivamente, para o Alto, para o Pai. Tudo isso envolve as dimensões quânticas das energias e das vibrações do Espírito. Como disse Carlos Castaneda, tudo é uma questão de energia.


Lúcifer, assentado como deus deste mundo, ou Kosmos, tem influenciado e determinado os rumos das decisões humanas a fim de receber, como gerenciador desse sistema e como usurpador que é, a "adoração", ou serviço dos homens, devidas unicamente Àquele que lhes deu o dom da vida, recebendo para si a energia acumulada pelos atos da humanidade, com o único fim de perpetuar-se como senhor dos homens para sempre e levar sua rebelião cósmica às últimas consequencias. 


Pense no filme Matrix e naqueles "campos" de seres humanos sendo "cultivados" pelas máquinas, confinados como gado, em sono letárgico e mortal, para gerar a energia necessária para a manutenção daquele sistema. Isso é demasiado fantástico? Mais fantástico do que a própria vida em si? 


Pense em Hitler e no nazismo como uma central de energia, cujas engrenagens, representadas pela suástica, símbolo de movimento, dinamismo, de transformação constante das energias da natureza, mas pervertida por Hitler para que apontasse um outro sentido, são postas em movimento por homens gananciosos e pervertidos que invocam forças e entidades que agem sobre o telurismo terrestre; Pense no tratamento dispensado aos judeus, em como foram sistematicamente humilhados e despojados de sua dignidade humana - não me parece que  o problema era simplesmente exterminar os judeus, pois havia balas suficientes para todos, mas o quanto se poderia tirar proveito de uma situação que envolve o terror psicológico sobre toda uma raça ou etnia, embebendo-se a terra com seu sangue e a atmosfera com seu medo. Aqui devemos tomar emprestado o conceito de Noosfera, introduzido por Teillhard de Chardin para designar a dimensão na qual opera  a totalidade do pensamento humano, o qual produz efeitos marcantes no indivíduo, para sua evolução como ser humano ou para sua deterioração psicológica. Esse conceito pode ser relacionado de várias formas àquilo que Jung chamava de "Inconsciente Coletivo". A própria cruz suástica é um exemplo interessante, pois é um simbolo que remonta à maior antiguidade humana e surgiu simultaneamente em diversas culturas espalhadas pelo globo, dos índios hopis e aztecas americanos até remotas tribos do leste chinês. Só não foi encontrado entre as tribos derivadas do tronco semítico abrâmico. Como resolver esse impasse sem um pontapé inicial comum entre todas as culturas?




Embora Chardin pareça usar o termo somente com uma ênfase positiva na "curva" evolutiva do pensamento humano, não me parece ser demonstrável que a psiqué de nossa raça esteja apresentando uma ascensão em termos de consciência coletiva, espiritual ou social. Segundo Jung, o IC atua da seguinte forma: "O inconsciente coletivo compreende toda a vida psíquica dos antepassados desde seus primórdios. É o pressuposto e a matriz de todos os fatos psíquicos e por isso exerce também uma influência que compromete altamente a liberdade da consciência, visto que tende constantemente a recolocar todos os processos conscientes em seus antigos trilhos."


Nosso IC foi "carregado" com uma boa carga da psiqué desse ser "rebelde" e, assim, reproduzimos esse tipo de comportamento recorrente e doentio através da História. Desse modo, nossa Noosfera, cheia de todo tipo de sexismo, belicismo, violência e corrupção não podem funcionar para a evolução do Espírito, ou em direção ao Pleroma em Cristo definido por Chardin, mas, sim , para sua antítese, a Entropia. Quanto mais "adoração" prestamos a ele, quanto mais energia negativa polui a esfera da psiqué humana, através de uma vida medíocre, mundana e desplugada do canal da Vida Verdadeira em Cristo, mais forte seu sistema fica e o Kosmos é inundado de mais e mais ganancia, orgulho e luxúria, os motores que movem as guerras, corrupção e sexismo que ditam as regras no planeta. Resumindo, vemos à luz do dia a multiplicação da iniquidade prevista por JESUS (Mateus 24.12) como sinal de que as coisas iam começar a ficar feias mesmo.


Ao tratarmos das relações e implicações dessas coisas, pelo que podemos conferir das opiniões das pessoas sobre grandes tragédias como o terremoto no Haiti, o Tsunami na Indonésia e mesmo o ataque às Torres Gêmeas, vejo os "cristãos polarizados em blocos distintos. Há aqueles que desejam ver o circo pegar fogo mesmo, os cruzados de que falei anteriormente, para quem toda desgraça entre "infiéis" é pouca. São os discípulos do profeta Jonas, que melindrou ao perceber que DEUS não queria destruir os ninivitas, mas salva-los por Amor a eles. De outro lado, vemos os adeptos do deus ripongo "Paz e Amor", que não conseguem ver relação alguma entre as catástrofes e tragédias que nos abatem e o agir de DEUS, e que devem ter rasgado, por isso mesmo, de suas Bíblias toda referencia a um DEUS que tem o direito de intervir sobre o pecado e fazer cessar seus efeitos, como o fez na época do dilúvio, em Sodoma e Gomorra e nas derrocadas de Jerusalém, antes e depois de Cristo. Falta equilíbrio, falta contexto, falta uma visão holística do agir de DEUS a ambos os lados.


Em Lucas 13, vemos uma passagem emblemática na qual o SENHOR JESUS trata desse problema:
1  E, naquele mesmo tempo, estavam presentes ali alguns que lhe falavam dos galileus cujo sangue Pilatos misturara com os seus sacrifícios.
2  E, respondendo Jesus, disse-lhes: Cuidais vós que esses galileus foram mais pecadores do que todos os galileus, por terem padecido tais coisas?
3  Não, vos digo; antes, se vos não arrependerdes, todos de igual modo perecereis.
4  E aqueles dezoito sobre os quais caiu a torre de Siloé e os matou, cuidais que foram mais culpados {ou devedores} do que todos quantos homens habitam em Jerusalém?
5  Não, vos digo; antes, se vos não arrependerdes, todos de igual modo perecereis.

Duas coisas se depreendem do texto: 1º - que aquelas pessoas mencionadas tanto pelos judeus quanto por JESUS não eram mais pecadoras que todas as outras por terem sofrido uma morte trágica; 2º - não obstante tal fato, JESUS não deixa de relacionar suas fatídicas mortes com a necessidade geral de arrependimento de toda nação judaica para que não viessem a sofrer morte semelhante posteriormente, o que de fato se confirmou anos mais tarde no morticínio causado na resistencia ao cerco de Jerusalem pelas tropas romanas de Tito e  derrocada final dos judeus e sua dispersão por todo mundo. Será que JESUS aponta para a possibilidade de que o arrependimento dos judeus como povo afastaria deles a espada retaliadora dos romanos? É uma probabilidade interessante.

Li certa vez uma charge do personagem
Fradim do glorioso e finado Henfil, na qual Deus punia o pervertido de batina por algum dito pecaminoso enviando-lhe um raio a lhe queimar o traseiro. Em seguida, o incorregível pecador, pensa algo ainda mais indecoroso contra Deus e outro raio sai dos céus para fumina-lo. Por fim, o sapecado e estrupiado monge, aparece não completamente arrependido, mas pelo menos nenhuma fala ou pensamento rebelde lhe escapam dos lábios ou da mente, mas eis que, repentinamente, dos céus cai sobre ele um último e fulminante raio divino que o faz reclamar veementemente contra a divindade: "Pô, Deus!Dessa vez não fiz nada!" Lá do alto, o divinal responde meio sem graça: "Hehe...Esqueci o castigador divino no automático!"

As nossas idéias sobre o Deus judaico-cristão não são mais elevadas do que aquelas idéias gregas sobre os deuses do Olimpo e suas picuinhas com os mortais. Zeus e sua turma viviam "zoando" os humanos e pregando-lhes peças horrorosas. Entendo que isso revela o tipo de Deus que conhecemos e o tipo de relacionamento desequilibrado que tentamos estabelecer com ele.

Entendo que JESUS veio nos apresentar o seu DEUS, seu Pai, como uma realidade trascendente muito além da nossa capacidade atual de entendimento, mas que através Dele poderíamos conhecer que essa Realidade Última é Amor em atividade e que nos deseja de modo pessoal. Seu Pai mantém todas as coisas com seu Poder e tudo acontece por sua permissão ou não, como afirmou o próprio JESUS. O Alfa/Ômega, o Um da Criação é a vontade manifesta desse ser Infinito entre nós, é o seu plano e seu propósito para toda a Criação, é o princípio ontológico que determina o princípio antrópico do Universo, o Cristo Evolutor que guia a humanidade ao próximo passo. O Verbo como agente da vontade expressa de DEUS, de reunir, congrega para si todas as coisas, num princípio unificador de  todas as leis, atuou e atua na História, basicamente nos seres que se preocuparam em dignificar o ser humano aproximando-o mais da sua Matriz Divina, daquilo que foi projetado para ser, e se manifestou de diversas formas, em diversas culturas, produzindo escolas de pensamento e artes elevadas, como a poesia, a filosofia, a meditação e a metafísica e, por fim, se manifestou em carne para sua completa identificação com aqueles a quem foi ordenado criar e salvar. Essa é a perfeita e expressa vontade do ETERNO SER INFINITO, o que quer que isso queira dizer.

Por outro lado, temos a vontade permissiva desse ser, como expressou JESUS quando disse que nenhuma folha de uma árvore cai sem sua permissão. Ora, sabemos que DEUS não precisa exercer sua vontade constantemente sobre isso como sobre o curso dos rios, o regime das águas o oceano, o curso dos ventos, a mudança das estações, pois para isso estabeleceu leis fixas no Universo, o que é chamado em ciência de Sintonia Fina, o que permite que as coisas sejam ordenadas a fim de possibilitar a vida como a conhecemos. Dentro desse quadro, a organização dada por DEUS às coisas permite a ocorrencia natural de outras, como a possibilidade do Mal dentro do livre arbítrio, tanto de seres de outra dimensão, como anjos, quanto dos seres humanos.

Como podemos observar através das Sintonia Fina encontrada no mundo preparado para desenvolver a vida biológica e equipa-la e defende-la para sua evolução, essas leis são benéficas e boas, geralmente, produzindo e reproduzindo  vida de modo seguro, numa certa relação harmoniosa com um certo grau de Caos, ou Entropia, ou troca com o meio, que asseguram o equilíbrio natural do planeta. São as leis naturais de sobrevivência dos mais aptos que, segundo aquilo que creio como um processo dirigido desde o início e por tudo que se possa estudar sobre Biologia e Cosmologia hoje, não pode ser um processo aleatório  ou cego, mas um processo que se iniciou com Causa e fim bem específicos. Se trocarmos em miúdos, porém, podemos dizer que as leis estabelecidas por DEUS e guiados por Ele para proteger a vida mais elevada que Ele criou, funcionam como uma barreira contra o caos, contra o poder de destruição, desordem e desagregação da matéria no Universo, algo que os cientistas hoje sabem, através da Física Quântica, que seria muito mais natural que a ordem que vemos em todo lugar.

O que vemos, porém, na sociedade atual, em consonância com as Escrituras, é que estamos caminhando passo a passo rumo a um processo entrópico cada vez mais severo, fruto do distanciamento do homem da vontade expressa de DEUS, para longe do sagrado, para longe da Luz e cada vez mais para dentro do ego, onde jaz o verdadeiro vazio, ou vácuo, treva. Esse processo é chamado nas Escrituras de
apostasia, ou abandono, esvaziamento. Isso não quer dizer que a religião vai acabar, mas que vai se tornar cada vez mais produto do engano psicológico das massas, um arremedo do que é puro e verdadeiro. Pior que isso: as profecias apontam para um aumento exponencial nesse meio de atividades paranormais como fruto da abertura dos devidos canais da consciencia humana para a atuação de seres inorgânicos de outra dimensão, ou seja, engano psicológico aliado a  atividade demoníaca. JESUS disse que tal tempo viria com poder (dunamis) para enganar e fazer os mesmos prodígios  que ele fez.

Lado a lado com isso, vemos que JESUS diz abertamente que os sinais se dariam como as primeiras dores daquela que está para dar a luz. Os sinais são sociais (guerra, fome, desamor,violência, engano) e naturais (terremotos, maremotos, sinais nos céus, o que talvez indique corpos como cometas ou meteoritos) como descritos nos três Evangelhos sinóticos quase da mesma forma. Se aliarmos isso ao que lemos em Apocalipse, temos um quadro alarmante de que o homem será afetado principalmente em sua relação com seu habitat natural. Vemos ali grandíssimos terremotos, colapso das fontes de águas, queimaduras provocadas pelo sol, grande mortandade da vida marinha, pestes fora de controle, etc. Um impressionante oráculo chama a atenção por sua atualidade no cap.
11.18 :
  
"Na verdade, as nações se enfureceram; chegou, porém, a tua ira, e o tempo determinado para serem julgados os mortos, para se dar o galardão aos teus servos, os profetas, aos santos e aos que temem o teu nome, tanto aos pequenos como aos grandes, e para destruíres os que destroem a terra."

Nunca antes, em toda história da humanidade, tivemos um único povo sequer que pudesse ser acusado como nós pelo potencial em destruir toda a vida sobre a Terra mas só agora em nossos dias e com nossa tecnologia. Perceba que não estou enfatizando tanto o juízo de DEUS sobre os pecadores, mas salientando que o produto do afastamento do homem de suas possibilidades espirituais e da sua capacidade de se "autogovernar" para o Bem usando de suas faculdades é a suspensão natural e gradativa das barreiras de proteção da vida na Terra estabelecidas por DEUS. É uma escolha humana que fazemos dia a dia ao permanecermos como escravos de Faraó, carregando as pedras da pirâmide dessa civilização. Nos abrimos para atividades cada vez mais destrutivas e somos alimentados pela psiqué do destruidor de mundos e devorador de almas, que suga tudo ao redor para si mesmo como um buraco negro.


O livro de Apocalipse descreve  um mundo absorvido pelo Mal, imerso em sua escolha de descaminho, e explorando até as últimas consequencias as possibilidades escondidas do homem e sua vocação para ser um "elohym", umdeus, mas sem o DEUS Verdadeiro doador da Vida. É o 666, o homem elevado a sua máxima potência, ou potencial. Muito ainda deve acontecer até que DEUS não tenha outra opção senão nos parar e castigar. Até lá, o cristianismo institucional terá se tornado completamente inócuo e idiotizado. As promessas da Segunda Vinda estarão praticamente esquecidas como descrito em II Pedro 3.4 . Ser um cristão verdadeiro, um seguidor do Caminho, será uma prerrogativa de poucos, os 144 mil descritos em Apocalipse 14. Simbólico ou não, esse número sugere um número restrito de crentes fiéis a fazer frente a um sistema que a essa altura terá encarnado e manifestado todo seu poder demoníaco. Aí então, e só então, antes que a Entropia se complete totalmente, as taças da ira começarão a ser derramadas para purgar a Terra da presença do Mal no ser humano.
"Não tivessem aqueles dias sido abreviados, ninguém seria salvo; mas, por causa dos escolhidos, tais dias serão abreviados." - Mateus 24.22

 Eu penso no Tempo como um funil do qual estamos chegando ao fim do cone. Ali, as coisas giram num círculo mais curto e, aparentemente, mais apressado. Dependendo do que há no fim desse cone, um filtro, por exemplo, nem tudo que se encontra nele passará para o outro lado. JESUS disse que é a porta em João 10, a porta estreita para onde tudo dentro desse Tempo-Espaço converge naturalmente. Ele é o filtro que garante que nem tudo passará dessa ordem de coisas para a outra. O que restar no cone é dejeto e não tem proveito nem parte na substancia refinada que passou para o outro lado.

Estamos num mundo onde há a possibilidade tanto do Mal e do Bem. Podemos sofrer mas podemos escolher entre os dois sempre. Não somos matéria biológica promovida a intelecto racional pelo acaso. Temos uma alta origem e um alto propósito a cumprir. Nossa condição atual não revela o potencial escondido em nosso espírito. JESUS o revelou para nós. Para isso se manifestou, para nos salvar de um sistema que nos escravizou e que quer nos levar ao fim. Ele fez e fará tudo por nós. Ele prometeu que tudo isso durará um período de tempo, que pode ser medido, que tem duração determinada, e que trará a Justiça no tempo determinado pelo Pai Celestial para limpar as lágrimas de todos os que sofreram injustamente. Eu creio que Ele é capaz de cumprir isso e confio Nele procurando viver através de seus valores e buscando sair cada vez mais do "mundo" que jaz no maligno.

Essa é a visão que tenho de Cristo e do Caminho, não um sistema fechado de crenças, mas aquilo que acho que é o rumo para o qual seu Espírito nos guiará agora em diante, o da
Grande Síntese no qual Cristo é o centro de todas as coisas, a plenitude de todo o conhecimento que nos guiará para fora do babilonismo, aquilo que creio que é o ensino apostólico em si, como vejo ao ler as cartas de Paulo. Talvez alguns achem que soa meio místico, esotérico demais, mas a Ortodoxia do Credo apostólico foi mantida aqui e desafio quem queira demonstrar o contrário. Somente fiz uso de terminologias pouco assimiladas no meio, as quais podem causar espanto nos desavisados. Mas é chegada a hora em que devemos ser ousados novamente e bradar que a Verdde sustentada por JESUS diante de Pilatos, governante representante do sistema chamado "mundo", que não a conhece, não está datada nem ultrapassada, nem pode ser conspurcada pelas mentes e ações do homem caído, mas prossegue para realizar o intento daquele que a formou antes mesmo do Tempo. Prossigamos então, rumo ao INFINITO, e para além do cristianismo vigente.

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