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ENSINO EVANGÉLICO = LAVAGEM CEREBRAL?

"O clero protestante resgatou a Bíblia da escuridão e da poeira das bibliotecas
papais e a espalhou por toda a terra. Elevou-a ao mais alto grau de respeito e
estima humana. A tem estudado, comentado, explicado, a ponto de remoer cada
palavra, frase e expressão, tanto no original como nas traduções, possibilitando
todo tipo de interpretação. O resultado é que o Cristianismo está sufocado pela
teologia e pela crítica: As verdades de revelação transformam-se em arame farpado
— estirado, enrolado, alinhado e retorcido para produzir todo tipo de desenho
imaginário e fantástico que a ilusão ou a lógica humana pode conceber. O sistema
de Divindade técnica resultante chega a rivalizar com a complexa maquinaria da
igreja romana."
-Steven Colwell


Disse no post anterior que há algo errado com o modo como as pessoas são ensinadas  a crer num corpo de doutrinas diferente do outro em cada organização eclesiastica evangélica da atualidade, o que os faz estranhamente diferentes e beligerantes entre si, apesar das semelhanças óbvias.  Gostaria de continuar abordando essa temática e mergulhar mais profundamente nas águas escuras do que se tornou o ensino do cristianismo nas organizações que propagam ser as portadoras da interpretação correta da Bíblia, sua "única regra de fé".
Não são poucos hoje em dia os estudiosos do cristianismo que apontam  o quanto nos desviamos do Caminho original traçado pelos apóstolos. Emil Bruner, A.W. Tozer, Christian Schwarz,  George Barna, Dallas Willard são alguns nomes que tem mostrado através dos anos que um estudo apurado das raízes  do cristianismo nos mostra que algo deve ser resgatado, porque algo foi perdido, logicamente. Autores como Philip Yancey, Larry Crabb, Brennan Mannning e Frank Viola tem mostrado uma sede por (re)descobrir como a nossa Fé foi cunhada para ser universal, não um subproduto cultural. Homens com chamado para pastorear como Eugene Peterson, Caio Fábio e Ricardo Gondim se colocam a frente para receber as pedradas por se  tornarem algumas das principais vozes a se levantar contra o esvaziamento do verdadeiro caráter do Evangelho.


“Os pastores estão abandonando seus postos, se desviando para a direita e a esquerda, com freqüência alarmante. Isso não quer dizer que estejam deixando a Igreja e sendo contratados por alguma empresa. As congregações ainda pagam seus salários, o nome deles ainda consta no boletim dominical e continuam a subir ao púlpito domingo após domingo. O que estão abandonando é o posto, o chamado. Prostituíram-se após outros deuses. Aquilo que fazem e alegam ser ministério pastoral não tem a menor relação com as atitudes dos pastores que fizeram a história nos últimos vinte séculos.” Eugene PETERSON, – Um pastor segundo o coração de Deus. 1ª. Edição, Rio de Janeiro: Textus, 2000. Pág. 1

"Cansei! Entendo que o mundo evangélico não admite que um pastor confesse o seu cansaço...Canso com o discurso repetitivo e absurdo dos que mercadejam a Palavra de Deus. Já não agüento mais que se usem versículos tirados do Antigo Testamento e que se aplicavam a Israel para vender ilusões aos que lotam as igrejas em busca de alívio. Essa possibilidade mágica de reverter uma realidade cruel me deixa arrasado porque sei que é uma propaganda enganosa. Causa tédio tomar conhecimento das infinitas campanhas e correntes de oração; todas visando exclusivamente encher os seus templos. Considero os amuletos evangélicos horríveis. Cansei de ter de explicar que há uma diferença brutal entre a fé bíblica e as crendices supersticiosas...Canso com a repetição enfadonha das teologias sem criatividade nem riqueza poética. Sinto pena dos teólogos que se contentam em reproduzir o que outros escreveram há séculos. Presos às molduras de suas escolas teológicas, não conseguem admitir que haja outros ângulos de leitura das Escrituras. Convivem com uma teologia pronta. Não enxergam sua pobreza porque acreditam que basta aprofundarem um conhecimento “científico” da Bíblia e desvendarão os mistérios de Deus. A aridez fundamentalista exaure as minhas forças." - Ricardo Gondim em texto publicado no site da Ultimato

Postei também uma importante pregação do pastor Ed René Kivitz em audio, na qual ele compara o sistema atual com o mercado dos produtores de ídolos de Éfeso. Não deixe de ouvir. 

A minha pergunta é: Onde isso vai nos levar? Essa indignação toda não pode ficar apenas na verborragia, mas deve ser canalizada na direção para a qual está apontando, no caso as estruturas que fizeram tão mal ao Caminho. De que adianta apenas constatar o erro e não tomar uma  decisão radical para desviar-se dele? Quando tomamos uma decisão por JESUS em nossas vidas, decisão que muda completamente o centro do viver, não o fazemos porque tomamos, enfim, conhecimento do rumo que nos levava ao lado errado? Porque deveria ser diferente quando constatamos que o rumo das instituições aponta para um desvio que tem criado um vácuo que dificilmente será preenchido se não repudiarmos tudo o que ele significa. 


O FERMENTO  DOS FARISEUS E SADUCEUS
Não é de hoje que se busca soluções. Lutero dizia que deveria haver "uma terceira ordem de culto" verdadeiramente "evangélica" e não realizada publicamente, mas somente para os "inscritos", onde se poderia dedicar a edificação espiritual mútua e "realizar outras obras cristãs" (Wolfgang Simson - "Casas que transformam o mundo"). Esses encontros não deveriam acontecer no espaço do templo, mas nas casas dos membros. Howard Snyder, outro pesquisador da história da igreja, aponta em "O Wesley Radical", título inédito por aqui, que o reformador britânico inovou no conceito das chamadas "classes", que não foi outra coisa senão o retorno ao ideal da igreja nos lares, onde as pessoas tinham mais liberdade para ser elas mesmas. Essas iniciativas foram importantes, mas se perderam e foram absorvidas pelas instituições, porque o pensamento do homem é que a sua segurança depende da criação de instituições fortes e centralizadas para governar tudo. 


Nenhuma iniciativa dessa ordem terá êxito se não levar a um rompimento, ainda que gradual, mas inexorável, com um modelo de ensino herdado do romanismo que limita e infantiliza o entendimento do alcance para o qual a Eclesia foi plenejada. Não basta, entretanto, transferir a igreja para sua casa e dizer não a essa ou aquela prática e se transformar no ditador de um pequeno grupo. É preciso conhecer antes o inimigo e seu potencial de penetração e contaminação no organismo chamado Corpo e, assim, anular sua virulência. O conselho de JESUS para seus discipulos antes mesmo da fundação da Igreja foi para que se acautelassem do "fermento dos fariseus e saduceus", e isso Ele disse com gravidade. Como o evitariam se não soubessem do que se trata?


Tal elemento inútil e nocivo à semente do Reino de DEUS inocula no indivíduo um padrão de pensamento, como se fosse um "programinha", um vírus, um "trojan horse", que se instala com o objetivo de institucionalizar a fé e os indivíduos, catalogando-os e dividindo-os de acordo com as doutrinas ensinadas para melhor monopolizar sua atenção, e emparedando o sentido da fé em padrões de comportamentos estereotipados. Ou seja, JESUS veio para produzir um povo diferente, um povo livre de uma determinada cultura, expressa na forma de tradições religiosas ou herdadas dos pais. O povo de JESUS não deveria produzir cultura própria, mas se espalhar através das culturas dos povos e ensina-los a viver corretamente. Esse é o caráter universal do cristianismo. O povo de JESUS deveria estar pronto para diferenciar cultura de Reino. 


Que tipo de discípulo um fariseu produziria? Não seria um modelo de judeu cultural como ele? Qual foi a luta dos apóstolos contra os judaizantes no primeiro encontro apostólico? Não foi para separar cultura de Reino de DEUS? Os apóstolos tiveram que ser confrontados com isso, principalmente Pedro, que foi avisado em visão de que não deveria tornar impuro aos seus olhos aquilo que DEUS santificou pelo sacrifício de JESUS, ou seja, os gentios das nações. O encontro de Atos 15 definiu que os evangelistas não deveriam tornar os gentios num simulacro de cultura judaica. 


O "fermento dos fariseus" com toda sua peçonha, continua entre nós. Ele visa a institucionalização da fé das pessoas, emparedando-as, catalogando-as, dividindo-as de acordo com doutrinas e visões particulares e produzindo tipos estereotipados em culturas próprias. Ser um "cristão evangélico" hoje é fazer parte de uma cultura que tem quase tudo em comum com o que vemos no mundo, apenas o discurso se reveste de um tom cheio de piedade e moral, mas não se consegue mais esconder o cheiro de ossos podres por detrás das paredes caiadas. Temos pessoas que amam os primeiros lugares e o aparecer em público cercado de pompas e circunstancias, temos "homens de DEUS" que amam os títulos, temos seitas e subseitas que lutam pelo poder e entre si pela proeminência aos olhos do mundo e temos cegos sendo conduzidos por cegos rumo ao precipício.


Identificar e anular tal "programa" exige entender e estar apto a discernir o que JESUS queria implantar em seus discípulos. Em João capítulo1, 38 e 39, vemos como se iniciou a igreja: "E Jesus, voltando-se e vendo que o seguiam, disse-lhes: Que buscais? Disseram-lhe: Rabi (que quer dizer Mestre), onde moras?  Respondeu-lhes: Vinde e vede. Foram, pois, e viram onde Jesus estava morando; e ficaram com ele aquele dia, sendo mais ou menos a hora décima". A base da qual JESUS parte é RELACIONAMENTO PESSOAL E NÃO DOUTRINAL. E segue descrevendo por todo Evangelho que o Reino de DEUS tem valores completamente opostos aos do mundo. Se as insituições que pregam ser portadoras da verdade cristã são tão parecidas em sua concepção e disposição àquelas que espalham cultura massificada, não seria este um sintoma de que não estamos plantando a semente original? 


Segue-se que o ensinamento de JESUS é diametralmente oposto ao do ensino farisaico porque JESUS instituiu uma ESCOLA DE VIDA, na qual se aprende vivendo o dia-a-dia, colocando em prática os ensinamentos dentro do círculo íntimo do discipulado e preparando seus alunos para enfrentar o mundo lá fora numa perspectiva universal, não diminuída por uma visão tacanha de doutrinas e instituições dominadas por egos gigantescos. Na Escola de Vida de JESUS, os egos e suas opiniões e pressupostos foram vencidos e submetidos ao chamado maior de servirmos uns aos outros, sem demagogia ou hipocrisia. 


A escola farisaica é, em sua essencia, uma escola de pensamento, de racionalização e verbalização de doutrinas. É individualista e pautada pela opinião pessoal e partidarismos. Pode-se crescer nesse caminho individualmente sem precisar esperar por outros. Tudo depende do empenho e da atuação do prosélito. Nesse sentido, a escola farisaica é semelhante ao método grego. Os gregos, não obstante sua importancia histórica no processo de evolução do pensamento filosófico, estavam divididos entre si em tantas escolas de pensamento filosófico diferentes, embora semelhantes entre si, que não seria difícil ver em Atenas acaloradas discussões entre estóicos, epicureus, cínicos e outras escolas socráticas se tornarem verdadeiros embates físicos. Paulo em Corinto, enfrentou esse tipo de pensamento grego, pois a comunidade, bem ao gosto do que se via entre eles, dividiu-se em partidos antagônicos que disputavam entre si, como se fazia nas praças (as ágoras),  pela atenção da gentes. Diziam-se partidários do pensamento "cefaico", outros da escola "apolônica" e outros, pretensamente mais "humildes", da escola "crística". Vejam o absurdo que se chega ao reproduzir, mesmo inconscientemente, os padrões do mundo dentro da igreja.


Para que algo mude, é preciso romper a tradição que nos diz que um verdadeiro discipulo de Cristo se faz com informação teológica e ativismo eclesiastico. É preciso romper com o fermento de Agostinho e  de Tomás de Aquino e de Lutero e também de Calvino, pois todos, recaíram no mesmo lugar: a necessidade de controlar e erigir verticalmente e não horizontalmente.


DEUS EM AÇÃO = ADEUS RELIGIÃO


O erro mais comum que tenho visto é considerar que podemos reproduzir os resultados de Atos dos Apóstolos passando informação adiante ou tomando medidas práticas para tornar a "igreja" mais dinãmica e vibrante. Deveria parecer óbvio mas nem os Evangelhos, nem o livro de Atos e muito menos as cartas de Paulo podem ser tratadas como um manual prático de construção de barcos e é isso que o "cristianismo" tem feito ao longo de todos esses anos.


É impressionante constatar como em cada movimento genuíno de reavivamento espiritual que se pode encontrar na História, o próprio DEUS se encarregou de anular o princípio sistêmico eclesial para fazer irromper uma sede e uma busca por algo que tais pessoas apenas suspeitavam.


Com efeito, historicamente, em NENHUM avivamento de que se tem notícia, podemos detectar a presença ou ação de alguma denominação ou ação humana organizada em específico. Seja no no avivamento morávio, seja nas Hébridas, no caso dos Irmãos Unidos de Plymouth, seja no País de Gales, na China pré-comunista, seja na rua Azuza, não se pode constatar outra coisa senão indignação e descontentamento com o estado em que as igrejas haviam caído. Tal fato levou essas pessoas a buscarem em DEUS uma solução livre de opiniões pessoais e pressupostos doutrinarios, o que os levou de volta a simplicidade de Cristo e à quebra de tradições religiosas arraigadas. É interessante o que o escritor americano Bob Munford diz em "Reinando em Vida": "Para se fazer uma igreja do Novo Testamento, é necessário antes PESSOAS do Novo Testamento"

Essa ruptura traz sempre novos paradigmas, ou antes, traz um retorno aos princípios primitivos da Igreja, sem institucionalismos mas com uma ênfase no relacionamento com DEUS e uns para com os outros. Quando isso é fomentado e protegido acima dos interesses e opiniões pessoais e pressupostos doutrinarios, a Presença e direção do Ressucitado são mantidas por mais tempo. Veja o caso do avivamento moravio, que começou em 1727, e continuando como um movimento não doutrinário, mas de simples comunhão e de busca da face do SENHOR, durou mais de cem anos. Já no caso dos irmãos unidos deu-se o contrário. Um início promissor e de bons resultados em reunir cristãos insatisfeitos com os rumos de suas congregações acabou enrijecido por dentro por conta das divisões doutrinárias e das imposições que Darby queria impor aos demais. O movimento enfraqueceu rapidamente, embora tenha gerado campeões do espírito de George Miller. 


O avivamento da Azuza só foi enfraquecido quando o espírito humano desejou impôr limites ao Espírito de DEUS, introduzindo ali o fermento farisaico da religião. É uma historia fascinante que merece ser conhecida. Muitos paradigmas evangélicos tradicionais cairam ali. É triste constatar que o mover de DEUS foi podado por divisões racistas e o desejo de serem aceitos no meio evangélico tradicional dos EUA. 


Para rompermos algo hoje em dia, é preciso assumir o risco calculado de abandonar o terreno seguro. É preciso ser radical e cortar os laços com estuturas derivadas de pensamentos humanos. Acima de tudo, é preciso que não tenhamos pressa. Pressa de fazer e acontecer e de aparecer para o mundo. Pressa para crescer. Pressa para se um sucesso. Pressa para "causar", como se diz. 


Vejo muitos hoje em dia que admitem que o cristianismo está deturpado, mas poucos dispostos a pôr o dedo na ferida e dizer que não há reforma possível nisso aí que temos hoje. Só é possível repudia-lo e recomeçar sob outros termos. A maioria só está disposta a passar a mão na cabeça da besta. Poucos tem coragem de falar como Caio Fábio que repudia abertamente o chamado "cristianismo".


Imagino que no tempos idos, estar na "igreja" era ter tempo para se relacionar uns com os outros. Imagino que, no geral, as agendas das pessoas não espremiam seu tempo como hoje. Imagino que a "igreja" nao era conduzida por eventos ou pela necessidade de comprar isso ou aquilo, ou alugar um lugar maior para reuniões, nem por estratégias de markting para atrair novos convertidos.


Tempos complicados são esses, em que aceleramos tudo: aviões, carros, trens, conexões e até mesmo o modo como se faz um discípulo se tornar um verdadeiro homem de DEUS. DEUS continua não tendo pressa. Os moinhos de DEUS continuam a moer vagarosamente. Definitivamente, seus métodos não são os mesmos que os nossos. 



"Se o cristianismo rejuvenescesse, este rejuvenescimento teria que ser de alguma
maneira diferente do que ocorre agora. Se a Igreja na segunda metade deste século
[XX] pretende recuperar-se das feridas que sofreu durante a primeira metade, então
precisara de um novo tipo de pregador. O conveniente chefe de sinagoga nunca vai
funcionar. Nem o tipo sacerdotal que desempenha suas funções e recebe sua paga sem
outras preocupações, nem o tipo pastoral com sua ‘língua de ouro’ que sabe como fazer
para que o evangelho seja saboroso e aceitável a todos. Todos estes tipos foram
reprovados e nada resolveram. Outro tipo de líder religioso precisa surgir entre nós. Ele
precisa ser do tipo do antigo profeta, um homem que tem visões de Deus, um homem
que escuta a voz vinda do trono. Quando ele vir, (e eu oro, oh! Deus! Que não haja
apenas um, mas muitos), ele questionará tudo aquilo que nossa civilização considera
precioso. Ele colocará em dúvida, denunciará e protestará em nome de Deus e será alvo
do ódio e da oposição de grande parcela da Cristandade."
-A.W. Tozer




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