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O "Vazio" de Dawkins: Fé na Ciência

"Primeiro: Um dos grandes desafios para o intelecto humano através dos séculos, vem sendo explicar de onde vem a aparência complexa e improvável de design no Universo; Segundo: A tentação natural é atribuir a a aparência de design a um verdadeiro projeto; Terceiro: Essa tentação é falsa, porque a hipótese de que haja um projetista suscita imediatamente o problema maior sobre quem projetou o projetista; Quarto: A mais engenhosa e poderosa explanação descoberta até agora é a evolução darwiniana pela seleção natural; Quinto: Não temos ainda uma explanação equivalente na Física; Sexto: Não devemos perder a esperança de que surja tal explanação na Física, algo tão poderoso quanto o darwinismo é para a Biologia; Conclusão: Deus, quase com certeza, não existe."  - Deus, uma ilusão / Richard Dawkins/pags. 171/172

Essa argumentação foi descrita por Dawkins como "o argumento central" de seu best-seller mundialmente aclamado como o maior ataque já feito contra a idéia de Deus. 

Dawkins mostra que o intuito de seu tópico não é discutir se realmente algum dado da Ciência refuta a existência de DEUS ou o argumento do design, mas "armar" os ateus com argumentos retóricos para rechaçar uma visão de design do universo que nem ele mesmo consegue negar. De fato,  seu objetivo principal com esse livro é combater a religião com idéias, promovendo polaridades e desafiando os seus "discípulos" a "batalhar pela fé" que lhes foi entregue por Darwin. A falácia de Dawkins e outros como ele está em tentar provar, ou antes desacreditar, que a fé em um ser como Deus é algo irracional e primitivo, que pode perfeitamente ser refutado usando de um pouco mais de astúcia e sagacidade, e não tanto pela Ciência puramente.Volta e meia, Dawkins volta a esse argumento, como neste documentário exibido no GNT e disponível o You Tube: http://www.youtube.com/watch?v=wg9Dl3kwh6M

Obviamente, o objetivo é simples: encurralar a pessoa numa armadilha com aparência de lógica racional. Ao seguir o argumento nos vemos diante de um dilema sem saída:  Se tudo deve ter um início, o projetista também deve ter um outro projetista por trás de si, então, quem projetou o segundo projetista?E para além dele quem foi o responsável por projetar o antecessor dele? O recuo infinito da cadeia de causa e efeito parece determinar um ilogismo impossível de se solucionar e a "causa Deus" parece realmente com aquilo que os materialistas céticos afirmam: algo irracional. Veremos que se há uma lógica nessa afirmação ela se volta contra a própria Ciência. 

De modo geral, quem crê em DEUS não vê motivos para explicar quem o criou pois tudo que é criado deve ter sido criado, obrigatoriamente, em algum lugar e alguma época determinada.Esse princípio pode ser aplicado a tudo que conhecemos dentro do limite de nossa experiência, o que não se aplica ao caso DEUS.

Se DEUS é Eterno, isto é, transcendendo o espaço/tempo, sua existência está além da causação que observamos em nossa dimensão. Sua natureza se encontra além das nossas leis e, portanto, sequer podemos mensurar o que seja algo eterno em si mesmo.Até mesmo o conceito de eternidade para nós é estranho, pois só podemos pensar em termos de tempo/espaço, ou  seja, os efeitos de uma causa repetindo-se, em sequência e linearmente. "Então,sendo Deus incogniscível dessa forma, dirão os agnósticos, como pretendem dizer conhecer algo assim"? 

Ora, um ser dessa natureza, extradimensional, sobrenatural, só pode ser reconhecido pelos seres que habitam no universo criado por uma revelação própria de si mesmo (que é a causa do Teísmo cristão) ou ainda, numa proposta de Teologia Natural, pelas causas que causou dentro desse plano. Podemos dizer que as leis necessarias mas contingentes que descobrimos aqui, como a gravidade e o eletromagnetismo,etc, nos conduzem a pensar em Deus como uma Causa Descendente atuante para emprestar organização e ordem desde o nível subatomico ate´niveis astronomicos, através das constantes até hoje descobertas. Um "fator unificador" de tudo, a teoria final buscada por Einstein para explicar o funcionamento de todas as coisas, afinal, é desejado até mesmo na Ciência.

Mas não seria um ilogismo pensar que aquilo que governa e mantém nosso mundo natural não poderia se originar de uma fonte Sobre o natural, ou além do que é natural. As equações da mecânica quântica tem demonstrado que nossas leis são compatíveis com um Universo de cerca de dez dimensões, de modo que isso harmoniza-se às tradições místicas, espirituais e esotéricas que informam a existencia de diferentes "dominios" espirituais de "frequências" diferentes. Aquilo que é sobrenatural para nós, seria o natural em outra dimensão da qual não supomos as leis e assim sucessivamente até o limite para além do qual só existiria a Eternidade Absoluta. Como seres de um mundo bidimensional, horizontal, plano, pra usar um exemplo, compreenderiam o que se passa num mundo de leis tridimensionais?Pode parecer absurdo às mente céticas, mas esse tipo de metafísica me parece plenamente justificada a partir do instante em que físicos e astrônomos se aventuram em declarar a possibilidade de multiversos estarem ocorrendo em paralelo ao nosso. Essa é a parte filsófica e metafisica do materialismo científico, muito usada para propor modelos cosmológicos ateístas.

A questão formulada para uma "causa" para Deus, no final, volta-se contra quem a formulou em defesa da Ciência, pois ela mesma não prevê um recuo infinito das causas, pois isso seria ilógico. Dentro de nosso campo de cognição, formado através da percepção de eventos ocorrendo em sequência, tudo requer um início. Mas e se essa condição fosse anulada como, ou onde, ficariam as leis da Ciência que aqui se aplicam? Esse estado, segundo os dados levantados pela Ciência, é relativo àquele imediatamente anterior ao momento do BigBang e ao aparecimento de toda matéria, do tempo e do espaço, e foi chamado de "singularidade", onde t=0. Nesse estado "incriado" do Universo nossas leis atuais não valem nada.Nossa concepção de tempo e espaço não cabem nele. Os estudiosos acreditam que todo o Universo estaria contido numa única partícula de energia pura, mas, em nossas mentes, se tudo que existe deve existir em algum lugar, num espaço determinado, de onde essa particula emergiu e o que existia para além dela, ou ainda, ao redor dela? Se mencionarmos isso a um físico certamente ele dará de ombros e dirá que pensar nesses termos é irracional.

Por causa dessa questão espinhosa, diante da qual Stephen Hawking declarou ter "claras implicações religiosas" (citado em John Boslough "Stephen's  Hawking Universe", New York, 1985 - citação do livro "Quando a Ciência encontra a Religião" de Ian G. Barbour), alguns astronomos renomados como Fred Hoyle acharam melhor continuar trabalhando com uma concepção de um universo eterno, sem inicio ou fim, como os gregos acreditavam, apesar da contínua confirmação dos dados acerca do início de tudo. Outros preferem a noção de um modelo de universo com ciclos sucessivos de expansão e contração, mas estudos recentes apontam para uma situação diversa da esperada para que tal evento possa ocorrer.

Enfim, o que nos interessa realmente aqui, é saber que tudo o que a Ciência pode fazer ao tratar o assunto da singularidade é filosofar e propor modelos baseados em paradigmas, a maioria deles, é claro, excluindo a hipótese divina. Assim, t=0 é uma abstração tão grande para a ciência quanto questionar sobre a existência Deus, como qualquer pessoa faz, aliás.

Se a Ciência, basicamente materialista, pois não pode afirmar a existência de algo além daquilo que estuda,  se propõe a investigar um universo finito dentro da matéria mas ainda não tem todas as respostas para as coisas finitas que se originaram dela, porque o Teísmo, que propõe o infinito como origem e objetivo de tudo deveria ter uma resposta final e cabal para as questões que estão fora do limite da compreensão humana?

De fato, vemos que a melhor explicação para um fato não necessita obrigatoriamente ela mesma de uma explicação, como no caso do BigBang e suas causas imeditamente anteriores.Podemos, pelos efeitos dele, estudar uma gama de eventos fazendo perguntas do tipo "Como?" e analisando as evidências podemos chegar a conclusões interessantes e verdadeiras, como no cenário de um crime, por exemplo. Para além dos fatos concretos, porém, provado o quanto baste as alegações, resta sempre outra classe de perguntas a serem feitas e são as perguntas "Por que?". As perguntas "Por que?" são mais subjetivas e penetram no campo da motivaçao por trás do ato. Esse tipo de perguntas das duas classes, tem levado o ser humano tanto  conclusões reais quanto falsas. Realizadas, porém, com lógica e raciocínio, mediante a observação e provas, tem levado o homem a descobrir as leis restritivas da natureza, ao mesmo tempo, que não necessariamente nos faz abandonar a noção dos antigos de que há um projeto inteligente, uma mente, por trás de tudo. Como disse Ian G. Barbour , físico e teólogo do Carleton College, na obra já citada, "O Teísmo não é intrinsecamente conflitante com a Ciência, mas sim, com a metafísica do materialismo".


Concluindo, Dawkins ainda revela outro fundamento essencial do seu naturalismo empedernido quando diz "Não devemos perder a esperança de que surja tal explanação na Física, algo tão poderoso quanto o darwinismo é para a Biologia" (Vejam, a ironia: Dawkins acha que a Física precisa de algo como a Teoria de Darwin para ser mais objetiva, pois em sua área, a biologia, está tudo resolvido: Deus já não incomoda; Logo, a Física que tem presenteado a humanidade com descobertas e ferramentas tão objetivas está capenga, segundo Dawkins por não conseguir refutar a tese de um projetista...). Em outras palavras, o seguidor do positivismo lógico, uma crença do séc. XIX, proposto por Dawkins, Dennet e Hitchens, seus maiores sacerdotes hoje, deve ter Fé na Ciência, fé na suposiçao de que, se ela ainda não tem o poder para explicar tudo, devem confiar de que logo isso mudará.

Descobrimos aqui que Dawkins deseja acabar com as religiões somente porque acha ter descoberto a substituta ideal para ela. Uma religião positiva, natural e militante que crê no poder explicatório de seus sacerdotes inerrantes e de seu principal profeta. Já tem até mesmo seu próprio livro sagrado, A Origem das Espécies, de Darwin.

Enfim, ter fé na Ciencia é melhor que fé em Deus, segundo Dawkins. Não importa que o registro fóssil não colabore e faça ruir a tal árvore da vida ensinada nas escolas, não importa se as descobertas da informação codificada no DNA desminta o acúmulo de informações necessárias para a evolução como propuseram o s neodarwinistas, não importa não importa se a extinções em massa de períodos como o Permo-Triásssico cloque em cheque os modelos de uma evolução lenta, mas gradual e constante, não importa se as chances matemáticas a favor do surgimento da vida a partir de matéria inanimada sejam praticamente nulas, não importa se as leis do universo estejam suspensas sobre um fio de navalha que permite existir ordem, beleza e organização crescente para comportar vida e consciência, etc, etc, etc.

Conclusão: Dawkins e sua turma de fundamentalistas da Ciência são apenas o outro lado da mesma moeda onde vemos os fundamentalistas religiosos que eles tanto criticam por querer impor suas verdades ao mundo de modo unilateral, visto que sua alegação final do argumento "Conclusão: Deus, quase com certeza, não existe." vem de lugar nenhum e está baseada num vazio e apoiada sobre nada de consistente em toda sua argumentação.

"As chances contrárias ao surgimento de um Universo como o nosso a partir de algo como o BigBang são enormes. Acho que existem claras implicações religiosas." - Stephen Hawking

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