27 agosto 2010

Como vivemos o "Mito" de Cristo no Ocidente

MITO E CRISTIANISMO - O que é um mito? Por definição, mito é uma narrativa de fatos ocorridos em tempos remotos, os quais não podem ser comprovados mas que transmitem certos valores e conceitos éticos e culturais às comunidades que os adotaram. Vinda do grego mithos, a palavra veio a ser sinônimo de fábula, um conto fantástico que não guarda quase nenhuma relação com a realidade, a não ser "a moral da história". Os mitos antigos que formaram a base das religiões dos povos, a Mitologia que retrata o panteão dos deuses do paganismo da Antiguidade como conhecemos, eram descrições incríveis de acontecimentos que não podiam ser provados. É quase certo que fossem representações muito antigas já naquelas épocas de "verdades" de fundo psicológico colhidos em estados alterados da consciência através da imersão em transe no mundo dos sonhos dos xamãs do Paleolítico. Nessas culturas, a realidade cotidiana e a "realidade" do mundo "espiritual" dos sonhos e transes mediunicos são paralelas e o objetivo ao entrar nesse terreno é justamente obter "ferramentas" espirituais e psicológicas para enfrentar a dura realidade da vida. A realidade era um conceito mais abrangente que poderia englobar outra descrição do mundo e ser explicada por outros acontecimentos que não os da vida diária. Nas culturas tribais, antes do advento das grandes cidades, era obrigação de cada homem penetrar naquele mundo crepuscular e encontrar ali seu verdadeiro eu, o que o tornaria um guerreiro e um homem melhor para seu povo, um homem por inteiro.

Com o passar dos tempos, o homem, cada vez mais civilizado, deixando de lado o "primitivismo" que o caracterizou após o dilúvio universal, deixou de interiorizar esses arquétipos e passou a emprestar-lhes uma existência no mundo exterior, onde ele mesmo vivia a totalidade de sua existência, longe das sombras do mundo dos sonhos, território restrito agora a iluminados e iniciados nos mistérios. Passou a ser, com isso, politeísta e não animista e, portanto, ainda mais supersticioso, vendo "deuses" a serem propiciados aqui e ali e mais suscetível ao controle da casta sacerdotal que monopolizou o acesso a divindade. Os "mitos' de seres fantásticos que povoavam reinos de sonhos e que poderiam dar presentes e dádivas maravilhosas aos homens corajosos que adentrassem seus domínios e enfrentassem seus perigos pelo bem da comunidade, foram substituídos pelas histórias de deuses e deusas poderosos que controlavam o destino de homens e nações inteiras e que deveriam ser agraciados com o favor dos homens através de rituais e templos suntuosos.

O cristianismo surge então num mundo imerso no paganismo politeísta fazendo tudo que poderia fazer para não ser enquadrado com mais uma "fábula", ou mito, como o próprio Pedro declara em sua segunda carta na qual afima: "Porque não vos demos a conhecer o poder e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo seguindo fábulas (mithos) engenhosamente inventadas, mas nós mesmos fomos testemunhas oculares da sua majestade;". Pedro sabia que o risco da doutrina cristã se perder como mais uma seita que apregoava que seu precursor era um emissário dos deuses e que ressuscitou dos mortos como nos antigos mitos dos deuses solares astrológicos era grande e por isso reforçava o caráter que os apóstolos detinham de testemunhas oculares dos eventos que tiveram lugar na Palestina.

Acontece que, não importa o que digam, a história contada pelos apóstolos e convertida depois nos relatos escritos que se transformaram na maior história contada até hoje, era por si mesma um relato que continha inúmeros elementos já conhecidos nos mitos. Por que deveria ser diferente? Se os Evangelhos narram a história REAL  de um ser como JESUS nascendo entre nós, porque tal história não pode ter elementos em comum com as sagas dos heróis de todos os tempos? A diferença e a novidade está justamente no fato de que o evento em si, ocorreu realmente num tempo histórico e perfeitamente datável, com o testemunho de inúmeras pessoas vivas na época, ao contrário dos relatos altamente simbólicos das mitologias. 

Na verdade, longe de desacreditar o cristianismo, como querem certas pessoas como os autores de Zeitgeist (já refutado por aqui) tal fato reforça aquilo que acreditamos: que os mitos antigos são também "sombras" e "tipos" que sinalizavam a vinda do Filho de DEUS na plenitude dos tempos. O Cristo Universal não foi preconizado apenas nas profecias do A.T. e tenho certeza de que não é somente estudando o Tabernáculo de Moisés que encontraremos sinais da sua vinda e ministério. Os mitos iniciaticos antigos estão cheios de alusões a benfeitores divinos da humanidade que deram suas vidas e depois receberam de volta a vida eterna a que tinham aberto mão para defender o gênero humano, entre eles horus e apolo. 

Sintomaticamente, como um reconhecimento de que  mensagem de JESUS era universal, os primeiros a recebe-la mesmo antes da maioria dos judeus, foi um grupo de esotéricos, chamados na Bíblia de magis, ou magos, como eram chamados os caldeus, povo que habitava mais ao oriente, na Mesopotâmia, vindo visitar o menino cujos sinais da vinda tanto os impressionaram. Como disse anteriormente, são mitos arquetípicos tão entrenhados na humanidade que apontam para aquilo que Don Richardson chamou de "Fator Melquisedeque", o inconsciente coletivo da raça apontando para a necessidade de um Redentor Universal, somente plenamente alcançado na figura de JESUS, nascido na encruzilhada das civilizações mais importantes do mundo, na encruzilhada entre uma era e outra, para definir passado, presente e futuro da humanidade. A encarnação é o ponto decisivo da história do planeta. Tudo que aconteceu antes, como prenuncio, se cumpre ali. Tudo que acontecer depois, não pode fugir do evento ali perpetrado. É o ponto de convergencia dos tempos, onde a massa crítica criada pela crucificação dos pecados da humanidade na carne do Filho de DEUS anulará os efeitos da Entropia do Universo na criação de novos céus e nova terra. 


O que nos interessa realmente aqui, é traçar um paralelo entre a idéia de "mito" como arquétipo psicológico que propõe um propósito de vida maior e a trajetória "mítica" do homem JESUS de Nazaré, modelo proposto por DEUS para que nos tornemos à Sua Imago Dei. Tal idéia do que significa o mito para o inconsciente coletivo humano só veio a ser mais intensamente explorada por Carl Gustav Jung e sua disciplina das profundezas da subjetividade. Sobre o inconsciente coletivo, afirmou Jung: "O inconsciente coletivo compreende toda a vida psíquica dos antepassados desde seus primórdios. É o pressuposto e a matriz de todos os fatos psíquicos e por isso exerce também uma influência que compromete altamente a liberdade da consciência, visto que tende constantemente a recolocar todos os processos conscientes em seus antigos trilhos."


Nesse caso, temos todos os elementos míticos dentro de nós mesmos: Queda, culpa, o conhecimento do Bem e do Mal, e também a  necessidade de redenção e o discenimento de que isso só pode ser realizado através de um ato de sacrifício próprio e aí entra em cena a figura do Herói, tão cantado e disseminado em nossa cultura , mesmo hoje, no qual o pós-modernismo não conseguiu exterminar tais personagens das telonas de cinema, onde pululam heróis à moda clássica, como em filmes recentes, como 300, ou Principe da Persia ou Fúria de Titãs. Em todas as culturas humanas de todos os tempo, provou Jung, os arquétipos são basicamente os mesmos. 


O arquétipo apresenta um tipo de apelo da nossa consciência para que deixemos a imagem egoísta que construímos de nós mesmos ao longo de nossas vidas e passemos a imitar um exemplo mais sublime, maior do que pensamos acerca de nós mesmos, e que pode nos levar a um processo que nos leva a nos tornar mais íntegros, mais inteiros. Outrossim, esse processo nos leva a conhecer nossas mazelas e fracassos, mas leva também a descoberta  de que escondemos o melhor de nós mesmos dentro do Outro, nosso eu apenas idealizado, que pensávamos não existir e que mitigamos para nos dar bem no mundo a nossa volta com suas exigencias sociais cruéis. Esse Outro é aquele você tentou calar durante tantos anos e que anseia por outro tipo de realização e que só pode ser satisfeito plenamente na pessoa de JESUS Cristo, a matriz perfeita gerada por DEUS para preencher a alma de todo homem com o significado para o qual foi desenhado. 


Há muito que se falar sobre tudo isso, mas os testemunhos cristãos de todos os tempos nos convidam a ver a alegria e o gozo inicial daqueles que "recebem" a JESUS em seus corações como um verdadeiro "novo nascimento", pois assim é realmente, pois o Outro finalmente emergiu das trevas a que estava condenado e veio à tona para tomar o seu lugar de direito e proeminência. Doravante, a vida e o ser possuem e devem atender a um ideal, um propósito, um "mito" muito maior do que a ilha do si mesmo. Está conectado ao "mito" vivo do Cristo Ressurreto, o herói que venceu a morte e dá o elixir da vida a todos os que o seguem. Longe de ser apenas mais um mito, no sentido de fábula ou muleta psicológica, esse, como a vida histórica de JESUS, é um mito real, o único verdadeiro, como atestam as vidas de milhares de mártires que ousaram imita-Lo à perfeição. Este é nosso real assunto.


Somos estimulados a imitar a Cristo nos menores detalhes. Essa é a lógica da vida cristã. Devemos imita-lo em cada passo, em cada fala, em cada decisão. Devemos escolher o que ele escolheu, o sofrimento ao invés do conforto, uma vida de serviço e oração, frugal, sem nos apegar às coisas do mundo, mas amando aqueles que não conhecem tal Verdade a ponto de arriscar a própria existência para apregoar o Evangelho. As Escrituras nos estimulam a morrer para nós mesmos, nos diminuir, a nos esvaziar, a mortificar nossa vontade e odiar os enganos do mundo como um sistema que nos afasta de DEUS, pelo menos do DEUS verdadeiro. Paulo de Tarso, um dos maiores imitadores dos passos de Cristo, nos dá uma bela imagem de como fazer isso. Em II Coríntios 3.18 ele nos diz para imaginarmos um espelho cuja imagem refletida não fosse a nossa mas a de JESUS. Olhando cada vez mais para os detalhes do reflexo do espelho, poderemos reproduzi-los com exatidão e seremos então nós mesmos  um espelho no qual as pessoas poderão enxergar a Glória Dele. Essa deve ser a maior aspiração do discípulo nessa vida, se tornar parecido com o Mestre.

Dito isto, cabe-nos analisar o seguinte: Temos vivido realmente o "mito" de Cristo atualmente? Podemos dizer que nossas escolhas são as que Ele escolheria? Podemos nos orgulhar e dizer que temos feito o que nos foi mandado fazer? A Igreja que Ele deixou na Terra tem refletido a ênfase dos seus discursos? Quando ensinamos os neófitos os ensinamos a pensar como Ele pensava? Como podemos dizer sequer que o seguimos se nossos passos nos levam a direções tão diferentes daquelas que O guiavam? Se resolvessemos seguir seus passos onde eles nos levariam efetivamente? A quais decisões? Não veríamos a antítese daquilo que temos visto hoje? Como você acha que seria alguém que efetivamente resolvesse imitar a Cristo em seu falar e seu pensar no meio de nós hoje? Seria aceito ou contado entre o número dos que ocupam os primeiros lugares dos assentos das sinagogas "cristãs"?


Reproduzo a seguir um texto do site de Paulo Brabo, artista prestigiado e articulador do Bacia das Almas, uma das pessoas mais sensíveis e preparadas para entender o cerne da mensagem cristã e coloca-la em perspectiva frente a um mundo pós-moderno e o tradicionalismo religioso. Convido-o a ler com atenção e desprendimento para absorver seu conteúdo que faz eco e complementa de forma creio que perfeita aquilo que foi escrito anteriormente aqui. Obrigado, Paulo, por permitir a repercussão do seu texto.





Depurado por   PAULO BRABO
22 DE SETEMBRO DE 2006


Joseph Cambpell, notável mapeador de mitos e discípulo de Jung, divide as religiões do mundo em dois grandes grupos, oriental e ocidental – sendo que o primeiro grupo inclui os países entre a fronteira leste do Irã e o Pacífico, o segundo todo o resto (inclusive o Oriente Médio). Essa divisão corresponde, até certo ponto, a minha divisão entre ritos circulares e religiões lineares, que resolvi estabelecer pela relação das religiões com a história.

Campbell, no entanto, prefere definir a distinção da seguinte forma: no Ocidente, Deus e o universo (o mundo, a realidade, a natureza) são coisas distintas; no Oriente, Deus e universo são indistinguíveis um do outro.

Nas religiões ocidentais, ele observa, “Deus fez o mundo, e Deus e o mundo não são a mesma coisa. Há uma distinção ontológica e essencial em nossa tradição entre criador e criatura. Isso gera uma psicologia e uma estrutura religiosa totalmente diferentes daquelas das religiões em que essa distinção não é feita”.

É uma observação arguta. As mentalidades oriental e ocidental não poderiam ser, neste sentido, mais distintas.

Identidade e relacionamento
O alvo primário das religiões orientais é despertar no homem um senso deidentidade imediata com a divindade; fazer o cultuante descobrir, aturdido, que ele é parte de Deus – é, de fato, Deus – pela suficiente razão de ser parte do universo. Como Deus e universo são indistinguíveis um do outro, não teria como ser diferente.Para as religiões ocidentais, por outro lado, existe uma tremenda distância entre Deus e 
o universo, sua criação. 

Embora o homem em particular tenha sido feito “à imagem e semelhança de Deus”, uma identidade imediata com ele (“eu sou Deus”) é tida em geral como inconcebível e criminosa. Como alternativa, o adorador é convidado a estabelecer um relacionamentosatisfatório com a divindade, o que é obtido tipicamente pela submissão do adorador a um conjunto de regras que crê-se delimitam a vontade divina para a conduta humana.

Identidade com Deus ou um relacionamento com ele, é a precisa distância entre a religião do oriente e a do ocidente.

A distância até Deus: você e o outro
As religiões monoteístas ocidentais (atenção à chamada: zoroastrismo, judaísmo, cristianismo, islamismo) são relativamente recentes na história e nasceram todas no Oriente Médio (razão pela qual, historicamente, a região é ao mesmo tempo o eixo que une e a espada que divide o ocidente).

Há quatro mil anos, como já vimos mais de uma vez, a idéia de um Deus que fosse inteiramente outro e ao mesmo tempo desejasse um relacionamento com os seres humanos, embora nos pareça hoje um tanto démodé, era tremendamente avant-garde.

Conforme sugere Campbell, esse novo conceito de Deus – distanciado e distinto mas ao mesmo tempo interessado em imitação e contato – gerou uma psicologia totalmente nova. Com o andar da carruagem, acabou gerando a cabeça ocidental – com espaço para responsabilidade pessoal, reflexão, culpa e obsessão com resultados.
Ainda mais importante, Deus tornou-se um espelho e um emblema efetivo para o Outro. Enquanto nas religiões orientais o enigma do Outro é respondido imediatamente pela resposta da identidade, no ocidente a máscara do Outro foi vestida por Deus. Ele é alguém com quem podemos nos degladiar e a quem devemos prestar contas; é alguém que podemos escolher ignorar, amar ou repudiar; é o personagem, em suma, que guarda o tremendo e inconcebível mistério de não ser nós mesmos.

Em muitos sentidos, portanto, o relacionamento do homem com Deus (o Outro por excelência) é nessa visão estabelecido e mantido pelo nosso modo relacionamento com os outros (de quem Deus é emblema). Veja-se, por exemplo, mandamentos como “não matarás” e as leis da Bíblia Hebraica projetadas para proteger os estrangeiros.
Apenas nas religiões ocidentais, portanto, vem à tona a necessidade de salvação, desconhecida no oriente e entendida aqui como reconciliação necessária com o Outro.

Nascimento e morte da instituição: a plenitude dos tempos
O problema essencial com as religiões ocidentais, acredita Joseph Campbell, é que nelas o modo encontrado para estabelecer-se um relacionamento com Deus é mediado fatalmente por uma instituição. O sujeito não tem como relacionar-se com Deus diretamente; alguma instituição ou contrato social (quer seja a sinagoga, a igreja, a mesquita, os mandamentos, o confessionário ou a oração voltada para Meca) age como intermediário, interpondo-se incessamente entre o homem e Deus.
Essa distância adicional (que naturalmente inexiste nas religiões orientais) gera o que Campbell chama de “dissociação mítica”, em que o sujeito acaba sentindo-se ainda mais dissociado da experiência do Deus transcendental do que estaria sem a instituição que existe oficialmente para ligá-lo a ele.

Todos os profetas e messias tomaram sobre si a sobrehumana tarefa de resolver essa dissociação, mas nenhum como Jesus – que no momento que o Apóstolo chama de “a plenitude dos tempos” pisou a terra fazendo três coisas: primeiro, deixou muito claro que o tempo de relacionar-se com Deus através de instituições, se é que existira, tinha chegado a um sonoro fim (“Podes crer-me que a hora vem quando nem neste monte, nem em Jerusalém adorareis o Pai. A hora vem, e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade”). 

Assim entenderam-no, como demolindo a religião institucional, todos os escritores do Novo Testamento, do que dão testemunho a decisão do concílio de Jerusalém (registrada no livro de Atos), a longa explanação que é o livro de Hebreus e todas as fúrias de Paulo.

O modo de relacionar-se com Deus inaugurado por Jesus é, subversivamente, intermediado não por uma instituição mas por uma pessoa – e essa é a segunda desconstrução que ele vem fazer. Jesus, homem, veste deliberadamente a máscara do Outro e a máscara de Deus; como resultado, ele convida a que nos relacionemos com Deus exclusivamente pelo modo como nos relacionamos com o outro, com o semelhante, com o próximo – isto é, com ele mesmo: “o reino de Deus está próximo”.
Para Jesus, tudo que existe é você e Deus; os outros são máscaras temporárias da divindade: “sempre que o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes”. Para as religiões orientais, todos somos Deus; para o Filho do Homem, Deus são os outros.

Finalmente, Jesus fornece uma inusitada ponte com o pensamento oriental, em que não nega a sua identidade com Deus (“eu e o Pai somos um”) e convida-nos incessantemente a nos tornarmos como ele “filhos de Deus” – hebraísmo que pode significar, entre outras coisas, “discípulos de Deus”, “semelhantes a Deus”, “imitadores dignos de Deus”. Na boca de Jesus a injunção de Deus na Bíblia hebraica, “sejam santos como eu sou santo”, ganha uma dimensão literal. Jesus realmente quer que sejamos como Deus, e no que Deus tem de mais peculiar: “Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; para que vos torneis filhos do vosso Pai celeste, porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos”

Ser Deus, sustenta essa visão, define-se não por ninharias como onipotência, mas pelo modo cavalheiresco como Deus relaciona-se com os outros. Porque “Deus é amor”, como está dito em outro lugar, e com ele devemos também – tremenda ousadia, do ponto de vista ocidental – ser um.

Naturalmente que Jesus não foi ouvido em nenhum dos sentidos acima; tanto o cristianismo quanto o islamismo, que vieram depois, não abriram mão da armadilha fácil da instituição e recusaram-se a definir a identidade e a intimidade com Deus pelo tratamento generoso com o próximo.

A plenitude dos tempos, que é também a ponte entre o pensamento religioso ocidental e oriental, permanece longe de ser atravessada. O reino de Deus continua próximo.

"O herói morreu como homem moderno; mas renasceu como homem eterno – aperfeiçoado, não específico e universal . Sua segunda e solene tarefa e façanha é, por conseguinte (como declara Toynbee e como indicam todas as mitologias da humanidade), retornar ao nosso meio, transfigurado, e ensinar a lição de vida renovada que aprendeu."- Joseph Campbell - "O Herói de Mil Faces"






04 DE AGOSTO DE 2010

  O acaso e o Herói

Diante de nós estão todas as histórias, e todas contam a mesma história: heróis são gente que venceu a morte e demonstrou (ou encontrou) nisso o seu valor. Ao voltar ao mundo pela porta da ressurreição literal (ou, dependendo da história que está sendo contada, metafórica), o herói encontrará um novo mundo, que é o mesmo da experiência cotidiana mas que será para ele inteiramente diverso, porque o herói venceu o medo e o desejo que paralisam e condicionam os demais seres humanos. Nesta vida que é a nossa ele habitará o fim do mundo, e trará consigo o elixir com o qual será capaz de estender agora mesmo, aos que ainda não morreram e ressurgiram como ele, os dons miraculosos que recebeu. Fazendo com que se identifiquem com sua morte e sua ressurreição (isto é, com que reconheçam e participem da sua vitória), distribuirá entre meros mortais o fim do mundo e seu elixir.

Esses, que são traços essenciais da vitória do herói universal segundo Joseph Campbell, são também os argumentos do discurso de Pedro no Pentecostes em favor do caráter universal da vitória de Jesus. E são esses mesmo os elementos que explicam o conteúdo metafórico dos conceitos neotestamentários de batismo, fim do mundo e Espírito Santo.

O batismo, que em comum como a morte só acontece uma vez, representa a morte do eu para o medo e o desejo, que juntos limitam e oprimem todos os homens. O fim do mundo aponta na verdade para o começo de outro; é o novo nascimento para um domínio ou reino em que as novas liberdades adquiridas e seus respectivos desafios – o dom divino de “fazer novas todas as coisas” no reino de Deus – entrarão em choque com aquilo que sempre existiu. E o Espírito Santo é o elixir da cura, do rejuvenescimento e da transformação, que é derramado pelo herói vitorioso sobre todos que abraçam a sua vitória; é o potencial e a chama de um novo mundo e do incêndio do reino de Deus.

A história da igreja começa, portanto, onde as histórias terminam, com a vitória irresistível do herói e a distribuição de seu elixir.

"Quem investe todo o conteúdo da sua fé na garantia de uma felicidade futura age como que não tem pressa, e a postura dos revolucionários do reino é de absoluta urgência. Por isso despojam-se radicalmente de todo embaraço, por isso estão sempre juntos, por isso prestam contínua assistência uns aos outros e a todos que estão chegando: o céu pode esperar, mas a cura deste mundo exige atenção imediata." http://www.baciadasalmas.com/2010/os-discursos-ausentes-ceu-e-inferno/

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