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Como vivemos o "Mito" de Cristo no Ocidente

MITO E CRISTIANISMO - O que é um mito? Por definição, mito é uma narrativa de fatos ocorridos em tempos remotos, os quais não podem ser comprovados mas que transmitem certos valores e conceitos éticos e culturais às comunidades que os adotaram. Vinda do grego mithos, a palavra veio a ser sinônimo de fábula, um conto fantástico que não guarda quase nenhuma relação com a realidade, a não ser "a moral da história". Os mitos antigos que formaram a base das religiões dos povos, a Mitologia que retrata o panteão dos deuses do paganismo da Antiguidade como conhecemos, eram descrições incríveis de acontecimentos que não podiam ser provados. É quase certo que fossem representações muito antigas já naquelas épocas de "verdades" de fundo psicológico colhidos em estados alterados da consciência através da imersão em transe no mundo dos sonhos dos xamãs do Paleolítico. Nessas culturas, a realidade cotidiana e a "realidade" do mundo "espiritual" dos sonhos e transes mediunicos são paralelas e o objetivo ao entrar nesse terreno é justamente obter "ferramentas" espirituais e psicológicas para enfrentar a dura realidade da vida. A realidade era um conceito mais abrangente que poderia englobar outra descrição do mundo e ser explicada por outros acontecimentos que não os da vida diária. Nas culturas tribais, antes do advento das grandes cidades, era obrigação de cada homem penetrar naquele mundo crepuscular e encontrar ali seu verdadeiro eu, o que o tornaria um guerreiro e um homem melhor para seu povo, um homem por inteiro.

Com o passar dos tempos, o homem, cada vez mais civilizado, deixando de lado o "primitivismo" que o caracterizou após o dilúvio universal, deixou de interiorizar esses arquétipos e passou a emprestar-lhes uma existência no mundo exterior, onde ele mesmo vivia a totalidade de sua existência, longe das sombras do mundo dos sonhos, território restrito agora a iluminados e iniciados nos mistérios. Passou a ser, com isso, politeísta e não animista e, portanto, ainda mais supersticioso, vendo "deuses" a serem propiciados aqui e ali e mais suscetível ao controle da casta sacerdotal que monopolizou o acesso a divindade. Os "mitos' de seres fantásticos que povoavam reinos de sonhos e que poderiam dar presentes e dádivas maravilhosas aos homens corajosos que adentrassem seus domínios e enfrentassem seus perigos pelo bem da comunidade, foram substituídos pelas histórias de deuses e deusas poderosos que controlavam o destino de homens e nações inteiras e que deveriam ser agraciados com o favor dos homens através de rituais e templos suntuosos.

O cristianismo surge então num mundo imerso no paganismo politeísta fazendo tudo que poderia fazer para não ser enquadrado com mais uma "fábula", ou mito, como o próprio Pedro declara em sua segunda carta na qual afima: "Porque não vos demos a conhecer o poder e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo seguindo fábulas (mithos) engenhosamente inventadas, mas nós mesmos fomos testemunhas oculares da sua majestade;". Pedro sabia que o risco da doutrina cristã se perder como mais uma seita que apregoava que seu precursor era um emissário dos deuses e que ressuscitou dos mortos como nos antigos mitos dos deuses solares astrológicos era grande e por isso reforçava o caráter que os apóstolos detinham de testemunhas oculares dos eventos que tiveram lugar na Palestina.

Acontece que, não importa o que digam, a história contada pelos apóstolos e convertida depois nos relatos escritos que se transformaram na maior história contada até hoje, era por si mesma um relato que continha inúmeros elementos já conhecidos nos mitos. Por que deveria ser diferente? Se os Evangelhos narram a história REAL  de um ser como JESUS nascendo entre nós, porque tal história não pode ter elementos em comum com as sagas dos heróis de todos os tempos? A diferença e a novidade está justamente no fato de que o evento em si, ocorreu realmente num tempo histórico e perfeitamente datável, com o testemunho de inúmeras pessoas vivas na época, ao contrário dos relatos altamente simbólicos das mitologias. 

Na verdade, longe de desacreditar o cristianismo, como querem certas pessoas como os autores de Zeitgeist (já refutado por aqui) tal fato reforça aquilo que acreditamos: que os mitos antigos são também "sombras" e "tipos" que sinalizavam a vinda do Filho de DEUS na plenitude dos tempos. O Cristo Universal não foi preconizado apenas nas profecias do A.T. e tenho certeza de que não é somente estudando o Tabernáculo de Moisés que encontraremos sinais da sua vinda e ministério. Os mitos iniciaticos antigos estão cheios de alusões a benfeitores divinos da humanidade que deram suas vidas e depois receberam de volta a vida eterna a que tinham aberto mão para defender o gênero humano, entre eles horus e apolo. 

Sintomaticamente, como um reconhecimento de que  mensagem de JESUS era universal, os primeiros a recebe-la mesmo antes da maioria dos judeus, foi um grupo de esotéricos, chamados na Bíblia de magis, ou magos, como eram chamados os caldeus, povo que habitava mais ao oriente, na Mesopotâmia, vindo visitar o menino cujos sinais da vinda tanto os impressionaram. Como disse anteriormente, são mitos arquetípicos tão entrenhados na humanidade que apontam para aquilo que Don Richardson chamou de "Fator Melquisedeque", o inconsciente coletivo da raça apontando para a necessidade de um Redentor Universal, somente plenamente alcançado na figura de JESUS, nascido na encruzilhada das civilizações mais importantes do mundo, na encruzilhada entre uma era e outra, para definir passado, presente e futuro da humanidade. A encarnação é o ponto decisivo da história do planeta. Tudo que aconteceu antes, como prenuncio, se cumpre ali. Tudo que acontecer depois, não pode fugir do evento ali perpetrado. É o ponto de convergencia dos tempos, onde a massa crítica criada pela crucificação dos pecados da humanidade na carne do Filho de DEUS anulará os efeitos da Entropia do Universo na criação de novos céus e nova terra. 


O que nos interessa realmente aqui, é traçar um paralelo entre a idéia de "mito" como arquétipo psicológico que propõe um propósito de vida maior e a trajetória "mítica" do homem JESUS de Nazaré, modelo proposto por DEUS para que nos tornemos à Sua Imago Dei. Tal idéia do que significa o mito para o inconsciente coletivo humano só veio a ser mais intensamente explorada por Carl Gustav Jung e sua disciplina das profundezas da subjetividade. Sobre o inconsciente coletivo, afirmou Jung: "O inconsciente coletivo compreende toda a vida psíquica dos antepassados desde seus primórdios. É o pressuposto e a matriz de todos os fatos psíquicos e por isso exerce também uma influência que compromete altamente a liberdade da consciência, visto que tende constantemente a recolocar todos os processos conscientes em seus antigos trilhos."


Nesse caso, temos todos os elementos míticos dentro de nós mesmos: Queda, culpa, o conhecimento do Bem e do Mal, e também a  necessidade de redenção e o discenimento de que isso só pode ser realizado através de um ato de sacrifício próprio e aí entra em cena a figura do Herói, tão cantado e disseminado em nossa cultura , mesmo hoje, no qual o pós-modernismo não conseguiu exterminar tais personagens das telonas de cinema, onde pululam heróis à moda clássica, como em filmes recentes, como 300, ou Principe da Persia ou Fúria de Titãs. Em todas as culturas humanas de todos os tempo, provou Jung, os arquétipos são basicamente os mesmos. 


O arquétipo apresenta um tipo de apelo da nossa consciência para que deixemos a imagem egoísta que construímos de nós mesmos ao longo de nossas vidas e passemos a imitar um exemplo mais sublime, maior do que pensamos acerca de nós mesmos, e que pode nos levar a um processo que nos leva a nos tornar mais íntegros, mais inteiros. Outrossim, esse processo nos leva a conhecer nossas mazelas e fracassos, mas leva também a descoberta  de que escondemos o melhor de nós mesmos dentro do Outro, nosso eu apenas idealizado, que pensávamos não existir e que mitigamos para nos dar bem no mundo a nossa volta com suas exigencias sociais cruéis. Esse Outro é aquele você tentou calar durante tantos anos e que anseia por outro tipo de realização e que só pode ser satisfeito plenamente na pessoa de JESUS Cristo, a matriz perfeita gerada por DEUS para preencher a alma de todo homem com o significado para o qual foi desenhado. 


Há muito que se falar sobre tudo isso, mas os testemunhos cristãos de todos os tempos nos convidam a ver a alegria e o gozo inicial daqueles que "recebem" a JESUS em seus corações como um verdadeiro "novo nascimento", pois assim é realmente, pois o Outro finalmente emergiu das trevas a que estava condenado e veio à tona para tomar o seu lugar de direito e proeminência. Doravante, a vida e o ser possuem e devem atender a um ideal, um propósito, um "mito" muito maior do que a ilha do si mesmo. Está conectado ao "mito" vivo do Cristo Ressurreto, o herói que venceu a morte e dá o elixir da vida a todos os que o seguem. Longe de ser apenas mais um mito, no sentido de fábula ou muleta psicológica, esse, como a vida histórica de JESUS, é um mito real, o único verdadeiro, como atestam as vidas de milhares de mártires que ousaram imita-Lo à perfeição. Este é nosso real assunto.


Somos estimulados a imitar a Cristo nos menores detalhes. Essa é a lógica da vida cristã. Devemos imita-lo em cada passo, em cada fala, em cada decisão. Devemos escolher o que ele escolheu, o sofrimento ao invés do conforto, uma vida de serviço e oração, frugal, sem nos apegar às coisas do mundo, mas amando aqueles que não conhecem tal Verdade a ponto de arriscar a própria existência para apregoar o Evangelho. As Escrituras nos estimulam a morrer para nós mesmos, nos diminuir, a nos esvaziar, a mortificar nossa vontade e odiar os enganos do mundo como um sistema que nos afasta de DEUS, pelo menos do DEUS verdadeiro. Paulo de Tarso, um dos maiores imitadores dos passos de Cristo, nos dá uma bela imagem de como fazer isso. Em II Coríntios 3.18 ele nos diz para imaginarmos um espelho cuja imagem refletida não fosse a nossa mas a de JESUS. Olhando cada vez mais para os detalhes do reflexo do espelho, poderemos reproduzi-los com exatidão e seremos então nós mesmos  um espelho no qual as pessoas poderão enxergar a Glória Dele. Essa deve ser a maior aspiração do discípulo nessa vida, se tornar parecido com o Mestre.

Dito isto, cabe-nos analisar o seguinte: Temos vivido realmente o "mito" de Cristo atualmente? Podemos dizer que nossas escolhas são as que Ele escolheria? Podemos nos orgulhar e dizer que temos feito o que nos foi mandado fazer? A Igreja que Ele deixou na Terra tem refletido a ênfase dos seus discursos? Quando ensinamos os neófitos os ensinamos a pensar como Ele pensava? Como podemos dizer sequer que o seguimos se nossos passos nos levam a direções tão diferentes daquelas que O guiavam? Se resolvessemos seguir seus passos onde eles nos levariam efetivamente? A quais decisões? Não veríamos a antítese daquilo que temos visto hoje? Como você acha que seria alguém que efetivamente resolvesse imitar a Cristo em seu falar e seu pensar no meio de nós hoje? Seria aceito ou contado entre o número dos que ocupam os primeiros lugares dos assentos das sinagogas "cristãs"?


Reproduzo a seguir um texto do site de Paulo Brabo, artista prestigiado e articulador do Bacia das Almas, uma das pessoas mais sensíveis e preparadas para entender o cerne da mensagem cristã e coloca-la em perspectiva frente a um mundo pós-moderno e o tradicionalismo religioso. Convido-o a ler com atenção e desprendimento para absorver seu conteúdo que faz eco e complementa de forma creio que perfeita aquilo que foi escrito anteriormente aqui. Obrigado, Paulo, por permitir a repercussão do seu texto.





Depurado por   PAULO BRABO
22 DE SETEMBRO DE 2006


Joseph Cambpell, notável mapeador de mitos e discípulo de Jung, divide as religiões do mundo em dois grandes grupos, oriental e ocidental – sendo que o primeiro grupo inclui os países entre a fronteira leste do Irã e o Pacífico, o segundo todo o resto (inclusive o Oriente Médio). Essa divisão corresponde, até certo ponto, a minha divisão entre ritos circulares e religiões lineares, que resolvi estabelecer pela relação das religiões com a história.

Campbell, no entanto, prefere definir a distinção da seguinte forma: no Ocidente, Deus e o universo (o mundo, a realidade, a natureza) são coisas distintas; no Oriente, Deus e universo são indistinguíveis um do outro.

Nas religiões ocidentais, ele observa, “Deus fez o mundo, e Deus e o mundo não são a mesma coisa. Há uma distinção ontológica e essencial em nossa tradição entre criador e criatura. Isso gera uma psicologia e uma estrutura religiosa totalmente diferentes daquelas das religiões em que essa distinção não é feita”.

É uma observação arguta. As mentalidades oriental e ocidental não poderiam ser, neste sentido, mais distintas.

Identidade e relacionamento
O alvo primário das religiões orientais é despertar no homem um senso deidentidade imediata com a divindade; fazer o cultuante descobrir, aturdido, que ele é parte de Deus – é, de fato, Deus – pela suficiente razão de ser parte do universo. Como Deus e universo são indistinguíveis um do outro, não teria como ser diferente.Para as religiões ocidentais, por outro lado, existe uma tremenda distância entre Deus e 
o universo, sua criação. 

Embora o homem em particular tenha sido feito “à imagem e semelhança de Deus”, uma identidade imediata com ele (“eu sou Deus”) é tida em geral como inconcebível e criminosa. Como alternativa, o adorador é convidado a estabelecer um relacionamentosatisfatório com a divindade, o que é obtido tipicamente pela submissão do adorador a um conjunto de regras que crê-se delimitam a vontade divina para a conduta humana.

Identidade com Deus ou um relacionamento com ele, é a precisa distância entre a religião do oriente e a do ocidente.

A distância até Deus: você e o outro
As religiões monoteístas ocidentais (atenção à chamada: zoroastrismo, judaísmo, cristianismo, islamismo) são relativamente recentes na história e nasceram todas no Oriente Médio (razão pela qual, historicamente, a região é ao mesmo tempo o eixo que une e a espada que divide o ocidente).

Há quatro mil anos, como já vimos mais de uma vez, a idéia de um Deus que fosse inteiramente outro e ao mesmo tempo desejasse um relacionamento com os seres humanos, embora nos pareça hoje um tanto démodé, era tremendamente avant-garde.

Conforme sugere Campbell, esse novo conceito de Deus – distanciado e distinto mas ao mesmo tempo interessado em imitação e contato – gerou uma psicologia totalmente nova. Com o andar da carruagem, acabou gerando a cabeça ocidental – com espaço para responsabilidade pessoal, reflexão, culpa e obsessão com resultados.
Ainda mais importante, Deus tornou-se um espelho e um emblema efetivo para o Outro. Enquanto nas religiões orientais o enigma do Outro é respondido imediatamente pela resposta da identidade, no ocidente a máscara do Outro foi vestida por Deus. Ele é alguém com quem podemos nos degladiar e a quem devemos prestar contas; é alguém que podemos escolher ignorar, amar ou repudiar; é o personagem, em suma, que guarda o tremendo e inconcebível mistério de não ser nós mesmos.

Em muitos sentidos, portanto, o relacionamento do homem com Deus (o Outro por excelência) é nessa visão estabelecido e mantido pelo nosso modo relacionamento com os outros (de quem Deus é emblema). Veja-se, por exemplo, mandamentos como “não matarás” e as leis da Bíblia Hebraica projetadas para proteger os estrangeiros.
Apenas nas religiões ocidentais, portanto, vem à tona a necessidade de salvação, desconhecida no oriente e entendida aqui como reconciliação necessária com o Outro.

Nascimento e morte da instituição: a plenitude dos tempos
O problema essencial com as religiões ocidentais, acredita Joseph Campbell, é que nelas o modo encontrado para estabelecer-se um relacionamento com Deus é mediado fatalmente por uma instituição. O sujeito não tem como relacionar-se com Deus diretamente; alguma instituição ou contrato social (quer seja a sinagoga, a igreja, a mesquita, os mandamentos, o confessionário ou a oração voltada para Meca) age como intermediário, interpondo-se incessamente entre o homem e Deus.
Essa distância adicional (que naturalmente inexiste nas religiões orientais) gera o que Campbell chama de “dissociação mítica”, em que o sujeito acaba sentindo-se ainda mais dissociado da experiência do Deus transcendental do que estaria sem a instituição que existe oficialmente para ligá-lo a ele.

Todos os profetas e messias tomaram sobre si a sobrehumana tarefa de resolver essa dissociação, mas nenhum como Jesus – que no momento que o Apóstolo chama de “a plenitude dos tempos” pisou a terra fazendo três coisas: primeiro, deixou muito claro que o tempo de relacionar-se com Deus através de instituições, se é que existira, tinha chegado a um sonoro fim (“Podes crer-me que a hora vem quando nem neste monte, nem em Jerusalém adorareis o Pai. A hora vem, e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade”). 

Assim entenderam-no, como demolindo a religião institucional, todos os escritores do Novo Testamento, do que dão testemunho a decisão do concílio de Jerusalém (registrada no livro de Atos), a longa explanação que é o livro de Hebreus e todas as fúrias de Paulo.

O modo de relacionar-se com Deus inaugurado por Jesus é, subversivamente, intermediado não por uma instituição mas por uma pessoa – e essa é a segunda desconstrução que ele vem fazer. Jesus, homem, veste deliberadamente a máscara do Outro e a máscara de Deus; como resultado, ele convida a que nos relacionemos com Deus exclusivamente pelo modo como nos relacionamos com o outro, com o semelhante, com o próximo – isto é, com ele mesmo: “o reino de Deus está próximo”.
Para Jesus, tudo que existe é você e Deus; os outros são máscaras temporárias da divindade: “sempre que o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes”. Para as religiões orientais, todos somos Deus; para o Filho do Homem, Deus são os outros.

Finalmente, Jesus fornece uma inusitada ponte com o pensamento oriental, em que não nega a sua identidade com Deus (“eu e o Pai somos um”) e convida-nos incessantemente a nos tornarmos como ele “filhos de Deus” – hebraísmo que pode significar, entre outras coisas, “discípulos de Deus”, “semelhantes a Deus”, “imitadores dignos de Deus”. Na boca de Jesus a injunção de Deus na Bíblia hebraica, “sejam santos como eu sou santo”, ganha uma dimensão literal. Jesus realmente quer que sejamos como Deus, e no que Deus tem de mais peculiar: “Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; para que vos torneis filhos do vosso Pai celeste, porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos”

Ser Deus, sustenta essa visão, define-se não por ninharias como onipotência, mas pelo modo cavalheiresco como Deus relaciona-se com os outros. Porque “Deus é amor”, como está dito em outro lugar, e com ele devemos também – tremenda ousadia, do ponto de vista ocidental – ser um.

Naturalmente que Jesus não foi ouvido em nenhum dos sentidos acima; tanto o cristianismo quanto o islamismo, que vieram depois, não abriram mão da armadilha fácil da instituição e recusaram-se a definir a identidade e a intimidade com Deus pelo tratamento generoso com o próximo.

A plenitude dos tempos, que é também a ponte entre o pensamento religioso ocidental e oriental, permanece longe de ser atravessada. O reino de Deus continua próximo.

"O herói morreu como homem moderno; mas renasceu como homem eterno – aperfeiçoado, não específico e universal . Sua segunda e solene tarefa e façanha é, por conseguinte (como declara Toynbee e como indicam todas as mitologias da humanidade), retornar ao nosso meio, transfigurado, e ensinar a lição de vida renovada que aprendeu."- Joseph Campbell - "O Herói de Mil Faces"






04 DE AGOSTO DE 2010

  O acaso e o Herói

Diante de nós estão todas as histórias, e todas contam a mesma história: heróis são gente que venceu a morte e demonstrou (ou encontrou) nisso o seu valor. Ao voltar ao mundo pela porta da ressurreição literal (ou, dependendo da história que está sendo contada, metafórica), o herói encontrará um novo mundo, que é o mesmo da experiência cotidiana mas que será para ele inteiramente diverso, porque o herói venceu o medo e o desejo que paralisam e condicionam os demais seres humanos. Nesta vida que é a nossa ele habitará o fim do mundo, e trará consigo o elixir com o qual será capaz de estender agora mesmo, aos que ainda não morreram e ressurgiram como ele, os dons miraculosos que recebeu. Fazendo com que se identifiquem com sua morte e sua ressurreição (isto é, com que reconheçam e participem da sua vitória), distribuirá entre meros mortais o fim do mundo e seu elixir.

Esses, que são traços essenciais da vitória do herói universal segundo Joseph Campbell, são também os argumentos do discurso de Pedro no Pentecostes em favor do caráter universal da vitória de Jesus. E são esses mesmo os elementos que explicam o conteúdo metafórico dos conceitos neotestamentários de batismo, fim do mundo e Espírito Santo.

O batismo, que em comum como a morte só acontece uma vez, representa a morte do eu para o medo e o desejo, que juntos limitam e oprimem todos os homens. O fim do mundo aponta na verdade para o começo de outro; é o novo nascimento para um domínio ou reino em que as novas liberdades adquiridas e seus respectivos desafios – o dom divino de “fazer novas todas as coisas” no reino de Deus – entrarão em choque com aquilo que sempre existiu. E o Espírito Santo é o elixir da cura, do rejuvenescimento e da transformação, que é derramado pelo herói vitorioso sobre todos que abraçam a sua vitória; é o potencial e a chama de um novo mundo e do incêndio do reino de Deus.

A história da igreja começa, portanto, onde as histórias terminam, com a vitória irresistível do herói e a distribuição de seu elixir.

"Quem investe todo o conteúdo da sua fé na garantia de uma felicidade futura age como que não tem pressa, e a postura dos revolucionários do reino é de absoluta urgência. Por isso despojam-se radicalmente de todo embaraço, por isso estão sempre juntos, por isso prestam contínua assistência uns aos outros e a todos que estão chegando: o céu pode esperar, mas a cura deste mundo exige atenção imediata." http://www.baciadasalmas.com/2010/os-discursos-ausentes-ceu-e-inferno/
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O Cristo Transcendente e o Cristo Íntimo II

O Cristo Transcendente com toda Sua Glória de Kirios Despotes arrebata os sentidos dos homens de todas as épocas desde a ascenção testemunhada pelos apóstolos. Sua plenitude e onipotencia cegam pelo esplendor de Sua Glória. Inspirados (de modo errado) nele, o homem manifesta todo o seu desequilíbrio ao formular teologias e doutrinas que nos levaram nesses dois mil anos a criar uma quimera chamada ironicamente de "cristianismo", cujo pretexto para existir é espalhar o Evangelho deixado por Ele.

Por causa dessa visão gloriosa de quem é nosso DEUS e como deve ser a Sua Igreja na Terra, os bispos dos primeiros séculos se aliaram ao poder imperial romano, cunhando o bordão que varreu as terras de então: "Um só Império, um só Imperador, um só Deus". O mundo doravante deveria proclamar o Credo Niceno sob o fio da espada e para defender o direito da primazia dos representantes da Divindade Onipotente na Terra sobre os príncipes e reinos deste mundo, mais de dez séculos de guerras, pompa, intrigas, ganancia, coação e tortura.

Nem a turbulenta época da Reforma foi suficiente para dirimir do coração dos homens sua fixação na ênfase em um DEUS que deve controlar  a vida humana nos mínimos detalhes. Sair do cativeiro babilônico não seria tão difícil quanto sair dos lúgubres labirintos aos quais a doutrina da Predestinação, que moldou o pensamento e as sociedades criadas pelos Reformadores, parecia empurrar a iniciativa humana. Tudo está decidido de antemão. DEUS já escolheu os seus, o resto é uma massa condenada. Como saber se sou um escolhido? Obediência total aos preceitos da religião oficial do Estado. A fraqueza e a natureza errática do ser humano não podem ser computados como dados relevantes. Quem erra e comete pecado, é porque nunca pertenceu realmente a DEUS. Uma religião fria e desprovida de compaixão como convinha a um Deus calvinista. Repetindo como seria de se esperar o padrão adotado anteriormente por judeus e católicos, o que parece ser uma tendencia humana irrevogável, os países protestantes que emergiram da Reforma, assimilaram a idéia de que uma marca incontestável do homem realmente abençoado e escolhido por DEUS é ser bem sucedido nos negócios. Varios sociólogos, como Ernest Gellner, apontam que o puritanismo incrementou e fomentou o capitalismo onde foi adotado sendo um dos motores da Expansão Comercial da época. Ao homem bom, escolhido por DEUS resta o trabalho árduo e honesto. A doutrina da mordomia cristã servia somente como um lembrete apagado para que o homem não se deixasse embriagar pela avareza, inutilmente, porém. Tal relação com as riquezas foi repassada para os lugares onde os puritanos chegaram, como os EUA, que foi moldado pelo pensamento "cristão" de que Deus entregou tudo, poder economico e político, nas mãos daqueles temem a sua aliança. O resto é história. Os EUA ocupam o cenário central das decisões mundiais e perpetram sua política economica e militar munidos da idéia de "Nação escolhida pelo Deus Soberano". 

Tal idéia de um Deus tão autosuficiente, não pode aceitar,  segundo os seus defensores, dividir o palco com quem quer que seja, principalmente se for uma deusa recém chegada a tal posição, como é o caso da chamada deusa Ciência. Os "advogados" do Cristo Transcendente na Terra estão sempre dispostos a compra uma boa briga e estabelecer cruzadas contra os infiéis, defendendo a honra de Deus contra os avanços da pós-modernismo e do liberalismo moral. Engajam-se em causas "justas" como "caça às bruxas" comunistas (nos EUA) e se aliam a ditaduras de direita (na América do sul), fazem passeatas anti-aborto (até queimam algumas clínicas e alguns médicos também) e laçam anátemas contra homossexuais declarando o ódio de Deus contra eles.

Reproduzindo a idéia de um Deus que governa unilateralmente, estabelecem para si tronos do alto de suas nanicas piramides construídas sobre seus egos inflados pelo desejo de "fazer a obra". Ali, dentro de seus feudos, governam despoticamente conforme a idéia que mimetizaram. Levando ao extremo sua teologia do desvario, acham-se no direito de retalhar o Corpo de Cristo sobre o mundo, como atesta as centenas de milhares de seitas pseudo-cristãs organizadas conforme suas concupiscencias. Como se pode ver, tal enfase tem provocado uma irrefreável intolerancia a divergencias, tornando opiniões conflitantes em divisões irreconciliáveis entre iguais.

Sintomaticamente, tal teologia provoca, como seria de se esperar, um sentimento de superioridade tal que muitas fraquezas humanas como dúvidas e doenças não são mais permitidas, são traços de maldição. Não é somente lícito buscar a riqueza e a saúde mas é um direito de filho exigi-las do Pai. Numa transmutação fenomenal, o Reino vem agora com sinais exteriores de sua presença para que todos os homens possam deseja-lo como algo que realmente valha a pena.

Como prova inconteste do poder acessível aos profetas do Cristo Transcendente que está assentado à direita do Pai e há de vir para julgar os vivos e os mortos, eles demarcam seu território reconstruindo as antigas catedrais monumentais de outrora, lugares suntuosos onde os imperadores iam adorar o outrora Deus-carpinteiro dos miseráveis. Por sua lógica atroz, pareceria justificável reconstruir o Templo símbolo daquilo que JESUS veio destruir há dois mil anos.

Num outra projeção  fantástica dos seu subconsciente, planejam se tornar também onipresentes no ramo das telecomunicações a fim de que o Reino esteja  mais visível aos homens. Mihões e milhões são gastos para tornar a "cultura gospel" viável ao gosto das multidões.

Para consubstanciar sua heresia, dizem os tais novos "apóstolos" portar a Revelação de que o Reino de DEUS se cumprirá entre nós cabalmente quando a Igreja estiver na posição em que deveria estar perante os olhos de todos, com os "ungidos" colocados nos postos chaves dos governos mundiais, como José no Egito e Daniel na Babilônia, figuras bastante usadas para ilustrar que um "cristão" deve aspirar servir nos mais altos escalões. É a teologia do domínio de sempre com sua ênfase nas realizações do homem. Resta saber em que poderia diferir uma plataforma política evangélica, que defendesse os direitos  e interesses dessa classe contra tudo que soasse ofensivo ao Evangelho, da política unilateral dos regimes totalitários que temos visto durante a História. Trata-se sempre de defender um ponto de vista particular, o que sempre ocasiona partidarismos e desperdício de energia em atividades e militancias que nunca trouxeram o Reino de DEUS à Terra.

Não me parece que esta seja a Sabedoria que vem do Alto, pura, tratável, cheia de misericórdia e bons frutos, sem hipocrisia ou partidarismos. Se não é esta Sabedoria, só podemos estar durante todo esse tempo à mercê da sabedoria animal e diabólica de homens guiados por satanás, o opositor da cruz, da morte do ego, da morte do querer, mas mestre do desejo de ser suprido, do desejo por poder e do desejo de se tornar reconhecido pelos outros. Concupiscencia em grego é na verdade, luxúria, luxúria pelas coisas da vida. O apóstolo João diz há luxúria em nossos olhos, em nossa carne e nos nossos desejos por manipular as coisas da vida conforme nossas certezas e presunções. Tiago nos chama "adúlteros e adúlteras" por mantermos laços e alianças com um sistema oposto ao Reino de DEUS.

 "De onde procedem guerras e contendas que há entre vós? De onde, senão dos prazeres que militam na vossa carne?  Cobiçais e nada tendes; matais, e invejais, e nada podeis obter; viveis a lutar e a fazer guerras. Nada tendes, porque não pedis; pedis e não recebeis, porque pedis mal, para esbanjardes em vossos prazeres"


Ah, quando vamos aprender definitivamente que aquilo que é elevado diante dos homens é abominação diante de DEUS?


Sim. O Cristo Transcendente nos impacta e nos magnifica tanto que ficamos sem fôlego diante de Sua Glória. Queremos fazer como Pedro no Monte: "Porque sair daqui, mestre? Está tão bom! Façamos umas tendas para nós e passemos muito tempo em adoração vertical, entoando hinos ungidos para que o Reino venha o mais depressa possível!" (Não é essa a ênfase do movimento que pretende restaurar a "tenda de Davi"?) Lá embaixo, porém, uma multidão de necessitados esperava a Luz que Pedro queria só para si.

De novo eu pergunto: Como temos lido as Escrituras? Qual a ênfase que temos dado às verdades deixadas para nós? São elas um retrato da realidade que JESUS veio nos legar ou um reflexo de nossos próprios egos monstruosos?

O EVANGELHO DA "KENOSIS" DE NÓS MESMOS

Realizações mais "modestas" podem ser atribuídas aos que dão ênfase ao Cristo ìntimo, pois quase sempre seus feitos não são propagados ao grande público. Geralmente eles estão ocupados demais servindo a DEUS com oração e lagrimas e ao próximo com sua própria vida. Esses são daqueles que são enviados como ovelhas em meio a lobos, são fermento que se mistura a massa e sal que se dilui para dar sabor. Geralmente, não se atribui a eles o adjetivo "ungido do SENHOR" porque não aparentam grande erudição ou eloquencia no falar e não ocupam muito lugares como púlpitos ou telas de televisão. Não estão envolvidos em grandes projetos arquitetonicos mas na restauração de pessoas falidas. Não estão interessados em encher lugares mas esvaziar a si mesmos de toda pretensão humana. Não estão interessados em carregar pedras para construir pirâmides, nem para os outros nem para si mesmos. Estão mais interessados em descobrir o significado real daquelas inigmáticas palavras "É preciso que eu diminua para que Ele cresça". Não estão procurando algum tipo de serviço religioso para se sentirem acolhidos ou de bem com sua consciencia. Muitos deles preferem o deserto onde não podem contar com ninguém a não ser aquilo que carregam consigo para a jornada.

Recentemente, o mundo teve notícias de tal tipo de gente quando alguns missionários cristãos da agência humanitária IAM foram mortos numa ação talebã no Afeganistão. Alguns já estavam naquele país há décadas  prestando assistência médica e educacional àquele povo tão sofrido. Não há notícias de que algum deles fosse da classe especial dos "ungidos do SENHOR", não tinham titulos ou pompa a distingui-los, mas certamente uma coroa de glória os espera nas bodas do Noivo por terem dado suas vidas a outras vidas naquele lugar ermo, frio, rochoso e desolado para a glória do verdadeiro Evangelho e seu SENHOR. Fica aqui uma singela homenagem a esses mártires cuja morte invejo do fundo da minha alma, pois são dignos de serem chamados heróis.

Uma das passagens que mais me agrada em todo Novo Testamento está em Filipenses  2, que trata do assunto chamado comumente "Kenosis" de Cristo, ou "esvaziamento", o processo pelo qual Ele despojou-se de Sua Glória para tornar-se homem. G.K. Chesterton intuiu que "O cristianismo é a única religião do mundo a sentir que a onipotência tornava Deus incompleto" (Ortodoxia; pág.227). Ou seja, tanta Onipotencia deixava DEUS fraco e ainda o deixa hoje. Fraco perante homens que pretendem que Ele conserte todas as coisas com um lance mágico. Fraco perante outros que gritam como gritaram para Ele debaixo da Cruz, numa última tentação: "Se és DEUS, aja como DEUS, salva a ti mesmo e a todos". A Cruz é a resposta de DEUS para todos estes. Viver é perder e perder para ganhar. Perder o quê? A forma humana de pensar e realizar. Na minha humilde opinião DEUS completou na Cruz a sua própria Kenosis que começou na Criação de todas as coisas, pois um DEUS onipotente e eterno que não precisa de nada nem ninguém, está se esvaziando e atribuindo a si mesmo uma necessidade, uma dependencia, por assim dizer, da coisa criada, imperfeita e falha como nos tornamos, por sua própria escolha em amar-nos como a Si mesmo e dedicar-nos a Sua atenção e afeição. Ao fazer tudo isso, DEUS já estava se esvaziando desde o primeiro momento e completou sua obra cravado por Amor numa cruz feita para gente desgraçada na sociedade de perfeitos dos homens. Não importa o que digam, DEUS só vai se tornar pleno novamente quando nos reunirmos em Seu seio definitivamente, pois ainda tem dores pelo nosso estado. Paulo dizia que importava que ele cumprisse o que restava das dores de Cristo enquanto vivesse.

Essa autolimitação imposta por DEUS no que concerne à liberdade de escolha e decisões que devem ser tomadas pelos humanos, não implica na perda de suas capacidades, mas na firme decisão de não intervir como DEUS em assuntos que de outra forma definem nossos passos. DEUS não vai agir como DEUS nem mesmo para intervir nas escolhas que afetam os rumos da natureza, dos rumos políticos do mundo ou do estado da Igreja. Ele completou o seu trabalho de intervenção na História e só voltará a agir assim nos eventos finais que antecedem o fim do governo humano sobre o mundo. Por enquanto, cabe a nós decidir que tipo de leitura faremos do Seu Evangelho e como podemos imitar melhor o Seu exemplo. Me parece que se nos esforçássemos realmente para segui-lo, um outro tipo de "cristão" estaria emergindo das igrejas.

JESUS não era um "cristão", já o disseram, e isso é correto. Um cristão é alguém que foi perdoado por seus pecados, já Cristo ele mesmo carregou os meus, já que não possuia os seus próprios, por definição de origem. Mas o que é ser cristão, na acepção da palavra? Não é me tornar semelhante a Ele? E o que aquilo que se pratica dentro do cristianismo ocidental me ajuda nisso? Qual das práticas comuns dentro das instituições evangélicas seriam comuns ao viver e ao andar de JESUS Cristo na Terra, visto que é o único Cristo que podemos realmente conhecer visto que os Evangelhos tratam de Sua encarnação?

O cristianismo é um produto da mente ocidental, da encruzilhada do pensamento hebraico já helenizado com o pensamento romano também fortemente influenciado pelos gregos. Dessa forma, temos uma mescla do pensamento filosófico grego com um sentido muito forte de organização dos romanos dentro de nós. O pensamento de JESUS me parece se inclinar para outro polo, ou hemisfério. O pensamento dele parece mais orientalizado, mais interiorizado. Nós, homens do Ocidente, olhamos para fora, para o oeste, rumo a conquistas e realizações. JESUS parece olhar para o sentido oposto, para o Oriente, para leste, para o interior. O poente indica a noite que sucede um dia todo de trabalho árduo. O nascente sempre fala da longa vigília que antecede o dia e a esperança da Luz, quando as trevas são dissipadas. Talvez por isso, o pensamento de JESUS ache mais consonancia com alguns mestres orientais, os quais sempre preferiram a introspecçao, a meditação e a contemplação, o esvaziamento do ser.

Essa poderia se tornar a direção para  qual deveríamos finalmente olhar após duzentos séculos de tentativas frustradas que nos levem a uma espiritualidade verdadeira e plena. Nos despir de nossos pressupostos ocidentais e desaprender o modo como aprendemos o Evangelho. em psicologia isso chama-se "interioração", o processo pelo qual passamos a nos conhecer melhor, e enfrentar nosso inconsciente que pode estar "zangado" conosco depois de toda uma vida tentando construir baseado no ego, no eu. Esse é  trabalho da segunda metade da vida, da chamada meia-idade. Creio que, inconscientemente, isso está se manifestando no meio cristão com pessoas buscando uma ênfase diferente, retornado aos pequenos grupos de comunhão e oração, buscando uma forma diferente para adorar e servir uns aos outros.

 É o momento da Kenosis da Igreja, o momento em que devemos diminuir e sair de cena e nos voltar para dentro de nós mesmos e desaprender o que tem sido ensinado em dois mil anos de desvio, redescobrindo o valor da pérola escondida no meio do campo no qual construimos tantos edifícios e estruturas inúteis. Simples e radical assim, como o Mestre o foi entre nós. Menos é mais para DEUS.

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O Cristo Transcendente e o Cristo Íntimo


JESUS, O Cristo, é buscado todos os dias nos quatro cantos do mundo por cerca de 1,7 bilhões de pessoas que se declaram cristãs. As formas de culto podem variar, o formato das orações também, a cultura em questão pode influir no ritual e nas roupas dos sacerdotes, mas todos partem do mesmo princípio, o do Evangelho, nos quais JESUS é apresentado como Filho de DEUS Pai, como Verbo Encarnado para se tornar o Cordeiro que tira o pecado do mundo.
Não obstante as infinitas possibilidades de leituras e concepções, JESUS é DEUS para boa parte da humanidade vivente atualmente no mundo e assim ele é apresentado todos os dias nos templos cristãos espalhados pelos continentes. Não importa o formato da liturgia, seja ortodoxa grega ou russa, católica romana ou anglicana ou luterana, ou baseada no protestantismo do "american way", JESUS é o DEUS que é buscado nas orações e proclamado nos sermões a fim de que se possa alcançar algo em qualquer nível. Multidões correm aos templos buscando desde realizações pessoais a um chamamento divino que empreste algum valor às suas vidas ou mesmo, no caso das teologias mais antigas, uma plácida aceitação da vida que as pessoas sorvem como sopa de xuxu feita em hospital. 

Em todos esses casos, o objeto da busca, Aquele que é desejado, está do lado de fora, é o Cristo Transcendente, Aquele que ascendeu aos céus diante dos apóstolos no primeiro capítulo do livro de Atos. Como está assentado à direita de DEUS Pai, como reza o Credo, espera-se tudo desse Cristo, pois Ele pode tudo. Ele é onipotente, onisciente e onipresente. Não possui fraquezas como aquele de Nazaré que chorou e sangrou de angústia e tristeza, pedindo para que o Pai mitigasse seu martírio, se exasperou e se irou contra os vendilhões do templo caindo sobre eles de porrada e repreeendeu duramente, pra não dizer que xingou, seus discípulos ("Ó geração incrédula e perversa! Até quando estarei entre vós e até quando vos sofrerei?"). O Cristo Transcendente é buscado acima de tudo por sua virtude de levar para o céu os cristãos obedientes e também pelo seu poder para reverter as situações adversas na vida do crente. 

Sua capacidade (comprovada!) de realizar milagres e intervenções nas vidas é testada e levada aos limites da tolerância de Sua vontade todos os dias, aliás, como foi naquela ocasião em que, após uma multiplicação de pães para alimentar uma multidão, muitos queriam aclama-lo como rei de Israel. Muito conveniente lógico, ter um messias que realizasse todos os dias o mesmo milagre, fornecendo pão e peixe a todos sem custo nenhum. Tal disparate foi prontamente rechaçado pelo Nazareno como mais um sinal de que não estavam interessados na mensagem que Ele trazia, mas nos milagres que realizava. Queriam um Messias senil que lhes satisfizesse as necessidades como um gênio da lampada. Como disse JESUS, o verdadeiro Pão, Aquele descido do céu, o verdadeiro alimento, o maná escondido, eles não desejavam. E os escandalizou realmente ao dizer que aquele que não O comesse e O bebesse não poderia entrar no Reino. Comer sua carne e beber seu sangue, uma imagem antropofágica horrível para a época e para a mente judaica, para faze-los desistir de persegui-lo como se Ele fosse um Moloc encarnado. 

A massa idólatra se escandaliza do Evangelho verdadeiro, porque lhes parece que DEUS lhes pede algo pesado demais, lhes pede para desistir e abrir mão do que almejam fazer de suas vidas. Matutos que são, dizem, votando-lhe as costas: "Mas que lhe custa isso?". A mensagem lhes soa mais dura porque DEUS lhes fala mais asperamente por que áspero é o seu ouvido e duro o solo de seu coração e o tratamento de DEUS é conforme a nossa dureza e aspereza. Mesmo os discípulos, que o seguiam mesmo sem compreender perfeitamente e estavam acostumados a ouvi-Lo ensinar por parábolas, sentiram tinir os ouvidos e soltaram: "Duro é este discurso! Quem poderá suporta-lo?" Muitos dos discípulos o deixaram naquele dia. O Evangelho, as Boas Novas do Reino, já não era tão encantador.

O Evangelho verdadeiro exposto por JESUS envolve uma tensão e um contraste constante entre carne e espírito, vontade própria e vontade de DEUS, renúncia e aceitação, morte constante e vida abundante, luto e pesar diante da vida e ao mesmo uma alegria de viver acima da média normal. É dicotômico, paradoxal e por isso exige o máximo empenho mas o mínimo de esforço. Quem consegue viver em contínua angústia criativa como a parturiente que tem uma vida que deseja emergir de dentro de si a cada momento até o fim da vida? Assim é o Evangelho, a Árvore da Vida que germina dentro de nós a partir de uma pequena semente e que, crescendo, se espalha e se ramifica por todos os lados, entrincheirando suas ramagens por todos os poros do ser, a fim de sufocar nossa vocação para o mundo e seus apetites, sendo, nesse sentido, a morte não desejada pelo eu. Como disse JESUS "Quem amar a sua vida, perde-la-a e quem neste mundo odiar a sua vida, guarda-la-á pra a vida eterna". JESUS nunca "doura a pílula" e se expressa sempre em termos absolutos, mesmo correndo o risco de ser mal interpretado.

Bem menos conhecido, porque menos divulgado e menos popular é o Cristo íntimo, Aquele que só se pode encontrar quando estamos a sós no quarto escuro ou assumimos o lugar, nosso por direito, como sacerdotes e adentramos naquele recôndito tenebroso onde só podemos ir desprovidos de nossas máscaras, sendo o que somos. Nesse lugar interior, que corresponde ao Santíssimo Lugar, ou Santo dos Santos, do Tabernáculo de Moisés, não há luz exterior. A Palavra nos diz que sua luz deveria vir diretamente da Glória de DEUS (Shekinah) que emanava da Arca da Aliança depositada ali, dentro da qual repousaria as tábuas da Lei. Posteriormente, também foram depositadas ali dentro a vara de Aarão que floresceu e um pote de ouro contendo um ômer (cerca de 3/5 litros de maná). Como posso expressar o que tudo isso representa como símbolo de uma realidade espiritual para todos nós? Os símbolos, sombras e tipos da Antiga Aliança apontam para a realidade e a Verdade em JESUS e, absorvendo-os estamos absorvendo o mistério da encarnação do Verbo divino, que transforma essa informação dentro de nós em vida. Tudo ali é um símbolo do cumprimento da vinda em carne Dele, mas também um símbolo muito forte da realidade do que deve se desenrolar em nosso interior, desde a aceitação do sacrifício expiatório lá fora no altar, passando pela comunhão com os irmãos e o brilho da Presença no Santo Lugar tudo aponta para o cumprimento profético da Palavra em nosso interior mais adiante.

Assim, o Santo dos Santos está no nosso mais íntimo, onde só nós mesmos podemos ministrar a DEUS e sermos transformados pela Sua Glória. Dentro da Arca da Aliança está a Lei, símbolo da lei moral que governa a consciência de todos os homens e que os condena diante de si mesmos. O propiciatório com os dois querubins era o lugar sobre o qual o sumo-sacerdote espargia o sangue da sacrifício expiatório uma vez por ano. O sangue de JESUS foi oferecido sobre o propiciatório das nossas consciências para que ela não os condenasse mais libertando-os da culpa de Adão. A Lei Moral já não nos condena diante de DEUS.A vara de Aarão fala da Árvore da Vida que floresce por ocasião da nossa escolha por DEUS para que tomemos nosso lugar como sacerdotes e a autoridade que advém disso para propagar o Evangelho. O maná escondido fala do Pão Espiritual dado àqueles que vivem de toda palavra que sai da boca de DEUS. Toda essa provisão espiritual só está acessível àqueles que tiverem ousadia para entrar no Santo dos Santos "pelo novo e vivo Caminho que ele nos consagrou pelo véu, isto é, por sua carne".

Se encontrar com esse JESUS demanda hoje uma trabalheira danada, porque implica em abrir mão da nossa agenda, abrir espaço para DEUS onde não há espaço nem para nós mesmos, exige de nós um NÃO-FAZER quando somos ensinados sempre a fazer algo de nossas vidas. Dessa forma, levamos nosso ativismo para dentro da Igreja, somos afoitos e angustiados por receitas que dêem certo, por resultados imediatos.

Um certo amigo meu está descontente com sua congregação. Sendo um preletor eloqüente e bastante experiente e com inclinações para liderança, algumas pessoas de sua congregação o procuraram para dizer-lhe que o apoiariam se começasse ele mesmo um trabalho novo. Embora diga que não, a soma de vários fatores me fazem acreditar que ele está inclinado a aceitar tal oferta e dar início a uma nova comunidade. Seu discurso envolve certa dose de frustração com o desejo de usar melhor seus talentos para DEUS e isso não é um mal em si mesmo. O perigo se esconde nas entrelinhas do que ele fala mesmo sem perceber usando termos como "quero ver resultados" e "sei que eu posso fazer mais". Aliando isso ao fato de que as pessoas que o procuraram, que já deveriam estar amadurecidas na fé e buscando alimento sólido na fonte, certamente procuram um líder carismático para lhes servir de inspiração e sacerdote-mor, temos a mesma receita venenosa que temos visto seguidamente e que nos deixou no estágio em que estamos hoje. Sua ansiedade em dar fruto e ser "melhor aproveitado" está ligada a urgência com que vê a vida passando. Projetando essa pressa em DEUS, ele se vê cobrado, mas a ansiedade nunca foi uma boa receita para realizar algo no Reino dos Céus. Eu não vejo um DEUS apressado e nem vejo como pressionar DEUS com nossos planos por melhor ou mais bem intencionados que eles sejam. O trabalho de DEUS hoje é o mesmo que sempre foi: o de transformar as pessoas de dentro pra fora num processo que leva o tempo de uma vida humana. Alguém já disse que os moinhos de DEUS moem vagarosamente e assim é.

JESUS disse: "Quem crer em mim, como diz a Escritura, rios de água viva correrão do seu ventre". Isso indica ênfase numa ação que vem do interior, não o contrário. JESUS prometeu estar conosco todos os dias mas de que forma?

Lucas 17:20-" Interrogado pelos fariseus sobre quando viria o reino de Deus, Jesus lhes respondeu: Não vem o reino de Deus com visível aparência.21- Nem dirão: Ei-lo aqui! Ou: Lá está! Porque o reino de Deus está dentro de vós."


Com que aspecto da Verdade nós temos lidado? Qual a ênfase que os líderes dão ao fato de que temos que conhecer a esse Cristo íntimo, ao Mestre de nossa nova natureza principalmente do lado de dentro? Quanta atenção temos dado ao espetaculoso e ao exterior sem olhar para dentro do odre? Não podemos servir ao DEUS verdadeiro usando máscaras como se usava nos cultos de mistério pagãos da Antiguidade. DEUS e Seu Evangelho exige que as removamos porque ele é DEUS de Verdade e está interessado primeiramente em quem somos não no que fazemos. Quando essas máscaras forem removidas uma a uma, revelando os diversos niveis de nossa hipocrisisa, então poderemos dizer que estamos ouvindo e passaremos também a enxergar O CAMINHO a nossa frente. Até lá, muitos ainda andarão em círculos. Talvez já tenha passado da hora de deixar as coisas de menino de lado.

"Varões galileus, por que estais olhando para as alturas?" - Atos 1.11


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MOSAB HASSAN YOUSSEF - DAS ENTRANHAS DO HAMAS À LUZ DE CRISTO

Num debate via telefone na quinta-feira com WND e várias publicações cristãs, Yousef explicou que, junto com o Hamas, os meios de comunicação seculares e membros de algumas denominações cristãs estão tentando desacreditar a história que ele diz no recente livro "Son of Hamas" (Filho do Hamas), que está em décimo lugar na lista de livros mais vendidos do jornal New York Times nesta semana.

É uma história que muitos acham difícil de acreditar, ele reconheceu.

Mas o "segredo é bem simples", disse Yousef, de 32 anos. "Quando o amor de nosso Senhor está no coração de um homem, esse homem age de forma totalmente diferente".

"Eles não querem admitir isso", ele disse dos que o menosprezam. "Se eles admitirem que o que mudou minha vida foi Jesus Cristo, isso abrirá muitas indagações, e eles não querem chegar a esse ponto".

Ele está agora vivendo no Sul da Califórnia depois de trabalhar junto com seu pai, o xeique Hassan Yousef, na cidade de al-Ghaniya, na Margem Ocidental, perto de Ramalá. Nesse tempo, ele abraçou de forma secreta a fé cristã e serviu como um dos principais espiões do Shin Bet, agência de segurança interna de Israel.

O Hamas rejeitou as afirmações dele como propaganda sionista, mas um de seus treinadores do Shin Bet confirmou o que ele disse para o jornal israelense Haaretz. Yousef foi recrutado pelo Shin Bet em 1996 com a idade de 18 enquanto estava num prédio de detenção do Complexo Russo de Jerusalém. Ele havia sido preso depois de comprar uma arma. Sua primeira prisão ocorreu quando ele tinha 10 anos, durante a Primeira Intifada, ou "levante", por lançar foguetes contra colonos israelenses.

No começo deste mês, seu pai divulgou uma declaração a partir da prisão israelense de que ele e sua família "renegaram completamente o homem que era nosso filho mais velho e que se chama Mosab".

Logo depois de declarar publicamente sua fé cristã em agosto de 2008, a Frente de Mídia Islâmica Global - ligada a al-Qaida - divulgou uma declaração classificando-o como um infiel que está indo para o Inferno e citando o profeta Maomé do islamismo: "Matem quem mudar de religião".

No mês passado, seu principal treinador no Shin Bet, "Capitão Loai", falou para o Haaretz de sua grande admiração por Yousef, que atrapalhou dezenas de ataques terroristas de homens-bombas e tentativas de assassinatos orquestrados pelo Hamas, salvando centenas de vidas.

"Muitas pessoas devem a vida a ele e nem mesmo sabem", disse Loai. "Pessoas que fizeram muito menos foram condecoradas com o Prêmio de Segurança de Israel".

Yousef diz que ele foi um dos que revelaram que o grupo terrorista Brigada de Mártires Al-Aqsa era composto de membros da guarda presidencial Força 17, de Yasser Arafat.

Ele ajudou a recrutar homens como Ibrahim Hamid, comandante do Hamas, e Marwan Barghouti, considerado um dos líderes da Primeira e Segunda Intifada. Contudo, Yousef convenceu o Shin Bet a poupar a vida de seu pai, que Laoi disse que se não tivesse sido pelo pedido de Yousef, seu pai teria sido "morto mais de 10 vezes". O xeique está numa prisão israelense desde que foi preso em setembro de 2005.

Yousef disse para o jornal Telegraph de Londres em agosto de 2008 que sua família estava "definitivamente sofrendo por causa do que eu fiz".

"Eles não são uma família comum, eles são uma família muito famosa, e muçulmanos no mundo inteiro louvam minha família, louvam meu pai. Por isso, quando dei um passo como esse, era impossível para eles pensarem nisso, era loucura".

Porta de Damasco
A jornada de Yousef para a fé cristã literalmente passou pela Porta de Damasco em Jerusalém, uma reconstrução da Idade Média da porta do primeiro século mediante a qual o Apóstolo Paulo viajou quando estava a caminho de suprimir de forma violenta a nova seita que ele considerava herética.

Nesse lugar histórico em 1999, Yousef e dois amigos se encontraram com um cristão britânico que estava visitando Jerusalém com um pequeno grupo evangelístico. O homem, um motorista de táxis na Inglaterra, que ficou em Jerusalém durante poucos dias, o convidou para um estudo da Bíblia na Associação de Jovens Cristãos perto do Hotel Rei Davi na Jerusalém ocidental.

"Peguei a Bíblia e comecei a estudá-la", Yousef disse para os jornalistas na quinta-feira. "Levei seis anos para estudar o Cristianismo, estudar o islamismo tudo de novo e estudar ainda mais as outras religiões".

Em seu livro, ele narra um momento decisivo em sua "odisséia espiritual" quando seu melhor amigo o dirigiu a um programa na Al-Hayat, uma estação de TV cristã via satélite em árabe.

Ele assistiu enquanto um idoso padre copta chamado Zakaria Botros "sistematicamente" realizava uma "autopsia no Corão, abrindo-o e expondo todo osso, músculo, nervo e órgão, e então pondo-os sob o microscópio da verdade e mostrando que o livro inteiro é canceroso".

Yousef disse que ele não consegue indicar o dia ou a hora em que ele se tornou cristão, porque foi um "processo de seis anos".

"Mas eu sabia que eu era cristão, e sabia que eu precisava ser batizado".

Os treinadores de Yousef no Shin Bet lhe disseram que eles não viam problemas em sua fé cristã enquanto ele não a revelasse a ninguém mais e não fosse batizado. Yousef cria que eles estavam mais com medo de perdê-lo como espião do que de algum problema que uma declaração de conversão pudesse lhe trazer.

Mas em 2005, não muito depois que ele assistiu ao padre copta cortar e expor "todos os pedaços mortos de Alá que ainda estavam ligados ao islamismo e me cegavam para a verdade de que Jesus é o Filho de Deus", ele literalmente arriscou-se, entrando nas águas do mar Mediterrâneo numa praia de Tel Aviv numa incomum cerimônia de batismo "secreta" realizada por um cristão de San Diego, EUA, que estava de visita.
Agora, Yousef reside na região de San Diego, onde ele freqüenta a Igreja da Estrada de Barrabás. Ele perdeu contato com o motorista de táxis da Inglaterra.

"Encontrei-me com ele apenas duas vezes. Não sei onde ele está, mas oro por ele sempre", disse ele na quinta-feira.

A maior mentira da história
Com 10 anos de luta contra o terrorismo em sua experiência passada, Yousef se vê agora como numa missão nova, mas não menos provocativa - libertar muçulmanos do "deus do islamismo".

Ele frisa que os muçulmanos não são seus inimigos.

"Meu coração se quebranta por eles", ele disse para os jornalistas na quinta. "É isso o que quero que eles compreendam. Não estou aqui lutando contra muçulmanos. Estou lutando contra o deus deles, e creio que o maior inimigo que os muçulmanos estão enfrentando é seu deus e seu profeta".

Maomé, disse Yousef, começou 1.400 anos atrás com uma mentira que ele "embrulhou com revestimentos de fatos, verdade, obras de caridade e boas coisas".

"Por isso, ele é uma mentira perfeita", ele disse. "Creio que o islamismo é a maior mentira da história humana. É desse jeito que creio. Os muçulmanos são vítimas dessa mentira".

Agora, disse ele, é a "hora de eles despertarem dessa mentira, para serem corajosos o suficiente para enfrentá-la".

Ele reconheceu que suas palavras ofendem a muitos de forma extrema.

"Mas alguém precisa dizer a verdade e lhes dizer isso com muito amor", disse ele.

Yousef disse que quando ele pesquisou em busca da raiz dos problemas na face de seus compatriotas palestinos, ele chegou à conclusão de que é "o deus do islamismo".

Mas ele argumenta que o obstáculo principal para persuadir os muçulmanos a abandonar o islamismo é não convencê-los de que "Maomé é um mentiroso".

"O problema que eles enfrentam é que eles não têm a coragem de enfrentar as conseqüências se reconhecerem isso", disse ele.

Algo muito melhor do que esta vida
Yousef disse na quinta que ele não espera que sumam as ameaças à sua vida que começaram no dia em que ele declarou sua fé em Jesus Cristo. Embora diga que ele "não parece alguém que quer morrer", ele "não vai se esconder".

"Como crente em Cristo, creio em suas promessas, e creio que ele está preparando algo muito melhor do que esta vida", disse ele.

"Se o preço para espalhar a mensagem for meu sangue ou minha vida, assim seja. Não desejo morrer, mas provavelmente esse é melhor jeito de divulgar a mensagem", disse Yousef. "Continuarei fazendo o que tenho de fazer, o que é certo fazer, e se o resultado for me matarem por essa causa... todos vão morrer algum dia".

Respondendo à pergunta de quinta acerca das políticas do governo Bush e Obama de declarar o islamismo "uma religião de paz" e insistir em que os EUA não estão numa guerra contra o islamismo, Yousef deu sua opinião: "Com todo respeito ao senhor presidente, há um engano imenso".

"Eu os incentivo a ler o Corão, capitulo 9, versos 5 e 29, que instituem a pena de morte a todos os que não crêem no islamismo", disse ele.

"Isso não é novo", acrescentou ele. "Essa não é a idéia de um muçulmano radical. Essa é a ideologia do próprio deus do islamismo. Por isso, não podemos mudar o que está no Corão, e nenhum muçulmano tem a autoridade de mudar isso".

Ele compreende que diplomatas e governos têm limitações, mas crê que a ameaça permanecerá, a menos que se lide com a razão dos islâmicos que fazem guerra santa.

Yousef disse que seu chamado é desafiar o problema em seu ponto central.

"O que os governos estão fazendo? Eles estão lidando com alguns terroristas, radicais aqui e ali, mas estão ignorando, com certeza, a realidade do islamismo", disse ele.

Depois de uma década de "luta contra o terrorismo", ele disse que ficou claro que "estamos lutando contra um fantasma".

"No fim do dia, a razão deles ainda está ali", disse ele. "O melhor jeito de detê-los é lutar contra a ideologia deles. Se não lutarmos contra a razão deles, se não lutarmos contra a ideologia deles, se não desafiarmos a ideologia deles, continuarão aparecendo homens-bombas e extremistas".

Ele disse que a tarefa não pode ser o dever do governo.

"Pedimos que o governo nos dê espaço para trabalhar", ele disse. "Se não quisermos passar por esta guerra, esse é o dever de todo homem livre deste mundo. Não só do Cristianismo, mas de todo homem livre".

Em sua entrevista ao Haaretz no mês passado, ele disse que muitos crêem que os terroristas são motivados pela "ocupação" israelense. Mas "tudo isso é apenas o pano de fundo", insistiu ele.

"Não é a raiz do problema. A ocupação é como a chuva que cai em solo em que a semente foi plantada, mas não é a própria semente", disse ele.

"A raiz do conflito entre israelenses e palestinos não está na segurança ou nas políticas: é uma guerra entre dois deuses, duas religiões", argumentou Yousef.

O Corão, explicou ele, ensina que a terra da Palestina é uma doação sagrada [para os muçulmanos], um "Waqf", que não deve ser entregue a ninguém mais.

O problema de Israel, disse ele, não está "no Hamas ou em qualquer outra organização, nem na interpretação que o Hamas tem em sua leitura do Corão. O problema está no deus do Corão".

Até mesmo os "muçulmanos moderados" que lêem o Corão, argumentou Yousef, "têm de ler que os judeus são filhos de macacos e que os infiéis têm de ser mortos".

Os palestinos têm de parar de culpar Israel, ou o Ocidente, por todos os seus problemas", disse ele. "Se querem verdadeira liberdade, eles têm de se libertar de seu deus".

Tradução: Julio Severo

A trajetória de Hassan impressiona pois mostra-o como um ser humano real, cheio das contradições e e ambiguidades próprias de nossa natureza. Talvez alguns o julguem pelo fato de ter ajudado os israelenses a mandar alguns de seus antigos amigos para uma prisão onde certamente seriam torturados como ele mesmo foi. Talvez alguns pensem que ele só fez isso pensando nos benefícios que receberia por colaborar, indo morar nos EUA e não permanecendo na Palestina. Alguns vão pensar que sua posição é meramente uma mudança cultural e que hoje ele prefere o modelo ocidental de vida, americanizado e fútil. 
Poucos podem entender que a verdadeira mensagem não é cultural nem política e que a postura dele não reflete apoio às politicas sionistas e imperialistas dos americanos, embora ele tenha colaborado com Israel para evitar massacre de inocentes e a imolação de idiotas no altar da ignorancia. Sua posição reflete a verdade de que nenhum dos lados entende que são nossas ideologias é que nos separam e constroem os muros de ódio. 
Toda e qualquer filosofia e posicionamento político ou religioso adotado por nós gera muros de segregação e desconfiança transformados em armas no curso das gerações. Desaprender a usar essas armas e subterfúgios é a prerrogativa de quem pôs os pés no Caminho. JESUS é o supremo educador da humanidade rumo a um novo paradigma de vida e compreensão do que é o ser humano em sua inteireza. O Evangelho não pode ser usado para outra coisa senão ensinar aos homens que o Amor de DEUS e o Perdão em JESUS são os únicos meios pelos quais o ser humano pode ser mudado por dentro, não as agendas políticas ou discursos filosóficos baseados em códigos morais. JESUS veio abolir os muros e fronteiras entre os homens de todas as culturas e não promover o ocidentalismo ou o sionismo como meios de vida legítimos. 
Se todo cristão fosse esclarecido disso como Hassan, muito tempo seria poupado para que os cristãos se tornassem realmente o sal da terra e não religiosos fanáticos enfurnados em seus templos cumprindo a agenda consumista de líderes miopes que só querem engrandecer seus próprios "feudos". 
Armados unicamente com o Amor e o Perdão reconciliador do Evangelho aos homens seríamos como "homens-bombas" da Verdade e nada poderia calar um geração que nada teme movida unicamente pelo Sopro da Eternidade dentro de si.

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