13 abril 2010

QUAL A LIÇÃO DEIXADA POR ANANIAS E SAFIRA? Parte II

O INFERNO COMO VINGANÇA?

A religião, como sempre, usurpou termos como pecado e inferno e nunca nos trouxe uma compreensão maior de como isso pode se conciliado com a Verdade que diz "DEUS é Bom", somente contribuiu para o entendimento pueril que se tem hoje sobre o assunto. Ora, dirão alguns, se Ele é Bom porque permite esse estado de coisas e como pode permitir a existencia de um lugar como o inferno? A doutrina do inferno é o pináculo no qual se regozija o cético. De pronto, pensamos em repudiar tal pensamento, por sua repugnância, porque pensamos da seguinte forma: "Como posso me alegrar no céu ao mesmo tempo em que sei que, no mesmo instante, tantos incautos sofrem eternamente?" Como conciliar o gozo eterno lado a lado com uma punição eterna? Nossa justiça comum se avilta ao pensar nessa possibilidade e se é assim, porque deveríamos pensar que DEUS, se é realmente DEUS com maiúsculas, tem uma senso de justiça e bondade menor que o meu? Não seria o caso de pensar que é meu entendimento(como no caso da minha má consciência herdada de Adão que me fazia ver DEUS como um pai castrador e também no tocante ao fato do que é arrepender-me realmente)que está mau direcionado neste caso também?

Primeiro: a doutrina do juízo final e do lago de fogo eterno pertence a ordem das coisas que ocorrerão após fim dos tempos, ou seja, pertence a ordem da Eternidade, cujo entendimento nos escapa, porque nossa mente está presa ao tempo/espaço. Qualquer teólogo que apoie a sustentabilidadede de uma doutrina que diga que o inferno é o céu estão ocorrendo agora em lugares separados deverá se apoiar em poucos textos de claro teor simbólico. A parábola de Lázaro e o rico é uma delas. A verdade que JESUS quer salientar não é tanto a vida pós-morte, mas a instante necessidade de que o vivo na época observe a Lei de Moisés e a Misericórdia inserida nela para com os pobres como o código que o conduz a vida plena no porvir. JESUS ensinou isso usando um entendimento comum na sua época para muitos judeus. Tudo o mais na Bíblia, não nos encoraja a pensar que a Eternidade já está rolando neste instante, tanto para os salvos quanto para os perdidos. Tudo se passa como se o tempo/espaço só existisse para nós e  que para DEUS, que olha de fora, só existe um único instante eterno. Por isso, DEUS é DEUS dos vivos, não dos mortos. Não há nada que nos autorize a pensar que Paulo, ao dizer que preferia partir para estar com Ele, está falando em termos literais. As visões de Apocalipse são simbólicas e não podem ser tomadas como visões literais do que acontece, aconteceu ou acontecerá na Eternidade. Muitos acham que nesse instante, os vinte e quatro anciãos estão jogando suas coroas em adoração e os quatro animais estão mugindo/rugindo diante do trono e por aí vai. No meu entender, todos os que tiveram suas lampâdas apagadas ou o plugue retirado da tomada, nada testemunham, como diz Eclesiastes. Falar até mesmo que "esperam, "aguardam" ou "dormem" exprime uma ação que lhes é impossível. Esse sistema de coisas findou-se para eles. Como já disse, só há outro sistema para o qual estamos previstos: a Eternidade, visto que o outro nível é o nivel angelical, do qual nem suspeito, mas, arrisco-me a dizer, não é um terreno do qual possamos partilhar. Para nós, enquanto durar isso, nos parece que também eles (os que morreram) "esperam", por assim dizer, que tudo se resolva, mas, e para DEUS, o que é esse momento? Haverá uma real distinção para ele? 

Segundo: conforme a Bíblia, o inferno não foi preparado para o homem, mas para o diabo e seus anjos. Suas penas e castigos foram projetados para esse fim. Significa que o homem se candidata a ele voluntariamente. O que quer que queira significar Eterno realmente eu não sei, não possuo medidas para me certificar, mas não deve se parecer com a noção que temos de tempo/espaço que  temos aqui, que exprime ação continuada, um momento após o outro. Há dois conceitos expostos por JESUS quanto a essa idéia: tormento (Mateus 24:51; Mateus 24:51; Mateus 8:12) e destruição (Mateus 10,28). 


A idéia de destruição da alma no inferno é muito combatida no meio evangélico, mas os originais gregos usam o termo apollumi em contraponto ao primeiro termo apokteo. Apollumi tem ligação com a palavra apolion, e quer dizer extinção, destruição, ruína total, sendo uma palavra bastante mal interpretada em Apoc. 9,11. Ali, lemos "e tinham sobre eles, como seu rei, o anjo do abismo, cujo nome em hebraico é Abadom, e em grego, Apoliom". Geralmente, as pessoas acham que esses nomes se referem ao anjo do abismo descrito na passagem, mas enganam-se. Não há nenhuma tradição hebraica que nomeie um anjo do abismo chamado Abadom, mas a palavra é usada nas Escrituras sempre num paralelo com Seol, sepultura, e traduzida quer dizer, lugar de destruição, assim como seu correpondente Apoliom em lingua grega. A idéia do escritor apocalíptico não é nomear ninguém com o nome abadom, ou apoliom, mas simplesmente indicar que aquela praga infernal terá o poder de matar, exterminar, enviar para a sepultura indiscriminadamente.


Traduzir Seol como "Além", como vemos de modo corriqueiro, não representa uma tradução correta, mas uma IDÉIA INCORRETA sobre a vida pós-morte, uma idéia profundamente grega, platônica. Assim também, ver em Abadom uma personificação espiritual é fugir do sentido clássico para o qual a palavra foi usada originalmente:.


" A sepultura (seol - note que algumas traduções arcaicas dizem "além") está desnuda perante ele, e não há coberta para a destruição (abadom - a destruição que opera ali, na morte)" -  Jó 26,6 


Note o emprego do termo em outra passagem - "... pois seria fogo que consome até à destruição (abadom) e desarraigaria toda a minha renda" Jó 31:12 


Isto só nos mostra uma coisa: como podemos ser pueris em nosso entendimento espiritual.

O que quer que seja, JESUS ressalta a imagem de algo horrível o suficiente para que gerações pintassem quadros inspirados sobre os tormentos de tal lugar. Pode ser, entretanto, como já disse alguém que foi citado por C.S. Lewis, que "o inferno é inferno, não de seu próprio ponto de vista, mas do ponto de vista celestial", ou, como disse o mesmo autor, "que os perdidos são, de certa forma, rebeldes bem sucedidos até o fim e que as portas do inferno são fechadas por dentro". Interessante observação. 

De fato, DEUS pode ter preparado um lugar para aqueles que endeusaram seus instintos, de modo que possam "gozar" de sua escolha para sempre. Desse modo, o inferno, em antítese ao paraíso, seria o lugar onde toda barreira intelectual, espiritual e moral seria banida para que o ego pecaminoso pudesse ocupar totalmente o espaço, sem restrições, sem nenhuma inclinação para a Luz. Os pecadores devassos e contumazes chegam a desejar um inferno assim, um lugar onde possam levar seu estilo de vida à um grau infinito. Quem nunca ouviu uma piadinha ou outra que fala sobre os prazeres lá de baixo em contraste à monotonia lá de cima? É manifesto, porém, que o pecado é como uma droga e nunca satisfaz plenamente. Passado o momento de euforia, vem a depressão, a angústia e a desilusão. 

Antes que a idéia de um"paraíso" para pessoas libertas de qualquer freio moral surja na mente de alguns, devemos lembrar dos efeitos que certos instintos naturais causam quando desregulados ou estimulados ao extremo mesmo nesta vida. Todo vício começa de modo prazeroso, em doses homeopáticas, mas vemos no cotidiano o quanto podem sofrer pessoas que se entregaram às bebidas, à compulsão sexual, à pornografia, à glutonaria, vício em jogos, ao culto ao corpo, etc, que já não há prazer envolvido nessas práticas para os tais, mas somente culpa e dor. O inferno seria isso elevado à uma potencia infinita. É o lugar onde somos reduzidos aos instintos e subjugados eternamente por nós mesmos. Por que deveria ser diferente quanto ao indivíduo entregue à avareza, à inveja, à ira, ao sadismo, à falsidade, à mentira, etc? Mesmo aqueles que aparentemente tem uma vida pacata e regrada, mesmo religioso, o seu mundo particular o torna um obcecado por seu medíocre bem-estar e sua própria salvação individual. Não devemos demonizar o instintos, eles são essenciais para nossa relação com o mundo e as pessoas, assim como não devemos endeusar certas "virtudes", como humildade e mansidão, pois isso pode nos levar ao torpor e a inatividade. Tanto os instintos quanto as virtudes devem ser "temperadas" pelas motivações e atitudes corretas. 

É preciso dizer no que tudo isso implica: que DEUS vai até as últimas conseqüências para não revogar o livre arbítrio de cada um e garantiu até mesmo um lugar apropriado para os que assim escolherem. Mas isso não implica em que Ele deva prover algum tipo de satisfação para seus habitantes, por que tal lugar significa a completa separação entre as criaturas rebeldes e aquele que as criou, o estágio final de ruptura entre Luz e Trevas, a ausência completa da vitalidade Daquele que enche todas as coisas. Se algo pode existir assim, sem que DEUS exerça ainda que um mínimo de Sua vontade, que é boa, perfeita e agradável em Si mesma, é o inferno, e, se tudo que DEUS criou no Universo, foi preparado para propagar Vida, sua retirada completa de algo, só pode ser morte total, condenação eterna, o vácuo mais completo que já existiu. A alma humana exposta a essa tipo de ação, poderá resistir? 

Isso só nos dá uma idéia do completo horror de DEUS ao pecado. O princípio do Pecado é um item com o qual DEUS parece não apenas indisposto a negociar, mas incapaz mesmo de dar a ele outro remédio que não a lixeira eterna. Seria DEUS intolerante por isso? Mas como poderia Ele transigir com algo que não faz parte de Sua natureza? Se DEUS é Bom em sua essência, o Pecado é rebelião. Se DEUS é Amor, o Pecado  é divisão. Se DEUS é Harmonia, o Pecado é desequilíbrio da ordem natural.Transigir a isso é tornar-se  também antinatural. Penso que agora podemos tratar da problemática que envolve o tratamento dispensado por DEUS ao pecado da humanidade e da Igreja em particular.

UM LUGAR TERRÍVEL PARA O HIPÓCRITA

A passagem que nos interessa para analisar está em Atos 5, mas para uma compreensão melhor, vamos começar a leitura no final do 4, pois a divisão por capítulos e versículos da Bíblia não ajuda em nada na correta contextualização do evento. Assim, lemos no final do capítulo 4 que: "Pois nenhum necessitado havia entre eles, porquanto os que possuíam terras ou casas, vendendo-as, traziam os valores correspondentes; e depositavam aos pés dos apóstolos; então, se distribuía a qualquer um à medida que alguém tinha necessidade; José, a quem os apóstolos deram o sobrenome de Barnabé, que quer dizer filho de exortação, levita, natural de Chipre, como tivesse um campo, vendendo-o, trouxe o preço e o depositou aos pés dos apóstolos". 

Motivados pelo que viram naquela comunidade, algo novo, saudável e completamente revolucionário, dois novos seguidores decidiram aderir ao movimento, naquela época chamado de Caminho pelos que dele participavam. Conta-nos a Bíblia que "Entretanto, certo homem, chamado Ananias, com sua mulher Safira, vendeu uma propriedade, mas, em acordo com sua mulher, reteve parte do preço e, levando o restante, depositou-o aos pés dos apóstolos; Então, disse Pedro: Ananias, por que encheu Satanás teu coração, para que mentisses ao Espírito Santo, reservando parte do valor do campo? Conservando-o, porventura, não seria teu? E, vendido, não estaria em teu poder? Como, pois, assentaste no coração este desígnio? Não mentiste aos homens, mas a Deus; Ouvindo estas palavras, Ananias caiu e expirou, sobrevindo grande temor a todos os ouvintes; Quase três horas depois, entrou a mulher de Ananias, não sabendo o que ocorrera;  Então, Pedro, dirigindo-se a ela, perguntou-lhe: Dize-me, vendestes por tanto aquela terra? Ela respondeu: Sim, por tanto; Tornou-lhe Pedro: Por que entrastes em acordo para tentar o Espírito do Senhor? Eis aí à porta os pés dos que sepultaram o teu marido, e eles também te levarão; No mesmo instante, caiu ela aos pés de Pedro e expirou. Entrando os moços, acharam-na morta e, levando-a, sepultaram-na junto do marido; E sobreveio grande temor a toda a igreja e a todos quantos ouviram a notícia destes acontecimentos"

Vamos dizer aquilo que passa na cabeça de muitos após ler esse texto, mas que a maioria não tem a coragem de falar, ou questionar. Não é repugnante aos nossos olhos que alguém venha a perder a vida por uma banalidade como essas? Sim, é isso o que pensamos e afirmamos interiormente, e,embora não queiramos divulgar, uma série de perguntas afloram como uma revoada de morcegos na entrada de uma caverna: "Por que DEUS fez assim?" ; "Foi tão grave assim?"; "DEUS é avarento quando o assunto é dinheiro?". Segundo dizem, o aclamado Billy Graham manifestou seu sentimento a respeito do fato dizendo que se DEUS não começasse a matar mais gente dentro das igrejas muito em breve, Ele deveria se desculpar com Ananias e Safira. Não parece lógico que o pecado dos dois neófitos é muito menos grave do que esconder dinheiro dentro de Bíblia ou extorquir o povo na cara dura como vemos 24 horas por dia em certos ministérios mamonistas? Porque não vemos mais gente, gente que merece, segundo nossa opinião "abalizada", cair fulminada nos púlpitos? Ou será que a praga pega só em ovelha? Caramba, os mamonistas não descobriram essa tacada ainda. Imagina só: "Quem não trouxer TUDO vai cair fulminado antes do fim do culto!" Logicamente, só vai dar certo se contratarem uns atores para cairem "mortos" na hora, mas isso é fácil pra quem já serve Belial.

Questões, questões e mais questões. E as respostas? Se elas existem, são coerentes? Como sempre, nesse caso, depende do que você quer encontrar.Nem sempre a realidade nos conforta, mas as coisas são como são, não podemos moldar as coisas como achamos que deveria ser. Imagine se cada ser humano fosse um ser onipotente com sua própria concepção do que é correto e de como as coisas deveriam ser...Isso é apenas um exercício de imaginação, não vá se estressar, calma lá!Talvez as respostas que cheguei não sejam o que você quer ouvir, mas antes de descarta-la totalmente, pense se a realidade não é na maior parte das vezes um balde de água fria em nossas pretensões.

Ninguém, exceto o SENHOR, sabe ao certo quais as reais motivações do casal Ananias e Safira. Mas é certo que tentaram enganar a todos, incluindo a DEUS, declarando algo e fazendo outra coisa. Talvez, eles quisessem se aproveitar da liberalidade que viram nos crentes e viver algum tempo por ali, entre eles, tendo tudo em comum, exceto que haviam guardado algum dinheiro para o caso de mudarem de idéia. Eram tempos atribulados e, quem sabe, tinham algum plano em mente para usar o dinheiro posteriormente em alguma viagem, talvez. Talvez, ansiassem por alguma posição ou projeção naquele meio. Ou quem sabe, seguindo uma linha mais "Daniel Mastral", seriam agentes da Irmandade satãnica tentando se infiltrar na Igreja primitiva. Quem sabe, DEUS já os tivesse advertido e lhes dado uma última oportunidade para se arrepender de seu comportamento fraudulento fazendo-os ingressar na Eclesia. Na verdade, nada disso importa. Especular sobre as motivações de DEUS sobre o caso só levanta mais questões sobre o por quê Dele não usar a mesma medida, por exemplo, com Simão, o mágico de Atos 8, que queria comprar o dom do Espírito Santo com suborno aos apostolos. Uma repreeensão severa não seria mais didática?

Para mim,  a única resposta satisfatória só pode ser encontrada se traçarmos um paralelo entre dois eventos em duas épocas distintas da "Igreja". Nessas duas épocas, a "Igreja" se tornou um lugar terrível para se cometer pecados e isto está ligado ao fato de uma Presença e Ação do Espírito de DEUS mais intensa nesses dois períodos. Estou falando da Igreja Primitiva de Jerusalém e da Igreja do Deserto no Sinai. O evento paralelo a que me refiro é a morte dos filhos de Aarão, Nadabe e Abiú. Isto está descrito em Levítico 10:

1 - Nadabe e Abiú, filhos de Arão, tomaram cada um o seu incensário, e puseram neles fogo, e sobre este, incenso, e trouxeram fogo estranho perante a face do SENHOR, o que lhes não ordenara.
2 - Então, saiu fogo de diante do SENHOR e os consumiu; e morreram perante o SENHOR.
3 - E falou Moisés a Arão: Isto é o que o SENHOR disse: Mostrarei a minha santidade naqueles que se cheguem a mim e serei glorificado diante de todo o povo. Porém Arão se calou.
4 - Então, Moisés chamou a Misael e a Elzafã, filhos de Uziel, tio de Arão, e disse-lhes: Chegai, tirai vossos irmãos de diante do santuário, para fora do arraial.
5 - Chegaram-se, pois, e os levaram nas suas túnicas para fora do arraial, como Moisés tinha dito.

Este triste epísódio guarda relações profundas com o caso de Ananias e Safira. Nos dois casos, ao que parece, linhas mortais foram cruzadas sem que os autores da ação pudessem escapar ao juízo imediato. Nos dois casos as mortes foram fulminantes. No caso de Ananias, Pedro ainda insistiu com ele dando-lhe a chance de retratar-se, mas em vão. Israel, como a Igreja do novo Testamento, passou por fases de esfriamento e de avivamento espiritual, de afastamento e de manifestações do poder de DEUS, mas em nenhuma época a Presença e o Governo de DEUS no meio de seu povo foi tão efetivo quanto nos primeiros anos do deserto, assim como, em nenhum momento da Eclesia houve algo parecido com a experiência vívida pelos primeiros participantes do Caminho. Em ambos os momentos, algo inédito até então e que transcende tudo aquilo que vivemos e experimentamos hoje teve lugar e a preeminência. 


Nadabe e Abiú morreram por transgredirem um limite estipulado nos códigos entregues a Moisés. Como sacerdotes deveriam conhecer seus deveres, suas funções e proibições e as negligenciaram tomando por nada os avisos prescritos. Talvez, tomados de presunção, arrogantemente quiseram igualar-se em importância ao seu pai no ofício único do sumo-sacerdote em oferecer incenso diante do SENHOR. Ananias e Safira não possuíam um código com uma descrição detalhada de como se comportar no meio da Eclesia, mas não foram excusados por isso. "Como pode ser assim se vivemos no tempo da Graça?" - perguntará alguém. Fazemos como sempre, uma tremenda confusão entre os termos e acabamos por não saber nem como nem onde aplicar corretamente aquilo que diz respeito ao tratamento de DEUS dispensado ao seu povo tanto na época da Lei quanto na Era da Graça. Achamos que são termos excludentes porque fatiamos a bíblia em dispensações diferentes e tornamos DEUS inconstante como nós somos inconstantes. Achamos que há outra base para o relacionamento entre o homem e DEUS que não seja a Sua misericórdia, mas não há. A base é a mesma e isso podemos observar nos efeitos colaterais semelhantes nos dois casos. Achamos que o sacrifício de JESUS aplacou a ira de DEUS, exatamente como os pagãos pensavam a respeito de seus ídolos, e que agora DEUS está saciado e bem calminho no seu trono. O caso Ananias e Safira nos mostra que há algo errado com essa teologia. Ele é o caroço no angu dos amantes de um Deus ripongo paz e amor.

O SONHO DE DEUS
Na Igreja do deserto vemos DEUS se aproximando do homem e habitando entre eles. É o sonho de DEUS que venhamos novamente a habitar com Ele como nos dias antigos, no Jardim. DEUS nos criou não para que possamos adora-lo unicamente, mas para que Ele pudesse nos amar primeiro. Como nos ama tanto, procura um modo de estar perto e, se puder achar um meio, deseja habitar entre seu povo, apesar do abismo que hoje os separa e esse abismo se chama Pecado, uma anomalia que afeta a todos e a tudo, até a Criação, submetendo-a a Entropia, algo antinatural, no sentido que não foi gerado pelo poder Dele e do qual Ele não pode participar. Assim, DEUS estabelece Seu plano para que possa ter um povo que possa chamar de seu na face da Terra e revela-se a ele dando-lhe condições para que possam se achegar em segurança, apesar do pecado latentee do perigo iminente. DEUS cerca-se de cuidados e adverte o povo no monte Sinai para que não ultrapasse os termos delimitados para que "não se lance sobre eles". É o preço da habitação do Tabernáculo do DEUS que é Santo entre os homens caídos. Quando esses termos são violados, é simplesmente como se o homem transgredisse outra lei qualquer da natureza que colocasse sua vida em risco, como saltar de um penhasco e dasafiar a lei da gravidade ou mergulhar no mar e tentar respirar lá embaixo, ou como empinar pipas na ocorrência de tempestade. A diferença entre esse evento e algumas epifanias descritas nas Escrituras é que no Sinai, o Reino de DEUS e Seu governo vieram efetivamente sobre a Terra e ele estabeleceu seu Trono entre o povo escolhido. 

Para mim, a imagem do amor de DEUS nesse quadro excede a minha capacidade de compreender como um ser que nada necessita, escolheu de livre vontade, submeter-se a essas condições simplesmente para estar com as criaturas que criou e que lhe voltaram as costas e que agora apresentam sobre si, uma doença purulenta e fétida como o pecado (não para nós, diga-se). DEUS negou-se a si mesmo, abriu mão de Sua Glória, para poder estar conosco mesmo antes da Encarnação, num esforço tremendo mesmo para Ele, Onipotente, sofrendo nossas rebeldias, rebeliões, teimosias e desobediencias. Frequentemente, esse tipo de Amor, o qual DEUS escolheu ter por nós, , que isso fique claro, é mal entendido. Como sempre, tomamos as  coisas com base em nossas próprias experiencias e caráter, que é mau, e os projetamos na imagem de DEUS. Achamos esse tipo de amor doentio ou possessivo como doentios e possessivos nos tornamos num relacionamento onde estamos apaixonados e não somos correspondidos plenamente. Quando a Escritura usa a imagem de que DEUS tem ciúmes de nós, então, nos sentimos excusados e autorizados a pensar que Ele é bem mesquinho em seus intentos. Pensamos: "Se se Amor e Sua Presença é perigoso assim, para nós, porque Ele simplesmente não nos deixa?" Novamente, não entendemos que isso seria antinatural ao Amor de DEUS, mas, na verdade, Ele tem mantido uma distancia "segura" durante a maior parte da história humana. Aqui, tratamos exatamente das exceções ao caso.

Todavia, DEUS se arrisca por nós até mesmo em termos linguísticos, preferindo ser tomado por um louco apaixonado que por um "bananão" inerte. O que gera ciúmes em DEUS, falemos claramente, acende sua ira e o faz sair do sério, mesmo, é o Pecado em nós, ou antes, o Princípio que nos sujeitou e que nos submete e nos afasta DELE. Amo as imagens construídas por CS Lewis para explicar a relação que temos com esse Ser e seu sentimento por nós, o qual geralmente não desejamos e preferimos que nos esqueça e nos deixe viver para nós mesmos. Somos os soldadinhos de chumbo de "Cristianismo Puro e Simples", que descobrem que "Esse SER" quer nos transformar em gente de carne e osso, gente de verdade. A simples idéia disso traz calafrios, porque o soldadinho não sabe do que realmente se trata e acha que ficará arruinado e, no final, não será boa coisa, afinal, o chumbo é quase eterno. "Sei não..Esse Cara é esquisito". Em "O Problema do Sofrimento", Lewis disserta:


Como as Escrituras afirmam, os bastardos é que são estragados: os filhos legítimos, que devem continuar a tradição da família, são corrigidos. Para aqueles com quem não nos preocupamos absolutamente é que exigimos felicidade sob quaisquer termos: com nossos amigos, nossos entes queridos, nossos filhos, somos exigentes e preferimos vê-los sofrer do que ser felizes em estilos de vida desprezíveis e desviados. Se Deus é amor, Ele é, por definição, algo mais do que simples bondade. E, ao que parece, de acordo com todos os registros, embora tenha com freqüência nos reprovado e condenado, jamais nos considerou com desprezo. Ele nos prestou o intolerável cumprimento de nos amar, no sentido mais profundo, mais trágico e mais inexorável...
Um pai quase se desculpando por ter trazido seu filho ao mundo, temeroso de restringi-lo para que não cresça com inibições ou até mesmo de discipliná-lo a fim de não interferir em sua independência mental, é um símbolo bastante precário da Paternidade Divina.

Lewis arremata dizendo "A Igreja é a noiva do Senhor a quem ele ama de tal forma que não pode suportar a menor sujeira nela". A imagem do DEUS ciumento só é usada na bíblia para descrever a relação Dele com sua igreja, seja Israel no passado, seja a Eclesia cristã. Esta é sua propriedade particular. DEUS não retira sua Benção e Sua Graça de um mundo cada vez mais alheio à Divindade, continua a dar a chuva e as colheitas a bons e maus, mas só veremos Ele agindo como Pai Disciplinador, Dono da Sebe e Amado da Noiva com relação à sua Escolhida...Até então, pois no fim, Ele assumirá o papel de Vingador para destituir os usurpadores da herança destinada a ela. Disso trataremos depois.

Tudo que dissemos com relação a Igreja no deserto é verdade com relação à Igreja primitiva de Jerusalém. O cerimonial foi removido, as circunstancias são outras, uma outra Aliança foi firmada, mas para que a mesma Verdade pudesse voltar a ser acessível, visível e instalada entre os homens: O Reino de DEUS e o Governo de DEUS como fato físico e incontestável de Sua Presença. Como dantes, a Presença Dele não transigirá com o pecado nem por um segundo. A Igreja, assim como o arraial, e particularmente o tabernáculo, são um pedaço do paraíso na Terra, Jerusalem Celestial, território sagrado onde não adentra a imundície, como se fosse o consulado de um país em terra estrangeira. Invadi-lo significa invadir aquele país, quebrar suas leis significa sofrer as punições para tal crime prescritas naquele país longinquo.

O caso Ananias e Safira escandaliza hoje em dia, mas DEUS sinaliza através dele o seu conceito do que é Igreja, como Governo, não do homem, mas de DEUS, verdadeiramente. Como no monte Sinai, a Igreja deveria ser um lugar temido para aqueles que não tiveram suas consciencias purificadas, mas o único lugar seguro para os que ouvem o chamado como Moisés e Josué, o qual ousadamente o esperava aos pés do monte enquanto o profeta recebia o decálogo. 


Acima de tudo, a Presença Viva de DEUS é um perigo para um tipo específico de pessoa e creio mesmo que seja o caso de ambos os casos retratados. O hipócrita está a descoberto nesse ambiente. O hipócrita é odioso a DEUS porque basta-se a si mesmo. Se compraz em esfregar seu verniz diante de todos, mas seu prazer está às escondidas, em suas entranhas repulsivas, quando se ri dos outros por serem crédulos demais. Como disse Victor Hugo: "O seu sexo de demônio é duplo. O hipócrita é o horrível hermafrodita do mal. Fecunda-se a si próprio, gera-se, transforma-se. Queres ve-lo formoso? Olha-o. Queres ve-lo horrível? Vira-o". 

Lembro-me de um incidente na denominação que congreguei por quase sete anos. Estava ocorrendo um encontro onde o grupo de louvor cantava entusiasticamente por um longo tempo uma conhecida canção que conclama a DEUS para que derrame a sua shekináh no meio do seu povo. No final da noite, porém, o pastor-presidente do ministério, hoje "apóstolo", ordenou que o grupo não mais entoasse aquele cântico, por que era perigoso, visto que, se DEUS atendesse o pedido, todos ali cairiam fulminados! Achei estranho na época, como a maioria, embora não estivesse presente na ocasião, pois fiquei sabendo de tudo um dia depois, mas ninguém quis discutir o assunto, afinal, boa ovelha não contesta nada. Isso levanta questões interessantes. Fiquei intrigado me perguntando por que deveríamos temer, a menos que eu mesmo seja um hipócrita, então, é claro, devo me precaver de "ligar" algo que não poderei "desligar" depois.

Quantos líderes realmente aptos para a função sabem que a Igreja há muito tempo opera sem a Presença manifesta do Espírito Santo? Se sabem, o que fazem com relação a isso? Quantos desejam realmente o governo do Espírito dentro da Igreja? Quantos querem que a Igreja volte a ser o lugar da Presença Manifesta de DEUS na Terra? Quantos querem que a Igreja volte a ser um lugar terrível para o pecado sem medo dos efeitos colaterais? Lemos na referida passagem em Atos 5, por duas vezes, que sobreveio grande temor aos que testemunharam tais sucessos naqueles dias e nos perguntamos: Que achamos que a Presença de DEUS e do Seu Espírito deve causar em nós? Certamente, amor, alegria e paz, porque desejamos vê-Lo mais que tudo, mas não só isso, mas também, um grande Temor, pois estamos na Presença do Fogo Consumidor de Pecados, do Único Verdadeiramente Santo, que forja as estrelas e que ordena a extinção do mal, Daquele que faz uma Legião de demônios urrar de dor sem nada precisar falar. 


Vale dizer que nunca experimentamos tal Presença desse modo, nem individual, nem coletivamente. Volto sempre a C.S. Lewis. Seu Leão Aslam, em as Cronicas de Nárnia, figura de Cristo, possui uma presença que infunde terror a todos e um olhar que atravessa a alma como fio de espada. Aos puros, essa perturbação passa logo e a atração por Ele aumenta a cada instante. Ao perverso de coração, porém, seu olhar e sua presença se tornam insuportáveis e o único remédio é fugir antes de cair fulminado. Não é essa uma imagem retirada das Revelações de João daquele que é o Princípio e o Fim?

Eu realmente gostaria que a Igreja voltasse a ser um lugar terrível onde fique patente quem nós somos e quem  é o SENHOR. Operar sem esse conceito e tentar viver a fé longe dele é ser condescendente com o vício e ter medo do tratamento que cura todos os males.

Resta-nos  constatar que as épocas em que as Igrejas, do deserto e de Jerusalem, foram um lugar terrível e verdadeira sucursal do Reino na Terra, ficam restritas a um curto período de suas existencias, praticamente seus primeiros anos. Depois disso a Glória foi-se indo, esvaziando-se ao ponto de cada um fazer "o que era bom aos próprios olhos". A arca da Presença é sequestrada, levada por homens levianos e de tão profanada pelos próprios sacerdotes some sem deixar vestígios na história. Mesmo dentro do Santo Lugar, antes temido, os sacerdotes se prostituem, escrevendo obscenidades contra O DEUS Verdadeiro e inserindo ali os símbolos de algum ídolo pornográfico, como esta descrito em Ezequiel. O pátio interior do Templo, descrito como lugar santo, é tomado por vendilhões corruptos que pagam propina para estar ali.
Vez por outra, surgem homens dispostos a recuperar sua Glória, como Davi e Zinzendorf, e planejam um lugar onde Sua Arca possa estar segura e, assim cultivar a Presença. A DEUS, porém, pertence seu próprio kairós. Há tempo para tudo sobre a Terra, mesmo um tempo para que os tempos se reencontrem. Há uma medida de Glória para hoje, há uma medida da Presença para hoje, a qual não estamos buscando, mas que talvez não seja a mesma das duas épocas estudadas, mas mesmo assim, é infinitamente melhor e mais profunda do que o raso em que nos asfixiamos hoje. 


Não posso atinar sobre porque DEUS permite que o Seu Nome seja manchado de modo tão doloroso quando o Testemunho da Sua Verdade decai para níveis tão intoleráveis, como o que vemos hoje como cada um fazendo aquilo que é correto aos seus próprios olhos. Porque Ele reluta em se mostrar como DEUS e dono daquilo que leva o Seu Nome dentro das instituições eclesiais? O meu palpite é que Ele não tem compromisso nenhum com isso que chamam de "Igreja do Senhor" hoje, pois até na razão social delas consta o nome de homens que levantam suas bandeiras e estabelecem suas próprias metas de sucesso e objetivos de conquista a pretexto de pregar o Evangelho. 


Por outro lado, vejo pessoas sinceras que tem buscado soluções numa busca mais intensa pelo sentido original, pela chama que arde incessantemente na sarça. Há muita angústia e dor desse lado, mas muitos ainda tentam salvar ou remediar algo irremediavelmente perdido. Não há esperança para a igreja institucional. Não há programa ou homem carismático que a salve. Quem continuar se empenhando ali, receberá mais dores, se sentirá cada vez mais frio e, estranhamente, faminto, enquanto não abrir os olhos. É o vácuo deixado pela saída do Espírito, o frio que permeia o ar quando se apaga o fogo. Para que DEUS volte com Sua Glória Shekinah entre os homens Ele está requerendo uma coisa, uma única coisa: Simplicidade. 


Como Frank Viola apontou, Ele está procurando uma casa para repousar em Betãnia, a casa de Lázaro e suas irmãs ou de Simão, o Leproso, e não a magnificencia do Templo de Jerusalem. No Templo, Ele troveja contra os embusteiros, em Betania, Ele celebra com amigos.


Enquanto isso, até que Ele troveje novamente entre os homens, Ele espera que os sinceros se manifestem. Eles serão seus profetas nessa hora, a voz dos descontentes, dos feridos, dos angustiados, que esperavam o governo de DEUS e só encontraram o desmando dos homens imbuídos de sua hierarquia eclesiastica. 


É preciso abandonar nossa agenda pessoal e nos  tornarmos "homens de pacto", pois DEUS só tem compromisso REAL de se manifestar com PODER para aqueles que selaram um compromisso grave com Ele. É dessa dimensão que sairão "homens da Nova Aliança" que conhecem a DEUS não de ouvir falar, mas por ouvi-LO literalmente. Creio que, nesse dia, a Igreja voltará a ser um lugar terrível e, após isso, só restará o reinado do Anticristo e o fim real da História. Mas antes, é preciso ouvir o chamado para abandonar a Babilônia a própria sorte e retornar a Jerusalem e restaurar o sonho de DEUS de possuir uma base, uma plataforma na Terra, da qual Ele possa falar a gente que conhece a quem está seguindo. 

A seguir: DEUS, A ENTROPIA E O PECADO

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