24 março 2010

QUAL A LIÇÃO DEIXADA POR ANANIAS E SAFIRA? Parte I

Nota: devo me desculpar pelo tamanho da matéria. Não era minha intenção inicial escrever  tanto sobre o assunto, mas, como sempre acontece, as coisas foram emergindo espontaneamente. Sei que poucos hoje em dia gostam de perder muito tempo lendo artigos em blogs, no máximo, correm os olhos para ver do que se trata e, pronto, passam para outra página. Por isso,a maioria escreve brevemente, pra não correr riscos. Essa é a cultura da banda larga. Não sou adepto dos simplismos dessa era apressada. Gosto de teologia e isto, a meu ver, deve levar o indivíduo a "pensar teologicamente", assim como a filosofia deve levar a "pensar filosoficamene", ou a meditar sobre os argumentos apresentados. Isso leva tempo, que é, ao que parece, tudo que não possuímos hoje. Todavia, uma regra para quem tem fome por alimento sólido deveria ser não procurar se satisfazer com "fast food" no deserto, mas ir em frente  até encontrar um lugar de paz, um oásis, e pernoitar ali até descansar da jornada e satisfazer-se com águas frescas. Para facilitar a digestão, porém, decidi dividir a presente matéria em três partes:entrada, prato principal e sobremesa.



RELATIVISMO OU FUNDAMENTALISMO?
Numa época em que há pouca ou nenhuma tolerância por parte das pessoas, tanto as religiosas quanto as não-religiosas, ao se dizer que DEUS castiga o pecado na pessoa do pecador, seria útil fazer uma reflexão sobre o relato de Atos 5, da morte trágica e fulminante imposta ao casal fraudulento Ananias e Safira. 

Fazendo uma análise do presente "espírito da época" na qual vivemos, vejo que a crescente repulsa do mundo a uma visão de um Deus Santo, mas "irado" e constantemente disposto a castigar o ser humano por suas pisadas, tem causado um certo efeito incômodo em determinados setores "cristãos", que desejam falar de Cristo ao mundo, de sua mensagem de perdão e reconciliação e de amor universal sem recorrer a imagem que se tem do Deus beligerante dos judeus e católico das Cruzadas. É um temor legitimado pelo desejo de contextualizar a mensagem do Evangelho a um mundo pós-moderno e, portanto, mais liberal, no qual qualquer relação com o obscurantismo medieval estraçalha as esperanças de tornar crível o bojo do ensino de JESUS nos dias de hoje.

Não é um temor infundado. Realmente, a recepção das pessoas à mensagem evangelística está em relação direta ao tipo de Deus que eu apresento a elas. Muitos estão dizendo um grosso e sonoro não, mas não é um não a DEUS realmente, mas ao Deus da religião,  o Deus da obrigação, do cala a boca, o Deus com cheiro de vela e jeito de procissão, o Deus dos rituais vazios, o Deus que odeia os pecadores, o Deus que cobra taxa de associação, que odeia os homossexuais, as prostitutas, mas que tem por porta-vozes pedófilos de batina e pilantras engravatados que recebem e dizem "amém" à propina. 

No geral, as pessoas com um mínimo de critério e massa encefálica estão mais sedentas por DEUS do que nunca, mas tem repudiado sistematicamente e reconhecido como hipócritas aqueles que se dizem seus porta-vozes. Há uma luta em curso, hoje em dia, pela credibilidade do Evangelho, num mundo mais esclarecido sobre os males da religião institucionalizada, um mundo menos crédulo e que deseja algo de REAL VALOR.  Isso, o Deus religioso, colérico e tendencioso, não pode dar. O homem natural é perspicaz o bastante para perceber isso. 

Os templos continuam cheios de gente, mas qualquer um que os frequentou por algum tempo sabe que a maioria por ali não está tão entusiasmada já há um bom tempo, como se quer pensar que estejam, mas continuam entrando e saindo deles, para tentar manter sua consciência em paz, tomando doses homeopáticas de placebo espiritual.

As pessoas anseiam por serem ensinadas a crer num DEUS que possa aceita-las como são, sem condenação, mas que  NÃO as deixe como ESTÃO, pois se for para ficar exatamente da mesma forma, PARA QUÊ ENTÃO COLOCAR DEUS NA HISTÓRIA, não é mesmo? Essa é a mensagem do Evangelho, de que não há condenação nem pré-julgamento em JESUS, mas quem, em sã consciência, poderia dizer que tem uma vida plena, sem aprender mais sobre Ele?

Por outro lado, vemos que essa tendência em amenizar o quadro da ira de DEUS sobre o pecado para satisfazer a exigência do mundo atual, pode levar a alguns ensinos contraditórios que jogam por terra a harmonia bíblica que diz que "DEUS é o mesmo, ontem, hoje e sempre".

Como sempre, nós, seres humanos, tendemos a polarizar as idéias e vemos debates débeis surgirem nos quais "os defensores da moral de DEUS" se levantam para "defende-lo", mas em lados opostos, antagônicos e conflitantes, como não poderia deixar de ser. De um lado, os defensores do Deus vingador, o Deus do irmão do filho pródigo, o Deus de João e Tiago, os "filhos do trovão", que a cada terremoto ,em terra alheia, diga-se, se levantam para justificar a ira de DEUS sobre os pecadores. Do outro lado do córner, temos os apologistas do DEUS é  Paz e Amor, onde tudo são flores e bandeiras vermelhas não são permitidas por que lembram a cor do sangue. "Imagine...Se DEUs é Amor e JESUS o príncipe da paz, como ele poderia punir quem ele quer salvar?" 

Acompanhei recentemente o debate causado pela matéria do site Genizah sobre as implicações da tragédia no Haiti à luz das declarações de alguns fundamentalistas sobre as causas de tal infortúnio, o que motivou a réplica da ala "DEUS não tem nada com isso". 

A tendencia em querer distanciar DEUS de eventos violentos e que implicam em questões embaraçosas é tão forte que atingiu até mesmo um homem como o pastor Ricardo Gondim, um homem de muita erudição bíblica, o qual muito respeito e admiro por suas posições corajosas, mas que publicou uma nota em seu site dizendo que já não lê " a Bíblia com as mesmas lentes. Abandonei a idéia de que os massacres do Antigo Testamento foram ordens divinas. Entendo que os genocídios relatados na Bíblia foram cometidos com as mesmas motivações políticas, com os mesmos interesses econômicos e com ambições nacionalistas iguais as atuais, mas atribuidos a um deus guerreiro...Pretendo ser um discípulo de Jesus e quero crescer em meu pacifismo. Acredito que Jesus Cristo encarnou a  plenitude da Divindade. Para mim as bem-aventuranças do Sermão do Monte são balizas para comportamentos individuais e decisões nacionais. Não aceito revides e vingança. Permaneço fiel à declaração de que Jesus é o príncipe da paz. "

Gondim declarou isso, é bom que se saiba para a correta contextualização, no momento em que Israel despejava um montão de bombas sobre a população de Gaza no ano passado. Algum incauto deve ter aceso a ira do homem, um nordestino arretado, ao justificar tal massacre com o argumento de sempre, ou seja, de que os judeus tem o direito de faze-lo por serem o "povo escolhido" e que a terra é por direito deles. Eu também já me revoltei com essa visão e já debati o assunto com gente "boa" que apóia o sionismo, mas minha indignação não deve intervir na correta interpretação do que está escrito só para "dourar a pílula" para aqueles que tem aversão das palavras Pecado e Julgamento. O que está escrito, está está escrito, e o foi dessa forma, porque aprouve a DEUS que o mundo o conhecesse como Ele é realmente e não como o pintamos idilicamente.

Resta saber o que nos sobra, repudiando aquilo que nos soa ofensivo na Bíblia, do livro de Apocalipse e dos juízos descritos ali sobre um mundo entregue ao pecado e absorvido pelo poder satãnico. Resta saber, também, o que resta da soberania e do direito de DEUS de punir os iníquos num lugar "onde haverá choro e ranger de dentes". Resta saber, afinal, o que queremos dizer, como crentes em Cristo e no Evangelho, quando falamos que o juízo de DEUS virá e que começa por SUA casa, segundo o apóstolo Pedro. Resta saber, se estamos dispostos a aprender a lição deixada por DEUS com o caso de Ananias e Safira.

O que está em disputa realmente, de um modo sútil e quase imperceptível, embora nem todos percebam, é a própria idéia de que DEUS tem o direito de "retribuição" ao pecado, através de um sofisma que prega um mau entendimento de que o que Ele quer mesmo é nos punir, quando, na verdade, quer nos remir para Si mesmo e purgar todo o mal. Com o tempo, isso afetará, não só o ensino escatológico sobre a condenação final do fogo eterno como também a própria concepção do arrependimento do pecador como item essencial à Salvação.

Como pregar o Evangelho hoje, sem soar pedante e religioso aos ouvidos das pessoas pós-modernas, e contextualizar aquilo que pode ser contetualizado e sem abrir concessões àquilo que é essencial para que não se perca o sentido do Evangelho Eterno é um desafio ao qual vejo poucos responder com maestria. Quem estiver disposto a enfrentar essa questão, penso que temos um farto material para trabalhar antes de falarmos sobre o tópico título.

O EVANGELHO (COMO BOAS NOVAS) E O ESPÍRITO DO TEMPO

É interessante ressaltar que se "DEUS é o mesmo ontem, hoje e sempre", o ser humano, embora em essência seja o mesmo, psicologicamente mudou bastante nos últimos dois mil anos, principalmente nos ultimos dois séculos, onde houve uma mudança drástica na psicologia de massas. O Evangelho foi pregado inicialmente num mundo onde imperava a desesperança dos cultos pagãos e a indiferença dos deuses com relação ao drama humano. As religiões visavam somente o aplacar da ira dos deuses, fornecendo-lhes propiciação através de cultos de mistério e sacrifícios, mesmo humanos. Guardadas as devidas proporções, também no judaísmo obtinha-se esse resultado, com a noção de que a vergonha pela queda e o pecado  presentes no gênero humano o tornavam apenas tolerados por DEUS ou deuses. Essa é a consequencia da Lei da Consciência escrita no coração dos homens, por ocasião da Queda, segundo Paulo descreve em Romanos 2, como prova de que todos os povos tentavam segui-la, como um código de conduta moral e ético, que apontava para um tipo de conduta ideal, geralmente fornecido por enviados dos "deuses", mas que nenhum homem estava apto para cumpri-la integralmente. Todos os mitos heróicos apontam para seres que se elevaram da humanidade média por cumprir esses códigos com feitos que punham em risco sua próprias existências em benefício do bem-comum.


De qualquer forma, o que interessa realmente para nós é saber que o Evangelho, só foi chamado assim, "Boas Novas", porque era recebido dessa forma pelo homem da época. A real "boa nova" estava no fato que DEUS veio aos homens em carne e osso para ensinar-lhes O CAMINHO. Estava no fato de que Ele, afinal, se importava muito conosco a ponto de enviar o Único Filho gerado por Ele e igual a Ele em substancia, para se humilhar diante do gênero humano. Se humilhar sim, porque o homem da época sabia muito bem as implicações da pregação cristã em dizer que "DEUS se fez carne" e ainda por cima, morreu numa cruz. Essa era a grande objeção do pensamento grego e pagão em geral, pois para estes, os deuses abominam a carne humana e sua fraqueza e inutilidade e é esta mesma a objeção do Islamismo a Cristo como Filho de DEUS. Para essas mentes, DEUS nunca se faria fraco, mesmo por Amor.


O significado da vinda de JESUS é um rompimento com a psicologia primitiva herdada pela Lei Moral, ou da Consciência, de que DEUS está irado conosco e que quer nos castigar. Esse é o sentimento humano mais comum, enquanto não se está em Cristo. Ou seja, temos uma Lei escrita em nós, como um código de conduta. Ao mesmo tempo, sabemos que muitas vezes não o cumprimos porque não somos bons o suficiente e isso gera em nós culpa no momento em que vislumbramos para além dessa Lei, o seu autor, indistinto, indeterminado, oculto para nós, mas tão presente que nos ressentimos Dele e o culpamos por nossa condição. Essa é a herança de Adão, privado da Presença como nos seus primeiros dias, e tendo que conviver com a sua escolha, a lei do conhecimento do Bem e do Mal num corpo decaído e governado pelo ego.

Hebreus é a carta apostólica deixada para que o povo da época entendesse a diferença entre o sacerdócio da condenação do pecado, exercido pela tribo de Levi, e o sacerdócio da liberdade dos filhos de DEUS da ordem de Melquisedeque. Em Hebreus 9.14, lemos: "...muito mais o sangue de Cristo, que, pelo Espírito eterno, a si mesmo se ofereceu sem mácula a Deus, purificará a nossa consciência de obras mortas, para servirmos ao Deus vivo!". Em Hebreus 10.19 ao 22 temos: "Tendo, pois, irmãos, intrepidez para entrar no Santo dos Santos, pelo sangue de Jesus, pelo novo e vivo caminho que ele nos consagrou pelo véu, isto é, pela sua carne, e tendo grande sacerdote sobre a casa de Deus, aproximemo-nos, com sincero coração, em plena certeza de fé, tendo o coração purificado de má consciência e lavado o corpo com água pura." 








Watchman Nee se expressou muito bem sobre o assunto em "A Vida Cristã Normal": 

"Talvez esteja errado; sinto, porém, com muita convic ção, que há entre nós quem pense desta maneira: "Hoje fui um pouco mais cuidadoso; hoje procedi um pouco melhor; esta manhã, li a Palavra de Deus com mais fer vor, de modo que hoje posso orar melhor". Ou, então: "Hoje tive algumas pequenas dificuldades com a família; comecei o dia sentindo-me muito melancólico e deprimi do; não me sinto muito animado agora; parece que algo não está bem; não posso, portanto, me aproximar de Deus...Quando a luz de Deus brilha, pela primeira vez, no meu coração, clamo por perdão, porque compreendo que cometi pecados diante dEle; mas, após ter recebido o perdão dos pecados, faço uma nova descoberta, ou se ja, a descoberta do Pecado, e compreendo que não só cometi pecados diante de Deus, mas também que existe algo de errado dentro de mim. Descubro que tenho a na tureza do pecador. Existe dentro de mim uma inclinação para pecar, um poder interior que leva ao Pecado. Quan do aquele poder anda solto, eu cometo pecados. Posso procurar e receber o perdão, depois, porém, peco outra vez. E, assim, a vida continua num círculo vicioso de pe car e ser perdoado e depois pecar outra vez. Aprecio o fato bendito do perdão de Deus, mas eu desejo algo mais do que isso: preciso de livramento. Preciso de perdão pa ra o que tenho feito, mas preciso também de ser liberta do daquilo que sou."

Para uma compreensão maior da natureza do Pecado e da culpa que ele pode gerar, bem como, o modo como podemos ser libertos de sua má influencia, recomendo uma leitura acurada de Romanos, do capítulo 6 ao 8, do livro supracitado do irmão Nee 

e também o maravilhoso livreto "Abaixo da Linha de Fundo", de Bob Munford. Para adquiri-lo no formato pdf clique aqui.

Ou seja, a vinda de JESUS tem por objetivo, purificar os homens de sua má consciencia para com DEUS para que possam servi-lo não com condenação, mas podendo se achegar inteiramente a Ele com confiança. JESUS traz o recado, bem entendido na época para os que aceitaram a loucura da pregação, que DEUS oferecia a eles mais do que já haviam sonhado. Na época, a noção de que "DEUS é Amor" era revolucionária e exclusividade cristã. Hoje, depois de todo esforço das "religiões cristãs", isso soa mais como pedantismo ou propaganda enganosa, pois o que as instiuições fazem é pregar uma teoria, que é a Graça de DEUS, e praticar outra, que é a Lei.
Como resultado, a situação que temos hoje é que, depois do iluminismo, de Darwin, de Nietzche, de Freud e outras ideologias humanistas, a consciencia de pecado e de separação entre nós e o sagrado está bem fraquinha. Quando se ouve algum religioso falar em arrependimento, logo associamos isso ao fato de que ele está advogando sua própria cruzada e a bandeira do seu feudo, o que não está de todo errado, pois está de acordo com o que observamos nos dias atuais. Porém, deveríamos ter o cuidado de não jogar o bebê com a água do banho, pois a sutileza de satanás está em diluir a mensagem de tal modo que não se possa enxergar em que sentido ela pode ser aplicada nos dias atuais, tão diferentes culturalmente daqueles dias apostólicos. Ou a Palavra de DEUS se tornou anacrônica, o que não creio, ou nos tornamos mais imunes a ela, o que penso ser o caso. A Verdade sobre nós não mudou, os óculos do nosso tempo é que mudaram. Queremos pensar em DEUS de forma diferente dos nossos antepassados, mas a Porta de Entrada continua a mesma. Como se expressou bem C.S. Lewis no clássico "O Problema do Sofrimento":

"A recuperação do velho sentido de pecado é essencial ao cristianismo. Cristo tem
como certo que os homens são maus. Até que sintamos ser verdadeira esta sua suposição,
embora sejamos parte do mundo que Ele veio para salvar, não nos integramos na audiência
a quem Suas palavras são dirigidas. Falta-nos a primeira condição para compreender o que
Ele fala. E quando os homens tentam ser cristãos sem esta consciência preliminar de
pecado o resultado quase sempre se manifesta através de um certo ressentimento contra
Deus como alguém que está sempre fazendo exigências impossíveis e sempre
inexplicavelmente zangado. A maioria de nós sente às vezes uma simpatia secreta pelo
fazendeiro agonizante que respondeu às palavras do Vigário sobre o arrependimento,
perguntando: "Mas, que mal eu fiz a Ele?" É justamente esse o ponto. O pior que fizemos a
Deus foi abandoná-lO -  E por que Ele não pode  devolver a gentileza? Por que não viver e
deixar que os outros vivam? Que direito tem Ele, entre todos os seres, de ficar "zangado"?
É fácil para Ele ser bom!" - O Problema do Sofrimento/pág.28

Não há outra porta de entrada para Cristo, senão o arrependimento. Hoje, a grande maioria acha inútil falar sobre arrependimento de pecados por causa da associação religiosa com penitencias, sacrifícios, etc. Todos estão cansados do peso da religião e ao mesmo tempo não entendem como JESUS pode ter dito que seu jugo era suave e seu fardo leve. ELE exige o arrependimento, mas por que mesmo? Aliás, o que é isto mesmo? É tão desagradável quanto parece? Do jeito que a religião tem pregado o arrependimento dos pecados, não admira que muitos pensem que se trata de um assalto a mão armada ou a última chance antes de enfrentar o pelotão de fuzilamento. Acham que DEUS exige isso como um "afago" em seu ego monstruoso antes de permitir a entrada de qualquer um no "céu".

Arrependimento é simplesmente saber, reconhecer que seu plano original, o curso que você traçou não está te levando a lugar algum e como vamos descobrir que DEUS nos ama realmente se nunca abaixamos a guarda e deixamos de lado nossa agenda? A partir disso, ao reconhecermos que precisamos desesperadamente Dele para dar o devido sentido às coisas em nossas vidas, podemos ter nossas consciencias purificadas pela Cruz e, livres do má-consciencia de Adão, entender que todo o plano de DEUS para mim é de puro Amor de Pai.

Isso explica porque muitos dentro das religiões "cristãs" tem um relacionamento esquizofrenico com um Deus neurótico que sempre exige mais e mais coisas, mais  mais empenho, mais e mais dedicação, faça isso, faça aquilo, porque não tiveram suas consciencias devidamente purificadas para entender que a única exigencia da agenda de DEUS para hoje é crescer em RELACIONAMENTO com Ele e com os seus iguais e vivem, assim, uma constante administração de seus "pecados", aspectos menores e fragmentados de seu caráter, que como pequenos tiranos, assumem vez por outra o controle, seja pela ira, pela gula, pela lascívia, em suma, pelas obras da carne. Na grande maioria, isso leva a um complexo de culpa no qual a pessoa tende a se achar "pouco espiritual" e, com o passar do tempo, inadequada demais para servir a DEUS, levando ao afastamento do único processo real de cura possível para a má consciência do ser humano: um relacionamento sadio com seu Pai. Essa inadequação contumaz ao padrão pretensamente exigido por Ele, só nos faz revisitar a Lei, o que traz condenação. Um relacionamento sadio com DEUS, baseado na Graça de JESUS, nos expõe completamente, como a Lei o faria e nem poderia deixar de ser, porque ela não foi abolida em nós, continuamos tendo conhecimento de que somos maus pela carne, pois como dizem, DEUS tirou o povo do meio do Egito em um dia, mas levou quarenta anos para tirar o Egito do meio do povo. Mas, ciente de que pela Graça obtida na Encarnação, Morte e Ressurreição do Amado não sou condenado, não me ausento do tratamento iniciado, me submetendo ao Espírito, mortificando minha carne, isto é, meus erros, renovando meu entendimento constantemente, vou me conformando à Imagem Dele. Meus processos mentais, minhas fugas, minhas desculpas, o modo como se dá cada queda, não podem ser desconhecidos por mim. Eu preciso conhecer meu inimigo e o caso é que ele sou eu mesmo. Somos doentes espirituais crônicos em tratamento permanente, como os alcoólatras e toxicômanos, cujo tratamento não se encerra nessa vida.

Muitos podem malhar e dizer que isso é meditação ou filosofia, que foi ensinado por pagãos, e que isso não tem nada a ver com Cristo, que isso não é espiritual, mas natural, que não há milagre nisso. Tenho que responder que o maior pecado, aquele que condenou a humanidade ao estágio que vemos hoje, foi simplesmente não render o ego totalmente a DEUS. Logo, o maior milagre que se pode ver hoje em seres humanos tão decaidos é alguém submeter sua natureza paulatinamente ao trabalho do Espírito Santo para remover anos e anos de domínio de uma má consciência. Uma das maiores críticas que tenho ao "cristianismo" atual é justamente esse, a ênfase no miraculoso e espetaculoso. As pessoas tem procurado "experiências" com DEUS, através das quais possam ser tansformadas em novas pessoas. Você pode ter experiências com DEUS, mas não há um único caso na Bíblia em que uma pessoa tenha sido transformada  por DEUS como num passe de mágica, como que "de fora para dentro". Isso é um processo voluntário e  interiorizado que envolve rendição incondicional. Esse foi o método de JESUS com os discípulos. Eles foram tratados duramente em suas noções e concepções de mundo e de vida até que pudessem estar aptos a serem enviados pelo Espírito.

Somos nós mesmos os culpados por gerar tantos crentes desequilibrados que espiritualizam tudo, mas não interiorizam nada e, na verdade, tem é medo de entrar naquele quarto escuro que é o Santo dos Santos, para serem sondados pela Luz divina em suas motivações e atitudes. Antes de tudo, o "seguir a Cristo" é um caminho interior e, por isso, vemos tantos desvios hoje, por que optamos pelas aparências e pelas coisas próprias de crianças.

Se não entendemos isso, como se dá e se aplica o arrependimento do pecador hoje em dia, e que o que deve ser removido é a má consciencia herdada de Adão, que deve ser substituída por uma mente apta a entender que o plano de DEUS é nos fazer o Bem, como vamos entender uma lição mais dura e difícil que é a retribuição devida a que DEUS tem direito sobre o pecado que escraviza a humanidade? Isso é tão bíblico quanto tudo que já foi dito até aqui. Como vamos responder ao mundo pós-moderno que, apesar de seu Amor por nós, mas por causa desse mesmo Amor que nos tem como alvo, Ele vai derramar toda sua Ira divina para acabar de vez com essa doença?

A seguir: O INFERNO COMO VINGANÇA?

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