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QUAL A LIÇÃO DEIXADA POR ANANIAS E SAFIRA? Parte I

Nota: devo me desculpar pelo tamanho da matéria. Não era minha intenção inicial escrever  tanto sobre o assunto, mas, como sempre acontece, as coisas foram emergindo espontaneamente. Sei que poucos hoje em dia gostam de perder muito tempo lendo artigos em blogs, no máximo, correm os olhos para ver do que se trata e, pronto, passam para outra página. Por isso,a maioria escreve brevemente, pra não correr riscos. Essa é a cultura da banda larga. Não sou adepto dos simplismos dessa era apressada. Gosto de teologia e isto, a meu ver, deve levar o indivíduo a "pensar teologicamente", assim como a filosofia deve levar a "pensar filosoficamene", ou a meditar sobre os argumentos apresentados. Isso leva tempo, que é, ao que parece, tudo que não possuímos hoje. Todavia, uma regra para quem tem fome por alimento sólido deveria ser não procurar se satisfazer com "fast food" no deserto, mas ir em frente  até encontrar um lugar de paz, um oásis, e pernoitar ali até descansar da jornada e satisfazer-se com águas frescas. Para facilitar a digestão, porém, decidi dividir a presente matéria em três partes:entrada, prato principal e sobremesa.



RELATIVISMO OU FUNDAMENTALISMO?
Numa época em que há pouca ou nenhuma tolerância por parte das pessoas, tanto as religiosas quanto as não-religiosas, ao se dizer que DEUS castiga o pecado na pessoa do pecador, seria útil fazer uma reflexão sobre o relato de Atos 5, da morte trágica e fulminante imposta ao casal fraudulento Ananias e Safira. 

Fazendo uma análise do presente "espírito da época" na qual vivemos, vejo que a crescente repulsa do mundo a uma visão de um Deus Santo, mas "irado" e constantemente disposto a castigar o ser humano por suas pisadas, tem causado um certo efeito incômodo em determinados setores "cristãos", que desejam falar de Cristo ao mundo, de sua mensagem de perdão e reconciliação e de amor universal sem recorrer a imagem que se tem do Deus beligerante dos judeus e católico das Cruzadas. É um temor legitimado pelo desejo de contextualizar a mensagem do Evangelho a um mundo pós-moderno e, portanto, mais liberal, no qual qualquer relação com o obscurantismo medieval estraçalha as esperanças de tornar crível o bojo do ensino de JESUS nos dias de hoje.

Não é um temor infundado. Realmente, a recepção das pessoas à mensagem evangelística está em relação direta ao tipo de Deus que eu apresento a elas. Muitos estão dizendo um grosso e sonoro não, mas não é um não a DEUS realmente, mas ao Deus da religião,  o Deus da obrigação, do cala a boca, o Deus com cheiro de vela e jeito de procissão, o Deus dos rituais vazios, o Deus que odeia os pecadores, o Deus que cobra taxa de associação, que odeia os homossexuais, as prostitutas, mas que tem por porta-vozes pedófilos de batina e pilantras engravatados que recebem e dizem "amém" à propina. 

No geral, as pessoas com um mínimo de critério e massa encefálica estão mais sedentas por DEUS do que nunca, mas tem repudiado sistematicamente e reconhecido como hipócritas aqueles que se dizem seus porta-vozes. Há uma luta em curso, hoje em dia, pela credibilidade do Evangelho, num mundo mais esclarecido sobre os males da religião institucionalizada, um mundo menos crédulo e que deseja algo de REAL VALOR.  Isso, o Deus religioso, colérico e tendencioso, não pode dar. O homem natural é perspicaz o bastante para perceber isso. 

Os templos continuam cheios de gente, mas qualquer um que os frequentou por algum tempo sabe que a maioria por ali não está tão entusiasmada já há um bom tempo, como se quer pensar que estejam, mas continuam entrando e saindo deles, para tentar manter sua consciência em paz, tomando doses homeopáticas de placebo espiritual.

As pessoas anseiam por serem ensinadas a crer num DEUS que possa aceita-las como são, sem condenação, mas que  NÃO as deixe como ESTÃO, pois se for para ficar exatamente da mesma forma, PARA QUÊ ENTÃO COLOCAR DEUS NA HISTÓRIA, não é mesmo? Essa é a mensagem do Evangelho, de que não há condenação nem pré-julgamento em JESUS, mas quem, em sã consciência, poderia dizer que tem uma vida plena, sem aprender mais sobre Ele?

Por outro lado, vemos que essa tendência em amenizar o quadro da ira de DEUS sobre o pecado para satisfazer a exigência do mundo atual, pode levar a alguns ensinos contraditórios que jogam por terra a harmonia bíblica que diz que "DEUS é o mesmo, ontem, hoje e sempre".

Como sempre, nós, seres humanos, tendemos a polarizar as idéias e vemos debates débeis surgirem nos quais "os defensores da moral de DEUS" se levantam para "defende-lo", mas em lados opostos, antagônicos e conflitantes, como não poderia deixar de ser. De um lado, os defensores do Deus vingador, o Deus do irmão do filho pródigo, o Deus de João e Tiago, os "filhos do trovão", que a cada terremoto ,em terra alheia, diga-se, se levantam para justificar a ira de DEUS sobre os pecadores. Do outro lado do córner, temos os apologistas do DEUS é  Paz e Amor, onde tudo são flores e bandeiras vermelhas não são permitidas por que lembram a cor do sangue. "Imagine...Se DEUs é Amor e JESUS o príncipe da paz, como ele poderia punir quem ele quer salvar?" 

Acompanhei recentemente o debate causado pela matéria do site Genizah sobre as implicações da tragédia no Haiti à luz das declarações de alguns fundamentalistas sobre as causas de tal infortúnio, o que motivou a réplica da ala "DEUS não tem nada com isso". 

A tendencia em querer distanciar DEUS de eventos violentos e que implicam em questões embaraçosas é tão forte que atingiu até mesmo um homem como o pastor Ricardo Gondim, um homem de muita erudição bíblica, o qual muito respeito e admiro por suas posições corajosas, mas que publicou uma nota em seu site dizendo que já não lê " a Bíblia com as mesmas lentes. Abandonei a idéia de que os massacres do Antigo Testamento foram ordens divinas. Entendo que os genocídios relatados na Bíblia foram cometidos com as mesmas motivações políticas, com os mesmos interesses econômicos e com ambições nacionalistas iguais as atuais, mas atribuidos a um deus guerreiro...Pretendo ser um discípulo de Jesus e quero crescer em meu pacifismo. Acredito que Jesus Cristo encarnou a  plenitude da Divindade. Para mim as bem-aventuranças do Sermão do Monte são balizas para comportamentos individuais e decisões nacionais. Não aceito revides e vingança. Permaneço fiel à declaração de que Jesus é o príncipe da paz. "

Gondim declarou isso, é bom que se saiba para a correta contextualização, no momento em que Israel despejava um montão de bombas sobre a população de Gaza no ano passado. Algum incauto deve ter aceso a ira do homem, um nordestino arretado, ao justificar tal massacre com o argumento de sempre, ou seja, de que os judeus tem o direito de faze-lo por serem o "povo escolhido" e que a terra é por direito deles. Eu também já me revoltei com essa visão e já debati o assunto com gente "boa" que apóia o sionismo, mas minha indignação não deve intervir na correta interpretação do que está escrito só para "dourar a pílula" para aqueles que tem aversão das palavras Pecado e Julgamento. O que está escrito, está está escrito, e o foi dessa forma, porque aprouve a DEUS que o mundo o conhecesse como Ele é realmente e não como o pintamos idilicamente.

Resta saber o que nos sobra, repudiando aquilo que nos soa ofensivo na Bíblia, do livro de Apocalipse e dos juízos descritos ali sobre um mundo entregue ao pecado e absorvido pelo poder satãnico. Resta saber, também, o que resta da soberania e do direito de DEUS de punir os iníquos num lugar "onde haverá choro e ranger de dentes". Resta saber, afinal, o que queremos dizer, como crentes em Cristo e no Evangelho, quando falamos que o juízo de DEUS virá e que começa por SUA casa, segundo o apóstolo Pedro. Resta saber, se estamos dispostos a aprender a lição deixada por DEUS com o caso de Ananias e Safira.

O que está em disputa realmente, de um modo sútil e quase imperceptível, embora nem todos percebam, é a própria idéia de que DEUS tem o direito de "retribuição" ao pecado, através de um sofisma que prega um mau entendimento de que o que Ele quer mesmo é nos punir, quando, na verdade, quer nos remir para Si mesmo e purgar todo o mal. Com o tempo, isso afetará, não só o ensino escatológico sobre a condenação final do fogo eterno como também a própria concepção do arrependimento do pecador como item essencial à Salvação.

Como pregar o Evangelho hoje, sem soar pedante e religioso aos ouvidos das pessoas pós-modernas, e contextualizar aquilo que pode ser contetualizado e sem abrir concessões àquilo que é essencial para que não se perca o sentido do Evangelho Eterno é um desafio ao qual vejo poucos responder com maestria. Quem estiver disposto a enfrentar essa questão, penso que temos um farto material para trabalhar antes de falarmos sobre o tópico título.

O EVANGELHO (COMO BOAS NOVAS) E O ESPÍRITO DO TEMPO

É interessante ressaltar que se "DEUS é o mesmo ontem, hoje e sempre", o ser humano, embora em essência seja o mesmo, psicologicamente mudou bastante nos últimos dois mil anos, principalmente nos ultimos dois séculos, onde houve uma mudança drástica na psicologia de massas. O Evangelho foi pregado inicialmente num mundo onde imperava a desesperança dos cultos pagãos e a indiferença dos deuses com relação ao drama humano. As religiões visavam somente o aplacar da ira dos deuses, fornecendo-lhes propiciação através de cultos de mistério e sacrifícios, mesmo humanos. Guardadas as devidas proporções, também no judaísmo obtinha-se esse resultado, com a noção de que a vergonha pela queda e o pecado  presentes no gênero humano o tornavam apenas tolerados por DEUS ou deuses. Essa é a consequencia da Lei da Consciência escrita no coração dos homens, por ocasião da Queda, segundo Paulo descreve em Romanos 2, como prova de que todos os povos tentavam segui-la, como um código de conduta moral e ético, que apontava para um tipo de conduta ideal, geralmente fornecido por enviados dos "deuses", mas que nenhum homem estava apto para cumpri-la integralmente. Todos os mitos heróicos apontam para seres que se elevaram da humanidade média por cumprir esses códigos com feitos que punham em risco sua próprias existências em benefício do bem-comum.


De qualquer forma, o que interessa realmente para nós é saber que o Evangelho, só foi chamado assim, "Boas Novas", porque era recebido dessa forma pelo homem da época. A real "boa nova" estava no fato que DEUS veio aos homens em carne e osso para ensinar-lhes O CAMINHO. Estava no fato de que Ele, afinal, se importava muito conosco a ponto de enviar o Único Filho gerado por Ele e igual a Ele em substancia, para se humilhar diante do gênero humano. Se humilhar sim, porque o homem da época sabia muito bem as implicações da pregação cristã em dizer que "DEUS se fez carne" e ainda por cima, morreu numa cruz. Essa era a grande objeção do pensamento grego e pagão em geral, pois para estes, os deuses abominam a carne humana e sua fraqueza e inutilidade e é esta mesma a objeção do Islamismo a Cristo como Filho de DEUS. Para essas mentes, DEUS nunca se faria fraco, mesmo por Amor.


O significado da vinda de JESUS é um rompimento com a psicologia primitiva herdada pela Lei Moral, ou da Consciência, de que DEUS está irado conosco e que quer nos castigar. Esse é o sentimento humano mais comum, enquanto não se está em Cristo. Ou seja, temos uma Lei escrita em nós, como um código de conduta. Ao mesmo tempo, sabemos que muitas vezes não o cumprimos porque não somos bons o suficiente e isso gera em nós culpa no momento em que vislumbramos para além dessa Lei, o seu autor, indistinto, indeterminado, oculto para nós, mas tão presente que nos ressentimos Dele e o culpamos por nossa condição. Essa é a herança de Adão, privado da Presença como nos seus primeiros dias, e tendo que conviver com a sua escolha, a lei do conhecimento do Bem e do Mal num corpo decaído e governado pelo ego.

Hebreus é a carta apostólica deixada para que o povo da época entendesse a diferença entre o sacerdócio da condenação do pecado, exercido pela tribo de Levi, e o sacerdócio da liberdade dos filhos de DEUS da ordem de Melquisedeque. Em Hebreus 9.14, lemos: "...muito mais o sangue de Cristo, que, pelo Espírito eterno, a si mesmo se ofereceu sem mácula a Deus, purificará a nossa consciência de obras mortas, para servirmos ao Deus vivo!". Em Hebreus 10.19 ao 22 temos: "Tendo, pois, irmãos, intrepidez para entrar no Santo dos Santos, pelo sangue de Jesus, pelo novo e vivo caminho que ele nos consagrou pelo véu, isto é, pela sua carne, e tendo grande sacerdote sobre a casa de Deus, aproximemo-nos, com sincero coração, em plena certeza de fé, tendo o coração purificado de má consciência e lavado o corpo com água pura." 








Watchman Nee se expressou muito bem sobre o assunto em "A Vida Cristã Normal": 

"Talvez esteja errado; sinto, porém, com muita convic ção, que há entre nós quem pense desta maneira: "Hoje fui um pouco mais cuidadoso; hoje procedi um pouco melhor; esta manhã, li a Palavra de Deus com mais fer vor, de modo que hoje posso orar melhor". Ou, então: "Hoje tive algumas pequenas dificuldades com a família; comecei o dia sentindo-me muito melancólico e deprimi do; não me sinto muito animado agora; parece que algo não está bem; não posso, portanto, me aproximar de Deus...Quando a luz de Deus brilha, pela primeira vez, no meu coração, clamo por perdão, porque compreendo que cometi pecados diante dEle; mas, após ter recebido o perdão dos pecados, faço uma nova descoberta, ou se ja, a descoberta do Pecado, e compreendo que não só cometi pecados diante de Deus, mas também que existe algo de errado dentro de mim. Descubro que tenho a na tureza do pecador. Existe dentro de mim uma inclinação para pecar, um poder interior que leva ao Pecado. Quan do aquele poder anda solto, eu cometo pecados. Posso procurar e receber o perdão, depois, porém, peco outra vez. E, assim, a vida continua num círculo vicioso de pe car e ser perdoado e depois pecar outra vez. Aprecio o fato bendito do perdão de Deus, mas eu desejo algo mais do que isso: preciso de livramento. Preciso de perdão pa ra o que tenho feito, mas preciso também de ser liberta do daquilo que sou."

Para uma compreensão maior da natureza do Pecado e da culpa que ele pode gerar, bem como, o modo como podemos ser libertos de sua má influencia, recomendo uma leitura acurada de Romanos, do capítulo 6 ao 8, do livro supracitado do irmão Nee 

e também o maravilhoso livreto "Abaixo da Linha de Fundo", de Bob Munford. Para adquiri-lo no formato pdf clique aqui.

Ou seja, a vinda de JESUS tem por objetivo, purificar os homens de sua má consciencia para com DEUS para que possam servi-lo não com condenação, mas podendo se achegar inteiramente a Ele com confiança. JESUS traz o recado, bem entendido na época para os que aceitaram a loucura da pregação, que DEUS oferecia a eles mais do que já haviam sonhado. Na época, a noção de que "DEUS é Amor" era revolucionária e exclusividade cristã. Hoje, depois de todo esforço das "religiões cristãs", isso soa mais como pedantismo ou propaganda enganosa, pois o que as instiuições fazem é pregar uma teoria, que é a Graça de DEUS, e praticar outra, que é a Lei.
Como resultado, a situação que temos hoje é que, depois do iluminismo, de Darwin, de Nietzche, de Freud e outras ideologias humanistas, a consciencia de pecado e de separação entre nós e o sagrado está bem fraquinha. Quando se ouve algum religioso falar em arrependimento, logo associamos isso ao fato de que ele está advogando sua própria cruzada e a bandeira do seu feudo, o que não está de todo errado, pois está de acordo com o que observamos nos dias atuais. Porém, deveríamos ter o cuidado de não jogar o bebê com a água do banho, pois a sutileza de satanás está em diluir a mensagem de tal modo que não se possa enxergar em que sentido ela pode ser aplicada nos dias atuais, tão diferentes culturalmente daqueles dias apostólicos. Ou a Palavra de DEUS se tornou anacrônica, o que não creio, ou nos tornamos mais imunes a ela, o que penso ser o caso. A Verdade sobre nós não mudou, os óculos do nosso tempo é que mudaram. Queremos pensar em DEUS de forma diferente dos nossos antepassados, mas a Porta de Entrada continua a mesma. Como se expressou bem C.S. Lewis no clássico "O Problema do Sofrimento":

"A recuperação do velho sentido de pecado é essencial ao cristianismo. Cristo tem
como certo que os homens são maus. Até que sintamos ser verdadeira esta sua suposição,
embora sejamos parte do mundo que Ele veio para salvar, não nos integramos na audiência
a quem Suas palavras são dirigidas. Falta-nos a primeira condição para compreender o que
Ele fala. E quando os homens tentam ser cristãos sem esta consciência preliminar de
pecado o resultado quase sempre se manifesta através de um certo ressentimento contra
Deus como alguém que está sempre fazendo exigências impossíveis e sempre
inexplicavelmente zangado. A maioria de nós sente às vezes uma simpatia secreta pelo
fazendeiro agonizante que respondeu às palavras do Vigário sobre o arrependimento,
perguntando: "Mas, que mal eu fiz a Ele?" É justamente esse o ponto. O pior que fizemos a
Deus foi abandoná-lO -  E por que Ele não pode  devolver a gentileza? Por que não viver e
deixar que os outros vivam? Que direito tem Ele, entre todos os seres, de ficar "zangado"?
É fácil para Ele ser bom!" - O Problema do Sofrimento/pág.28

Não há outra porta de entrada para Cristo, senão o arrependimento. Hoje, a grande maioria acha inútil falar sobre arrependimento de pecados por causa da associação religiosa com penitencias, sacrifícios, etc. Todos estão cansados do peso da religião e ao mesmo tempo não entendem como JESUS pode ter dito que seu jugo era suave e seu fardo leve. ELE exige o arrependimento, mas por que mesmo? Aliás, o que é isto mesmo? É tão desagradável quanto parece? Do jeito que a religião tem pregado o arrependimento dos pecados, não admira que muitos pensem que se trata de um assalto a mão armada ou a última chance antes de enfrentar o pelotão de fuzilamento. Acham que DEUS exige isso como um "afago" em seu ego monstruoso antes de permitir a entrada de qualquer um no "céu".

Arrependimento é simplesmente saber, reconhecer que seu plano original, o curso que você traçou não está te levando a lugar algum e como vamos descobrir que DEUS nos ama realmente se nunca abaixamos a guarda e deixamos de lado nossa agenda? A partir disso, ao reconhecermos que precisamos desesperadamente Dele para dar o devido sentido às coisas em nossas vidas, podemos ter nossas consciencias purificadas pela Cruz e, livres do má-consciencia de Adão, entender que todo o plano de DEUS para mim é de puro Amor de Pai.

Isso explica porque muitos dentro das religiões "cristãs" tem um relacionamento esquizofrenico com um Deus neurótico que sempre exige mais e mais coisas, mais  mais empenho, mais e mais dedicação, faça isso, faça aquilo, porque não tiveram suas consciencias devidamente purificadas para entender que a única exigencia da agenda de DEUS para hoje é crescer em RELACIONAMENTO com Ele e com os seus iguais e vivem, assim, uma constante administração de seus "pecados", aspectos menores e fragmentados de seu caráter, que como pequenos tiranos, assumem vez por outra o controle, seja pela ira, pela gula, pela lascívia, em suma, pelas obras da carne. Na grande maioria, isso leva a um complexo de culpa no qual a pessoa tende a se achar "pouco espiritual" e, com o passar do tempo, inadequada demais para servir a DEUS, levando ao afastamento do único processo real de cura possível para a má consciência do ser humano: um relacionamento sadio com seu Pai. Essa inadequação contumaz ao padrão pretensamente exigido por Ele, só nos faz revisitar a Lei, o que traz condenação. Um relacionamento sadio com DEUS, baseado na Graça de JESUS, nos expõe completamente, como a Lei o faria e nem poderia deixar de ser, porque ela não foi abolida em nós, continuamos tendo conhecimento de que somos maus pela carne, pois como dizem, DEUS tirou o povo do meio do Egito em um dia, mas levou quarenta anos para tirar o Egito do meio do povo. Mas, ciente de que pela Graça obtida na Encarnação, Morte e Ressurreição do Amado não sou condenado, não me ausento do tratamento iniciado, me submetendo ao Espírito, mortificando minha carne, isto é, meus erros, renovando meu entendimento constantemente, vou me conformando à Imagem Dele. Meus processos mentais, minhas fugas, minhas desculpas, o modo como se dá cada queda, não podem ser desconhecidos por mim. Eu preciso conhecer meu inimigo e o caso é que ele sou eu mesmo. Somos doentes espirituais crônicos em tratamento permanente, como os alcoólatras e toxicômanos, cujo tratamento não se encerra nessa vida.

Muitos podem malhar e dizer que isso é meditação ou filosofia, que foi ensinado por pagãos, e que isso não tem nada a ver com Cristo, que isso não é espiritual, mas natural, que não há milagre nisso. Tenho que responder que o maior pecado, aquele que condenou a humanidade ao estágio que vemos hoje, foi simplesmente não render o ego totalmente a DEUS. Logo, o maior milagre que se pode ver hoje em seres humanos tão decaidos é alguém submeter sua natureza paulatinamente ao trabalho do Espírito Santo para remover anos e anos de domínio de uma má consciência. Uma das maiores críticas que tenho ao "cristianismo" atual é justamente esse, a ênfase no miraculoso e espetaculoso. As pessoas tem procurado "experiências" com DEUS, através das quais possam ser tansformadas em novas pessoas. Você pode ter experiências com DEUS, mas não há um único caso na Bíblia em que uma pessoa tenha sido transformada  por DEUS como num passe de mágica, como que "de fora para dentro". Isso é um processo voluntário e  interiorizado que envolve rendição incondicional. Esse foi o método de JESUS com os discípulos. Eles foram tratados duramente em suas noções e concepções de mundo e de vida até que pudessem estar aptos a serem enviados pelo Espírito.

Somos nós mesmos os culpados por gerar tantos crentes desequilibrados que espiritualizam tudo, mas não interiorizam nada e, na verdade, tem é medo de entrar naquele quarto escuro que é o Santo dos Santos, para serem sondados pela Luz divina em suas motivações e atitudes. Antes de tudo, o "seguir a Cristo" é um caminho interior e, por isso, vemos tantos desvios hoje, por que optamos pelas aparências e pelas coisas próprias de crianças.

Se não entendemos isso, como se dá e se aplica o arrependimento do pecador hoje em dia, e que o que deve ser removido é a má consciencia herdada de Adão, que deve ser substituída por uma mente apta a entender que o plano de DEUS é nos fazer o Bem, como vamos entender uma lição mais dura e difícil que é a retribuição devida a que DEUS tem direito sobre o pecado que escraviza a humanidade? Isso é tão bíblico quanto tudo que já foi dito até aqui. Como vamos responder ao mundo pós-moderno que, apesar de seu Amor por nós, mas por causa desse mesmo Amor que nos tem como alvo, Ele vai derramar toda sua Ira divina para acabar de vez com essa doença?

A seguir: O INFERNO COMO VINGANÇA?
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O SILÊNCIO DE DEUS

Não importam o que digam, DEUS, O SENHOR, está em silêncio. 

Ele ainda fala aos corações dos que o buscam com humildade e sinceridade dentro dos templos, catedrais e dos quartos fechados e nem está omisso ao contrito de coração que clama a Ele com simplicidade. Mas Ele está em silêncio nos púlpitos e nas bocas daqueles que se autointitulam portadores da Sua mensagem e que se colocam na frente das agências que franqueiam Seu Nome sem o menor pudor pelo terceiro mandamento. 

Que mais Ele poderia fazer se O silenciaram? Há muitas teologias, ensinos e doutrinas hoje, mas quem pode dizer que fala em Seu Nome se não o fizer levianamente? Quem pode dizer hoje em dia "Assim diz o SENHOR" sem cair em condenação diante de si mesmo?

Que mais Ele poderia fazer se o substituíram e trocaram a Fonte de Águas Vivas por poços de águas imundas, falsos ensinos, doutrinas diabólicas, falácias, bezerros de ouro e se prostituíram seguindo o erro de Balaão e se fartando do guisado de Esaú na mesa do rei de Babilônia?

DEUS está em silêncio porque não há voz profética, porque ninguém parou sua vida para ouvi-Lo. Temos denuncistas enfadados, não profetas. O profeta tem uma única paixão e pregação: apontar O Caminho de volta para O SENHOR. Não vejo ninguém falando assim, porque não vejo ninguém cansado de si mesmo, de suas tentativas, de seus erros e acertos. A maioria ainda acha que dá pra aguentar mais um pouco do "'jeito que estou". Continuam, então, apertando os botões do painel de comando, como chipanzés selvagens dentro de uma cabine de nave espacial, para ver o que acontece em seguida. "Er...não é esse botão...Quem sabe esse..."

Todos apontam os erros, sabem onde temos caído, mas ninguém está disposto a abrir mão de sua posição, do status quo dado pelo stabilishment. Nas Escrituras, os profetas, como Eliseu ou Jeremias, tinham desistido de suas próprias vidas e não pertenciam a nenhuma casta social, nem mesmo a mais honrada, a levítica, mas permaneciam do lado de fora, como que sendo propriedade exclusiva Dele. A alguém assim poderia chama-lo profeta. Sem a medida fornecida pelo profeta, sem a visão renovada constantemente do alvo, sem as palavras frescas trazidas da Fonte, o povo sucumbia ao marasmo do normal e do cotidiano. 

Aparentemente, essa figura angustiante, o profeta, surgia do nada vindo do deserto para assombrar as vãs esperanças do habitante daquelas poeirentas terras em viver uma vida frívola e dissoluta desafiando-os a ver algo mais para o qual foram chamados, algo terrível e insuspeito. 

O deserto é hoje o lugar do qual os "cristãos" tem mais pavor. Lugar habitado por feras e, dizem, pelo espírito do tentador. Lugar de desterro, de  isolamento, longe da congregação dos salvos e do burburinho do arraial, longe das luzes, longe das vozes, perto do...Silencio. Silencio ensurdecedor do vento. Lugar onde o céu permanece calado, mas é descortinado nas noites sem lua. O deserto é o lugar onde o silêncio pode falar e se mostrar. Estamos sós com nossos receios, fracassos, dúvidas, temores e demônios pessoais. A dureza e aspereza do ambiente quebram a resistência, a casca se rompe e se abre totalmente.

Que tem o SENHOR a ver com tanto alarido que se faz hoje em dia, com essa gente que corre de um lado pra outro anunciando coisas grandiosas mas que nunca pararam para ouvir algo pertinente da parte do Espírito para o dia de hoje, mas que só repete, repete e repete os mesmos erros de seus  "pais" e dos "pais de seus pais" e falam acerca do que não sabem nem conhecem verdadeiramente, mas só ouviram falar, mas pensam conhecer por terem lido em algum lugar que assim deveria ser. "Como se faz uma receita de bolo" é assim que consideram em seu coração e repetem a mesma receita e comem do mesmo sabor do erro. 

São esses aqueles que "aprendem sempre e nunca podem chegar ao conhecimento da Verdade". Estão sempre aprendendo algo novo, uma doutrina nova, um método novo chocado por satanás para dar continuidade às suas praxes sem nunca desistir de si mesmos, sem nunca desaprenderem as práticas de seus "pais", sem nunca silenciarem o seu alarido para ouvir a Voz daquele que se manifesta na sarça ardente em meio ao deserto das ovelhas e cabras burras de Midiã.

Não importa o que digam, DEUS, O SENHOR, está em silêncio. E vai continuar assim, até que calemos as vozes de cântico e as festas insossas regadas ao vinho da frivolidade babilônica e nos voltemos para aquela imensidão silenciosa e terrível que não deseja outra coisa senão nos matar...Assim como Ele.

Isaías 1:
10 - Ouvi a palavra do SENHOR, vós, príncipes de Sodoma; prestai ouvidos à lei do nosso Deus, vós, povo de Gomorra.
11 - De que me serve a mim a multidão de vossos sacrifícios? —diz o SENHOR. Estou farto dos holocaustos de carneiros e da gordura de animais cevados e não me agrado do sangue de novilhos, nem de cordeiros, nem de bodes.
12 -  Quando vindes para comparecer perante mim, quem vos requereu o só pisardes os meus átrios?
13 - Não continueis a trazer ofertas vãs; o incenso é para mim abominação, e também as Festas da Lua Nova, os sábados, e a convocação das congregações; não posso suportar iniqüidade associada ao ajuntamento solene.
14 - As vossas Festas da Lua Nova e as vossas solenidades, a minha alma as aborrece; já me são pesadas; estou cansado de as sofrer.
15 - Pelo que, quando estendeis as mãos, escondo de vós os olhos; sim, quando multiplicais as vossas orações, não as ouço, porque as vossas mãos estão cheias de sangue.
16 - Lavai-vos, purificai-vos, tirai a maldade de vossos atos de diante dos meus olhos; cessai de fazer o mal.
17 - Aprendei a fazer o bem; atendei à justiça, repreendei ao opressor; defendei o direito do órfão, pleiteai a causa das viúvas.
18 - Vinde, pois, e arrazoemos, diz o SENHOR; ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim, se tornarão como a lã.
19 - Se quiserdes e me ouvirdes, comereis o melhor desta terra.
20 - Mas, se recusardes e fordes rebeldes, sereis devorados à espada; porque a boca do SENHOR o disse.


Ouvi-me, rebeldes. Se O SENHOR, aquele que conservou as mãos furadas como marca do Seu Amor por nós, não for o centro das suas vidas e das suas pregações, Ele não será mais nada em suas vidas. Se sua recompensa e seu galardão é conquistar o mundo e tudo que nele há, nunca o terão como seu grandioso galardão eterno, como Ele se fez notar a Abraão (Genesis 15,1).

trilha sonora deste post

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ENSINO EVANGÉLICO = LAVAGEM CEREBRAL?

"O clero protestante resgatou a Bíblia da escuridão e da poeira das bibliotecas
papais e a espalhou por toda a terra. Elevou-a ao mais alto grau de respeito e
estima humana. A tem estudado, comentado, explicado, a ponto de remoer cada
palavra, frase e expressão, tanto no original como nas traduções, possibilitando
todo tipo de interpretação. O resultado é que o Cristianismo está sufocado pela
teologia e pela crítica: As verdades de revelação transformam-se em arame farpado
— estirado, enrolado, alinhado e retorcido para produzir todo tipo de desenho
imaginário e fantástico que a ilusão ou a lógica humana pode conceber. O sistema
de Divindade técnica resultante chega a rivalizar com a complexa maquinaria da
igreja romana."
-Steven Colwell


Disse no post anterior que há algo errado com o modo como as pessoas são ensinadas  a crer num corpo de doutrinas diferente do outro em cada organização eclesiastica evangélica da atualidade, o que os faz estranhamente diferentes e beligerantes entre si, apesar das semelhanças óbvias.  Gostaria de continuar abordando essa temática e mergulhar mais profundamente nas águas escuras do que se tornou o ensino do cristianismo nas organizações que propagam ser as portadoras da interpretação correta da Bíblia, sua "única regra de fé".
Não são poucos hoje em dia os estudiosos do cristianismo que apontam  o quanto nos desviamos do Caminho original traçado pelos apóstolos. Emil Bruner, A.W. Tozer, Christian Schwarz,  George Barna, Dallas Willard são alguns nomes que tem mostrado através dos anos que um estudo apurado das raízes  do cristianismo nos mostra que algo deve ser resgatado, porque algo foi perdido, logicamente. Autores como Philip Yancey, Larry Crabb, Brennan Mannning e Frank Viola tem mostrado uma sede por (re)descobrir como a nossa Fé foi cunhada para ser universal, não um subproduto cultural. Homens com chamado para pastorear como Eugene Peterson, Caio Fábio e Ricardo Gondim se colocam a frente para receber as pedradas por se  tornarem algumas das principais vozes a se levantar contra o esvaziamento do verdadeiro caráter do Evangelho.


“Os pastores estão abandonando seus postos, se desviando para a direita e a esquerda, com freqüência alarmante. Isso não quer dizer que estejam deixando a Igreja e sendo contratados por alguma empresa. As congregações ainda pagam seus salários, o nome deles ainda consta no boletim dominical e continuam a subir ao púlpito domingo após domingo. O que estão abandonando é o posto, o chamado. Prostituíram-se após outros deuses. Aquilo que fazem e alegam ser ministério pastoral não tem a menor relação com as atitudes dos pastores que fizeram a história nos últimos vinte séculos.” Eugene PETERSON, – Um pastor segundo o coração de Deus. 1ª. Edição, Rio de Janeiro: Textus, 2000. Pág. 1

"Cansei! Entendo que o mundo evangélico não admite que um pastor confesse o seu cansaço...Canso com o discurso repetitivo e absurdo dos que mercadejam a Palavra de Deus. Já não agüento mais que se usem versículos tirados do Antigo Testamento e que se aplicavam a Israel para vender ilusões aos que lotam as igrejas em busca de alívio. Essa possibilidade mágica de reverter uma realidade cruel me deixa arrasado porque sei que é uma propaganda enganosa. Causa tédio tomar conhecimento das infinitas campanhas e correntes de oração; todas visando exclusivamente encher os seus templos. Considero os amuletos evangélicos horríveis. Cansei de ter de explicar que há uma diferença brutal entre a fé bíblica e as crendices supersticiosas...Canso com a repetição enfadonha das teologias sem criatividade nem riqueza poética. Sinto pena dos teólogos que se contentam em reproduzir o que outros escreveram há séculos. Presos às molduras de suas escolas teológicas, não conseguem admitir que haja outros ângulos de leitura das Escrituras. Convivem com uma teologia pronta. Não enxergam sua pobreza porque acreditam que basta aprofundarem um conhecimento “científico” da Bíblia e desvendarão os mistérios de Deus. A aridez fundamentalista exaure as minhas forças." - Ricardo Gondim em texto publicado no site da Ultimato

Postei também uma importante pregação do pastor Ed René Kivitz em audio, na qual ele compara o sistema atual com o mercado dos produtores de ídolos de Éfeso. Não deixe de ouvir. 

A minha pergunta é: Onde isso vai nos levar? Essa indignação toda não pode ficar apenas na verborragia, mas deve ser canalizada na direção para a qual está apontando, no caso as estruturas que fizeram tão mal ao Caminho. De que adianta apenas constatar o erro e não tomar uma  decisão radical para desviar-se dele? Quando tomamos uma decisão por JESUS em nossas vidas, decisão que muda completamente o centro do viver, não o fazemos porque tomamos, enfim, conhecimento do rumo que nos levava ao lado errado? Porque deveria ser diferente quando constatamos que o rumo das instituições aponta para um desvio que tem criado um vácuo que dificilmente será preenchido se não repudiarmos tudo o que ele significa. 


O FERMENTO  DOS FARISEUS E SADUCEUS
Não é de hoje que se busca soluções. Lutero dizia que deveria haver "uma terceira ordem de culto" verdadeiramente "evangélica" e não realizada publicamente, mas somente para os "inscritos", onde se poderia dedicar a edificação espiritual mútua e "realizar outras obras cristãs" (Wolfgang Simson - "Casas que transformam o mundo"). Esses encontros não deveriam acontecer no espaço do templo, mas nas casas dos membros. Howard Snyder, outro pesquisador da história da igreja, aponta em "O Wesley Radical", título inédito por aqui, que o reformador britânico inovou no conceito das chamadas "classes", que não foi outra coisa senão o retorno ao ideal da igreja nos lares, onde as pessoas tinham mais liberdade para ser elas mesmas. Essas iniciativas foram importantes, mas se perderam e foram absorvidas pelas instituições, porque o pensamento do homem é que a sua segurança depende da criação de instituições fortes e centralizadas para governar tudo. 


Nenhuma iniciativa dessa ordem terá êxito se não levar a um rompimento, ainda que gradual, mas inexorável, com um modelo de ensino herdado do romanismo que limita e infantiliza o entendimento do alcance para o qual a Eclesia foi plenejada. Não basta, entretanto, transferir a igreja para sua casa e dizer não a essa ou aquela prática e se transformar no ditador de um pequeno grupo. É preciso conhecer antes o inimigo e seu potencial de penetração e contaminação no organismo chamado Corpo e, assim, anular sua virulência. O conselho de JESUS para seus discipulos antes mesmo da fundação da Igreja foi para que se acautelassem do "fermento dos fariseus e saduceus", e isso Ele disse com gravidade. Como o evitariam se não soubessem do que se trata?


Tal elemento inútil e nocivo à semente do Reino de DEUS inocula no indivíduo um padrão de pensamento, como se fosse um "programinha", um vírus, um "trojan horse", que se instala com o objetivo de institucionalizar a fé e os indivíduos, catalogando-os e dividindo-os de acordo com as doutrinas ensinadas para melhor monopolizar sua atenção, e emparedando o sentido da fé em padrões de comportamentos estereotipados. Ou seja, JESUS veio para produzir um povo diferente, um povo livre de uma determinada cultura, expressa na forma de tradições religiosas ou herdadas dos pais. O povo de JESUS não deveria produzir cultura própria, mas se espalhar através das culturas dos povos e ensina-los a viver corretamente. Esse é o caráter universal do cristianismo. O povo de JESUS deveria estar pronto para diferenciar cultura de Reino. 


Que tipo de discípulo um fariseu produziria? Não seria um modelo de judeu cultural como ele? Qual foi a luta dos apóstolos contra os judaizantes no primeiro encontro apostólico? Não foi para separar cultura de Reino de DEUS? Os apóstolos tiveram que ser confrontados com isso, principalmente Pedro, que foi avisado em visão de que não deveria tornar impuro aos seus olhos aquilo que DEUS santificou pelo sacrifício de JESUS, ou seja, os gentios das nações. O encontro de Atos 15 definiu que os evangelistas não deveriam tornar os gentios num simulacro de cultura judaica. 


O "fermento dos fariseus" com toda sua peçonha, continua entre nós. Ele visa a institucionalização da fé das pessoas, emparedando-as, catalogando-as, dividindo-as de acordo com doutrinas e visões particulares e produzindo tipos estereotipados em culturas próprias. Ser um "cristão evangélico" hoje é fazer parte de uma cultura que tem quase tudo em comum com o que vemos no mundo, apenas o discurso se reveste de um tom cheio de piedade e moral, mas não se consegue mais esconder o cheiro de ossos podres por detrás das paredes caiadas. Temos pessoas que amam os primeiros lugares e o aparecer em público cercado de pompas e circunstancias, temos "homens de DEUS" que amam os títulos, temos seitas e subseitas que lutam pelo poder e entre si pela proeminência aos olhos do mundo e temos cegos sendo conduzidos por cegos rumo ao precipício.


Identificar e anular tal "programa" exige entender e estar apto a discernir o que JESUS queria implantar em seus discípulos. Em João capítulo1, 38 e 39, vemos como se iniciou a igreja: "E Jesus, voltando-se e vendo que o seguiam, disse-lhes: Que buscais? Disseram-lhe: Rabi (que quer dizer Mestre), onde moras?  Respondeu-lhes: Vinde e vede. Foram, pois, e viram onde Jesus estava morando; e ficaram com ele aquele dia, sendo mais ou menos a hora décima". A base da qual JESUS parte é RELACIONAMENTO PESSOAL E NÃO DOUTRINAL. E segue descrevendo por todo Evangelho que o Reino de DEUS tem valores completamente opostos aos do mundo. Se as insituições que pregam ser portadoras da verdade cristã são tão parecidas em sua concepção e disposição àquelas que espalham cultura massificada, não seria este um sintoma de que não estamos plantando a semente original? 


Segue-se que o ensinamento de JESUS é diametralmente oposto ao do ensino farisaico porque JESUS instituiu uma ESCOLA DE VIDA, na qual se aprende vivendo o dia-a-dia, colocando em prática os ensinamentos dentro do círculo íntimo do discipulado e preparando seus alunos para enfrentar o mundo lá fora numa perspectiva universal, não diminuída por uma visão tacanha de doutrinas e instituições dominadas por egos gigantescos. Na Escola de Vida de JESUS, os egos e suas opiniões e pressupostos foram vencidos e submetidos ao chamado maior de servirmos uns aos outros, sem demagogia ou hipocrisia. 


A escola farisaica é, em sua essencia, uma escola de pensamento, de racionalização e verbalização de doutrinas. É individualista e pautada pela opinião pessoal e partidarismos. Pode-se crescer nesse caminho individualmente sem precisar esperar por outros. Tudo depende do empenho e da atuação do prosélito. Nesse sentido, a escola farisaica é semelhante ao método grego. Os gregos, não obstante sua importancia histórica no processo de evolução do pensamento filosófico, estavam divididos entre si em tantas escolas de pensamento filosófico diferentes, embora semelhantes entre si, que não seria difícil ver em Atenas acaloradas discussões entre estóicos, epicureus, cínicos e outras escolas socráticas se tornarem verdadeiros embates físicos. Paulo em Corinto, enfrentou esse tipo de pensamento grego, pois a comunidade, bem ao gosto do que se via entre eles, dividiu-se em partidos antagônicos que disputavam entre si, como se fazia nas praças (as ágoras),  pela atenção da gentes. Diziam-se partidários do pensamento "cefaico", outros da escola "apolônica" e outros, pretensamente mais "humildes", da escola "crística". Vejam o absurdo que se chega ao reproduzir, mesmo inconscientemente, os padrões do mundo dentro da igreja.


Para que algo mude, é preciso romper a tradição que nos diz que um verdadeiro discipulo de Cristo se faz com informação teológica e ativismo eclesiastico. É preciso romper com o fermento de Agostinho e  de Tomás de Aquino e de Lutero e também de Calvino, pois todos, recaíram no mesmo lugar: a necessidade de controlar e erigir verticalmente e não horizontalmente.


DEUS EM AÇÃO = ADEUS RELIGIÃO


O erro mais comum que tenho visto é considerar que podemos reproduzir os resultados de Atos dos Apóstolos passando informação adiante ou tomando medidas práticas para tornar a "igreja" mais dinãmica e vibrante. Deveria parecer óbvio mas nem os Evangelhos, nem o livro de Atos e muito menos as cartas de Paulo podem ser tratadas como um manual prático de construção de barcos e é isso que o "cristianismo" tem feito ao longo de todos esses anos.


É impressionante constatar como em cada movimento genuíno de reavivamento espiritual que se pode encontrar na História, o próprio DEUS se encarregou de anular o princípio sistêmico eclesial para fazer irromper uma sede e uma busca por algo que tais pessoas apenas suspeitavam.


Com efeito, historicamente, em NENHUM avivamento de que se tem notícia, podemos detectar a presença ou ação de alguma denominação ou ação humana organizada em específico. Seja no no avivamento morávio, seja nas Hébridas, no caso dos Irmãos Unidos de Plymouth, seja no País de Gales, na China pré-comunista, seja na rua Azuza, não se pode constatar outra coisa senão indignação e descontentamento com o estado em que as igrejas haviam caído. Tal fato levou essas pessoas a buscarem em DEUS uma solução livre de opiniões pessoais e pressupostos doutrinarios, o que os levou de volta a simplicidade de Cristo e à quebra de tradições religiosas arraigadas. É interessante o que o escritor americano Bob Munford diz em "Reinando em Vida": "Para se fazer uma igreja do Novo Testamento, é necessário antes PESSOAS do Novo Testamento"

Essa ruptura traz sempre novos paradigmas, ou antes, traz um retorno aos princípios primitivos da Igreja, sem institucionalismos mas com uma ênfase no relacionamento com DEUS e uns para com os outros. Quando isso é fomentado e protegido acima dos interesses e opiniões pessoais e pressupostos doutrinarios, a Presença e direção do Ressucitado são mantidas por mais tempo. Veja o caso do avivamento moravio, que começou em 1727, e continuando como um movimento não doutrinário, mas de simples comunhão e de busca da face do SENHOR, durou mais de cem anos. Já no caso dos irmãos unidos deu-se o contrário. Um início promissor e de bons resultados em reunir cristãos insatisfeitos com os rumos de suas congregações acabou enrijecido por dentro por conta das divisões doutrinárias e das imposições que Darby queria impor aos demais. O movimento enfraqueceu rapidamente, embora tenha gerado campeões do espírito de George Miller. 


O avivamento da Azuza só foi enfraquecido quando o espírito humano desejou impôr limites ao Espírito de DEUS, introduzindo ali o fermento farisaico da religião. É uma historia fascinante que merece ser conhecida. Muitos paradigmas evangélicos tradicionais cairam ali. É triste constatar que o mover de DEUS foi podado por divisões racistas e o desejo de serem aceitos no meio evangélico tradicional dos EUA. 


Para rompermos algo hoje em dia, é preciso assumir o risco calculado de abandonar o terreno seguro. É preciso ser radical e cortar os laços com estuturas derivadas de pensamentos humanos. Acima de tudo, é preciso que não tenhamos pressa. Pressa de fazer e acontecer e de aparecer para o mundo. Pressa para crescer. Pressa para se um sucesso. Pressa para "causar", como se diz. 


Vejo muitos hoje em dia que admitem que o cristianismo está deturpado, mas poucos dispostos a pôr o dedo na ferida e dizer que não há reforma possível nisso aí que temos hoje. Só é possível repudia-lo e recomeçar sob outros termos. A maioria só está disposta a passar a mão na cabeça da besta. Poucos tem coragem de falar como Caio Fábio que repudia abertamente o chamado "cristianismo".


Imagino que no tempos idos, estar na "igreja" era ter tempo para se relacionar uns com os outros. Imagino que, no geral, as agendas das pessoas não espremiam seu tempo como hoje. Imagino que a "igreja" nao era conduzida por eventos ou pela necessidade de comprar isso ou aquilo, ou alugar um lugar maior para reuniões, nem por estratégias de markting para atrair novos convertidos.


Tempos complicados são esses, em que aceleramos tudo: aviões, carros, trens, conexões e até mesmo o modo como se faz um discípulo se tornar um verdadeiro homem de DEUS. DEUS continua não tendo pressa. Os moinhos de DEUS continuam a moer vagarosamente. Definitivamente, seus métodos não são os mesmos que os nossos. 



"Se o cristianismo rejuvenescesse, este rejuvenescimento teria que ser de alguma
maneira diferente do que ocorre agora. Se a Igreja na segunda metade deste século
[XX] pretende recuperar-se das feridas que sofreu durante a primeira metade, então
precisara de um novo tipo de pregador. O conveniente chefe de sinagoga nunca vai
funcionar. Nem o tipo sacerdotal que desempenha suas funções e recebe sua paga sem
outras preocupações, nem o tipo pastoral com sua ‘língua de ouro’ que sabe como fazer
para que o evangelho seja saboroso e aceitável a todos. Todos estes tipos foram
reprovados e nada resolveram. Outro tipo de líder religioso precisa surgir entre nós. Ele
precisa ser do tipo do antigo profeta, um homem que tem visões de Deus, um homem
que escuta a voz vinda do trono. Quando ele vir, (e eu oro, oh! Deus! Que não haja
apenas um, mas muitos), ele questionará tudo aquilo que nossa civilização considera
precioso. Ele colocará em dúvida, denunciará e protestará em nome de Deus e será alvo
do ódio e da oposição de grande parcela da Cristandade."
-A.W. Tozer




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