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O problema com Rick Warren


Essa matéria foi originalmente publicada no site da revista Ultimato: http://www.ultimato.com.br/?pg=show_artigos&artigo=2378&secMestre=2411&sec=2440&num_edicao=318


É entre os evangélicos que o hábito da leitura mais cresce. O “povo do livro” tem a Bíblia como revelação, o que implica a importância do hábito da leitura como algo sancionado e implementado por Deus! Não apenas a leitura da Bíblia, mas a leitura em geral, que desenvolve a mente. Porém, o que temos lido? E como temos lido? Nem sempre lemos bem, assim como nem sempre oramos bem (Tg 4.3). Todavia, toda leitura é proveitosa quando passamos a ler criticamente; mesmo ler um livro ruim é bom, pois percebemos seus equívocos, dos quais às vezes nem o autor está consciente. Às vezes nos falta um arguto senso crítico que nos proteja de nos deixarmos levar pela retórica do autor que persuade com expressões tecnicamente calculadas para agradar, e o açúcar faz descer o veneno.

O sucesso de Rick Warren e de seu livro “Uma Igreja com Propósitos” é o sucesso do sucesso! É o sucesso de ter “no sucesso” um propósito de vida pessoal e ministerial. O sucesso que faz sucesso entre as pessoas hoje não é o da “obediência da fé” (Rm 1.5), nem o do “tomar a cruz” (Mt 16.24).

O sucesso que hoje se idolatra não é como o proposto no Salmo 1, em que o prazer está na “instrução do Senhor” e não em técnicas empresariais. O sucesso que faz sucesso hoje nas igrejas é o segundo os padrões mundanos de nosso tempo, em que as relações são mediadas pelo mercado. Esta ideia contemporânea de sucesso está implícita nas estratégias aplicadas ao crescimento de igrejas, das quais se pode inferir uma alta consideração por fama, prestígio, tamanho, enriquecimento e poder.

Igrejas e autores como Rick Warren escondem esse desejo mundano de sucesso por trás de uma linguagem aparentemente piedosa. Tenhamos a coragem de realizar uma autocrítica que nos permita verificar se esse caminho é o ideal, e até mesmo apropriado para nós. O que Warren propõe é a teologia da prosperidade, só que aplicada às instituições eclesiásticas, em vez de aplicada a indivíduos. É o crescimento numérico e financeiro do ministério que evidencia a bênção divina. Warren acaba por despertar, como um subproduto inconsciente, tudo aquilo que há de pior nos pastores: a vaidade, a cobiça, o amor ao prestígio, ao dinheiro e ao poder.

Uma igreja cristã não é uma instituição qualquer que visa o crescimento e a maximização dos lucros. Uma empresa secular deveria ter vocação social, mas busca sua perpetuação como finalidade. Isso também é verdade acerca de muitas igrejas que abandonaram os princípios éticos reformados do trabalho: sentido de vocação, austeridade em vez de ostentação e, acima de tudo, honestidade, em troca dos valores da sociedade de mercado e das estratégias de crescimento das empresas seculares.

Uma igreja não pode ter o crescimento como finalidade, pois existe para outro propósito: proclamar o evangelho da graça salvadora, por meio do testemunho de palavras e de obras de amor e, dessa forma, praticar a verdadeira e genuína adoração. As igrejas são passíveis de corrupção e degenerescência, como evidencia a história.

As igrejas se vendem ao “espírito-do-tempo” (“Zeitgeist”) e esse é o verdadeiro liberalismo teológico: o comprometimento de nossos princípios e valores em nome de uma acomodação. O “Zeitgeist” hoje é o de uma sociedade de consumo e de relações sociais mediadas pelo mercado. As igrejas passam a viver em função de seu próprio “sucesso”, ao estilo do mundo. Fazem planejamentos estratégicos, escolhem fatias do mercado, adotam “slogans” e passam a utilizar o discurso persuasório da publicidade que almeja a manipulação.

Os membros das igrejas, que Deus tanto ama, são instrumentalizados pelas igrejas para seus próprios fins, numa inversão perversa: o homem passa a existir para a igreja, e não a igreja para o homem -- perversão análoga àquela que Jesus combateu ao afirmar que o homem não foi feito para o sábado, mas o sábado para o homem (Mc 2.27). Deixar de priorizar pessoas sobre as coisas e as instituições é o colapso da vocação cristã.

O espírito do “warrenismo” pode ser identificado em uma das cartas em resposta ao meu artigo Quarenta livros que fizeram a cabeça dos evangélicos nos últimos quarenta anos (novembro/dezembro 2008). Alguém pergunta: “Quem é Ricardo Quadros Gouvêa? Qual o impacto do seu ministério sobre vidas e sua experiência ministerial? Faz apologia a Caio Fábio e comentário jocoso sobre Rick Warren. Infelizmente existe muita gente que não aceita que outros tenham um desenvolvimento ministerial maior que o seu!”

O missivista concorda com Warren que o sucesso de um ministério cristão depende do tamanho, que esse é o critério adequado para avaliarmos um ministro. Se eu fosse pastor de uma igreja de três mil membros, ele se veria obrigado a respeitar minhas opiniões, pois tal fato me credenciaria para afirmar o que quer que fosse. Contudo, sou pastor de uma igreja de cem membros, e não me preocupo com seu crescimento. Pretendo ser aferido pela fidelidade (1Co 4.1-5). Além disso, é contraditório sugerir que não aceito que outros tenham ministérios maiores que o meu e simultaneamente afirmar que faço “apologia” a Caio Fábio (o que também não é verdade), que tem um ministério muito maior que o meu. Eis o efeito pernicioso de Rick Warren: tecnicismo, pragmatismo e a avaliação do tão desejado “sucesso” por critérios mundanos.

Desconstruamos Warren pela sua noção de homogeneização. Em igrejas heterogêneas há gente de todo tipo e elas têm dificuldades de crescer. Há diferentes preferências pessoais porque essas pessoas têm formação educacional distinta, são de etnias variadas e pertencem a diferentes faixas etárias e classes sociais. O que Warren propõe, entre outras estratégias mercadológicas, é a execução proposital de um processo de homogeneização: a igreja que pretende crescer deve escolher uma fatia do mercado: escolher se será igreja de ricos ou de pobres, de cultos ou de incultos, voltada para uma etnia específica, e seus cultos devem agradar a um público específico. Os ricos não terão de passar pela humilhação de se sentarem com pobres, e não serão forçados a admitir que, em Cristo, somos todos iguais. Tampouco os cultos terão de partir o pão com os analfabetos, no sagrado nivelamento do evangelho. Poupemo-los desses constrangimentos! A homogeneização é um processo de especialização, de encontrar um “público-alvo” ao qual será possível satisfazer mais facilmente. Parece, a princípio, uma boa estratégia de evangelização. E funciona! Está, entretanto, de acordo com os princípios da ética cristã e com os propósitos de Deus? Não seria melhor sacrificar o sucesso no altar do Senhor?

Uma igreja é uma família da fé que reproduz em seu microcosmo a realidade social. Numa família encontramos pessoas de todo tipo: abastadas e necessitadas, cultas e incultas, jovens e idosas, pessoas de diferentes etnias, com preferências distintas. Assim é em uma igreja saudável, e isso nos ensina a sermos respeitosos e pacientes. Na igreja homogênea tudo é mais fácil, pois todos são parecidos. Martin Buber alerta: “Quando amamos somente aqueles que se parecem conosco, não amamos ao próximo, mas antes a nós mesmos refletidos no próximo”. A igreja homogênea pode crescer mais facilmente, mas tal crescimento é apenas inchaço, e não o crescimento orgânico de uma igreja heterogênea, fruto do crescimento espiritual de uma comunidade que tem de lidar com sua própria diversidade. Todos desejam participar de uma comunidade onde reina o amor! O crescimento se torna aí uma consequência natural.

Uma igreja precisa crescer? Por que as igrejas locais almejam o crescimento? Não se está questionando aqui o avanço do evangelho de Cristo, nem se devem surgir novas igrejas, mas sim o anseio de crescimento da igreja local e as megaigrejas, com milhares de pessoas que mal se conhecem e pastores que mal conhecem suas ovelhas.

Qualquer igreja com mais de mil membros corre sérios riscos de degenerescência, de perda das características que determinam sua existência como comunidade cristã. O ideal hipermoderno de igrejas grandes e poderosas deve dar lugar ao resgate do valor das eclesiolas em que a preocupação não é numérica ou financeira, mas humana e espiritual. A boa igreja não é aquela que nos proporciona um bom “show” dominical, impessoal e superficial, mas aquela onde encontramos a nutrição espiritual da comunhão fraternal com os que sabem nosso nome, onde todos são iguais, não por causa de uma estratégia secular de homogeneização, mas porque todos, apesar das diferenças, se amam e se respeitam, e formam um corpo místico, em que Cristo é a cabeça e nós somos diferentes órgãos (1Co 12).

Como estamos longe do “esvaziamento” de Cristo (Fl 2.1-8), do desapego ao sucesso, ao prestígio, à fama, ao poder, ao dinheiro! Como testemunharemos de Cristo por meio de nossas vidas, como ensinam as Escrituras Sagradas: “Alegrai-vos na medida em que sois co-participantes dos sofrimentos de Cristo [...] se pelo nome de Cristo sois injuriados, bem-aventurados sois, porque sobre vós repousa o glorioso Espírito de Deus” (1Pe 4.13-14)? Talvez somente após a morte seja possível ao homem compreender o que significa ser bem-sucedido na vida. Os apóstolos nos ensinam que é perseverar em meio ao sofrimento. É motivo de alegria sofrer como Jesus sofreu e por causa de nosso amor por ele.

Agostinho fala de duas cidades, a de Deus e a terrena, em tudo misturadas. Na primeira reina o “agape”, a caridade (“caritas”), na segunda, o “eros”, a concupiscência (“cupiditas”). Ser bem-sucedido na cidade de Deus não significa sê-lo na cidade terrena e vice-versa. Jesus, ainda que inteiramente bem-sucedido na perspectiva celeste, foi muito malsucedido pelos padrões da cidade terrena, pobre, malcompreendido, abandonado e executado como um criminoso. Seus seguidores foram martirizados, depois de uma vida de pobreza, prisões e privações.

Os maiores expoentes da espiritualidade cristã foram todos sofredores. No século 4 Antão vivia numa caverna, miserável, considerado louco, mas venerado por sua santidade. Francisco de Assis, humilhado pelos cardeais e papas, morreu aos 44 anos e é visto por muitos como o maior discípulo de Cristo que já viveu. Juliana de Norwich nunca teve posses, foi considerada herege e, depois, aclamada como sábia. David Brainerd, o missionário americano que abandonou tudo para pregar o evangelho aos nativos de seu país, morreu aos 29 anos e deixou um diário de meditações que até hoje nos comove. José Manoel da Conceição, o padre protestante, que não viajava a cavalo, mas a pé e às vezes descalço, morreu como um indigente aos 51 anos, incompreendido pelos missionários. Como teriam eles se saído numa avaliação de sucesso a partir dos critérios dos warrenistas? Homens de Deus, mas totais fracassos na cidade terrena onde o que conta é a fama, o lucro, as posses, o poder, a saúde, a longevidade e a aparência física.

Hoje encontramos nas igrejas a pregação do sucesso, da reivindicação. Deus tem de nos abençoar com riquezas. Exigimos e nos apossamos do que é nosso por direito: o sucesso segundo os padrões do mundo. Agora isso vale também para as igrejas que querem ser como empresas bem-sucedidas: a busca do sucesso mundano sancionado por uma falsa fachada de sacralidade. Mefistófeles promete de novo a Fausto a felicidade em troca de sua alma. Vender-se ao espírito mercadológico do nosso tempo, em que impera o maquiavelismo, é vender a alma, abandonando princípios e valores que, para um cristão, são inegociáveis.


Ricardo Quadros Gouvêa é ministro presbiteriano e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie e do Seminário Teológico Servo de Cristo.


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