30 dezembro 2009

CORRA COM OS CAVALOS - Parte 2


Parte 2 – “Por que dura a minha dor continuamente?” – Jeremias 15,17

Ao nos determos na passagem que dá título ao livro (essa matéria era pra ser uma resenha), nos damos conta de algumas coisas interessantes. Jeremias está orando. E o que ele está orando? Alguns sequer chamariam isso de oração, pois Jeremias está, na verdade, inquirindo a DEUS sobre aquilo que seus olhos veem e ele não consegue compreender. “Tudo bem, SENHOR, tu és DEUS e creio em Ti, MAS MESMO ASSIM, vou te questionar. O SENHOR permitiu que os maus se enraizassem entre seu povo mesmo sabendo que seu coração está longe de ti. Por isso, vemos as coisas irem de mau a pior por todos os lados. Até quando, SENHOR (eta perguntinha!!)? Porque não age logo?”

A resposta de DEUS não explica nada mas traz um desafio a Jeremias: “Jeremias, meu filho, não posso fazer isso que me pede, mas vou lhe dizer o que já fiz: Eu gosto de corridas, principalmente as de cavalos, sabe? Sabe o que eu fiz? Inscrevi você numa delas e apostei tudo em você! Não é o máximo? Você já está bem no meio dela, sabe, e não tem como voltar se não quiser ser atropelado. Você só pode seguir em frente, meu filho. E, olha, eu garanto que você vai chegar na frente, senão eu não teria apostado todas as fichas nisso. Resumindo, não posso mudar as regras do jogo agora, desculpe, só assegurar que o prêmio compensará a dureza da prova, ok?”

Isso, apesar de soar meio irônico ou mesmo sarcástico em se tratando do DEUS cristão, mas é algo que pode ser constatado de acordo com a realidade que vivemos. Não pedimos para nascer nem sabemos em que tipo de família vamos crescer, mas não há tempo para lamentações, Ele parece não ter tempo (logo Ele que é eterno) ou paciência para agüentar autocomiseração. O recado é claro: Não há desculpas possíveis para aquilo que decidimos nos tornar por nossas próprias escolhas e vontades. Em Genesis vemos DEUS falando com o revoltado Caim, antes deste assassinar o irmão: “Então, lhe disse o SENHOR: Por que andas irado, e por que descaiu o teu semblante? Se procederes bem, não é certo que serás aceito? Se, todavia, procederes mal, eis que o pecado jaz à porta; o seu desejo será contra ti, mas a ti cumpre dominá-lo”. Só nos resta participar da corrida dessa vida a fim de completar a carreira e nos tornar aquilo que sentimos que DEUS nos chama para ser a despeito das dificuldades e obstáculos que possamos nos impor e elas podem variar muito de uma pessoa para outra (por ex: para um pobre, sua miséria, para um rico, sua riqueza) mas creio que interiormente, todos somos como Jeremias, cheios de dúvidas, traumas e cicatrizes emocionais.

Jeremias foi do numero daqueles que perseveraram em matar o eu para realizar aquilo que considerava mais importante do que ele mesmo emprestando à sua vida um significado maior do que ela poderia apresentar de outro modo. De início, Peterson dispara: “O enigma a ser decifrado é: Por que tantas pessoas vivem de forma tão ruim?Vidas não tanto caracterizadas pela maldade, mas pela mediocridade. Não tanto caracterizadas pela crueldade mas pela estupidez”.

Me dou conta de porque existem tantas religiões no mundo: elas servem para introduzir os homens ao maior dos mistérios, o propósito de sua existência e tomar contato com um senso de que sua vida, afinal, é importante e tem um sentido para mais além do óbvio. DEUS colocou isso no homem, não é uma fuga como acham os céticos. Em Eclesiastes lemos “Tudo fez Deus formoso no seu devido tempo; também pôs a eternidade no coração do homem, sem que este possa descobrir as obras que Deus fez desde o princípio até ao fim”. Temos o anseio, ou talvez o pressentimento, de que há algo esperando por nossa volta. É Esse realmente o sentimento, de volta, não uma partida para um lugar desconhecido.

Adoro pensar como Chesterton que dizia que somos náufragos com um tipo de amnésia fatal, mas que resgataram algumas coisas dos destroços do acidente que os faz lembrar constantemente de casa, coisas como Amor, altruísmo, humildade, fraternidade, perdão, etc. Talvez não sejamos todos protagonistas como Jeremias que habitou no centro do furacão mais devastador da história judaica antiga, mas não importa. Assim como ele, DEUS espera que tomemos nosso lugar na corrida. Ele espera que você o ouça de modo particular e instransferivel. A corrida que Ele propõe é rumo a Excelencia (“que os gregos chamavam areté”, diz Peterson), a fim de torna-lo um ser humano completo. Não espere aplausos ou a aprovação da multidão. Não ouça seus clamores ou mistificações. São falsos e tem o poder de enebriar o peregrino com seus anseios por mais vinho e alegrias instantâneas. Deixe-os.

Mas esteja certo de que vai descobrir algo bem cedo: o treinamento vai ser duro, pois o custo benefício em ser autentico nesse mundo é zero.

O que acontece, porém, com as religiões de todo mundo, cristãs ou não, é aquilo que podemos constatar em cada instiuição criada para que pudéssemos ter uma dose de ordem, justiça e equilíbrio.

Ou seja, a política, por exemplo. Foi criada para que homens com chamado ou consciencia cívica pudessem agir em prol de toda comunidade gerando leis e mecanismos para proteger a cidadania. Não e má em si mesma, mas um mal necessário à vida em sociedade. Veja, no entanto, o buraco negro em que nos metemos com a política no modo em que está hoje: políticos profissionais fazendo uso de uma máquina sórdida, corrompida até a medula, e que existe com o único motivo de perpetuar benesses particulares. Podemos constatar isso em qualquer grau das relações humanas e suas instituições.

Estou seguindo o raciocinio de C. S. Lewis que disse: “O que você é, resulta naquilo que você faz...nos tentamos ser religiosos e nos tornamos fariseus...O serviço social se torna uma formalidade burocrática...Altruísmo se torna uma forma de se exibir...A História não é apenas a história de pessoas más fazendo coisas ruins...É, na sua maior parte, uma história de pessoas tentando (ou pensando, diria eu) em fazer o Bem...Mas, quando fizeram isso, de alguma maneira algo deu errado”.

As religiões são o exemplo mais clássico disso. Creio que a maior parte delas foi entregue aos homens, como todas as outras instituições da civilização, para o nosso Bem, para nos orientar para o essencial, para nos preparar para Ele mesmo. Como todas as outras instituições, foi entregue ao homem e, como sabemos, como todas as outras, transformou-se no que vemos hoje: formalismo burocrático em sua maior parte, sem conteúdo real, só escapismo e doutrinas periféricas prejudiciais àquilo que JESUS definiu como essencial para a irmã de Maria, Marta, a prática: “Uma só coisa é necessária!”

Um colega de serviço, que anda inclinado à doutrina de Kardec, falava comigo e a conversa inclinou-se para a possibilidade de vida em outros mundos, na qual ele crê, e ofereceu-se para me emprestar um livro (psicografado) que trata da riqueza da vida espiritual em Marte. Declinei gentilmente da oferta e disse-lhe que, ao caminhante, muitas coisas serão oferecidas para que ele se distraia ao percorrer a trilha até achar o Caminho verdadeiro. A coisa não irá mudar depois que ele O achar. As forças contrárias continuarão tentando arranca-lo de lá e, dessa vez, de modo mais violento, a guerra se tornará renhida. Aconselhei-o a continuar lendo os Evangelhos e perscrutando as enigmáticas palavras, pois tais doutrinas só servem para assanhar a curiosidade de incautos.

A pergunta é: Estão as instituições que proclamam que praticam unicamente a Bíblia como única regra de fé e prática melhores que isso? Minha esposa ralha comigo quando exponho aquilo que entendo como sendo a maior vergonha atual da chamada “igreja evangélica” e tento entende-la e não sobrecarrega-la com meus fardos, pois a cada um foi dada uma medida de fé. Disse-lhe que o DEUS Eterno não esta nem aí com 95% daquilo que é realizado dentro das denominações que dizem falar em SEU Nome hoje em dia. Por que? Por que Ele não é um promotor de eventos. Fizeram Dele um coadjuvante de peso que apóia os programas e a agenda expansionista dos líderes das instituições denominacionais. Transmudamos o vinho em água, realizamos o milagre ao inverso. Transformamos algo que deveria ser revolucionário em algo domesticado, adaptado a letargia da nossa alma, que, acima de tudo, deseja o sossego dos benefícios desse mundo antes das dores do Calvário. Disse certa vez a um amigo que o cristianismo pode (e deveria ser na maior parte das vezes) a coisa mais selvagem e abrasadora que esse mundo já viu. E o foi no primeiro século com os apóstolos e depois em vários avivamentos ocorridos através do mundo em várias épocas. Mas o cristianismo também pode ser a religião mais insossa e desprovida de sentido que existe se deixarmos que pequenas distrações, raposinhas, adentrem o quintal. Pois o inimigo sabe a diferença entre um cristão verdadeiro e um sacristão. É mais ou menos como a diferença entre um leão e um cão sarnento.

Pois bem, Jeremias tinha um único problema: a “igreja” de sua época. Toda sua vida e missão foram voltados para esse tópico. Jeremias se tornou persona non grata em sua própria terra por bradar contra o formalismo burocrático que fazia carreira na instituição responsável por ensinar àquele povo como se deveria viver a Palavra de DEUS. Acima de tudo, a crítica ácida de Jeremias não era contra a forma exterior de culto, o formato não estava em pauta, mas o conteúdo. Contra todo um sistema arquitetado para ser condescendente com a apatia espiritual de todo um povo, Jeremias reagia dizendo não à superficialidade.

JEREMIAS, O DESERTOR

Aparentemente, para todos, tudo ia bem, exceto pelo fato de que o maior interessado em tudo aquilo ( e não era Jeremias) não via as coisas pelo mesmo prisma. A casta sacerdotal fazia bem o papel de administradora do Templo e o lugar voltara a ser o centro religioso e espiritual do país. Já não havia prostitutas nem sacrifícios a deuses pagãos. O bom e velho culto ao SENHOR DEUS havia voltado. Sacerdotes especializados ministravam e profetizavam e iam tornando aquele um lugar notável e admirado por todos: “Templo do SENHOR, Templo do SENHOR!” – exclamavam os mais entusiasmados.

De repente, aparece Jeremias falando coisas desagradáveis e estranhas. “Mas quê...De que reclama esse rapaz? Não estamos melhores que na época de Manassés? Por que ele é tão negativo? Não poderia ser mais agradável?”... “O que? É o filho de Hilquias,? Aquele que desistiu do sacerdócio? Não te disse que é um rebelde desviado?”

Jeremias realmente desistiu do sacerdócio, uma função herdada de família, uma honra a qual não se poderia aspirar em Israel simplesmente através de esforço. Era preciso nascer na família certa, da casa correta segundo a Lei. Jeremias desertou, abriu mão. Não sei quais as consequencias disso no seio familiar judaico, mas levando em conta que a honra familiar ainda hoje suscita rivalidades seculares no Oriente Médio, Jeremias pagou o preço por essa desonra feita a casa de seu pai. O por quê disso? Como vaso da indignação de DEUS contra aquela geração, não deveria haver espaço para mera retórica. Jeremias era a ponta de lança que DEUS pretendia encravar para mostrar sua vontade. O profeta não deve somente trazer uma mensagem, deve ele mesmo ser, encarnar, essa mensagem. O remédio ministrado por DEUS é mais amargo, mas mais eficaz para ir direto à raiz do problema humano.Como um machado, provoca uma cisão radical. “Deixe os mortos enterrarem seus mortos”; “Se teu olho te escandaliza, arranca-o”; “Quem não deixar seu pai ou sua mãe não é digno de mim”...Como disse C.S. Lewis sobre JESUS: “Não vim para atormenta-lo...vim para mata-lo!”.

Bem, o povo parecia contente com o que recebia, enquanto os “pastores” também não tinham do que reclamar, pois enquanto eles pudessem usar o Templo como palco para encenar suas peças e alavancar seu proprio nome como profetas da paz e prosperidade do país, o povo continuaria convenientemente alheio às suas próprias necessidades espirituais.

Ao lutar contra tudo isso (corrupção, falsidade, hipocrisia, apatia, ignorância) Jeremias se tornou A piada de Jerusalem, a zombaria predileta daqueles que se compraziam em ir com suas melhores roupas pelas manhãs de sábado ao Templo, para dar suas oferendas contribuindo para o incremento do local e , assim, serem abençoados pelos sacerdotes. O ponto alto era a pregação de gente como Pasur, filho do sacerdote Imer e presidente da Casa do SENHOR, um título bastante significativo e pomposo e que deveria ser bastante concorrido para os que queriam fazer carreira eclesiastica. Ah...As palavras de Pasur e outros como Hananias deviam descer doces e macias pela garganta do povão. “Que pregador excelente!” ; “Ele é muito usado por DEUS!”. Pasur era um profissional excepcional. Suas palavras eram como placebos espirituais ministrados para conter o avanço de um câncer corrosivo mas silencioso.

Peterson habilmente, traça um paralelo entre dois personagens tão distintos, paralelo flagrante somente para quem pode estudar os Escritos na língua original em que foram escritos. “O verbo constituir é paqad . A forma substantiva desse verbo é paqid (Presidente da Casa do SENHOR, ou seja, “Constituído sobre a Casa do SENHOR”)”. É a mesma palavra usada por DEUS ao dirigir-se a Jeremias dizendo: “Hoje te constituo sobre as nações” – Jer 1.10. “Portanto”, diz Peterson, “os dois desempenhavam o papel de paqid”. Podemos dizer que Jeremias, como comissionado diretamente pelo SENHOR, era um Apóstolo (só para usar uma expressão muito em voga) legítimo, já Pasur, pensava que era, mas nunca o foi. A tensão entre os dois é flagrante na medida em que seus interesses são diametralmente opostos. A resistência de gente como Pasur e tudo que ele representa ao esforço tenaz e constante do exercito de um homem só, Jeremias, é uma reencenação do eterno drama carne x espírito, tão bem descrito por Paulo em Gálatas 5. 17 : “ Porque a carne milita contra o Espírito, e o Espírito, contra a carne, porque são opostos entre si”.

Jeremias militou nessa frente por longos 23 anos...

E qual a nossa situação hoje? Vou dizer o que vejo pelos olhos da fé. Vejo fome espiritual nas pessoas e elas procuram um lugar para desenvolve-la, por isso, os “templos” estão abarrotados. Estão a procura de algo que dê certo em suas vidas esquálidas. Aprendem algo sobre a Fé e recebem da Sua Graça, pois Ele garantiu que jamais lançaria fora quem se achega a Ele. Porém, com o passar do tempo, nenhum desses ficará imune à injeção de sonífero mortífero aplicada na consciência pelos sacerdotes profissionais especializados em uma única coisa: manter essas pessoas acorrentadas ao redor do “Templo” (igual hoje a denominação, ministério), alimentando-os com comida e água preparadas para que vejam somente até onde eles planejaram através de doutrinas elaboradas para manter as pessoas em eterna adolescência e dependência espiritual.

Uma boa maneira de fazer isso é salientar sempre que sua saúde espiritual está intimamente ligada à saúde do Templo/Ministério e que não se deve medir esforços para que a agenda e os programas tenham êxito. Quase tudo da vida espiritual da pessoa girará e torno daquilo que se faz dentro das quatro paredes do Templo e, logo, os mais entusiasmados perceberão que o termômetro espiritual usado é o quanto você se envolve nas atividades, o quanto é solícito e se está reagindo bem ao “discipulado”. Veja bem, é perfeitamente normal que haja “programas” e eventos e também é normal que haja um ativismo envolvido. É normal que o neófito se envolva com mais entusiasmo e que deseje mostrar a que veio. Mas quais são os paradigmas dessa geração que vive o boom evangélico no país? Mais...Que ênfase podemos ver na fala e no modo de agir dos dirigentes eclesiásticos? Se são eles os principais responsáveis pela formação dos líderes de amanhã, que padrão encontraremos em seus ensinos e práticas? Basta dar uma olhada nos sermões televisivos, as prateleiras das livrarias e lojas de CDs. Se o papa é pop, o gospel, hoje, é superpop.

Há uma ênfase exagerada na apresentação do produto e só se consegue um lugar ao sol quem vende seu peixe de forma melhor. Poucos percebem que tudo é direcionado de modo a propiciar a encenação, como num show de rock ou uma peça teatral. A música de louvor foi elevada a um patamar de importância nunca antes visto e o “adorador profissional” é como o xamã primitivo, o responsável por levar a multidão ao êxtase espiritual. O “adorador” pode se tornar uma pequena estrela local ou mesmo, nacional. Esse “cargo” é um dos mais concorridos hoje em dia nas “igrejas”. A palavra do “pastor”, ou “apóstolo”, tem o Poder catártico sobre seu povo, sendo quase uma obrigação, um vício dominical, e os melhores dentre eles, os mais eloqüentes e preparados, se tornam muito requisitados como conferencistas. A ênfase das pregações quase sempre recai sobre aquilo que você pode obter se tornar-se um seguidor ou então sobre doutrinas que te levam a ter uma auto estima espiritual elevada. Gravar um DVD de pregação ou, preferencialmente, ter um programa televisivo são recursos indispensáveis para o evangelismo para tornar o “ministério” conhecido, e todos os recursos serão empregados nesse propósito. Quem se filia a qualquer dessas agremiações, compra a visão do presidente do lugar e terá que sustentá-la de modo incondicional como uma visão dada pelo próprio DEUS. Crê-se que, com isso, o Reino de DEUS está sendo estabelecido. Mas... Será?

NEGLIGÊNCIA, IMPRUDÊNCIA, IMPERÍCIA - Parafraseando Paulo, eu diria que, em tudo, vejo as pessoas muito religiosas. Tornamos algo extremamente libertador como o Evangelho em uma religião normativa e sofremos a maldição disso. Sofremos com a visão tacanha de homens que confundem facilmente sua voz interior com os comandos do Espírito Santo e temos que suportar seus desmandos e escândalos. Ao ler os Evangelhos gosto de ver como JESUS era tão pouco religioso, no sentido de que a forma exterior, o lugar, a expressão pública, não poderia se sobrepor ao que vai no interior do homem, aos desígnios do coração e de seus pensamentos. A devoção deve ser intimista , a adoração, em espírito. Assim, Jeremias como um autentico enviado por Ele, também exaltava essas virtudes acima do espalhafatoso número apresentado no Templo todos os dias. Hoje em dia, existem mais tipos como Pasur ou como Jeremias?

Jeremias foi citado pelos discípulos de JESUS na memorável passagem em que Ele lhes pergunta “Quem o povo diz que eu sou?” e creio mesmo que nenhum dos profetas se assemelhou mais a Ele que Jeremias. Ambos foram considerados desertores, apóstatas de sua religião e da tradição de seu povo por falarem abertamente contra a autoridade de homens levianos que torciam a Palavra a seu bel prazer. “Jeremias, você é um desertor e, por isso, não tem o direito de falar contra os sacerdotes e o Templo”. Isso equivale a coisas como: “Voce não pode criticar a igreja porque não pertence a nenhuma”. Um bom amigo me disse que não deveria falar dessas coisas, pois elas não trazem esperança alguma, mas isso não passa de uma atitude covarde que passa longe da coragem demonstrada por gente como Jeremias e outros profetas, os mártires do cristianismo e os reformadores que doaram suas vidas por algo profundo demais para ser tratado com a atual superficialidade. Tais homens tiveram a coragem de, em seu tempo, levantar suas vozes contra aquilo que viam como empecilho para que o verdadeiro Reino de DEUS viesse um dia se fazer notório entre os homens.

A palavra “radical” vem de “raiz” e sugere hoje em dia algo relacionado a extremismo, intolerância, violência. É certo que as posições de grupos religiosos fundamentalistas, em todas as religiões, apóia essa visão. A imagem piedosa de um judeu, ou muçulmano ou mesmo um cristão pode esconder na verdade, um lobo cheio de violência e preconceitos, mas será que podemos chamar deixar de ver a paixão radical que envolve mesmo os verdadeiros veículos usados para falar em nome do verdadeiro e único DEUS? O verdadeiro profeta tem uma paixão radical, ele não tergiversa, não abre concessões em sua fala. Ele incomoda, acende os ânimos e instiga os lados opostos. Sua fala inspira ao mesmo tempo em que choca. Ele não instiga uns contra os outros à violência pois nunca toma partido desse ou daquele lado, mas posiciona-e acima das facções humanas, trazendo algo mais elevado que nossas lutas ou divisões. É perigoso e , logo, deve ser silenciado por aqueles que, acima de tudo, desejam manter-se no poder. O verdadeiro profeta, ou santo, ou mártir, está entregue totalmente à causa, ou melhor dizendo, à Causa Primeira, DEUS. Está livre, liberto de pressupostos e não pode se submeter à convenções humanas. Por outro lado, está preso, cativo Daquele que o prendeu. “Ai de mim se não anunciar o Evangelho”, disse Paulo. É um abrasado, angustiado e nada mais importa.

Em Jeremias, e também em outros profetas e m´rtires, temos o modelo do que seria um radical de DEUS. Não um preconceituoso religioso, nem um terrorista, nem um revolucionário como Che Guevara, mas, em certo sentido, mais parecido com esse do qualquer religioso freqüentador de templos. Como disse, Jeremias exibia muitas das qualidades que se veria mais tarde em Seu Mestre (pois o Messias é o Mestre de todos) e uma delas é o radicalismo, direto ao ponto, ou raiz do problema, sem meias palavras. O ponto tanto na época de Jeremias quanto na época de JESUS permaneceu o mesmo: a miopia dos líderes responsáveis em guiar o povo para dentro do significado das Escrituras. “Coais um mosquito e engolis um camelo!”, disse JESUS. “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que dizimais a hortelã, o endro e o cominho, e desprezais o mais importante da lei, o juízo, a misericórdia e a fé; deveis, porém, fazer estas coisas, e não omitir aquelas”.

O que mudou na mente da maioria dos dirigentes de hoje? Quase posso ouvir uma paráfrase de Jeremias 7.4, onde os judeus gritavam “Templo do SENHOR, templo do SENHOR!”. Hoje, com a profusão de visões e cada um fazendo o que bem entende para se dar bem nesse mar de empreendedorismo gospel, eu posso ouvir claramente as vozes que clamam: “Ministério do Senhor, Ministério do Senhor é este!!!” A idolatria evangélica está instalada e crescendo a olhos vistos endossada por uma classe de preguiçosos e indolentes que se mantém no topo da hierarquia eclesiástica comandando um povo mantido na ignorância e em sonolência constante .

Existe no meio jurídico dois meios de responsabilizar alguém por atos que prejudicaram o direito de alguém, o dolo ou a culpa. O dolo é previsto quando há intenção deliberada em produzir o efeito prejudicial. Já a culpa pode ocorrer por negligencia, imprudência ou imperícia. O efeito, de qualquer forma, é o mesmo. Produz acidentes, catástrofes, mortes, etc. Somos negligentes em ensinar (ensinar não é discursar) a misericórdia, a justiça e a fé em detrimento de doutrinas que só viabilizam sonhos pessoais de realização. Somos imprudentes porque a Prudência Bíblica pressupõe Sabedoria como exposta em Provérbios, ou seja, capacidade para viver de modo pleno. “Crer também é pensar”, como diria John Stott, mas nosso povo não é ensinado a pensar, só cumprir regra sobre regra. Nossa imperícia em manusear a Bíblia,com um visão fundamentalista, literal e tacanha de seu texto pode causar mais males que bens. A Palavra de DEUS é fatiada em tiras de modo que muitas passagens são tiradas de seu contexto para embasar heresias e doutrinas periféricas para encantar a platéia. O custo disso é um povo que aprendeu a cobrar de DEUS suas promessas, recitando textos e mais textos desviados de seu sentido original.

Somos culpados e justamente julgados pelos efeitos devastadores das nossas escolhas.

ONDE JERUSALÉM, BABILÔNIA E EGITO SÃO LUGARES NO CORAÇÃO-Eu prefiro o caminho do Peregrino, o qual não dilui o mistério da jornada nem tenta domesticar aquele que brama da vastidão dos céus estrelados. Jeremias fez seu caminho solitário, ou praticamente solitário, pois tinha o fiel Baruque a seu lado. Por enquanto, não tenho um amigo assim. DEUS ainda não me concedeu essa honraria. Mas creio que chegará esse dia, pois certa vez, num desses momentos quânticos, um vaso vindo de terras geladas me disse, entre lágrimas, como se tivesse descortinado minha alma e visto ali toda dor do peso colocado ali pelo SENHOR, que chegaria o momento dos pais, dos filhos e dos irmãos...Senti um calor intenso no rosto como se o sol incidisse diretamente sobre ele e me tirasse de um lugar escuro para um lugar onde habita a verdadeira Amizade e Alegria. Não era para ser sempre assim? Mas, sem dúvida, será, um dia.


A lição de Jeremias, fruto de sua experiência pessoal com DEUS, não de doutrinas ou pressupostos, é de tenacidade e esperança. Tenho visto que porque a Esperança não é só uma virtude desejável, mas imprescindível. Sem ela nos trazendo à memória aquilo em que cremos e o modo como devemos agir hoje para chegar lá amanhã, só resta desespero.

Quando Jerusalém foi destruída, a Jeremias foi concedido por DEUS ir com maioria do povo ou ficar em Jerusalém com os mais pobres entre eles e reconstrui-la. Jeremias escolheu ficar, não porque fosse mais fácil. Ao contrário. No cativeiro babilônico, a terra mais rica de então, os judeus poderiam ter casas e trabalho e reconstruir suas vidas. Fo isso que aconteceu. Os judeus que voltaram, setenta anos mais tarde, o fizeram com muitos bens. Babilônia serviu-os bem. É uma terra de oportunidades e prosperidade, mas que embota o sentido de jornada espiritual. Ficar em Jerusalém, ao contrário, significava mais adversidades e contrariedades. UM desafio para além da imaginação. Eles deveriam aprender a sobreviver, pois a terra estava abandonada e devastada, confiando na provisão de DEUS. Mas havia outra opção a qual é preferida pelo povo ignorante, destituído de seus líderes hipócritas e desanimado de tentar seguir um DEUS que lhes fez tanto mal, retornar ao Egito e pedir proteção a Faraó.

Percebem a alegoria proposta aqui? Babilônia é um lugar temporário mas muitos acabam preferindo-a e às suas riquezas e promessas de realização. Muitos judeus perderam sua cultura e o sentido de sua jornada ali, continuando atordoados, cegos e surdos demais para perceber como chegaram ali. Como poderiam ouvir o chamado para voltar?

Jerusalém foi e sempre será o lugar onde repousa a vontade perfeita do SENHOR. Não a Jerusalém física, pela qual lutam inutilmente os homens mesquinhos através das eras, mas a espiritual, símbolo do lugar onde a Voz é ouvida pelo Peregrino desse mundo. Você percebe o estado desse lugar? Está em escombros, suas portas queimadas a fogo, seus muros foram derrubados. Jerusalém está em permanente estado de reconstrução e poucos são os que decidem permanecer ali. Mesmo homens como Jeremias não podem levar esse fardo sozinhos. “Até que todos cheguemos à unidade da Fé, à perfeita varonilidade” se refere a isso, à construção de um ideal, de um sonho que em nada se assemelha aos sonhos de grandeza do homem.

A outra opção é aceita por aqueles que não tem raízes em si mesmos e preferem voltar ao Egito porque ele, na verdade, nunca saiu de seu coração. A idolatria antes mascarada, cedo ou tarde, virá à tona. Voltar ao Egito significa dar às costas a DEUS e abrir-se de novo a escravidão do pecado e ao controle dos instintos animais. Significa curvar-se diante do animal e deixar que ele tome conta, com aparência de grandeza e grandes realizações, à sombra da razão, simbolizada por suas pirâmides, mas regida por deuses de cabeça de animal. No Egito todos são escravos.

Trilha sonora desta postagem



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