19 julho 2009

RANDY PAUSH E SUA LIÇÃO FINAL – OFERTANDO SABEDORIA NO CRESPÚSCULO










Como você se comportaria se soubesse que tem pela frente apenas de três a seis meses de vida? Com o que se importaria? Qual seria a ênfase que você daria a seus últimos dias? O que você faria se a você fosse oferecido um bilhete para uma viagem sem volta, uma viagem a qual você não planejou nem na qual deseja realmente embarcar, mas que não pode ser adiada nem ignorada. O bilhete é uma realidade, já foi pago, o dia da viagem se aproxima e você não pode fazer nada para escapar do embarque, não importa o que faça para escapar.

Penso que numa situação dessas, com o tempo correndo contra nós, só há tempo para que sejamos aquilo que sempre fomos, do modo mais transparente possível, sem máscaras ou conveniências. O rei está desnudo. Não há tempo para mudar nada do que somos ou realizamos no decurso de uma vida inteira. Mudança total só nos planos idealizados para o resto da sua vida, seja quais forem. O tempo final, recebido com aceitação ou revolta, revelará quem realmente somos, ou fomos, durante toda nossa vida, nossas realizações, frustrações, sucessos, fracassos, legado...

A história de Randy Paush, professor da prestigiada universidade Carnegie Mellon, ficou bastante conhecida a partir do vídeo colocado na Internet e intitulado “The Last Lecture”. Como no conhecido enredo do filme de Michael Keaton, Paush dedicava seus últimos dias a deixar um legado a seus filhos (três) a fim de que eles pudessem conhecer algo mais do homem e aquilo que o movia. Sucesso, reconhecimento, fama mundial no crepúsculo para coroar a vida do típico vencedor no “american way of life”. Em seguida ao vídeo e a comoção causada, veio o livro “A Lição Final”. Alguns questionaram o valor de tal obra, dizendo que não passava da velha mania americana de vender uma imagem de sucesso a todo custo e que Randy Paush era o exemplo mais acabado do americano que quer que todos o vejam sempre por cima e dominando todas as situações: “Olhem para mim e vejam como sou um vencedor e me saio bem mesmo morrendo de câncer”. Embora o americanismo tenha invadido nossa cultura com seus maneirismos e livros de auto-ajuda com suas leis sobre como atingir auto-afirmação e se dar bem em cada situação, resolvi dar uma boa olhada no livro de Paush quando o descobri num sebo da cidade. Confesso que foi uma grata surpresa, pois Paush não está interessado em ensinar técnicas para obter sucesso, mas, algo raro no mundo pós-moderno, PASSAR VALORES que muitos podem achar ultrapassados e que nem são tidos como essenciais nos meios acadêmicos de hoje. Mais do que comover com sua história, Paush procurou salientar que, mais do que as realizações de sua vida, OS RELACIONAMENTOS É QUE SÃO IMPORTANTES. O modo como você interage com o mundo, seus amigos e família é que dirão quem você é na verdade.

O desenho da capa do livro é o típico recado subliminar que norteia toda a mensagem contida ali, um desenho infantil de um foguetinho partindo rumo às estrelas. Na verdade, a idéia central do livro gira em torno dos sonhos que temos na infancia e que eles devem se a linha condutora que guiará nossas realizações.

“Percebi que o que me tornava único vinha dos sonhos que marcavam meus 46 anos de vida”

Isso é uma incrivel verdade que a maioria de nós não se dá conta. Nós crescemos e deixamos para trás quem fomos quando crianças. Gosto de pensar que nunca deixei de ser quem fui, em meu íntimo. Nunca me tornei algo muito diferente do filho que se sentia seguro nos braços do pai ou nos abraços da mãe. Todos nós sabemos quem realmente somos. Por mais que tentemos nos proteger criando personagens adultos e endurecidos pela vida, dentro de nós, sabemos que ainda somos aquela criança frágil e amedrontada diante de muitos desafios e que precisa se aconselhar com os pais ou alguém mais maduro para obter segurança. O mundo se esforça para nos levar para longe de quem realmente somos, das nossas origens. Nossas origens revelam mais sobre nós do que realmente pensamos acerca de nós mesmos. Certo dia, aconselhava uma pessoa que errou muito mais na vida do que eu e veio a ingressar no crime: “Esse não é o verdadeiro você. É um personagem que você criou, para se proteger ou para prevalecer em meio a certas situações, e que agora ocupa a cena toda vez. Lembre-se daquele que você era antes desse personagem e você vai descobrir quem você deveria realmente ser a essas alturas”.

Logicamente, só podemos dar aquilo que recebemos. Os pais tem um papel mais do que determinante no resultado disso tudo. É comovente como Paush reverencia o ensino e o exemplo recebido pelos pais: “EU GANHEI A LOTERIA DOS PAIS” – declara ele. Os pais de Paush incutiram nele belos ensinamentos e exemplos do que realmente importa na vida. Presbiterianos, mantinham com doações uma obra na Tailandia para abrigar meninas salvas da prostituição. Sabe como podemos saber se um filho tem os ensinamentos recebidos pelos pais em alta conta e procurou conduzir sua vida de acordo com aqueles princípios rudimentares? É só ver se ele diz algo parecido como aquilo que Randy Paush declarou: “Gostaria de saber se meu pai aprovaria a maneira como estou me comportando nestes últimos meses de vida”.

Mais do que religião, creio que o menino Randy aprendeu que seus pais se importavam em fazer a diferença na vida de pessoas que nem ao menos conheciam num país que o americano médio nem saberia localizar no mapa-mundi. Isso refletiu-se em outra lição dada: Possibilitar o sonho de outras pessoas. O ponto de Paush é que seu sonho nunca se realizará totalmente se for um sonho egoísta, é preciso INCLUIR OUTRAS PESSOAS.

A construção do caráter de uma criança hoje em dia passa pela lição da autoestima. Geralmente, os educadores atuais tendem a achar que o caráter de uma criança será bem formado se mantermos a sua autoimagem preservada de críticas e exigências em demasia. Infelizmente, geralmente, isso se traduz em elogiar a criança em todo tempo e não censura-la duramente. Para Paush, “autoestima não é algo que lhes possa ser incutido, é algo que elas precisam construir”. Sobre a dura lição que recebeu ao ser cobrado com severidade pelo treinador de futebol ao qual foi literalmente entregue pelo pai, ele diz: “Talvez voce não goste de ouvir, mas muitas vezes as pessoas que o criticam estão lhe dizendo que ainda o amam e se preocupam com voce e querem torna-lo ainda melhor”. Quando ouço as notícias que mostram o ponto em que chegamos com alunos agredindo professores que pegam nos seus pés nas salas de aula do país, fico pensando em como essa lição foi esquecida pelos pais, que não admitem que ninguém corrija seus filhos, que crescem sem poder ser contrariados em nada na vida. A vida tende a ser mais dura ainda com quem não é flexível às situações.

Gosto do livro de Provérbios na Bíblia. Quando todo o resto da teologia e doutrinas se tornarem inúteis e de pouco proveito prático, as lições deste livro poderão sempre estar ao meu lado, pois falam de uma Sabedoria que te capacita a viver com prudência e disciplina em meio às situações cotidianas. De fato, Sabedoria em hebraico é hmkx (Chokmah), entendido como um conjunto de habilidades que te capacitam a se sair bem nas mais diversas áreas do viver. De modo sucinto, Sabedoria é “Capacidade para viver”. Ali, podemos ler algo parecido com a frase de Paush acima, em Proverbios 28.23 onde se lê: “O que repreende ao homem achará, depois, mais favor do que aquele que lisonjeia com a língua”.

Logicamente, Randy Paush não foi um santo, não no sentido que a maioria das pessoas entende: inerrantes e absolutos em sua razão (creio mesmo que esse tipo de pessoa não existe). Ele diz que seus amigos mais chegados constantemente faziam piada da condição a que foi alçado depois que seu vídeo virou sucesso, chamando-o de “Santo Randy”, pois o conheciam desde que era um solteirão convicto. Ao conhecer a mulher que viria a fazê-lo prostra-se (creio que todos os homens passam por essa capitulação) Randy aprendeu que as “as muralhas existem somente para deter aqueles que não querem realmente transpô-las”. Se você quiser realmente, se fizer as contas do quão longe quer chegar, uma resistência inicial provará o quão impetuoso você é na verdade, ou se sua vontade não passa de capricho. Isso é válido para qualquer evento em nossas vidas.

À uma geração que vem sendo ensinada continuamente a ter um alto conceito sobre si mesma e não aceitar “humilhações” e nem a abaixar a cabeça, Randy apresenta suas preocupações quanto ao que tem percebido em seus alunos: os jovens estão se tornando cada vez mais presunçosos e pouco interessados na pessoa ao lado. Poucos querem começar modestamente e aceitar cargos aparentemente “menores” ou “pouco importantes”. Devemos agradecer novamente ao Sr. Paush pai pela lição dada no filho de que “ não se deve julgar inferior nenhum trabalho braçal” e que preferia ver o filho trabalhando pesado e se tornando o melhor lavrador do mundo do que ve-lo bem sucedido e sentado numa mesa, porém, presunçoso e elitista. Palmas para o Sr. Paush.

O Sr. Paush também é o protagonista de outra passagem na qual Randy descobre, após sua morte, ao examinar seus objetos, que o pai foi herói da Segunda Guerra e obteve uma medalha por bravura ao arriscar sua vida para salvar outros. Randy ressalta que seu pai escondeu o fato solenemente e que, por meio disso, seu pai continuava a lhe ensinar sobre o “significado do sacrifício e o poder da humildade.”

Num mundo onde cada vez mais desconfiamos uns dos outros é gratificante ouvir a lição ofertada por um amigo de Randy, o qual disse que, se as pessoas te frustram e aborrecem, muitas vezes é porque não lhe demos tempo suficiente para mostrarem seu lado bom. “Se voce esperar o suficiente, as pessoas o surpreenderão e impressionarão”. Vejo isso com bons olhos mesmo com todo o potencial de decepção que essa prerrogativa pode trazer. É preferível viver mantendo uma visão bem elevada das coisas e das pessoas do que segurando as rédeas da mediocridade. Isso é libertador. A verdadeira bondade mora o tempo todo com a confiança e o otimismo com relação à pessoas e somente passa rapidamente pela casa da cobrança lá pelo fim do dia. Como diz Provérbios 17:17 : Em todo tempo ama o amigo, e na angústia se faz o irmão”.

Entre outra lições podemos listar algumas como:

. Demonstre gratidão àqueles que estão ao redor, não um simples e lacônico obrigado mas um gesto completo em si mesmo, algo efetivo que demonstre consideração;

. Aprenda que um pedido ruim de desculpas é pior do que não pedir desculpas, o que significa “fazer tudo bem feito”, ou seja, EXCELÊNCIA, uma palavrinha meio fora de moda hoje em dia (“Desculpas adequadas possuem três partes: 1- O que fiz foi errado; 2- Sinto muito te-lo ofendido; 3- Como posso melhorar a situação?”)

. Diga a Verdade, sempre, seu nome vale pela sua palavra de modo que vale a pena investir em algo que voce vai carregar por toda sua vida.

. Não desista nunca, mesmo diante de flagrantes fracassos, pois, na pior das hipóteses, ganhamos pela experiencia; A lição deixada para Paush no filme Rocky, um de seus preferidos, não é a do cara que bate sempre, mas a do cara que sabe apanhar e continuar lutando.

Randy Paush nos ofertou em seu Eclesiastes, como ele mesmo disse, um momento de reflexão e beleza, algo para pensarmos em como vivemos nossas vidas, se as vivemos como o Tigrão ou como Bisonho, personagens da turma do ursinho Puff. Tigrão é otimista e leve, Bisonho, triste e pessimista. Cada um de nós tem suas próprias histórias e nem todos podem partir da mesma plataforma que Paush, nascido em um família estruturada em altos valores, mas todos podemos procurar fazer o melhor com o que temos. Acima de tudo podemos sempre escolher de que lado queremos estar, do lado luminoso ou do lado sombrio. Essa não é outra senão a velha luta do ser humano pelo verdadeiro sentido da vida. Como disse o famoso pensador inglês G.K. Chesterton: “É fácil ser pesado e difícil ser leve”.













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