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CORRA COM OS CAVALOS - Parte 2


Parte 2 – “Por que dura a minha dor continuamente?” – Jeremias 15,17

Ao nos determos na passagem que dá título ao livro (essa matéria era pra ser uma resenha), nos damos conta de algumas coisas interessantes. Jeremias está orando. E o que ele está orando? Alguns sequer chamariam isso de oração, pois Jeremias está, na verdade, inquirindo a DEUS sobre aquilo que seus olhos veem e ele não consegue compreender. “Tudo bem, SENHOR, tu és DEUS e creio em Ti, MAS MESMO ASSIM, vou te questionar. O SENHOR permitiu que os maus se enraizassem entre seu povo mesmo sabendo que seu coração está longe de ti. Por isso, vemos as coisas irem de mau a pior por todos os lados. Até quando, SENHOR (eta perguntinha!!)? Porque não age logo?”

A resposta de DEUS não explica nada mas traz um desafio a Jeremias: “Jeremias, meu filho, não posso fazer isso que me pede, mas vou lhe dizer o que já fiz: Eu gosto de corridas, principalmente as de cavalos, sabe? Sabe o que eu fiz? Inscrevi você numa delas e apostei tudo em você! Não é o máximo? Você já está bem no meio dela, sabe, e não tem como voltar se não quiser ser atropelado. Você só pode seguir em frente, meu filho. E, olha, eu garanto que você vai chegar na frente, senão eu não teria apostado todas as fichas nisso. Resumindo, não posso mudar as regras do jogo agora, desculpe, só assegurar que o prêmio compensará a dureza da prova, ok?”

Isso, apesar de soar meio irônico ou mesmo sarcástico em se tratando do DEUS cristão, mas é algo que pode ser constatado de acordo com a realidade que vivemos. Não pedimos para nascer nem sabemos em que tipo de família vamos crescer, mas não há tempo para lamentações, Ele parece não ter tempo (logo Ele que é eterno) ou paciência para agüentar autocomiseração. O recado é claro: Não há desculpas possíveis para aquilo que decidimos nos tornar por nossas próprias escolhas e vontades. Em Genesis vemos DEUS falando com o revoltado Caim, antes deste assassinar o irmão: “Então, lhe disse o SENHOR: Por que andas irado, e por que descaiu o teu semblante? Se procederes bem, não é certo que serás aceito? Se, todavia, procederes mal, eis que o pecado jaz à porta; o seu desejo será contra ti, mas a ti cumpre dominá-lo”. Só nos resta participar da corrida dessa vida a fim de completar a carreira e nos tornar aquilo que sentimos que DEUS nos chama para ser a despeito das dificuldades e obstáculos que possamos nos impor e elas podem variar muito de uma pessoa para outra (por ex: para um pobre, sua miséria, para um rico, sua riqueza) mas creio que interiormente, todos somos como Jeremias, cheios de dúvidas, traumas e cicatrizes emocionais.

Jeremias foi do numero daqueles que perseveraram em matar o eu para realizar aquilo que considerava mais importante do que ele mesmo emprestando à sua vida um significado maior do que ela poderia apresentar de outro modo. De início, Peterson dispara: “O enigma a ser decifrado é: Por que tantas pessoas vivem de forma tão ruim?Vidas não tanto caracterizadas pela maldade, mas pela mediocridade. Não tanto caracterizadas pela crueldade mas pela estupidez”.

Me dou conta de porque existem tantas religiões no mundo: elas servem para introduzir os homens ao maior dos mistérios, o propósito de sua existência e tomar contato com um senso de que sua vida, afinal, é importante e tem um sentido para mais além do óbvio. DEUS colocou isso no homem, não é uma fuga como acham os céticos. Em Eclesiastes lemos “Tudo fez Deus formoso no seu devido tempo; também pôs a eternidade no coração do homem, sem que este possa descobrir as obras que Deus fez desde o princípio até ao fim”. Temos o anseio, ou talvez o pressentimento, de que há algo esperando por nossa volta. É Esse realmente o sentimento, de volta, não uma partida para um lugar desconhecido.

Adoro pensar como Chesterton que dizia que somos náufragos com um tipo de amnésia fatal, mas que resgataram algumas coisas dos destroços do acidente que os faz lembrar constantemente de casa, coisas como Amor, altruísmo, humildade, fraternidade, perdão, etc. Talvez não sejamos todos protagonistas como Jeremias que habitou no centro do furacão mais devastador da história judaica antiga, mas não importa. Assim como ele, DEUS espera que tomemos nosso lugar na corrida. Ele espera que você o ouça de modo particular e instransferivel. A corrida que Ele propõe é rumo a Excelencia (“que os gregos chamavam areté”, diz Peterson), a fim de torna-lo um ser humano completo. Não espere aplausos ou a aprovação da multidão. Não ouça seus clamores ou mistificações. São falsos e tem o poder de enebriar o peregrino com seus anseios por mais vinho e alegrias instantâneas. Deixe-os.

Mas esteja certo de que vai descobrir algo bem cedo: o treinamento vai ser duro, pois o custo benefício em ser autentico nesse mundo é zero.

O que acontece, porém, com as religiões de todo mundo, cristãs ou não, é aquilo que podemos constatar em cada instiuição criada para que pudéssemos ter uma dose de ordem, justiça e equilíbrio.

Ou seja, a política, por exemplo. Foi criada para que homens com chamado ou consciencia cívica pudessem agir em prol de toda comunidade gerando leis e mecanismos para proteger a cidadania. Não e má em si mesma, mas um mal necessário à vida em sociedade. Veja, no entanto, o buraco negro em que nos metemos com a política no modo em que está hoje: políticos profissionais fazendo uso de uma máquina sórdida, corrompida até a medula, e que existe com o único motivo de perpetuar benesses particulares. Podemos constatar isso em qualquer grau das relações humanas e suas instituições.

Estou seguindo o raciocinio de C. S. Lewis que disse: “O que você é, resulta naquilo que você faz...nos tentamos ser religiosos e nos tornamos fariseus...O serviço social se torna uma formalidade burocrática...Altruísmo se torna uma forma de se exibir...A História não é apenas a história de pessoas más fazendo coisas ruins...É, na sua maior parte, uma história de pessoas tentando (ou pensando, diria eu) em fazer o Bem...Mas, quando fizeram isso, de alguma maneira algo deu errado”.

As religiões são o exemplo mais clássico disso. Creio que a maior parte delas foi entregue aos homens, como todas as outras instituições da civilização, para o nosso Bem, para nos orientar para o essencial, para nos preparar para Ele mesmo. Como todas as outras instituições, foi entregue ao homem e, como sabemos, como todas as outras, transformou-se no que vemos hoje: formalismo burocrático em sua maior parte, sem conteúdo real, só escapismo e doutrinas periféricas prejudiciais àquilo que JESUS definiu como essencial para a irmã de Maria, Marta, a prática: “Uma só coisa é necessária!”

Um colega de serviço, que anda inclinado à doutrina de Kardec, falava comigo e a conversa inclinou-se para a possibilidade de vida em outros mundos, na qual ele crê, e ofereceu-se para me emprestar um livro (psicografado) que trata da riqueza da vida espiritual em Marte. Declinei gentilmente da oferta e disse-lhe que, ao caminhante, muitas coisas serão oferecidas para que ele se distraia ao percorrer a trilha até achar o Caminho verdadeiro. A coisa não irá mudar depois que ele O achar. As forças contrárias continuarão tentando arranca-lo de lá e, dessa vez, de modo mais violento, a guerra se tornará renhida. Aconselhei-o a continuar lendo os Evangelhos e perscrutando as enigmáticas palavras, pois tais doutrinas só servem para assanhar a curiosidade de incautos.

A pergunta é: Estão as instituições que proclamam que praticam unicamente a Bíblia como única regra de fé e prática melhores que isso? Minha esposa ralha comigo quando exponho aquilo que entendo como sendo a maior vergonha atual da chamada “igreja evangélica” e tento entende-la e não sobrecarrega-la com meus fardos, pois a cada um foi dada uma medida de fé. Disse-lhe que o DEUS Eterno não esta nem aí com 95% daquilo que é realizado dentro das denominações que dizem falar em SEU Nome hoje em dia. Por que? Por que Ele não é um promotor de eventos. Fizeram Dele um coadjuvante de peso que apóia os programas e a agenda expansionista dos líderes das instituições denominacionais. Transmudamos o vinho em água, realizamos o milagre ao inverso. Transformamos algo que deveria ser revolucionário em algo domesticado, adaptado a letargia da nossa alma, que, acima de tudo, deseja o sossego dos benefícios desse mundo antes das dores do Calvário. Disse certa vez a um amigo que o cristianismo pode (e deveria ser na maior parte das vezes) a coisa mais selvagem e abrasadora que esse mundo já viu. E o foi no primeiro século com os apóstolos e depois em vários avivamentos ocorridos através do mundo em várias épocas. Mas o cristianismo também pode ser a religião mais insossa e desprovida de sentido que existe se deixarmos que pequenas distrações, raposinhas, adentrem o quintal. Pois o inimigo sabe a diferença entre um cristão verdadeiro e um sacristão. É mais ou menos como a diferença entre um leão e um cão sarnento.

Pois bem, Jeremias tinha um único problema: a “igreja” de sua época. Toda sua vida e missão foram voltados para esse tópico. Jeremias se tornou persona non grata em sua própria terra por bradar contra o formalismo burocrático que fazia carreira na instituição responsável por ensinar àquele povo como se deveria viver a Palavra de DEUS. Acima de tudo, a crítica ácida de Jeremias não era contra a forma exterior de culto, o formato não estava em pauta, mas o conteúdo. Contra todo um sistema arquitetado para ser condescendente com a apatia espiritual de todo um povo, Jeremias reagia dizendo não à superficialidade.

JEREMIAS, O DESERTOR

Aparentemente, para todos, tudo ia bem, exceto pelo fato de que o maior interessado em tudo aquilo ( e não era Jeremias) não via as coisas pelo mesmo prisma. A casta sacerdotal fazia bem o papel de administradora do Templo e o lugar voltara a ser o centro religioso e espiritual do país. Já não havia prostitutas nem sacrifícios a deuses pagãos. O bom e velho culto ao SENHOR DEUS havia voltado. Sacerdotes especializados ministravam e profetizavam e iam tornando aquele um lugar notável e admirado por todos: “Templo do SENHOR, Templo do SENHOR!” – exclamavam os mais entusiasmados.

De repente, aparece Jeremias falando coisas desagradáveis e estranhas. “Mas quê...De que reclama esse rapaz? Não estamos melhores que na época de Manassés? Por que ele é tão negativo? Não poderia ser mais agradável?”... “O que? É o filho de Hilquias,? Aquele que desistiu do sacerdócio? Não te disse que é um rebelde desviado?”

Jeremias realmente desistiu do sacerdócio, uma função herdada de família, uma honra a qual não se poderia aspirar em Israel simplesmente através de esforço. Era preciso nascer na família certa, da casa correta segundo a Lei. Jeremias desertou, abriu mão. Não sei quais as consequencias disso no seio familiar judaico, mas levando em conta que a honra familiar ainda hoje suscita rivalidades seculares no Oriente Médio, Jeremias pagou o preço por essa desonra feita a casa de seu pai. O por quê disso? Como vaso da indignação de DEUS contra aquela geração, não deveria haver espaço para mera retórica. Jeremias era a ponta de lança que DEUS pretendia encravar para mostrar sua vontade. O profeta não deve somente trazer uma mensagem, deve ele mesmo ser, encarnar, essa mensagem. O remédio ministrado por DEUS é mais amargo, mas mais eficaz para ir direto à raiz do problema humano.Como um machado, provoca uma cisão radical. “Deixe os mortos enterrarem seus mortos”; “Se teu olho te escandaliza, arranca-o”; “Quem não deixar seu pai ou sua mãe não é digno de mim”...Como disse C.S. Lewis sobre JESUS: “Não vim para atormenta-lo...vim para mata-lo!”.

Bem, o povo parecia contente com o que recebia, enquanto os “pastores” também não tinham do que reclamar, pois enquanto eles pudessem usar o Templo como palco para encenar suas peças e alavancar seu proprio nome como profetas da paz e prosperidade do país, o povo continuaria convenientemente alheio às suas próprias necessidades espirituais.

Ao lutar contra tudo isso (corrupção, falsidade, hipocrisia, apatia, ignorância) Jeremias se tornou A piada de Jerusalem, a zombaria predileta daqueles que se compraziam em ir com suas melhores roupas pelas manhãs de sábado ao Templo, para dar suas oferendas contribuindo para o incremento do local e , assim, serem abençoados pelos sacerdotes. O ponto alto era a pregação de gente como Pasur, filho do sacerdote Imer e presidente da Casa do SENHOR, um título bastante significativo e pomposo e que deveria ser bastante concorrido para os que queriam fazer carreira eclesiastica. Ah...As palavras de Pasur e outros como Hananias deviam descer doces e macias pela garganta do povão. “Que pregador excelente!” ; “Ele é muito usado por DEUS!”. Pasur era um profissional excepcional. Suas palavras eram como placebos espirituais ministrados para conter o avanço de um câncer corrosivo mas silencioso.

Peterson habilmente, traça um paralelo entre dois personagens tão distintos, paralelo flagrante somente para quem pode estudar os Escritos na língua original em que foram escritos. “O verbo constituir é paqad . A forma substantiva desse verbo é paqid (Presidente da Casa do SENHOR, ou seja, “Constituído sobre a Casa do SENHOR”)”. É a mesma palavra usada por DEUS ao dirigir-se a Jeremias dizendo: “Hoje te constituo sobre as nações” – Jer 1.10. “Portanto”, diz Peterson, “os dois desempenhavam o papel de paqid”. Podemos dizer que Jeremias, como comissionado diretamente pelo SENHOR, era um Apóstolo (só para usar uma expressão muito em voga) legítimo, já Pasur, pensava que era, mas nunca o foi. A tensão entre os dois é flagrante na medida em que seus interesses são diametralmente opostos. A resistência de gente como Pasur e tudo que ele representa ao esforço tenaz e constante do exercito de um homem só, Jeremias, é uma reencenação do eterno drama carne x espírito, tão bem descrito por Paulo em Gálatas 5. 17 : “ Porque a carne milita contra o Espírito, e o Espírito, contra a carne, porque são opostos entre si”.

Jeremias militou nessa frente por longos 23 anos...

E qual a nossa situação hoje? Vou dizer o que vejo pelos olhos da fé. Vejo fome espiritual nas pessoas e elas procuram um lugar para desenvolve-la, por isso, os “templos” estão abarrotados. Estão a procura de algo que dê certo em suas vidas esquálidas. Aprendem algo sobre a Fé e recebem da Sua Graça, pois Ele garantiu que jamais lançaria fora quem se achega a Ele. Porém, com o passar do tempo, nenhum desses ficará imune à injeção de sonífero mortífero aplicada na consciência pelos sacerdotes profissionais especializados em uma única coisa: manter essas pessoas acorrentadas ao redor do “Templo” (igual hoje a denominação, ministério), alimentando-os com comida e água preparadas para que vejam somente até onde eles planejaram através de doutrinas elaboradas para manter as pessoas em eterna adolescência e dependência espiritual.

Uma boa maneira de fazer isso é salientar sempre que sua saúde espiritual está intimamente ligada à saúde do Templo/Ministério e que não se deve medir esforços para que a agenda e os programas tenham êxito. Quase tudo da vida espiritual da pessoa girará e torno daquilo que se faz dentro das quatro paredes do Templo e, logo, os mais entusiasmados perceberão que o termômetro espiritual usado é o quanto você se envolve nas atividades, o quanto é solícito e se está reagindo bem ao “discipulado”. Veja bem, é perfeitamente normal que haja “programas” e eventos e também é normal que haja um ativismo envolvido. É normal que o neófito se envolva com mais entusiasmo e que deseje mostrar a que veio. Mas quais são os paradigmas dessa geração que vive o boom evangélico no país? Mais...Que ênfase podemos ver na fala e no modo de agir dos dirigentes eclesiásticos? Se são eles os principais responsáveis pela formação dos líderes de amanhã, que padrão encontraremos em seus ensinos e práticas? Basta dar uma olhada nos sermões televisivos, as prateleiras das livrarias e lojas de CDs. Se o papa é pop, o gospel, hoje, é superpop.

Há uma ênfase exagerada na apresentação do produto e só se consegue um lugar ao sol quem vende seu peixe de forma melhor. Poucos percebem que tudo é direcionado de modo a propiciar a encenação, como num show de rock ou uma peça teatral. A música de louvor foi elevada a um patamar de importância nunca antes visto e o “adorador profissional” é como o xamã primitivo, o responsável por levar a multidão ao êxtase espiritual. O “adorador” pode se tornar uma pequena estrela local ou mesmo, nacional. Esse “cargo” é um dos mais concorridos hoje em dia nas “igrejas”. A palavra do “pastor”, ou “apóstolo”, tem o Poder catártico sobre seu povo, sendo quase uma obrigação, um vício dominical, e os melhores dentre eles, os mais eloqüentes e preparados, se tornam muito requisitados como conferencistas. A ênfase das pregações quase sempre recai sobre aquilo que você pode obter se tornar-se um seguidor ou então sobre doutrinas que te levam a ter uma auto estima espiritual elevada. Gravar um DVD de pregação ou, preferencialmente, ter um programa televisivo são recursos indispensáveis para o evangelismo para tornar o “ministério” conhecido, e todos os recursos serão empregados nesse propósito. Quem se filia a qualquer dessas agremiações, compra a visão do presidente do lugar e terá que sustentá-la de modo incondicional como uma visão dada pelo próprio DEUS. Crê-se que, com isso, o Reino de DEUS está sendo estabelecido. Mas... Será?

NEGLIGÊNCIA, IMPRUDÊNCIA, IMPERÍCIA - Parafraseando Paulo, eu diria que, em tudo, vejo as pessoas muito religiosas. Tornamos algo extremamente libertador como o Evangelho em uma religião normativa e sofremos a maldição disso. Sofremos com a visão tacanha de homens que confundem facilmente sua voz interior com os comandos do Espírito Santo e temos que suportar seus desmandos e escândalos. Ao ler os Evangelhos gosto de ver como JESUS era tão pouco religioso, no sentido de que a forma exterior, o lugar, a expressão pública, não poderia se sobrepor ao que vai no interior do homem, aos desígnios do coração e de seus pensamentos. A devoção deve ser intimista , a adoração, em espírito. Assim, Jeremias como um autentico enviado por Ele, também exaltava essas virtudes acima do espalhafatoso número apresentado no Templo todos os dias. Hoje em dia, existem mais tipos como Pasur ou como Jeremias?

Jeremias foi citado pelos discípulos de JESUS na memorável passagem em que Ele lhes pergunta “Quem o povo diz que eu sou?” e creio mesmo que nenhum dos profetas se assemelhou mais a Ele que Jeremias. Ambos foram considerados desertores, apóstatas de sua religião e da tradição de seu povo por falarem abertamente contra a autoridade de homens levianos que torciam a Palavra a seu bel prazer. “Jeremias, você é um desertor e, por isso, não tem o direito de falar contra os sacerdotes e o Templo”. Isso equivale a coisas como: “Voce não pode criticar a igreja porque não pertence a nenhuma”. Um bom amigo me disse que não deveria falar dessas coisas, pois elas não trazem esperança alguma, mas isso não passa de uma atitude covarde que passa longe da coragem demonstrada por gente como Jeremias e outros profetas, os mártires do cristianismo e os reformadores que doaram suas vidas por algo profundo demais para ser tratado com a atual superficialidade. Tais homens tiveram a coragem de, em seu tempo, levantar suas vozes contra aquilo que viam como empecilho para que o verdadeiro Reino de DEUS viesse um dia se fazer notório entre os homens.

A palavra “radical” vem de “raiz” e sugere hoje em dia algo relacionado a extremismo, intolerância, violência. É certo que as posições de grupos religiosos fundamentalistas, em todas as religiões, apóia essa visão. A imagem piedosa de um judeu, ou muçulmano ou mesmo um cristão pode esconder na verdade, um lobo cheio de violência e preconceitos, mas será que podemos chamar deixar de ver a paixão radical que envolve mesmo os verdadeiros veículos usados para falar em nome do verdadeiro e único DEUS? O verdadeiro profeta tem uma paixão radical, ele não tergiversa, não abre concessões em sua fala. Ele incomoda, acende os ânimos e instiga os lados opostos. Sua fala inspira ao mesmo tempo em que choca. Ele não instiga uns contra os outros à violência pois nunca toma partido desse ou daquele lado, mas posiciona-e acima das facções humanas, trazendo algo mais elevado que nossas lutas ou divisões. É perigoso e , logo, deve ser silenciado por aqueles que, acima de tudo, desejam manter-se no poder. O verdadeiro profeta, ou santo, ou mártir, está entregue totalmente à causa, ou melhor dizendo, à Causa Primeira, DEUS. Está livre, liberto de pressupostos e não pode se submeter à convenções humanas. Por outro lado, está preso, cativo Daquele que o prendeu. “Ai de mim se não anunciar o Evangelho”, disse Paulo. É um abrasado, angustiado e nada mais importa.

Em Jeremias, e também em outros profetas e m´rtires, temos o modelo do que seria um radical de DEUS. Não um preconceituoso religioso, nem um terrorista, nem um revolucionário como Che Guevara, mas, em certo sentido, mais parecido com esse do qualquer religioso freqüentador de templos. Como disse, Jeremias exibia muitas das qualidades que se veria mais tarde em Seu Mestre (pois o Messias é o Mestre de todos) e uma delas é o radicalismo, direto ao ponto, ou raiz do problema, sem meias palavras. O ponto tanto na época de Jeremias quanto na época de JESUS permaneceu o mesmo: a miopia dos líderes responsáveis em guiar o povo para dentro do significado das Escrituras. “Coais um mosquito e engolis um camelo!”, disse JESUS. “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que dizimais a hortelã, o endro e o cominho, e desprezais o mais importante da lei, o juízo, a misericórdia e a fé; deveis, porém, fazer estas coisas, e não omitir aquelas”.

O que mudou na mente da maioria dos dirigentes de hoje? Quase posso ouvir uma paráfrase de Jeremias 7.4, onde os judeus gritavam “Templo do SENHOR, templo do SENHOR!”. Hoje, com a profusão de visões e cada um fazendo o que bem entende para se dar bem nesse mar de empreendedorismo gospel, eu posso ouvir claramente as vozes que clamam: “Ministério do Senhor, Ministério do Senhor é este!!!” A idolatria evangélica está instalada e crescendo a olhos vistos endossada por uma classe de preguiçosos e indolentes que se mantém no topo da hierarquia eclesiástica comandando um povo mantido na ignorância e em sonolência constante .

Existe no meio jurídico dois meios de responsabilizar alguém por atos que prejudicaram o direito de alguém, o dolo ou a culpa. O dolo é previsto quando há intenção deliberada em produzir o efeito prejudicial. Já a culpa pode ocorrer por negligencia, imprudência ou imperícia. O efeito, de qualquer forma, é o mesmo. Produz acidentes, catástrofes, mortes, etc. Somos negligentes em ensinar (ensinar não é discursar) a misericórdia, a justiça e a fé em detrimento de doutrinas que só viabilizam sonhos pessoais de realização. Somos imprudentes porque a Prudência Bíblica pressupõe Sabedoria como exposta em Provérbios, ou seja, capacidade para viver de modo pleno. “Crer também é pensar”, como diria John Stott, mas nosso povo não é ensinado a pensar, só cumprir regra sobre regra. Nossa imperícia em manusear a Bíblia,com um visão fundamentalista, literal e tacanha de seu texto pode causar mais males que bens. A Palavra de DEUS é fatiada em tiras de modo que muitas passagens são tiradas de seu contexto para embasar heresias e doutrinas periféricas para encantar a platéia. O custo disso é um povo que aprendeu a cobrar de DEUS suas promessas, recitando textos e mais textos desviados de seu sentido original.

Somos culpados e justamente julgados pelos efeitos devastadores das nossas escolhas.

ONDE JERUSALÉM, BABILÔNIA E EGITO SÃO LUGARES NO CORAÇÃO-Eu prefiro o caminho do Peregrino, o qual não dilui o mistério da jornada nem tenta domesticar aquele que brama da vastidão dos céus estrelados. Jeremias fez seu caminho solitário, ou praticamente solitário, pois tinha o fiel Baruque a seu lado. Por enquanto, não tenho um amigo assim. DEUS ainda não me concedeu essa honraria. Mas creio que chegará esse dia, pois certa vez, num desses momentos quânticos, um vaso vindo de terras geladas me disse, entre lágrimas, como se tivesse descortinado minha alma e visto ali toda dor do peso colocado ali pelo SENHOR, que chegaria o momento dos pais, dos filhos e dos irmãos...Senti um calor intenso no rosto como se o sol incidisse diretamente sobre ele e me tirasse de um lugar escuro para um lugar onde habita a verdadeira Amizade e Alegria. Não era para ser sempre assim? Mas, sem dúvida, será, um dia.


A lição de Jeremias, fruto de sua experiência pessoal com DEUS, não de doutrinas ou pressupostos, é de tenacidade e esperança. Tenho visto que porque a Esperança não é só uma virtude desejável, mas imprescindível. Sem ela nos trazendo à memória aquilo em que cremos e o modo como devemos agir hoje para chegar lá amanhã, só resta desespero.

Quando Jerusalém foi destruída, a Jeremias foi concedido por DEUS ir com maioria do povo ou ficar em Jerusalém com os mais pobres entre eles e reconstrui-la. Jeremias escolheu ficar, não porque fosse mais fácil. Ao contrário. No cativeiro babilônico, a terra mais rica de então, os judeus poderiam ter casas e trabalho e reconstruir suas vidas. Fo isso que aconteceu. Os judeus que voltaram, setenta anos mais tarde, o fizeram com muitos bens. Babilônia serviu-os bem. É uma terra de oportunidades e prosperidade, mas que embota o sentido de jornada espiritual. Ficar em Jerusalém, ao contrário, significava mais adversidades e contrariedades. UM desafio para além da imaginação. Eles deveriam aprender a sobreviver, pois a terra estava abandonada e devastada, confiando na provisão de DEUS. Mas havia outra opção a qual é preferida pelo povo ignorante, destituído de seus líderes hipócritas e desanimado de tentar seguir um DEUS que lhes fez tanto mal, retornar ao Egito e pedir proteção a Faraó.

Percebem a alegoria proposta aqui? Babilônia é um lugar temporário mas muitos acabam preferindo-a e às suas riquezas e promessas de realização. Muitos judeus perderam sua cultura e o sentido de sua jornada ali, continuando atordoados, cegos e surdos demais para perceber como chegaram ali. Como poderiam ouvir o chamado para voltar?

Jerusalém foi e sempre será o lugar onde repousa a vontade perfeita do SENHOR. Não a Jerusalém física, pela qual lutam inutilmente os homens mesquinhos através das eras, mas a espiritual, símbolo do lugar onde a Voz é ouvida pelo Peregrino desse mundo. Você percebe o estado desse lugar? Está em escombros, suas portas queimadas a fogo, seus muros foram derrubados. Jerusalém está em permanente estado de reconstrução e poucos são os que decidem permanecer ali. Mesmo homens como Jeremias não podem levar esse fardo sozinhos. “Até que todos cheguemos à unidade da Fé, à perfeita varonilidade” se refere a isso, à construção de um ideal, de um sonho que em nada se assemelha aos sonhos de grandeza do homem.

A outra opção é aceita por aqueles que não tem raízes em si mesmos e preferem voltar ao Egito porque ele, na verdade, nunca saiu de seu coração. A idolatria antes mascarada, cedo ou tarde, virá à tona. Voltar ao Egito significa dar às costas a DEUS e abrir-se de novo a escravidão do pecado e ao controle dos instintos animais. Significa curvar-se diante do animal e deixar que ele tome conta, com aparência de grandeza e grandes realizações, à sombra da razão, simbolizada por suas pirâmides, mas regida por deuses de cabeça de animal. No Egito todos são escravos.

Trilha sonora desta postagem



continua...

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CORRENDO COM OS CAVALOS – VIGOR ESPIRITUAL EM MEIO ÀS MAZELAS DA VIDA


Parte 1 - LIVRANDO-SE DOS PRESSUPOSTOS

Certo dia, um “irmão” de fé, sem muita cerimônia ou rodeios, mas bem dentro do estilo pentecostal de tratar as coisas espirituais, disse-me: “DEUS está dizendo para você ler Jeremias 12 a partir do versículo 1”. Num primeiro momento, mesmo para alguém que já pertence ou está acostumado com o modo de se expressar das pessoas desse meio, a tendência natural da nossa mente é duvidar que O DEUS ETERNO TODO-PODEROSO CRIADOR DO UNIVERSO tenha falado algo a alguém que está do seu lado sobre você e se perguntar sobre o porque Dele nem ao menos se dar ao trabalho de comunica-lo pessoalmente. Tudo bem...Precisamos entender que se existe um DEUS, principalmente como o DEUS descrito na Bíblia, Ele é realmente esquisito para os padrões considerados comuns por todo ser humano “normal” e eu nunca vou compreender totalmente seu modo de agir. Não consigo compreender nem ao menos o por quê dEle ter criado todas as coisas, até mesmo a mosca da fruta, ou o por quê da Sua permissividade para com o mal desse mundo ou no fato D’Ele ter vindo ao mundo na forma de um galileu pobre que ensinou coisas como amar e orar pelos inimigos, dar a outra face, oferecer o perdão e ser desapegado das coisas materiais.Convenhamos que, se Ele é quem disse ser, achamos que Ele deveria agir logo como DEUS e fazer logo uma faxina nesse mundo tresloucado e varrer os Bushs, Osamas e Sarneys logo, não? Ou ainda sobre o por quê, a razão da minha própria existência, visto que ela não parece ter nenhum sentido notável.

Parar nessas questões, e a tentação disso é grande, é diminuir fatos inquestionáveis, embora insondáveis, ao nível somente daquilo que a minha mente limitada pode e deseja aceitar como real e digerível. Esse é um erro de redução e, apesar de primário, tende a travar todo o processo. Aprendi a não reduzir o Absoluto, e podemos faze-lo de várias formas.

Por exemplo, o indivíduo que tem dúvidas sobre DEUS, ao invés de procurar confirmar se não há pistas suficientes da Divindade ao redor de si, nas coisas criadas e na ordem do universo, apoia-se num argumento que parece ter alguma lógica, mas que é, na verdade, bem fraquinho, como: “Se me derem provas concretas, eu acreditarei”. Ora, não precisamos “crer” em algo que já foi cientificamente provado. Se DEUS pudesse ser autenticado cientificamente através de provas, o cético continuaria não “crendo”, no sentido de que foi eliminado o elemento subjetivo e fundamental de toda crença, ou seja, a Fé. Ele sairia convencido, mas isso não lhe traria o sentido de admiração, alegria e veneração ao DEUS que criou todas as coisas, um dos atributos exclusivos em todos os tempos daqueles que propagaram a revelação de DEUS através da Fé.

Também podemos percorrer o caminho inverso e atribuir tanta importância ao fato de que DEUS existe e espera que vivamos de um modo melhor tão somente por sabermos disso, que supradimensionamos as questões que envolvem Fé de modo que as pessoas passam a exibir um viver esquizofrênico, vivendo com os pés na terra mas pensando que tem penas espirituais que as farão voar para o alto bem acima de qualquer sinal de perigo, tribulação ou angústia. Vivemos no tempo dos super-heróis do espírito em que qualquer sinal de fraqueza ou fracasso é encarado como sintoma da pior doença que um “crente” pode ter: falta de fé. Está doente e não consegue ser curado? “Cadê sua fé, menino?” Está em pecado por fraqueza espiritual? “Você está cheio de capiroto!” Toda situação adversa, do chefe pagão à mulher rixosa se resolve com a infalível fórmula “Tá amarrado em nome de...” ou “O sangue de ....Tem poder”. Isso também é reducionismo e muitos não entendem que estão banalizando algo muito profundo bem aos olhos de todo populacho. Nessa curta jornada minha (cerca de seis anos e meio) pelo meio evangélico, vi o suficiente para atestar que existe um fundamentalismo tão grande, insuspeito e extenso nessa cultura, o qual é capaz de embotar os sentidos da maioria e empobrecer sua capacidade de lidar com as verdades mais cruas da vida.

A verdade é que DEUS nem sempre vai se manifestar em sua vida de um modo que muitos julgam claramente bíblico, ou seja, miraculoso ou espetaculoso. Talvez, eu não veja fogo cair do céu, nem morto se levantar, nem ouça uma voz de barítono me chamar três vezes, nem veja um único endemoniado autentico. Talvez DEUS queira me manter à parte disso tudo, na penumbra... talvez Ele esteja me poupando. Quem já sondou a vida de um “santo” ou mártir sabe do que estou falando. Precisamos assumir que DEUS não está preso a nada e não podemos usar Sua Palavra escrita para encapsulá-Lo em formas pré-programadas de ação. DEUS, apesar de toda tentativa humana, continua selvagem, indomável, incompreensível em seus desígnios para meu nível intelectual.


DEUS É QUÂNTICO - Seria válido prestarmos mais atenção à realidade natural. O DEUS que criou toda a ordem do Universo, também é responsável pelo comportamento caótico que a Física moderna tem descoberto no funcionamento das partículas mais básicas da construção dos elementos. A física quântica embaralhou todas as cartas novamente e o que parecia um mar calmo e monótono na superfície se revelou um oceano profundo, povoado por turbilhões, abismos e seres monstruosos como quarks, gluons, bóson de Higgis, neutrinos, etc. É possível afirmar que, se DEUS existe, Ele mesmo é quântico.

O fato é que o fervor fundamentalista pode se tornar uma armadilha, uma arapuca para o peregrino, e, invariavelmente, se torna isso mesmo, pois é perfeitamente moldado para isso. Ele está cheio de fórmulas mágicas e misticismo cristão (alguns chamam mesmo de paganismo), ritualísticas e linguajar estranho ao não-iniciado . Um gueto, quase como aderir às cores de uma gangue. Há pouco (ou nenhum ) espaço para dúvidas sadias frente a hierarquia eclesiástica, pouco entusiasmada com recalcitrantes (“Um perigo para o rebanho”) . O líder espiritual é virtualmente infalível em suas assertivas, pois é guiado, ungido. Só há espaço para responder em Fé.

“Está passando por lutas? Você precisa de mais consagração! Vai orar, jejuar e DEUS vai responder!” Depois do esforço descomunal, vem a fadiga, a angústia, a dúvida e, por fim , como golpe de misericórdia, a descrença. DEUS continua calado. Não há ninguém para se abrir verdadeiramente. Todos respondem com os clichês comuns no meio. Não há sinal de vida inteligente, de pensamento liberto de paradigmas. Você se torna um desgarrado quando menos se dá conta. Mesmo crendo, não crê o suficiente, pelo menos não em tudo aquilo que as pessoas ao redor dizem crer.

Um bom meio de não se frustrar é deixar de lado os pressupostos e não se apoiar tanto na experiência alheia. Estou aprendendo que sempre tenho um pressuposto sobre DEUS e o modo como Ele deveria agir ou se manifestar que não tinha percebido ainda. Geralmente, porém, acontece o contrário. Estamos sempre afoitos e ávidos por sucesso e buscamos nos realizar em todas as áreas. Pensamos que só seremos plenos se tudo, absolutamente tudo, sair como planejamos em nossas mentes. Transferimos essa responsabilidade pela gerência de nossos planos para DEUS quando nos voltamos a Ele. Nosso novo aliado vai garantir nossa vitória e nos coroar de êxito e glória. Essa é a retórica triunfalista do fundamentalismo, uma armadilha que parece óbvia demais, mas na qual a grande maioria acaba caindo.

Deixei o gueto fundamentalista quando olhei ao redor e me vi, de modo estranho, lutando sozinho com algumas questões que não pareciam perturbar mais ninguém. Todos pareciam tão cheios de certezas sobre a “vontade de DEUS”, sobre “o que DEUS está falando” enquanto eu ficava cada vez mais incerto se realmente tinha algum dia ouvido alguma coisa da parte Dele. Toda semana ouvíamos falar de uma revelação nova (“DEUS me falou ontem enquanto caminhava...DEUS me falou hoje no chuveiro...DEUS me falou à noite num sonho...”) e eu me sentia mal porque comecei a questionar se aquelas pessoas estavam sendo completamente honestas consigo mesmas. Achei que o problema estava em mim até que a dissociação cognitiva entre o que ouvia falar e o que vivíamos na prática se tornou evidente demais para rechaçar. Não importava mais a grandiloqüência e a eloqüência dos discursos, havia um fosso evidente entre a retórica e a prática que nem o culto mais bem elaborado com músicas, danças, luzes e todo o barulho pentecostal que se possa fazer poderiam esconder por muito tempo.

Se o “mover de DEUS” (para usar outra expressão muito usada no meio) estava realizando algo verdadeiro em nosso meio, porque eu não via crescer entre nós algumas daquelas qualidades que transbordam nos Evangelhos e nas cartas de Paulo e que nunca deixaram de ser o cartão de visita pelo qual se autentica uma verdadeira comunidade cristã, como humildade, unidade, amor fraterno, empatia, compaixão, amizade verdadeira? Falava-se tanto em PODER DIVINO de classe apostólica( a última e mais vibrante inovação do meio, pois os apóstolos em seus dias demonstravam ao mundo as mesmas virtudes de Cristo com grandes manifestações do Poder de DEUS e hoje evoca-se um ressurgimento dessa estirpe como prenúncio da Parousia, ou volta de Cristo) ) mas não se pode dizer que eu tenha visto uma única demonstração desse “poder” que não pudesse ser confundida com manifestação psicológica.

Lutei muito comigo mesmo e acabei decidindo parar e fazer as contas. Clamei mais de um ano por revelação, um sonhozinho, uma brisa do Espírito Santo para apontar a direção, mas nada, pelo menos aparentemente, veio em meu socorro. Somente uma convicção muito grande de que era hora de voltar a ser um peregrino simplesmente. A história de Abraão e sua chamada em Harã povoava minha mente.

Abraão, o chamado “pai da fé”, é reconhecido por judeus, muçulmanos e cristãos como patriarca e profeta. Descrito como um homem prudente, mas comum, que viveu uma vida comum, com as mazelas cotidianas comuns da vida, exceto por alguns poucos encontros e insights que teve a partir dos setenta e cinco anos, segundo a Bíblia, quando foi chamado para ser um peregrino numa terra estranha. O que quero dizer é que o relacionamento dele com seu DEUS não dava a ele garantia a cada passo do caminho. Os riscos do empreendimento e o nível de ansiedade na mente e no coração dele não foram removidos. Admiro Abraão por sua coragem e seu modo de vida. Ele adorava seu DEUS com seu estilo de vida simples e não usava de liturgia ou ritualística e a Bíblia registra as poucas vezes em que construiu altares e se sentiu inclinado a sacrificar em gratidão, não como parte de uma cerimônia, mas espontaneamente. Abraão não era religioso, somente um peregrino. Desejei isso para mim com todos os riscos envolvidos no projeto. Mais do que isso, parecia impelido nessa direção. Queria voltar a ser tão humano quanto Abraão, apesar da sua fé e seu DEUS.

Quantos estão hoje em situação semelhante? Quando as instituições gerenciadas pelo homem prendem ao invés de libertar e tomam do homem o sentido de que tudo que ele tem é sua fé e sua jornada e o tornam sedentário e arraigado a um solo infértil, esse lugar se torna Ur dos caldeus para ele. O único caminho, então, é ouvir o chamado para desertar e voltar para a única coisa real nessa vida: a imensidão selvagem da jornada tendo sua fé como bússola.

Tive que decidir por mim mesmo se valia a pena ou não continuar castrando minhas convicções e violentar minha consciência para continuar participando de algo que já não era nem o mínimo espontâneo para mim e, sob o olhar complacente do SENHOR, me retirei daquela congregação e me assentei nas sombras para me questionar e questionar DEUS sobre a validade dessa experiência. O que era válido e o que não era. O que foi real e durável e o que era madeira e palha que pra nada servem. Posso parecer rude e um herege, com certeza, para muita gente e um apóstata perdido para alguns, mas me arrisco a dizer que DEUS não está nem aí para 90% daquilo que é feito dentro das “igrejas” hoje em dia. DEUS não é um promotor de eventos e não está interessado em formas e fórmulas.

Fiquei grato ao sair do cristianismo institucional com a única convicção que eu poderia manter, isto é, eu estava vacinado contra as mazelas de me frustrar com homens, mas sem dúvida, senti o repuxo. Caminhar dessa forma é aprender a andar de novo. É mais fácil questionar os homens por suas atitudes, mas porque DEUS é assim, tão permissivo e tão pouco pro - ativo quando o assunto envolve a Fé em Seu Nome e o modo como os líderes agem a frente de algo tão importante (pelo menos assim ainda considero) como a IGREJA? “E agora? Pra que lado vou, SENHOR? De que valeram esses anos todos? Foi tudo ilusão? Nos abandonaste? Por que se cala nessa hora? Não prometeste teu Espírito para nos guiar? Me fizeste enxergar mais do que eu pretendia e agora não posso permanecer nem mesmo entre seu povo. Porque cada um faz o que quer como no tempo de Juízes? Como posso ser cobrado se não há um lugar sequer que esteja livre da manipulação do homem e da demoníaca hierarquia eclesiástica?”

Não pretendia que esse artigo fosse tão autobiográfico, mas ao sentar-me diante da tela e passar para o teclado tudo aquilo que minha memória poderia descrever sobre a passagem em questão e sua relação com o livro de Eugene Peterson, vi que não haveria como desvincula-la de minha jornada espiritual pessoal. Descrevi DEUS como sendo “quântico”, no sentido que O entendo como algo imprevisível, misterioso e insondável para minha mente limitada. Houveram alguns “momentos quânticos”, entre os quais incluo este episódio, durante os quais algumas “coincidencias” mostraram uma dose de “sincronicidade” algo além do grau casual e que vieram de encontro a questões muito profundas da minha alma naquele momento em específico, me dizendo a que altura eu estava no Caminho e trazendo foco, direção e, acima de tudo, VISÃO.

Manter a visão pode ser tudo que se tem e que se pode guardar quando DEUS te coloca em terra estranha como peregrino. Já ouvi várias canções sobre aquela famosa passagem de Habacuque 3,17. É algo que fica muito bonito de declamar, mas extremamente difícil de manter quando se vive tal situação. É preciso maturidade...eu diria mais: É preciso ter colhões e crer que os sinais deixados te levarão ao fim da jornada e não te deixarão em algum vale de ossos secos. É isso que a vida de gente como Jeremias ensina. É essa lição que O Espírito queria me ensinar. Não sei se a aprendi integralmente, ainda estou processando o ensinamento, ou treinamento, pois ele dura a vida toda. Toda visão traz um preço a pagar para que se concretize. Talvez eu não esteja pronto para assumi-la na íntegra, mas não sou eu quem avalio isso.

“O que você fará se tudo parecer dar errado? Vai se afogar em auto-indulgencia? Vai desistir de tudo e voltar para o Egito?”

NAS SELVAS DO COTIDIANO

JEREMIAS 12, 1 A 5:

1 Justo és, ó SENHOR, quando entro contigo num pleito; contudo, falarei contigo dos teus juízos. Por que prospera o caminho dos perversos, e vivem em paz todos os que procedem perfidamente?

2 Plantaste-os, e eles deitaram raízes; crescem, dão fruto; têm-te nos lábios, mas longe do coração.

3 Mas tu, ó SENHOR, me conheces, tu me vês e provas o que sente o meu coração para contigo. Arranca-os como as ovelhas para o matadouro e destina-os para o dia da matança.

4 Até quando estará de luto a terra, e se secará a erva de todo o campo? Por causa da maldade dos que habitam nela, perecem os animais e as aves; porquanto dizem: Ele não verá o nosso fim. A resposta de Deus

5 Se te fatigas correndo com homens que vão a pé, como poderás competir com os que vão a cavalo? Se em terra de paz não te sentes seguro, que farás na floresta do Jordão?

Após receber o “oráculo” do meu amigo, no outro dia, fui fazer algo no centro da cidade e adentrei uma livraria evangélica sem saber direito se iria ou não comprar algo. A princípio, estava apenas olhando as novidades. Uma solícita vendedora veio em meu encalço sedenta para engordar sua comissão. “Posso ajudar, irmão?” “Não, obrigado, irmã. Estou só dando uma olhada nas novidades.” “Ah, sim...Tem algumas novidades muito boas como por exemplo esse livro que fala da vida de Jeremias...Olha só...é do Eugene Peterson...”

“Hã....Nunca ouvi falar desse Eugene Peterson, mas deixa eu dar uma olhada...” “Corra com os cavalos era o nome do livro, calcado na passagem a qual meu amigo se referiu a mim um dia antes, Jeremias 12, 1 a 5. Coincidencia o um “momento quântico”? Decidi abraçar essa pista dada e comprei o livro na hora. Tornou-se meu livro de cabeceira, não porque seja mirabolante ou contenha uma nova revelação, algo que eu nunca tinha ouvido, mas justamente pelo contrário. Ele é para mim como um marco permanente na estrada, uma luz difusa a frente do caminho quase sempre turvo pelas brumas. Sempre volto a ele quando as trevas se adensam para relembrar o lembrete do SENHOR de que a vida pode ser mais dura para quem decide viver pela fé do que para outros e que não adianta se refugiar em desculpas esfarrapadas como a de Jeremias: “Mas eu sou só uma criança...” Não...C.S. Lewis disse certa vez que devemos ser constantemente lembrados daquilo que já sabemos e não sermos introduzidos constantemente a novidades. É uma verdade vergonhosa pois somos obtusos e obstinados em seguir nossos instintos.

Peterson, um teólogo de peso e pastor de ofício, um dos mais respeitados do meio, é prudente, conciso, instigante e avesso às fórmulas dos escribas contemporâneos, pois não apresenta a fé como ferramenta de sucesso pessoal, mas como guia para os caminhantes.

A partir do livro de Peterson, estudei mais detidamente o livro de Jeremias na Bíblia e pude adentrar ainda mais na mensagem dada. Pude constatar, logo no início sobre o que se tratava: Ao descrever sobre como uma virtude como a “bondade” tem tão pouco atrativo sobre nossa geração (inconscientemente, preferimos os vilões, eles dão melhores personagens), Peterson declara que “ser bonzinho” não é o caso aqui: a palavra mais adequada para Jeremias é BRAVURA.

É engraçado como sempre pensei em JESUS nesses termos. Podemos olha-lo por vários ângulos e creio que sua bondade e candura foram já devidamente exaltadas, mas poucos se referiram a Ele como O BRAVO que É, um guerreiro talhado com as qualidades excepcionais para enfrentar e vencer um inimigo virtualmente invencível. As qualidades de super-herói de JESUS, com toda a aura de bondade e justiça dos verdadeiros heróis permeou minha mente durante toda minha vida. Eu sonhava em ser um homem assim: Bom, mas Forte; Justo, mas Humilde, um campeão, pronto a lutar e dar a vida por uma causa justa. Não por acaso, um dos epítetos de JESUS no Antigo Testamento é Varão de Guerra. Há um contraste flagrante entre sua figura humilde e bondosa que aceita a vergonha e a humilhação do suplício sem murmurar com a imagem de terror que infunde em toda uma legião de demônios (ver a passagem do endemoniado gadareno ), os quais o questionam se teria vindo ante do tempo para atormenta-los (???!!). Uau!! Poder suficiente para atormentar uma legião de demonios? Nas páginas do Evangelho, porém é que ele travou a mãe de todas as Batalhas, dando a outra face e sendo surrado, quando poderia tornar em pó seus inimigos e mesmo na maior derrota, aparentemente, sair vitorioso.

Também esta é a lição de Jeremias: podemos nos sair vitoriosos quando todos só veem a derrota em nós.

Jeremias trouxe esse exemplo para mais perto de mim, num grau mais humano, pois podemos nos enganar ao achar que a tarefa de Jesus foi facilitada por seus poderes divinos. Isso é um erro. Ela se tornou mais difícil justamente por isso, pois sendo verdadeiramente homem, embora DEUS, seria tentado a agir como um homem. Satanás, muito perpicaz, percebeu isso e tentou-O justamente nisso. Mas em Jeremias vemos como alguém destituído de qualquer Poder para realizar um único sinal miraculoso sequer e portando somente o Poder da Visão pode se comportar diante da opressão de vinte e três anos combatendo a dureza de corações empedernidos pela religião, orgulho e hipocrisia. Como? Embora não pudesse ser visto pelos olhos humanos, O PODER DE DEUS operava poderosamente em Jeremias e só por isso ele pôde resistir à desolação que veio sobre Israel em sua época:

JEREMIAS 1,18

18 Eis que hoje te ponho por cidade fortificada, por coluna de ferro e por muros de bronze, contra todo o país, contra os reis de Judá, contra os seus príncipes, contra os seus sacerdotes e contra o seu povo.

19 Pelejarão contra ti, mas não prevalecerão; porque eu sou contigo, diz o SENHOR, para te livrar.

Como nos lembra o autor, “Não há como viver pela fé, seja um profeta ou uma pessoa comum, sem ser sustentado por uma visão desse tipo”.

“A vida é difícil, Jeremias. Irá desistir diante da primeira onda de oposição?...Procurará refugiar-se em casa no instante em que descobrir que multidões de pessoas estão mais interessadas em manter seus pés aquecidos do que viver sob risco para glória de DEUS?...É muito mais fácil, como bem sabe, ser um neurótico. É muito mais simples viver como um parasita. É menos complexo relaxar e deixar-se levar pelos braços da maioria. Mais fácil, porém, não melhor, não mais significante, não mais recompensador...Se você se sente fatigado por essa multidão comum de patéticas mediocridades, o que fará quando a verdadeira corrida começar contra os velozes e determinados cavalos da Excelencia?...é mais fácil definir-se no mínimo (“um bípede sem penas”) e viver com segurança dentro dessa definição do que ser definido no máximo (“pouco menor que DEUS”),vivendo aventuras nesta realidade.É improvável, creio eu, que Jeremias tenha sido rápido ou espontâneo à pergunta de DEUS...A vida de Jeremias foi sua resposta: Eu correrei com os cavalos!”

trilha sonora desta postagem



continua...


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TEMPESTADE DA ALMA (com a canção feita em homenagem ao escritor C.S.Lewis,, cantada por Brooke Fraser)

Meus dias se vão céleres...

Numa sucessão de eventos desconexos...

Como peças de um naufrágio ligadas pela agonia e enfado...

O sol voltará a brilhar em momentos fugazes...

Pérolas soltas em meio à vaidade e um único momento de sobriedade...

No qual vislumbrei a Eternidade...




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U2 E A LONGA CAMINHADA NOITE ADENTRO ATÉ QUE VENHA O DIA


Esta canção une tudo o que o U2 deseja representar para o mundo tanto em termos musicais quanto líricos. É uma canção com uma melodia forte como um hino ,
com refrão fácil e marcante e uma letra com mensagem de fundo socio-político mas também de profundo apelo
espiritual. Com efeito, poucos poderão negar que a longa jornada de um peregrino não necessita do ãnimo e encorajamento que essa letra traz.

Por vezes, parece que não podemos mais prosseguir, pela fraqueza e inutilidade dos nossos esforços, mas sempre, nessa hora, Alguém nos diz "Não Temas" e prosseguimos crendo num amanhecer.

Só lembrando que essa letra foi feita para homenagear e chamar a atenção da comunidade internacional para a prisão imposta a ativista dos direitos humanos Aung San Suu Kyi, presa há mais e dez há anos pelo governo militar tirano da Birmania. Quem se interessar por sua causa e sua vida, pode acompanhar seu drama através desse link:


 http://dassk.org/index.php?PHPSESSID=f75d0f7335ae745ea5f7e9e90a5dfeb7&News









Walk On ( tradução )


Siga Em Frente

E amor não é a coisa fácil
A única bagagem você pode trazer...
E amor não é a coisa fácil...
A única bagagem que você pode trazer
É tudo aquilo que você não pode deixar para trás

E se a escuridão nos manter separados
E se a luz do dia sentisse como se estivesse muito longe
E se seu coração de vidro deveria quebrar
E durante um segundo você se virar
Oh não, seja forte

Siga em frente, siga em frente
O que você conseguiu eles não podem roubar
Nenhum deles podem nem mesmo sentir
Siga em frente, siga em frente...
Fique seguro esta noite

Você está empacotando uma mala para um lugar que nenhum de nós esteve
Um lugar que tem que ser acreditado para ser visto
Você poderia ter voado
Um pássaro cantando em uma gaiola aberta
Que só voará, só voará para liberdade

Siga em frente, siga em frente
O que você conseguiu eles não pode negar
Não pode vender, não pode comprar
Siga em frente, siga em frente
Fique seguro esta noite

E eu sei que dói
E seu coração que parte
E você só pode levar até um ponto
Siga em frente, siga em frente

Casa... duro de saber o que é se você nunca teve uma
Casa... eu não posso dizer onde é mas eu sei que eu vou para casa
Isso é onde está a ferida

Deixe para trás
Você tem que deixar isso para trás
Tudo aquilo você veste
Tudo aquilo que você faz
Tudo aquilo que você constrói
Tudo aquilo você destrói
Tudo aquilo que você mede
Tudo aquilo que você rouba
Tudo isso que você pode deixar pra trás
Tudo aquilo que você resolve
Tudo aquilo você sente
Tudo aquilo que você fala
Tudo que você vestido
Tudo aquilo você esquematiza...




Então, onde estiver, não desista nunca, pois o Sol da Justiça ainda vai brihar e os que tem fome e sede de justiça serão finalmente saciados.



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NO PRAYER FOR THE DYNG - IRON MAIDEN

Sem Preces Para Os Mortos

Composição: Steve Harris


Existem vezes em que pensei

E tempos em que chorei

Quando minhas preces foram respondidas

Em épocas em que eu mentia

Mas se você me fizesse uma pergunta

Eu diria a verdade?

Isso é algo no qual se pode apostar

Você não tem nada a perder

Quando eu sentei na janela

E olhei para a chuva

Com peso no coração

Mas nunca sentindo a dor

Se você me dissesse

O que minha vida significa

Caminhar uma longa estrada

E nunca chegar ao fim

Deus me dê a resposta para minha vida

Deus me dê a resposta para meus sonhos

Deus me dê a resposta para minhas preces

Deus me dê a resposta para meu ser


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RANDY PAUSH E SUA LIÇÃO FINAL – OFERTANDO SABEDORIA NO CRESPÚSCULO










Como você se comportaria se soubesse que tem pela frente apenas de três a seis meses de vida? Com o que se importaria? Qual seria a ênfase que você daria a seus últimos dias? O que você faria se a você fosse oferecido um bilhete para uma viagem sem volta, uma viagem a qual você não planejou nem na qual deseja realmente embarcar, mas que não pode ser adiada nem ignorada. O bilhete é uma realidade, já foi pago, o dia da viagem se aproxima e você não pode fazer nada para escapar do embarque, não importa o que faça para escapar.

Penso que numa situação dessas, com o tempo correndo contra nós, só há tempo para que sejamos aquilo que sempre fomos, do modo mais transparente possível, sem máscaras ou conveniências. O rei está desnudo. Não há tempo para mudar nada do que somos ou realizamos no decurso de uma vida inteira. Mudança total só nos planos idealizados para o resto da sua vida, seja quais forem. O tempo final, recebido com aceitação ou revolta, revelará quem realmente somos, ou fomos, durante toda nossa vida, nossas realizações, frustrações, sucessos, fracassos, legado...

A história de Randy Paush, professor da prestigiada universidade Carnegie Mellon, ficou bastante conhecida a partir do vídeo colocado na Internet e intitulado “The Last Lecture”. Como no conhecido enredo do filme de Michael Keaton, Paush dedicava seus últimos dias a deixar um legado a seus filhos (três) a fim de que eles pudessem conhecer algo mais do homem e aquilo que o movia. Sucesso, reconhecimento, fama mundial no crepúsculo para coroar a vida do típico vencedor no “american way of life”. Em seguida ao vídeo e a comoção causada, veio o livro “A Lição Final”. Alguns questionaram o valor de tal obra, dizendo que não passava da velha mania americana de vender uma imagem de sucesso a todo custo e que Randy Paush era o exemplo mais acabado do americano que quer que todos o vejam sempre por cima e dominando todas as situações: “Olhem para mim e vejam como sou um vencedor e me saio bem mesmo morrendo de câncer”. Embora o americanismo tenha invadido nossa cultura com seus maneirismos e livros de auto-ajuda com suas leis sobre como atingir auto-afirmação e se dar bem em cada situação, resolvi dar uma boa olhada no livro de Paush quando o descobri num sebo da cidade. Confesso que foi uma grata surpresa, pois Paush não está interessado em ensinar técnicas para obter sucesso, mas, algo raro no mundo pós-moderno, PASSAR VALORES que muitos podem achar ultrapassados e que nem são tidos como essenciais nos meios acadêmicos de hoje. Mais do que comover com sua história, Paush procurou salientar que, mais do que as realizações de sua vida, OS RELACIONAMENTOS É QUE SÃO IMPORTANTES. O modo como você interage com o mundo, seus amigos e família é que dirão quem você é na verdade.

O desenho da capa do livro é o típico recado subliminar que norteia toda a mensagem contida ali, um desenho infantil de um foguetinho partindo rumo às estrelas. Na verdade, a idéia central do livro gira em torno dos sonhos que temos na infancia e que eles devem se a linha condutora que guiará nossas realizações.

“Percebi que o que me tornava único vinha dos sonhos que marcavam meus 46 anos de vida”

Isso é uma incrivel verdade que a maioria de nós não se dá conta. Nós crescemos e deixamos para trás quem fomos quando crianças. Gosto de pensar que nunca deixei de ser quem fui, em meu íntimo. Nunca me tornei algo muito diferente do filho que se sentia seguro nos braços do pai ou nos abraços da mãe. Todos nós sabemos quem realmente somos. Por mais que tentemos nos proteger criando personagens adultos e endurecidos pela vida, dentro de nós, sabemos que ainda somos aquela criança frágil e amedrontada diante de muitos desafios e que precisa se aconselhar com os pais ou alguém mais maduro para obter segurança. O mundo se esforça para nos levar para longe de quem realmente somos, das nossas origens. Nossas origens revelam mais sobre nós do que realmente pensamos acerca de nós mesmos. Certo dia, aconselhava uma pessoa que errou muito mais na vida do que eu e veio a ingressar no crime: “Esse não é o verdadeiro você. É um personagem que você criou, para se proteger ou para prevalecer em meio a certas situações, e que agora ocupa a cena toda vez. Lembre-se daquele que você era antes desse personagem e você vai descobrir quem você deveria realmente ser a essas alturas”.

Logicamente, só podemos dar aquilo que recebemos. Os pais tem um papel mais do que determinante no resultado disso tudo. É comovente como Paush reverencia o ensino e o exemplo recebido pelos pais: “EU GANHEI A LOTERIA DOS PAIS” – declara ele. Os pais de Paush incutiram nele belos ensinamentos e exemplos do que realmente importa na vida. Presbiterianos, mantinham com doações uma obra na Tailandia para abrigar meninas salvas da prostituição. Sabe como podemos saber se um filho tem os ensinamentos recebidos pelos pais em alta conta e procurou conduzir sua vida de acordo com aqueles princípios rudimentares? É só ver se ele diz algo parecido como aquilo que Randy Paush declarou: “Gostaria de saber se meu pai aprovaria a maneira como estou me comportando nestes últimos meses de vida”.

Mais do que religião, creio que o menino Randy aprendeu que seus pais se importavam em fazer a diferença na vida de pessoas que nem ao menos conheciam num país que o americano médio nem saberia localizar no mapa-mundi. Isso refletiu-se em outra lição dada: Possibilitar o sonho de outras pessoas. O ponto de Paush é que seu sonho nunca se realizará totalmente se for um sonho egoísta, é preciso INCLUIR OUTRAS PESSOAS.

A construção do caráter de uma criança hoje em dia passa pela lição da autoestima. Geralmente, os educadores atuais tendem a achar que o caráter de uma criança será bem formado se mantermos a sua autoimagem preservada de críticas e exigências em demasia. Infelizmente, geralmente, isso se traduz em elogiar a criança em todo tempo e não censura-la duramente. Para Paush, “autoestima não é algo que lhes possa ser incutido, é algo que elas precisam construir”. Sobre a dura lição que recebeu ao ser cobrado com severidade pelo treinador de futebol ao qual foi literalmente entregue pelo pai, ele diz: “Talvez voce não goste de ouvir, mas muitas vezes as pessoas que o criticam estão lhe dizendo que ainda o amam e se preocupam com voce e querem torna-lo ainda melhor”. Quando ouço as notícias que mostram o ponto em que chegamos com alunos agredindo professores que pegam nos seus pés nas salas de aula do país, fico pensando em como essa lição foi esquecida pelos pais, que não admitem que ninguém corrija seus filhos, que crescem sem poder ser contrariados em nada na vida. A vida tende a ser mais dura ainda com quem não é flexível às situações.

Gosto do livro de Provérbios na Bíblia. Quando todo o resto da teologia e doutrinas se tornarem inúteis e de pouco proveito prático, as lições deste livro poderão sempre estar ao meu lado, pois falam de uma Sabedoria que te capacita a viver com prudência e disciplina em meio às situações cotidianas. De fato, Sabedoria em hebraico é hmkx (Chokmah), entendido como um conjunto de habilidades que te capacitam a se sair bem nas mais diversas áreas do viver. De modo sucinto, Sabedoria é “Capacidade para viver”. Ali, podemos ler algo parecido com a frase de Paush acima, em Proverbios 28.23 onde se lê: “O que repreende ao homem achará, depois, mais favor do que aquele que lisonjeia com a língua”.

Logicamente, Randy Paush não foi um santo, não no sentido que a maioria das pessoas entende: inerrantes e absolutos em sua razão (creio mesmo que esse tipo de pessoa não existe). Ele diz que seus amigos mais chegados constantemente faziam piada da condição a que foi alçado depois que seu vídeo virou sucesso, chamando-o de “Santo Randy”, pois o conheciam desde que era um solteirão convicto. Ao conhecer a mulher que viria a fazê-lo prostra-se (creio que todos os homens passam por essa capitulação) Randy aprendeu que as “as muralhas existem somente para deter aqueles que não querem realmente transpô-las”. Se você quiser realmente, se fizer as contas do quão longe quer chegar, uma resistência inicial provará o quão impetuoso você é na verdade, ou se sua vontade não passa de capricho. Isso é válido para qualquer evento em nossas vidas.

À uma geração que vem sendo ensinada continuamente a ter um alto conceito sobre si mesma e não aceitar “humilhações” e nem a abaixar a cabeça, Randy apresenta suas preocupações quanto ao que tem percebido em seus alunos: os jovens estão se tornando cada vez mais presunçosos e pouco interessados na pessoa ao lado. Poucos querem começar modestamente e aceitar cargos aparentemente “menores” ou “pouco importantes”. Devemos agradecer novamente ao Sr. Paush pai pela lição dada no filho de que “ não se deve julgar inferior nenhum trabalho braçal” e que preferia ver o filho trabalhando pesado e se tornando o melhor lavrador do mundo do que ve-lo bem sucedido e sentado numa mesa, porém, presunçoso e elitista. Palmas para o Sr. Paush.

O Sr. Paush também é o protagonista de outra passagem na qual Randy descobre, após sua morte, ao examinar seus objetos, que o pai foi herói da Segunda Guerra e obteve uma medalha por bravura ao arriscar sua vida para salvar outros. Randy ressalta que seu pai escondeu o fato solenemente e que, por meio disso, seu pai continuava a lhe ensinar sobre o “significado do sacrifício e o poder da humildade.”

Num mundo onde cada vez mais desconfiamos uns dos outros é gratificante ouvir a lição ofertada por um amigo de Randy, o qual disse que, se as pessoas te frustram e aborrecem, muitas vezes é porque não lhe demos tempo suficiente para mostrarem seu lado bom. “Se voce esperar o suficiente, as pessoas o surpreenderão e impressionarão”. Vejo isso com bons olhos mesmo com todo o potencial de decepção que essa prerrogativa pode trazer. É preferível viver mantendo uma visão bem elevada das coisas e das pessoas do que segurando as rédeas da mediocridade. Isso é libertador. A verdadeira bondade mora o tempo todo com a confiança e o otimismo com relação à pessoas e somente passa rapidamente pela casa da cobrança lá pelo fim do dia. Como diz Provérbios 17:17 : Em todo tempo ama o amigo, e na angústia se faz o irmão”.

Entre outra lições podemos listar algumas como:

. Demonstre gratidão àqueles que estão ao redor, não um simples e lacônico obrigado mas um gesto completo em si mesmo, algo efetivo que demonstre consideração;

. Aprenda que um pedido ruim de desculpas é pior do que não pedir desculpas, o que significa “fazer tudo bem feito”, ou seja, EXCELÊNCIA, uma palavrinha meio fora de moda hoje em dia (“Desculpas adequadas possuem três partes: 1- O que fiz foi errado; 2- Sinto muito te-lo ofendido; 3- Como posso melhorar a situação?”)

. Diga a Verdade, sempre, seu nome vale pela sua palavra de modo que vale a pena investir em algo que voce vai carregar por toda sua vida.

. Não desista nunca, mesmo diante de flagrantes fracassos, pois, na pior das hipóteses, ganhamos pela experiencia; A lição deixada para Paush no filme Rocky, um de seus preferidos, não é a do cara que bate sempre, mas a do cara que sabe apanhar e continuar lutando.

Randy Paush nos ofertou em seu Eclesiastes, como ele mesmo disse, um momento de reflexão e beleza, algo para pensarmos em como vivemos nossas vidas, se as vivemos como o Tigrão ou como Bisonho, personagens da turma do ursinho Puff. Tigrão é otimista e leve, Bisonho, triste e pessimista. Cada um de nós tem suas próprias histórias e nem todos podem partir da mesma plataforma que Paush, nascido em um família estruturada em altos valores, mas todos podemos procurar fazer o melhor com o que temos. Acima de tudo podemos sempre escolher de que lado queremos estar, do lado luminoso ou do lado sombrio. Essa não é outra senão a velha luta do ser humano pelo verdadeiro sentido da vida. Como disse o famoso pensador inglês G.K. Chesterton: “É fácil ser pesado e difícil ser leve”.













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